Lula tenta se eximir de responsabilidade na segurança
Por O Globo
Por conveniência, Planalto resiste a criar
ministério e ameaça abandonar PEC que amplia o papel federal
São frustrantes os sinais de que o Palácio do Planalto pretende desistir da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, um dos dois principais projetos do governo federal na área (o outro é a legislação antifacção). A ideia de engavetar a PEC passou a ser cogitada devido a dificuldades para aprová-la no Congresso, diante de divergências com parlamentares e governadores, especialmente do Sul, Sudeste e Centro-Oeste. O governo considera que o texto em tramitação, relatado pelo deputado Mendonça Filho (União-PE), foi desfigurado e se afastou do propósito original.
A ideia de não levá-lo adiante já é admitida
abertamente por lideranças petistas. “Se for para aprovar o relatório do
Mendonça [Filho], melhor nem votar”, afirma o líder do governo na Câmara, José
Guimarães (PT-CE). Embora essa visão não seja unânime no governo, a desistência
é cogitada. Não deveria. Elaborada pelo então ministro da Justiça e Segurança
Pública, Ricardo Lewandowski, que entregou o cargo na semana passada e será
substituído pelo advogado-geral da Petrobras Wellington César Lima e Silva, a
PEC tem muitos méritos. O principal é aumentar o protagonismo do governo
federal na segurança, setor historicamente negligenciado pelos petistas. A
proposta amplia as atribuições da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária
Federal, fortalece o Sistema Único de Segurança Pública (Susp), estabelece o
compartilhamento de bancos de dados e incentiva a integração entre as diversas
forças da lei.
Um dos pontos de impasse é o desenho do Fundo
Nacional de Segurança Pública. No relatório apresentado, os recursos seriam
divididos apenas entre estados e Distrito Federal, não havendo previsão para
bancar ações nacionais conduzidas pelo governo federal. Outras divergências
dizem respeito ao papel da Polícia Federal na investigação de organizações
criminosas e às regras para as guardas municipais.
Há sinais também de que o governo não
pretende criar o Ministério da Segurança Pública, como prometera o presidente
Luiz Inácio Lula da
Silva na campanha eleitoral. A avaliação do comando petista é que o novo
ministério poderia se transformar em armadilha no ano eleitoral. Pode haver
bons motivos para não criar mais um ministério, de todo modo essa questão não
deveria ser definida segundo a conveniência política.
Enfrentar a grave crise na segurança pública
precisa ser política de Estado. Por isso o governo deveria insistir na
aprovação da PEC da Segurança. É natural que projetos do Executivo sejam
modificados no Legislativo. É preciso buscar consenso em torno dos pontos
principais. Está demonstrado que os estados sozinhos não têm condições de
combater organizações criminosas que atuam até no exterior. É imprescindível
maior participação federal para enfrentá-las. Somente ações integradas de todas
as forças de segurança serão capazes de derrotá-las. E é evidente que o modelo
atual não funciona.
Maior preocupação dos brasileiros, a
segurança é o ponto fraco do atual governo. Em três anos de mandato, Lula se
revelou incapaz de conter o alarmante avanço do crime organizado, refletido não
só nas guerras diárias entre facções, mas também na contaminação de setores da
economia formal e até de instituições da República. Ele não pode continuar a se
eximir de fazer o que precisa ser feito.
Tentativa de intimidar presidente do Fed traz
risco à economia global
Por O Globo
Instinto intervencionista de Trump não se
satisfaz com a prerrogativa de indicar substituto em maio
A tentativa de intimidar Jerome Powell,
presidente do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados
Unidos, comprova os riscos que Donald Trump traz
à economia global. Powell é alvo de uma investigação descabida do Departamento
de Justiça, sob a alegação de ter mentido em depoimento no Congresso sobre a
reforma na sede do Fed em Washington. “Esta nova ameaça não diz respeito a meu
testemunho ou à reforma nos prédios do Fed”, afirmou em vídeo inesperado.
“Trata-se de saber se o Fed poderá continuar a determinar os juros com base em
evidências e nas condições econômicas — ou se a política monetária será
dirigida por pressão política e intimidação.”
No início do governo, Trump não escondia seu
desejo de demitir Powell para acelerar a queda dos juros. Mas tal medida seria
decerto contestada na Justiça e enfrentaria resistência mesmo na Suprema Corte
conservadora. Diante da dificuldade, recuou, preferindo esperar o fim do
mandato de Powell na presidência do Fed, que acaba em maio. Mas a prerrogativa
de indicar um novo presidente não parece satisfazer ao instinto
intervencionista de Trump. Ele aparentemente quer que Powell renuncie ao
assento na diretoria a que tem direito até 2028 (a pressão poderá ter o efeito
oposto).
