domingo, 4 de janeiro de 2026

O Tio Sam está de volta! Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Ação militar na Venezuela é prenúncio de ingerência política de Trump no Brasil em 2026

O ataque à Venezuela e a prisão de Nicolás Maduro soterram a era chavista no país e abrem uma nova fase de Donald Trump contra o multilateralismo e suas instituições mundo afora. Depois de detonar o sistema internacional de comércio com o tarifaço, ele agora quer impor suas vontades e interesses com armas reais, ou seja, letais, ignorando a ONU, as leis e as regras.

Hugo Chávez evoluiu do oficial golpista de 1992 para o líder populista que assumiu o poder na Venezuela em 1999, embolando nacionalismo, militarismo, antiamericanismo e pitadas de messianismo, numa síntese de Como as Democracias Morrem, na imprescindível obra de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt.

Em vez de balas e canhões, Chávez deu um golpe branco unindo a esquerda aos militares e manipulando a massa em torno de um nacionalismo histérico. Dominou o Congresso, o Judiciário, a mídia e queria se eternizar no poder, não fosse o câncer que o matou em 2013. Como todo autocrata populista, não preparou sucessor. Veio Maduro, um tosco que reúne todos os defeitos e nenhuma das qualidades de Chávez. A inteligência, por exemplo.

A Trump, porém, não interessam democracia e direitos humanos, nem mesmo narcotráfico. A invasão teve um único motivo: petróleo. A Venezuela tem quase 20% das reservas conhecidas no mundo, mais de 300 bilhões de barris, em meio a uma

Ação militar na Venezuela é prenúncio de ingerência política de Trump no Brasil em 2026

crise política, econômica e social sem fim. Foi fácil para Trump planejar, anunciar e executar o ataque.

Enquanto isso, se arvorava de mediador nas guerras da Ucrânia e Gaza. Aliás, Trump agiu na Venezuela como Putin na Ucrânia, fora da regra internacional que só permite invasões em duas circunstâncias: autodefesa ou autorização do Conselho de Segurança da ONU – já ignoradas pelos EUA no Iraque.

O presidente Lula classificou os ataques como “inaceitáveis”, mas são também preocupantes para toda a América Latina, particularmente a do Sul. Se Trump invadiu a Venezuela e depôs seu presidente, o que poderá fazer no resto do continente?

Trump já tem aliados, como Argentina e Paraguai, e a direita comanda seis dos 12 países neste ano. E qual é o maior, mais rico e... dono da segunda maior reserva de terras raras do mundo? O Brasil. Trump invadiu a Venezuela pelo petróleo e recuou no tarifaço do Brasil de olho nos minerais críticos, com Jair Bolsonaro virando passado. Mas em 2026 tem eleição, com Lula favorito.

Não se espere uma invasão, porque o Brasil não é uma Venezuela falida, mas quem faz intervenção militar num país não terá pruridos para fazer ingerência política nos demais, em especial nesses tempos de internet e deepfakes. Tio Sam está de volta!

 

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