sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Lula põe Trump no palanque, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Presidente leva à Casa Branca comitiva de peso para reforçar agenda de campanha na segurança pública

Com o norte-americano como parceiro no combate ao crime, petista desestimula interferência nas eleições

Passou abaixo do radar do noticiário o anúncio que o presidente Luiz Inácio da Silva (PT) fez, na recente entrevista ao UOL, de que pretende levar consigo o ministro da Justiça, o secretário da Receita Federal e o diretor da Polícia Federal na visita a Donald Trump, prevista para o início de março, em Washington.

Comitiva de peso para tratar do combate ao crime organizado. Talvez não por coincidência, Fernando Haddad (PT) tenha dito nesta semana que sua data de saída da Fazenda pode ser retardada em função de pedido do presidente para que dê conta de "algumas entregas importantes" relacionadas à segurança pública.

É possível que Lula pense em levar Haddad aos EUA ainda na condição de ministro e, com isso, integrá-lo como ator eleitoral às tratativas internacionais sobre o tema que ocupa o topo das preocupações dos (sobre)viventes nacionais. A gente sabe como o presidente é bom de cenografia. Sabemos também das dificuldades que o governo tem para emplacar suas iniciativas sobre o assunto. As duas propostas em curso no Congresso —a PEC da Segurança e o projeto antifacção— estão no controle da oposição, boa de papo no quesito.

Para contornar o obstáculo, o presidente recorre ao discurso do combate ao crime do "andar de cima". Providência necessária, mas tampouco deixa de ser urgente cuidar do andar de baixo, sob o domínio da criminalidade nos morros e dos assaltos no asfalto.

Levar o assunto à Casa Branca, e ainda nas companhias dos chefes da economia, da pasta da Justiça, da polícia e da instância capaz de identificar trajetos financeiros suspeitos, carrega o tema da segurança a um patamar inalcançável pelos oponentes.

Com a vantagem de estabelecer mais uma linha de contato com Donald Trump. Também um gesto de desestímulo a qualquer ideia do presidente norte-americano de interferir nas eleições, uma hipótese que, embora seja remota, faz parte das preocupações do governo brasileiro.

Um parceiro neutralizado é sempre um adversário a menos a ser enfrentado.

 

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