Trump não é o primeiro chefe de Executivo a
querer cortes velozes nos juros para estimular artificialmente a economia.
Basta lembrar a campanha promovida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e
próceres do PT contra o então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto,
no início do atual governo. No caso dos Estados Unidos, porém, os riscos são
maiores e não se restringem ao descontrole da inflação. O Fed responde pela
emissão de títulos do Tesouro americano, reserva de poupança global e garantia da
estabilidade do dólar. Ao querer submeter esse mercado a seus desígnios, Trump
ameaça o sistema financeiro mundial.
O temor é tal que, em atitude inédita,
presidentes de bancos centrais do mundo todo — incluindo o europeu, o
britânico, o sueco, o dinamarquês, o suíço, o australiano, o canadense, o
sul-coreano e também o brasileiro — assinaram uma carta de solidariedade a
Powell e em defesa da independência das autoridades monetárias, descrita como
“pedra angular da estabilidade de preços, financeira e econômica no interesse
dos cidadãos a que servimos”.
O vezo intervencionista de Trump não se limita à tentativa de controlar o Fed. Em seus rompantes populistas, já falou em tabelar os juros do cartão de crédito em 10%, anunciou planos para proibir fundos de investir na construção de moradias, emitiu uma diretriz para o governo comprar US$ 200 bilhões em títulos imobiliários de modo a baixar os juros, proclama que tomará medidas para baixar o preço da gasolina e prometeu até usar o dinheiro arrecadado com tarifas para enviar cheques de US$ 2 mil às famílias americanas. Nada disso faz o menor sentido econômico. De todas essas medidas, sem dúvida a pior é a tentativa de controlar o Fed, por ameaçar a estabilidade da economia global.
Mais que de ministério, segurança precisa de
plano
Por Folha de S. Paulo
Proposta de criação de uma pasta para o setor
voltou à tona com a troca de comando na Justiça
Obstáculos à união de esforços federais e
estaduais são políticos e programáticos; tema nunca figurou entre principais
pautas da esquerda
A criação do Ministério da Segurança Pública
é dessas ideias recorrentes na política brasileira como solução mágica para
problemas complexos, mas ao menos não é tão radical e temerária quanto a
convocação de uma nova Assembleia Constituinte ou a mudança do sistema de
governo.
O maior risco da proposta, que voltou à tona
com a saída de Ricardo
Lewandowski da Justiça, seria ela se mostrar inócua.
Não seria a primeira vez. O tal ministério
chegou a ser instituído em 2018, sob Michel Temer (MDB), mas não
sobreviveu à troca de presidente no ano seguinte. Poucos parecem se lembrar
disso —e por boas razões.
A tradicional pasta ora em troca de comando
já se chama, não por acaso, da Justiça e Segurança Pública. A segunda parte do
nome respondeu por mais de 90% de seus gastos de R$ 22,3 bilhões no ano
passado.
Sua estrutura abriga a Polícia
Federal (R$ 10,2 bilhões em 2025), a Polícia Rodoviária
Federal (R$ 6,8 bilhões), o Fundo Nacional de Segurança Pública (R$ 3,4
bilhões), o Fundo Penitenciário Nacional (R$ 0,9 bilhão) e o Fundo Nacional
Antidrogas (R$ 0,2 bilhão).
Os defensores do desmembramento do ministério
argumentam que hoje seu titular precisa dividir a atenção com outros temas,
como direitos do consumidor, defesa da concorrência, proteção de dados e acesso
à Justiça, entre outros. Aponta-se ainda o aspecto simbólico de demonstrar
prioridade à segurança pública, setor que cresce entre as maiores preocupações
da sociedade.
São argumentos questionáveis, dado que todas
essas áreas já contam com secretarias e repartições especializadas. Nada
impede, formalmente, que se nomeie um ministro mais dedicado à segurança e que
ele delegue outras responsabilidades a um segundo escalão qualificado.
Os reais obstáculos são políticos e
programáticos. Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
elevou de 23 para 38 o número de pastas na Esplanada brasiliense, mas ainda não
se animou a criar a da Segurança, prometida na campanha eleitoral —opção
mantida nesta terça-feira (13) com a escolha de
Welington Lima e Silva para o lugar de Lewandowski.
O assunto nunca figurou entre as principais pautas
da esquerda, que ademais evita correr o risco eleitoral de defender teses
meritórias como a descriminalização de drogas leves. Teme-se ainda, com razão,
que propostas do Planalto sejam desvirtuadas pelo populismo de direita
influente no Congresso, cujo ideário não vai muito além de elevar penas e
favorecer a brutalidade policial.
