Correio Braziliense
Cuba foi mencionada nominalmente, o que
sinaliza que o episódio venezuelano não deve ser visto como exceção, mas como
precedente
A entrevista concedida por membros do governo de Donald Trump, incluindo o próprio presidente, após a operação militar denominada Southern Spear, foi decisiva para compreender o que tende a vir pela frente no sistema internacional e, em especial, no hemisfério ocidental. Mais do que esclarecer detalhes operacionais, o discurso oficial funcionou como mensagem estratégica, dirigida tanto a aliados quanto a adversários.
Do ponto de vista estritamente militar, a
operação revelou de forma explícita a gigantesca superioridade dos Estados
Unidos diante das capacidades defensivas venezuelanas. Os sistemas de defesa
aérea de origem russa e os equipamentos chineses incorporados pelas forças
locais mostraram-se incapazes de oferecer qualquer grau relevante de dissuasão.
Segundo as informações divulgadas, mais de 150 aeronaves, envolvendo
plataformas de ataque, reconhecimento, guerra eletrônica e transporte
estratégico, garantiram a incursão e a extração do principal alvo. Trata-se de
um dado relevante: Nicolás Maduro sempre figurou entre os líderes que
mais investiram em mecanismos de proteção contra uma ação desse tipo, o que
amplia o caráter demonstrativo da operação.
O aspecto militar, no entanto, é apenas uma
camada do episódio. Politicamente, a entrevista deixa claro que a National
Security Strategy publicada recentemente deve ser levada a sério. O documento
não se limita a diretrizes abstratas, mas se traduz em ações concretas,
sobretudo no que diz respeito à presença e à influência de potências
extra-hemisféricas em setores considerados estratégicos. Ainda que
a China não seja mencionada diretamente nas declarações, sua presença
econômica, tecnológica e logística na Venezuela aparece como pano de fundo
implícito da decisão americana.
Há, contudo, zonas de ambiguidade que merecem
atenção. Em primeiro lugar, não ficou claro o que Trump quis dizer ao afirmar
que "eles", membros de seu governo, iriam administrar a Venezuela. A
declaração sugere algum tipo de tutela política ou administrativa transitória,
mas sem qualquer especificação institucional, jurídica ou temporal. Essa
indefinição não é casual. Ela reforça a ideia de que, nesta nova fase, a
clareza normativa cede espaço à imposição de fatos consumados.
Em segundo lugar, a entrevista introduz um
elemento de dissuasão ampliada ao indicar que outros governos poderiam ter
destino semelhante. Cuba foi mencionada nominalmente, o que sinaliza
que o episódio venezuelano não deve ser visto como exceção, mas como
precedente. A lógica é simples: a presença considerada hostil no hemisfério
ocidental passa a ser tratada como linha vermelha, independentemente do
discurso multilateral ou do direito internacional vigente.
Nesse sentido, a operação Southern Spear não
deve ser interpretada apenas como ação pontual, mas como marco simbólico de uma
nova era. Trata-se da consolidação de uma dinâmica que muitos já descrevem como
a Lei da Selva, na qual o direito internacional e o multilateralismo permanecem
disponíveis, mas apenas quando convergem com os interesses das grandes
potências. O episódio deixa claro que, para o bem ou para o mal, entramos em
uma fase em que poder, demonstração de força e hierarquização de espaços
estratégicos voltam a organizar o sistema internacional de forma explícita.

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