domingo, 4 de janeiro de 2026

O risco do ataque vai além de Caracas. Por Míriam Leitão

O Globo

Mantido por fraude e força militar, Maduro era indefensável, mas a arrogância imperialista de Trump é uma ameaça a qualquer país

Quando alguém se coloca como um poder incontrastável, como fez o presidente Donald Trump, todos estão em perigo. Ele ampliou suas ameaças para além de Nicolás Maduro, capturado. Falou de outros governos, inclusive democráticos. Não por acaso Trump, na entrevista que concedeu para falar do ataque militar à Venezuela, fez referências às cidades e aos estados americanos aos quais impôs o envio de forças federais. Ao falar do Congresso , ele disse não ter comunicado antecipadamente, porque eles “vazariam” a informação. A operação foi contra Maduro, mas a ameaça foi bem mais ampla.

No governo brasileiro, a decisão é defender sempre o direito internacional, que foi atacado. Não fazer a defesa de Maduro em si, mas condenar o que houve na Venezuela por ferir as leis internacionais. Na primeira reunião em Brasília, antes da entrevista de Trump, houve, segundo um participante, “um desfile de dúvidas”. Outra autoridade me contou que na reunião ficou clara a posição brasileira de que “tudo isso é ilegal”. Essa será a posição do Brasil na reunião da ONU, amanhã, a defesa do Direito Internacional. Foram desrespeitadas até leis nacionais americanas. “Para invadir outro país é preciso autorização do Congresso americano”, afirmou uma fonte do governo brasileiro. O pedido da Venezuela era de que a reunião na ONU acontecesse imediatamente. Mas a Rússia pediu que fosse feita apenas na segunda. A Rússia era a maior aliada do regime chavista.

O que Trump fez e disse é um retrocesso de mais de dois séculos. A Venezuela, que ficou independente em 1811, passará a ser administrada pelos Estados Unidos, segundo informou Trump. Ele disse que teria a colaboração da vice-presidente Delcy Rodriguez, mas ela rechaçou completamente. O objetivo de Trump foi apresentado sem pudor: explorar o petróleo. Quando um jornalista perguntou sobre China e Rússia, que já haviam se manifestado contra as prévias ações intimidatórias americanas, Trump deu uma declaração que lembra cenas de potências distribuindo entre si os despojos de um país dominado, após uma ocupação territorial. “Em termos de outros países que querem petróleo, podemos vender em quantidade muito maiores.”

O governo chavista era uma ditadura que se estabeleceu após um projeto de demolição interna das instituições democráticas, perseguição implacável à imprensa, cooptação dos militares inclusive com corrupção, e fraudes eleitorais. Era um governo indefensável. O chavismo realizou o que o bolsonarismo gostaria de ter feito, mesmo que eles se coloquem como opostos no campo ideológico. Os eventos aqui foram um ensaio da obra plenamente executada nos 25 anos de chavismo na Venezuela.

É igualmente condenável o espetáculo de arrogância imperialista com o despudor de justificar a ação por tráfico de drogas e por interesses econômicos. Trump falou no “petróleo roubado”. Na administração de Hugo Chávez, em 2007, o então presidente determinou que qualquer empresa que estivesse operando no país, inclusive as petrolíferas americanas, teriam que se associar à PDVSA. A Petrobras tinha negócios no país e participado inclusive da descoberta de poços, mas reduziu investimentos e saiu em 2012. A Exxon Mobil foi a grande prejudicada, mas houve na época o pagamento de indenização. Seja como for, não existe o “petróleo roubado” dos Estados Unidos.

Já houve antecedentes. A invasão do Iraque para tirar e matar Saddam Hussein, alegando que havia lá “armas de destruição em massa”, o que não se confirmou. Em 1989 houve o ataque ao Panamá para depor e levar preso o presidente Manuel Noriega, julgado e condenado nos Estados Unidos a 40 anos de prisão.

O embaixador Rubens Ricupero me disse que o ataque não foi propriamente uma surpresa, porque seria impossível mobilizar tanta força militar, com um custo tão alto, inclusive o porta-aviões Gerald Ford, para nada fazer. A única dúvida era como seria. O embaixador Roberto Abdenur já tinha me dito, em entrevista dias atrás, que a hipótese mais provável era a de um ataque pontual para capturar Maduro.

O espanto vem da afirmação de Trump de que o governo americano passará a administrar a Venezuela, e vai assumir a produção de petróleo. O ato de Trump é ilegal e foi executado contra um governo ilegítimo. Mas a violação da ordem internacional afeta e ameaça todos os outros países. A entrevista de Trump deixou muito claro que ninguém está seguro.

 

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