Será desafio para qualquer governo, qualquer
que seja o nome do ministério encarregado, livrar o debate de disputas
ideológicas e buscar um consenso mínimo em torno de um programa crível que una
esforços federais e estaduais. O avanço
alarmante do crime organizado não permite que a agenda se
limite a uma providência cosmética.
Atenção ao tributar bebidas alcoólicas e
açucaradas
Por Folha de S. Paulo
OMS aponta que consumo global dos produtos
não cai como deveria devido a falhas na aplicação de impostos
A mediana global da parcela do tributo no
preço final de destilados é de 22,5%; para o tabaco, por exemplo, a OMS
recomenda ao menos 75%
As políticas mais eficazes em relação às
drogas são as que atuam em rede, envolvendo saúde, educação,
segurança e regulação econômica.
O combate global ao tabagismo, no qual o
Brasil é referência, é a experiência que comprova a premissa. A redução nas
últimas décadas se deve sobretudo à implementação em diversos países de ações
preconizadas pela Organização Mundial da Saúde, como oferta de
tratamento para o vício, proibição de publicidade e aumento de impostos.
A aplicação desta última medida no comércio
de bebidas alcoólicas e açucaradas foi avaliada em relatórios da OMS divulgados
nesta terça (13). A conclusão é a de que o mundo não está conseguindo conter o
consumo como deveria porque há
problemas na calibragem dos tributos.
A mediana global da parcela do imposto no
preço final de cervejas verificada em 167 nações é de 14%; a de destilados,
22,5% —para o tabaco, a OMS recomenda que os impostos representem ao menos 75%
do preço final.
Ademais, apenas 23% dos países ajustam
alíquotas automaticamente pela inflação. Assim, a renda cresce e o álcool fica
mais barato. Como resultado, de 2022 a 2024, cerveja e destilados ficaram menos
acessíveis só em 31% e 22% dos países, respectivamente.
As bebidas açucaradas são alvo de impostos em
116 nações, mas em muitos casos se atingem somente refrigerantes, em vez de englobar
sucos, bebidas lácteas, cafés e chás. Valores tampouco são suficientes. A
mediana de tributo sobre uma lata de 330 ml de refrigerante equivale a cerca de
2,4% do preço final, por exemplo.
Como essas substâncias estão relacionadas a
doenças cardiovasculares e no fígado, diabetes, obesidade e alguns tipos de
câncer, o alto consumo sobrecarrega sistemas de saúde —que, com o
envelhecimento populacional, serão cada vez mais pressionados. No caso do
álcool, ainda existem os custos de acidentes de trânsito e da violência.
É importante que a equipe econômica da gestão
de Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
e parlamentares levem em conta evidências de pesquisas como a da OMS na hora de
desenhar o imposto
seletivo, que onera itens potencialmente nocivos, previsto na
reforma tributária aprovada no Congresso
Nacional em 2023.
O governo pretende enviar o projeto com alíquotas do tributo no início deste ano. É o momento de selecionar produtos, valores e modelos de reajustes com racionalidade para que a contenção do consumo seja significativa e que a arrecadação seja usada em prol da saúde da população.
Telhado de vidro
Por O Estado de S. Paulo
O interesse do ministro do TCU Jhonatan de
Jesus sobre o Banco Master contrasta com a falta de zelo sobre o destino das
emendas parlamentares que ele mesmo indicou quando era deputado federal
Emendas parlamentares enviadas a Roraima pelo
então deputado federal Jhonatan de Jesus (Republicanos) entre os anos de 2020 e
2023 tiveram um final infeliz, mas que se tornou bastante previsível nos
últimos anos. O Estadão foi
até o local e encontrou obras inacabadas e asfalto de má qualidade, além de
descobrir que uma parte dos recursos que deveria ter custeado projetos no
Estado se perdeu sem que se soubesse seu destino.
Hoje ministro do Tribunal de Contas da União
(TCU), Jhonatan de Jesus indicou R$ 42 milhões a municípios de Roraima. Desse
total, R$ 25,8 milhões não tiveram prestação de contas apresentada, inclusive a
verba destinada a Iracema, que alega ter investido em pavimentação em
paralelepípedos, eletrificação rural, locação de máquinas para manutenção de
estradas vicinais, construção de calçadas e de unidades habitacionais.
A reportagem deste jornal esteve lá para
apurar o que foi feito do dinheiro. Um conjunto de habitações populares que
deveria ter 300 moradias, desde 2024, tem apenas uma unidade construída – hoje
abandonada. Nossos repórteres percorreram mais de 60 quilômetros de estradas da
zona rural do município que deveriam ter sido recuperadas ou asfaltadas, mas
que estão esburacadas e acumulam lama em períodos chuvosos.
