Correio Braziliense
Quando ouço reclamarem que estão gastando
dinheiro com festas, sempre contesto: o povo, que sofre tanto, tem que ter
direito de curtir dias de alegria
Passou 2025 e o carnaval veio chegando. Já
começou a folia, quando as coisas vão esquentar e as águas, rolar: as águas de
inverno e aquelas que passarinho não bebe — só peru na véspera de Natal.
O carnaval nos foi trazido pelos portugueses, e suas origens, segundo dizem, remontam às festas pagãs da Grécia muito tempo antes de Cristo. Falam que era uma festa que louvava as colheitas e celebrava a fertilidade da terra. E — claro — caíam na gandaia.
Mas o que se sabe mesmo é que chegou ao
Brasil no bojo das caravelas portuguesas que traziam as festas populares da
Europa, a maior de todas em Veneza, com direito a máscaras, fantasias e outras
roupas mais.
No Brasil, como o futebol, tornou-se um
folguedo do povo que hoje tem a marca da cultura popular brasileira. Aqui as
nossas estações não são reguladas pela rotação da Terra em torno do Sol, mas
pelas festas: carnaval, são-joão, tempos sem festa e Natal. Diz-se que o nome
carnaval vem do latim "carne vale", que significa adeus à carne, com
o controle dos prazeres mundanos.
A festa foi associada à religião lá pelos
anos 500, depois de Cristo, e era o tempo da preparação para os 40 dias
quaresmais, em que todos teriam que fazer jejum e rezar, preparando o espírito
para lembrar o martírio de Jesus. Então, o homem, que dá um jeitinho para tudo,
achou que deviam se preparar para os dias sem pecados pecando! E haja festa,
vinhos e mulheres.
Aliás, por falar em mulheres, lembro do nosso
grande poeta Manuel Bandeira — de quem fui amigo —, nos seus versos: "Que
mais queres, / Além de versos e mulheres?... / — Vinhos... o vinho que é o meu
fraco!... / Evoé Baco!"
Cabral, quando saltou nas praias de Porto
Seguro, descobrindo o Brasil, encontrou as índias "descobertas" e
logo armou o nosso primeiro carnaval. Saltaram alguns marinheiros na praia e,
com o maracá dos índios e uns tambores, para confraternizar, fizeram uma
batucada. E foi uma algazarra geral.
O carnaval é uma festa da imaginação vivida
de um jeito em cada lugar e em cada um de nós. O do Rio sempre foi um teatro a
céu aberto, com os enredos das escolas na Marquês de Sapucaí. São Paulo já
apresenta um espetáculo de altíssima qualidade. Tanto lá como em diversas
capitais imperam os megablocos, juntando na dança centenas de milhares de
pessoas — mais de 300 mil foliões brincando juntos, alguns passando de um
milhão! Nas cidades Brasil afora, também se brinca na rua com toda a força e
alegria como no fim do século passado.
No Maranhão, o carnaval sempre foi marcante.
Com sua forte identidade cultural, misturou ritmos que não se encontram em
outros lugares: matracas e pandeiros se juntam ao reggae e às marchinhas,
arrastando os foliões num espetáculo à parte. Quem ainda não foi, precisa ir ao
Maranhão conhecer a mágica do bumba meu boi convivendo com o reggae.
Roseana, que gosta de alegria, renovou o
nosso carnaval e outras festas do nosso folclore — uma maneira de salvar a
cultura popular, a grande força de identidade do brasileiro. Hoje, o Maranhão
tem um dos grandes carnavais do Brasil. E está de arromba. Haja perna para
pular e força para bebericar.
É tempo de alegria, a marca do povo
brasileiro.
Afinal, dizia-me um caboclo do Maranhão em
relação à vaquejada (outra festa que marca a força cultural do sertanejo):
"Nada mais triste do que o fim de uma
vaquejada, a saudade da dança de roda."
Perguntei: E qual o consolo?
"A certeza de que, na outra semana, vai
ter outra vaquejada."
Um irmão de minha avó faleceu num sábado de
carnaval. Mas um tio meu, farrista e carnavalesco, já tinha mandado fazer a
fantasia. Então, pediu à família: "Só me comuniquem o falecimento na
quarta-feira, para eu começar meu luto".
Agora, o governador Brandão está fazendo no
Maranhão um dos maiores carnavais, na Litorânea e em outros circuitos. Nomes
consagrados, como Ivete Sangalo, Léo Santana, Alok e o Bloco da Anitta etc.,
estão arrastando mais de meio milhão de pessoas!
Quando ouço reclamarem que estão gastando
dinheiro com festas, sempre contesto: o povo, que sofre tanto, tem que ter
direito de curtir dias de alegria.
E haja samba, pagode, forró, piseiro, pop,
axé, funk, reggae, coco de roda, tambor de crioula…

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