Folha de S. Paulo
Fundos e empresas donos de outros fundos e
empresas estão na base do caso Master
País precisa discutir se vai tornar mais
público o nome de beneficiário final de negócios
De 2021 a 2025, Dias Toffoli foi
sócio secreto de empresa que era sócia de um fundo de propriedade de outro
fundo, Arleen, que seria de propriedade de Fabiano Zettel, cunhado de Daniel
Vorcaro, ex-dono do Banco Master.
Que se confirme agora que Dias Toffoli era de
fato sócio da turma do Master apenas acrescenta uma camada de vexame a um
escândalo que já era grotesco, um ministro do STF que
relatava investigação sobre ex-sócios de sua família.
Esqueça-se por um momento que "camada" seja um clichê da moda. "Camadas" de empresas ou fundos que escondem propriedades ou beneficiários finais de negócios são um dos assuntos centrais desse rolo que começa no Master, mas vai longe. Mais sobre isso mais adiante.
A operação "abafa o caso" Master
ficou mais frenética. Há tentativas desesperadas de controlar ou ao menos
conhecer informações das relações entre Toffoli e a turma do Master ou
sobre outras
figuraças que apareceriam no tapete vermelho de telefones e computadores de
Vorcaro. Por falar nisso, Toffoli mandou a PF entregar o que já sabe da
quebra do sigilo de Vorcaro. Pode ser que assim tenha na mão informações para
deixar o mundo do poder com medo.
Na noite de quinta, o STF e demais
interessados tentavam conter danos: 1) Tirar Toffoli, que
não
queria sair, mas foi saído, e evitar que ele reaja; 2) Evitar
convocações para CPIs —não há CPI do Master, mas se pode levar um envolvido ou
uma testemunha para a CPI do Crime Organizado, por exemplo; 3) Uma repactuação
com a cúpula do Congresso, ao menos de um terço do STF, a fim de evitar
medidas de destruição mútua garantida (um impeachment ou uma CPI, ainda muito
improváveis).
Em tópicos, a coisa parece organizada em
excesso. Há medo e confusão em Brasília, medo de "lavajatização",
pois "começou a voar papel", diz um parlamentar das antigas, se
referindo a vazamentos de investigações. Se alguém poderoso for enlameado, o
acordão corre risco. Quanto mais gente abatida, maior o risco de delação ou
revanche.
O sigilo de investigações e intimidação de
investigadores contribuem para o acordão, óbvio. Mas o sigilo de negócios
contribui para a mutreta inicial.
Ficou evidente outra vez, na
operação Carbono Oculto (crime com combustíveis, talvez PCC etc.), como
"camadas" de fundos, uns donos de outros, serviam para rolo e crime.
No caso Master, o banco emprestaria a
empresas, que investiam em fundos, donos de outros fundos, que punham dinheiro
em negócios de fachada ou de laranjas da turma do Master, quando não inflavam o
valor de ativos do banco, que assim poderia parecer bem das contas. Além disso,
fundos de propriedade incógnita, de vários empresários, inflavam o valor de
empresas, que serviam de garantia ou instrumento para outros negócios.
Primeiro resumo dessa ópera, que precisa de
outra coluna: é preciso discutir a identificação dos beneficiários finais
dessas "camadas" de fundos e empresas. É discussão difícil na União
Europeia e nos EUA. Trata-se de definir até que ponto é razoável (se é) o
anonimato do proprietário (para o público em geral, não para autoridades) e
como evitar a criação de estruturas, "camadas" para ocultar
patrimônio e renda (a fim de se safar de impostos ou cometer outros crimes).
Vamos lembrar: Toffoli
era sócio secreto; fundos da Reag, de Vorcaro, da Carbono Oculto eram de
propriedade secreta.
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