O ministro Jhonatan de Jesus confirmou ter
enviado os recursos por meio de emendas, mas negou desvio de finalidade e
afirmou que a execução das obras custeadas com essas indicações, bem como a
fiscalização, a transparência e a prestação de contas, são responsabilidade do
município. “A indicação de emendas não se confunde com a execução dos
recursos”, disse ele ao Estadão.
Em outras palavras: Jhonatan de Jesus lavou
as mãos, tanto como autor da emenda parlamentar quanto como ministro do TCU. Essa
desídia não passou despercebida. Afinal, se há algo com o que o ministro e a
Corte de Contas deveriam se preocupar é com a disposição de recursos de emendas
parlamentares. Basta lembrar que, há quase 30 anos, o TCU divulga um extenso
relatório sobre a situação das obras públicas em todo o País, conhecido como
Fiscobras.
Parte dos problemas que o relatório destaca,
como obras paradas ou de má qualidade, se repetem ano a ano e se devem
justamente à dinâmica de execução das emendas parlamentares. Seja por falta de
transparência em relação ao uso dos recursos, seja pela ausência de
planejamento integrado com políticas setoriais, as emendas, muitas vezes, geram
uma pulverização de investimentos correntes que resulta em baixa efetividade de
execução.
As emendas do então deputado Jhonatan de
Jesus são uma fração de um volume de recursos que deve atingir R$ 61 bilhões
neste ano. São tantos os escândalos envolvendo essas indicações que, em outros
tempos, a incúria que o ministro demonstrou com o destino dos recursos que ele
mesmo indicou enquanto parlamentar talvez passasse despercebida.
Mas o fato é que essa postura contrasta
frontalmente com o ativismo do ministro em questionar a atuação do Banco
Central (BC) na liquidação de uma instituição privada como o Banco Master –
atividade que faz parte das atribuições do BC enquanto órgão regulador e
supervisor do Sistema Financeiro Nacional, mas que passa longe das
prerrogativas do TCU.
Aos 42 anos de idade, o ministro é médico de
formação, exerceu três mandatos como deputado federal e foi o parlamentar mais
votado em seu Estado em 2022, com um total de 19,8 mil votos. É filho do
senador Mecias de Jesus (Republicanos-RR) e conquistou o cargo vitalício no
TCU, em março de 2023, com o apoio explícito do então presidente da Câmara,
Arthur Lira (PP-AL).
Mal se ouvia falar dele como deputado e como
ministro, como é típico dos representantes do amorfo Centrão – publicamente
apagados, mas muito influentes nos bastidores. E assim seria por décadas não
fosse a extravagância de suas decisões relacionadas ao Banco Master, no qual
calhou de ser o relator na Corte de Contas.
A fiscalização do setor financeiro,
felizmente, está em boas mãos. Logo, o ministro serviria melhor ao País se
exercitasse a autocrítica e dedicasse seu mandato a propor regras para
aprimorar a execução das bilionárias emendas parlamentares e evitar desperdício
de dinheiro público.
Trump contra o Fed
Por O Estado de S. Paulo
A ofensiva do presidente norte-americano
contra o Federal Reserve e seus dirigentes extrapola a crítica política e coloca
em risco um pilar central da estabilidade econômica e institucional dos EUA
Os ataques reiterados do presidente dos EUA,
Donald Trump, ao Federal Reserve (Fed) configuram a mais grave ingerência
política contra a independência de uma autoridade monetária de que se tem
notícia em uma democracia consolidada. Ao pressionar publicamente o Comitê
Federal de Mercado Aberto (Fomc) por cortes artificiais de juros e permitir que
seu próprio governo ameace o presidente do Fed, Jerome Powell, com um processo
criminal desarrazoado, Trump extrapola o terreno da crítica política e flerta
abertamente com o sequestro da política monetária norte-americana.
Não se trata, evidentemente, de condenar a
crítica política em si, ainda que, quando feita pelo chefe do Executivo, ela
carregue inevitavelmente uma carga de pressão indevida. No Brasil, o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva, no início de seu terceiro mandato, protagonizou
embates acima do tom contra o então presidente do Banco Central (BC), Roberto
Campos Neto, indicado por seu adversário político. Não há notícia, contudo, de
que tais críticas tenham contaminado as decisões do Copom. Nem mesmo agora, com
sete de seus nove integrantes indicados por Lula – entre eles o atual
presidente do BC, Gabriel Galípolo, o chamado “menino de ouro” do petista –,
houve qualquer afastamento da ortodoxia. Ao contrário, a política monetária
brasileira tem seguido parâmetros técnicos rigorosos.
