O Estado de S. Paulo
Ação militar na Venezuela é prenúncio de ingerência política de Trump no Brasil em 2026
O ataque à Venezuela e a prisão de Nicolás Maduro soterram a era chavista no país e abrem uma nova fase de Donald Trump contra o multilateralismo e suas instituições mundo afora. Depois de detonar o sistema internacional de comércio com o tarifaço, ele agora quer impor suas vontades e interesses com armas reais, ou seja, letais, ignorando a ONU, as leis e as regras.
Hugo Chávez evoluiu do oficial golpista de
1992 para o líder populista que assumiu o poder na Venezuela em 1999, embolando
nacionalismo, militarismo, antiamericanismo e pitadas de messianismo, numa
síntese de Como as Democracias Morrem, na imprescindível obra de Steven
Levitsky e Daniel Ziblatt.
Em vez de balas e canhões, Chávez deu um
golpe branco unindo a esquerda aos militares e manipulando a massa em torno de
um nacionalismo histérico. Dominou o Congresso, o Judiciário, a mídia e queria
se eternizar no poder, não fosse o câncer que o matou em 2013. Como todo
autocrata populista, não preparou sucessor. Veio Maduro, um tosco que reúne
todos os defeitos e nenhuma das qualidades de Chávez. A inteligência, por
exemplo.
A Trump, porém, não interessam democracia e
direitos humanos, nem mesmo narcotráfico. A invasão teve um único motivo:
petróleo. A Venezuela tem quase 20% das reservas conhecidas no mundo, mais de
300 bilhões de barris, em meio a uma
Ação militar na Venezuela é prenúncio de
ingerência política de Trump no Brasil em 2026
crise política, econômica e social sem fim.
Foi fácil para Trump planejar, anunciar e executar o ataque.
Enquanto isso, se arvorava de mediador nas
guerras da Ucrânia e Gaza. Aliás, Trump agiu na Venezuela como Putin na
Ucrânia, fora da regra internacional que só permite invasões em duas
circunstâncias: autodefesa ou autorização do Conselho de Segurança da ONU – já
ignoradas pelos EUA no Iraque.
O presidente Lula classificou os ataques como
“inaceitáveis”, mas são também preocupantes para toda a América Latina,
particularmente a do Sul. Se Trump invadiu a Venezuela e depôs seu presidente,
o que poderá fazer no resto do continente?
Trump já tem aliados, como Argentina e
Paraguai, e a direita comanda seis dos 12 países neste ano. E qual é o maior,
mais rico e... dono da segunda maior reserva de terras raras do mundo? O
Brasil. Trump invadiu a Venezuela pelo petróleo e recuou no tarifaço do Brasil
de olho nos minerais críticos, com Jair Bolsonaro virando passado. Mas em 2026
tem eleição, com Lula favorito.
Não se espere uma invasão, porque o Brasil
não é uma Venezuela falida, mas quem faz intervenção militar num país não terá
pruridos para fazer ingerência política nos demais, em especial nesses tempos
de internet e deepfakes. Tio Sam está de volta!

Nenhum comentário:
Postar um comentário