quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Nixon, és tu? Por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

O receio dos investidores é de que o Fed se dobre diante da pressão de Trump para cortar os juros

O presidente Donald Trump está prestes a anunciar o nome de quem vai, a partir de maio, substituir Jerome Powell no comando do Federal Reserve (Fed), o banco central considerado o bastião da estabilidade de preços nos Estados Unidos, e, por tabela, da liquidez mundial, além de ser o paradigma de independência da política monetária.

Mas será 2026 o ano em que o Fed se curvará à pressão política, assim como aconteceu no governo de Richard Nixon na década de 1970? Mirando a reeleição em 1972, Nixon pressionou o então presidente do Fed, Arthur Burns, alçado ao cargo em 1970, para cortar os juros americanos, em vez de elevá-los, como exigia uma atividade econômica superaquecida. A consequência foi nefasta. A inflação americana pulou de 5,3%, em 1970, para 11,8% em 1974. Nesse ínterim, Nixon até adotou – em vão – um congelamento de preços e de salários de 1971 a 1973. O dólar e as Bolsas dos EUA tombaram na esteira da ingerência política sobre os juros e os preços.

Entre os nomes mais cotados nas bolsas de apostas para ser o escolhido por Trump para presidir o Fed, está o do diretor do Conselho Econômico Nacional da Casa Branca, Kevin Hassett. Ele vem endossando o coro do seu chefe a favor de um corte agressivo dos juros americanos. “Se você olhar outros bancos centrais ao redor do mundo, os EUA estão bem atrás da curva em termos de corte de juros”, disse Hassett, em entrevista recente.

O temor dos investidores, caso confirmada a nomeação de Hassett, é de o Fed embarcar numa campanha agressiva de redução da sua taxa básica para estimular a economia, tendo em vista a eleição de meio de mandato, em novembro, para renovar o Congresso. As pesquisas de intenção de voto mostram os republicanos em apuros, em razão do baixo índice de aprovação de Trump. O aumento do custo de vida é a maior reclamação de eleitores. Cortar os juros em excesso poderá ser contraproducente no combate à inflação.

Seja quem assumir o Fed, vai encontrar uma instituição rachada. Na última decisão, dois diretores votaram contra o corte de juros de 0,25 ponto porcentual. Nessa reunião, a mediana das projeções para a trajetória dos juros apontava para uma única redução em 2026. Porém, do total de 19 dirigentes, sete não preveem redução da taxa neste ano. Mesmo um único corte é bem menos do que quer Trump. Aliás, para nomear aliados, ele demitiu a diretora Lisa Cook, que está apelando contra a decisão na Suprema Corte. E, agora, o Departamento de Justiça dos EUA abriu uma investigação criminal contra Powell. Irá o Fed dobrar-se? 

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