Nos EUA, o que se observa é de outra
natureza. A pressão exercida por Trump sobre os membros do Fomc atingiu tal
grau que Powell sentiu-se compelido a divulgar, em pleno domingo, um comunicado
oficial reafirmando a independência do comitê. Trump não se limitou a ataques
verbais em redes sociais – o que já seria impróprio em razão de seu cargo. O
Departamento de Justiça passou a ameaçar Powell com um processo criminal
relacionado à reforma da sede do Fed. Expediente semelhante foi usado contra a
diretora Lisa Cook, acusada pela Agência Federal de Habitação de suposta fraude
em um financiamento imobiliário. Em ambos os casos, repete-se o mesmo padrão:
Trump mobiliza a poderosa máquina estatal para intimidar seus desafetos.
Essa escalada autoritária extrapola qualquer
noção aceitável de crítica política. Trump parece decidido a submeter o Fed a
seus desígnios. Não por acaso, seu único indicado ao Fomc até agora, Stephen
Miran, tem votado isoladamente, nas últimas três reuniões, por um corte de 0,50
ponto porcentual nos juros, em contraste com o restante do colegiado. Tudo
indica que Miran cumpre uma missão política previamente definida pela Casa
Branca.
Banqueiros centrais existem para preservar o
poder de compra da moeda – tarefa que não raro entra em choque com os
interesses dos governos de turno, para os quais a inflação funciona como um
imposto disfarçado que viabiliza mais gastos. Por isso, as economias estáveis
construíram uma arquitetura institucional que delega a política monetária a
corpos técnicos independentes, protegidos de pressões políticas. Sempre que
esse arranjo é violado, o desfecho é conhecido: mais inflação. Foi assim na
Turquia, no Brasil do passado recente e nos próprios EUA na década de 1970.
A gravidade das investidas de Trump contra o
Fed ficou ainda mais evidente quando presidentes de bancos centrais de diversos
países, incluindo o Brasil, divulgaram um manifesto público em apoio a Jerome
Powell e à independência da autoridade monetária norte-americana. O gesto, raro
e eloquente, revela que o que está em jogo não é apenas uma disputa doméstica
nos EUA, mas um princípio fundamental da governança econômica global.
Nada disso, contudo, parece importar para
Trump. Já na imposição de tarifas comerciais, o presidente dos EUA demonstrou
que seus conhecimentos de economia são primitivos. O mesmo se repete agora, em
sua tentativa de reduzir os juros à força. O aspecto mais alarmante, porém, vai
além das consequências econômicas, por si só deletérias. O ataque frontal ao
Fed escancara o desprezo de Trump pelas instituições e, em última instância,
pelo próprio Estado de Direito.
Um presidente que não respeita nem sequer as
instituições de seu próprio país dificilmente respeitará os limites da
convivência internacional. Para Trump, impera a lei do mais forte, dentro e
fora dos EUA.
Um salto na luta contra aids
Por O Estado de S. Paulo
Aprovação do lenacapavir pela Anvisa abre
caminho para redução das infecções por HIV no País
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa) aprovou um medicamento que, ao que tudo indica, pode reduzir
drasticamente os casos de aids, doença infecciosa cujo diagnóstico já foi
sinônimo de morte. Trata-se do lenacapavir, um fármaco injetável a cada seis
meses, por via subcutânea, e que apresenta eficácia entre 96% e 100% na
prevenção da infecção pelo HIV.
O entusiasmo global com o lenacapavir tem
respaldo em pesquisa científica. Estudos conduzidos na África e em outros
continentes atestaram o sucesso do medicamento na chamada profilaxia
pré-exposição (PrEP). Na América do Sul, houve testes também no Brasil. Quem
está potencialmente exposto ao HIV por qualquer razão está apto, em tese, a tomar
o medicamento desenvolvido pela farmacêutica norte-americana Gilead Sciences. O
êxito restou comprovado em diferentes grupos, incluindo adolescentes, mulheres,
homens e pessoas transexuais.
Ainda não se pode falar propriamente em
“vacina”, haja vista que o lenacapavir não provoca uma resposta do sistema
imunológico à infecção pelo HIV. De acordo com especialistas, o lenacapavir
bloqueia a formação de uma cápsula que envolve e protege o material genético do
vírus, impedindo sua ação contra o organismo.
Quando barreiras científicas são superadas, é
comum que o principal obstáculo imediato seja o custo da inovação – e com o
lenacapavir não é diferente. A distribuição do fármaco no curto e no médio
prazos esbarra em seu preço elevado: nos EUA, as duas doses anuais custam cerca
de US$ 28 mil por paciente. Isso, porém, não é um atestado de inviabilidade.
Segundo estudo publicado na revista The
Lancet, uma cadeia produtiva otimizada poderia reduzir o custo de
produção do lenacapavir para algo entre US$ 25 e US$ 46 por paciente ao ano.
Uma eventual incorporação do lenacapavir ao
Sistema Único de Saúde (SUS) representaria um avanço inequívoco. O Brasil já
oferece a PrEP em comprimidos, cuja eficácia depende de adesão diária rigorosa
– algo que pode ser comprometido pelo esquecimento ou pela interrupção do
tratamento. O principal diferencial do lenacapavir está justamente na proteção
prolongada, assegurada por uma única injeção subcutânea a cada seis meses, o
que tende a ampliar a adesão e a eficácia da prevenção.
O País, ademais, acumula uma trajetória
vitoriosa no enfrentamento da aids desde os anos 1990. Foi no governo Fernando
Henrique Cardoso, sob a gestão do então ministro da Saúde, José Serra, que o
Brasil se afirmou como referência global ao garantir, pelo SUS, a distribuição
dos chamados coquetéis antirretrovirais, ampliando a sobrevida e a qualidade de
vida dos pacientes. Trata-se de uma política pública bem concebida, que se
consolidou como política de Estado e deixou um legado social duradouro.
Com experiência institucional, capacidade industrial e escala compatível, o Brasil reúne todas as condições para avançar na incorporação do lenacapavir. A aprovação pela Anvisa é, portanto, mais um passo concreto na busca da superação da aids.
Trump subestima custo de reconstrução da
Venezuela
Por Valor Econômico
Não é apenas a indústria petrolífera que está
sucateada, também falta capital humano e capacidade de gestão
Gasoduto da PDVSA, a estatal petroleira da
Venezuela — Foto: Divulgação
Recuperar a Venezuela será provavelmente um
desafio mais árduo, longo e caro do que Donald Trump vem dando a entender. Não
é apenas a indústria petrolífera que está sucateada. Depois de 27 anos de
gestão chavista, imprudente e incompetente, quase toda a infraestrutura do país
foi comprometida. E tão ou mais grave que o degrado material é a perda de
capital humano e de capacidade de gestão.
Na esteira da intervenção na Venezuela, que
começou com o ataque a Caracas e a captura do ditador Nicolás Maduro, o
presidente americano, com sua retórica hiperbólica, disse que pretende “fazer a
Venezuela grande novamente”. Ele prometeu reconstruir o país, usando recursos
do petróleo venezuelano, que seriam administrados diretamente por Washington.
Autoridades americanas deram poucos detalhes sobre como isso vai funcionar.
O primeiro passo seria a retomada do setor de
petróleo. A Venezuela possui 17% das reservas mundiais comprovadas, com cerca
de 303 bilhões de barris, segundo a Opep. O país chegou a produzir 3,5 milhões
de barris/dia no começo dos anos 1970. Em 1998, antes de Hugo Chávez chegar ao
poder, a produção ainda superava 3 milhões de barris diários. Hoje está em
cerca de 1 milhão de barris/dia, devido à falta de investimentos, a problemas
de gestão e às sanções americanas.
Trump cita a necessidade de investimentos de
US$ 100 bilhões para recuperar esse setor, que seriam financiados por
petroleiras americanas. Há dois problemas nessa equação. O primeiro é o próprio
valor. A consultoria Rystad Energy estima em US$ 183 bilhões os investimentos
necessários nos próximos 15 anos para que a produção de petróleo volte a 3
milhões de barris diários em 2040. Outras estimativas também situam o custo em
torno de US$ 200 bilhões.
O segundo problema é a relutância das
empresas americanas. Após o apelo de Trump, o presidente da Exxon descartou
investir se não houver “mudanças significativas”. “Se analisarmos as estruturas
legais e comerciais vigentes hoje na Venezuela, veremos que o país é inviável
para investimentos”, disse Darren Woods em teleconferência com a Casa Branca na
semana passada (FT, 9/1). Trump reagiu ameaçando deixar a Exxon fora da
exploração do petróleo venezuelano.
Os receios citados por Woods têm a ver com a
manutenção do regime chavista. Seja para evitar erros cometidos nas
intervenções no Iraque e Afeganistão, onde a derrubada da estrutura de poder
gerou um período de caos, seja pela falta de apetite para enviar milhares de
soldados americanos à Venezuela, os EUA optaram por manter o regime e trabalhar
com o chavismo, mirando um plano de três etapas que carece de maiores detalhes:
estabilização, recuperação e transição. O inconveniente, como observou o CEO da
Exxon, é que será difícil conseguir a recuperação antes da transição, isto é,
sem uma ampla mudança política, institucional e jurídica no país.
Há enormes incertezas sobre a cooperação das
autoridades venezuelanas com os EUA. A experiência sugere que chavismo tentará
ganhar tempo e enrolar Trump. Isso funcionou em outros casos, como na Coreia do
Norte. Se o presidente perder a maioria no Congresso nas eleições de novembro,
seu interesse em tutelar a Venezuela poderá diminuir. Além disso, Rússia e
China, os principais aliados do chavismo, provavelmente tentarão elevar o custo
para os EUA, político e financeiro, da intervenção.
E não é apenas o setor de petróleo que está
sucateado. Quase toda a estrutura produtiva da Venezuela precisa de
investimentos urgentes. O país sofre apagões quase diários devido à produção
insuficiente de energia e à precariedade da rede de distribuição no estatizado
setor elétrico. Em 2024, o governo reduziu o horário de repartições públicas
para economizar energia. Saneamento, transportes, comunicações e hospitais
foram severamente afetados pela deterioração dos serviços e a falta de
manutenção em quase três décadas. O país importa ainda a maior parte dos bens
de consumo de que necessita, inclusive alimentos. A falta de medicamentos é
crônica. A Venezuela vive um apagão produtivo.
Ao sucateamento das estruturas produtivas,
somou-se a perda de capital humano e de capacidade gerencial. Quase 8 milhões
de pessoas deixaram o país na última década, segundo dados da ONU. Normalmente,
os que emigram são os de melhor formação, os mais empreendedores, aqueles com
mais chances de ganhar a vida num outro país. Essa fuga, devido à repressão
política, à crise econômica e aos baixos salários na Venezuela, realimenta a
degradação da infraestrutura e o colapso produtivo.
Maduro foi vítima desse processo de incapacitação
gerencial que ele mesmo liderou. Durante a operação militar americana que
resultou na sua captura, os sofisticados sistemas de defesa antiaérea russos de
que o país dispõe não funcionaram. Parte deles não estava sequer operacional
(NYT, 12/1). Se o setor de defesa, que dispõe de mais pessoal (a Venezuela tem
o dobro de generais dos EUA) e dinheiro, demonstrou esse nível de
incompetência, é de imaginar como se encontra a qualificação em outras
atividades.
Um dos problemas com as intervenções, como observou o diplomata e ex-diretor da CIA William Burns (FT, 9/1), é a regra do “quebrou, pagou”. Até 1 de janeiro, a culpa por toda essa situação disfuncional na Venezuela era do chavismo. Com a intervenção e a sugestão de que vai governar o país, a responsabilidade a partir de agora é também dos EUA. E partir de pressupostos e promessas pouco realistas não sinaliza um bom recomeço.
A ameaça nuclear na crise iraniana
Por Correio Braziliense
O mundo não pode se dar ao luxo de assistir
passivamente à possível dissolução da autoridade em uma nação que guarda, em
seus silos, o poder de desestabilizar o planeta
Com mais de 2 mil mortos estimados até ontem,
os protestos que varrem as ruas de Teerã e de outras grandes cidades iranianas
deixaram de ser apenas uma manifestação de descontentamento popular contra o
regime opressivo que comanda o país desde 1979 para se tornar um fator de
instabilidade global de primeira grandeza. Tanto a perspectiva de um conflito
civil prolongado quanto a de um vácuo de poder abrupto no Irã impõem uma
reflexão pragmática — e sombria - sobre a segurança internacional.
O Irã não é a Líbia de 2011, nem o Iraque de
2003. Trata-se de uma potência regional com um programa nuclear maduro,
sofisticado e, em grande medida, pouco transparente. Anos de enriquecimento de
urânio a níveis próximos ao grau militar, somados ao desenvolvimento de vetores
balísticos, sugerem que o regime dos aiatolás domina o ciclo completo do átomo.
Logo, a constatação de que o país já possua artefatos nucleares montados ou
consiga montar uma bomba nuclear em questão de dias não pode ser descartada
pelos serviços de inteligência.
É nesse ponto que a desordem interna cruza a
fronteira do pesadelo geopolítico. O enfraquecimento do controle estatal
iraniano cria um cenário de risco incalculável em um mundo perigosamente
desregulado, onde os mecanismos de controle de armas e os tratados de não
proliferação foram erodidos pela desconfiança mútua entre as grandes
potências e o direito internacional vem sendo corroído por Vladimir Putin
e Donald Trump. Dessa forma, diante do caos interno, a cadeia de comando pode
se fragmentar a tal ponto que se perca o controle da tecnologia e do material
nuclear.
O histórico do Oriente Médio ensina que
vácuos de poder são rapidamente preenchidos por extremismos. Num cenário de
fragmentação das Forças Armadas iranianas ou da Guarda Revolucionária, quem
herdaria as chaves dos bunkers subterrâneos de Fordo e Natanz, corações do
programa nuclear do país? A possibilidade de que material físsil ou ogivas prontas
possam ser desviados para grupos terroristas ou milícias paramilitares — que
operam na região como braços armados de facções diversas — não pode ser
desprezada.
Enquanto é improvável que essas organizações
saibam ou consigam operar uma ogiva nuclear completa, é bem plausível a chance
de esse material ser usado para a criação das chamadas "bombas
sujas", artefatos que combinam explosivos convencionais com o material
radioativo. A comunidade internacional, por sua vez, observa o desenrolar dessa
crise com uma letargia que pode ser perigosa.
O colapso dos acordos nucleares, como o
Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA, na sigla em inglês) — do qual Trump
retirou os EUA em 2018 —, removeu do Ocidente as ferramentas de verificação in
loco, deixando o mundo às cegas justamente no momento de maior turbulência. Sem
canais diplomáticos robustos e com organismos multilaterais enfraquecidos, a
capacidade de mediação externa é nula.
A situação no Irã, portanto, exige cautela máxima. O desejo legítimo de mudança da população não deve obscurecer a necessidade de vigilância sobre os ativos estratégicos do país. O mundo não pode se dar ao luxo de assistir passivamente à possível dissolução da autoridade em uma nação que guarda, em seus silos, o poder de desestabilizar o planeta. Garantir que a transição, qualquer que seja ela, não resulte em bombas e material nuclear na mão de extremistas e terroristas deveria ser prioridade da diplomacia mundial.
Transporte: Fortaleza quer ser piloto da tarifa zero
Por O Povo (CE)
É preciso avaliar cuidadosamente o resultado
do experimento em cidades que já aplicam a gratuidade
Em agosto do ano passado, veio a público que
o presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia pedido ao ministro da Fazenda,
Fernando Haddad, estudos para avaliar a viabilidade da implementação da tarifa
zero no transporte coletivo brasileiro. Na sequência, Haddad confirmou que o
seu ministério estava fazendo os cálculos determinados pelo presidente.
O presidente da Empresa de Transporte Urbano
de Fortaleza (Etufor), George Dantas, disse ao O POVO que o município já vem
contribuindo com repasse de informações para o estudo em andamento no governo
federal. Além disso, informa o presidente da Etufor, a Prefeitura de Fortaleza
resolveu sair na frente propondo que a cidade seja escolhida como
projeto-piloto para a implementação de uma política de tarifa zero no Brasil.
Segundo Dantas, uma reunião entre
representantes do governo federal e do Executivo municipal está marcada para o
fim deste mês para conversar sobre o assunto. Na ocasião, afirma Dantas, a
Prefeitura vai expor dados do estudo de viabilidade da proposta.
Além do estudo governamental, em andamento, a
Frente Parlamentar em Defesa da Tarifa Zero encomendou um estudo realizado
pelas universidades de Brasília (UnB), de Minas Gerais (UFMG) e de São Paulo
(USP) sobre o assunto.
Na prática, como informou a Agência Brasil,
ocorreria a substituição do vale-transporte por outro tipo de financiamento
pelas empresas privadas. Ou seja, em vez de o empregador pagar o
vale-transporte para o funcionário, os recursos seriam destinados a um fundo
para financiar a política de catraca livre. Segundo o estudo, essa transição
poderia ser feita sem onerar os cofres da União.
É fora de dúvida que um programa de
gratuidade do transporte público terá largo alcance social, desonerando o bolso
do trabalhador ou oferecendo-lhe a possibilidade de acessar transporte
coletivo. Segundo o censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE), 17,8% dos trabalhadores são obrigados a caminhar até seus
empregos. Em números absolutos, são 12,4 milhões de brasileiros que se deslocam
a pé, por falta de condições de arcar com o custo da passagem.
No Brasil, mais de uma centenas de municípios
já oferecem transporte coletivo sem pagamento de tarifas, entre elas mais de
uma dezena de cidades com mais de 100 mil habitantes, incluindo Caucaia, na
região metropolitana de Fortaleza. Mas é preciso reconhecer que a situação é
complexa, principalmente quanto ao financiamento do sistema, exigindo estudos
rigorosos para verificar a possibilidade de sucesso do empreendimento.
É preciso, por exemplo, avaliar cuidadosamente o resultado do experimento em cidades que já aplicam a tarifa zero, principalmente nas cidades com mais de 100 mil habitantes, evitando-se açodamentos que poderiam pôr a perder uma proposta de largo alcance social.

Nenhum comentário:
Postar um comentário