quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Solta, Trump vai explodir o dólar. Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Líderes da banca querem conter ataque contra independência do Banco Central americano

Trumpismo é força bruta na política e tentativa de fazer a vontade do rei na economia

Donald Trump quer dominar o Fed, o banco central dos EUA. Imagina que pode mandar na economia, sem mais —em juros, preços, dívida, empresas. Tudo não passaria de mera política, da vontade do rei. Imagina ainda que pode, sem mais, usar pura força na política mundial.

No limite, interessados, ofendidos e humilhados tendem a reagir. Na economia, com descrédito progressivo, em algum momento abrupto, do dólar e do mercado americano, onde está o grosso da poupança mundial. Na política, países vão pensar em coalizões de defesa e em ter bomba atômica.

Em tese. Uma reação significativa leva tempo, até mesmo se houver fuga do dólar. De resto, mercados financeiros costumam se acomodar a dinheiro fácil e criar ondas duradouras e insustentáveis de ganância, picaretagem e loucura.

Trump mete a mão em impostos de importação, comércio, investimentos e empresas, um capitalismo de compadres mafioso. A plutocracia baixa a cabeça ou imagina que pode ganhar com o negócio. Mas a finança teme besteira.

Jamie Dimon disse em público que bulir com a independência do Fed "provavelmente não é uma boa ideia", com risco de inflação e juros maiores depois de um tempo.

A gente está acostumada a ouvir essa banalidade, goste-se ou não dela. Mas Dimon é presidente do JPMorgan, maior banco dos EUA, arquiduque da finança. Defendia Jerome Powell, presidente do Fed, que está sob investigação criminal promovida pelo governo Trump: qualquer servidor do Estado está sujeito a retaliação se não curvar.

Em abril do ano passado, o tarifaço de Trump detonou um começo de pânico no mercado financeiro. Dimon e turma disseram a Trump que daria besteira —ele recuou.

Agora, Dimon, parte da finança, presidentes dos BCs mais importantes do mundo (Brasil inclusive), do BIS etc. defendem Powell. Até deputados republicanos dizem que, se a ameaça continuar, não vão aprovar nomeados de Trump para o Fed.

Os mercados, em si, até agora não deram bola para o ataque contra Powell. Isto é, não houve mudança em preços (juros, valor do dólar, entre outros), afora o do ouro, que se tornou válvula de escape (limitada) sob Trump 2. Talvez acreditem que Trump vá recuar. Ou acham que o Fed pode se render à pressão (era assim, até meio século atrás), mas nem tanto ou tão rápido assim.

A degeneração, pois, pode durar, um apodrecimento contínuo, a não ser que estoure guerra grande ou "os mercados" puxem o pino de nova bomba atômica financeira.

Trump, como quase qualquer governante, quereria determinar as taxas de juros, a começar pelas de curto prazo. Para começar, isso significa mexer com: 1) o valor da moeda da maior parte das reservas e das transações comerciais do mundo; 2) o custo dos empréstimos que o governo americano toma para financiar seu déficit; 3) o financiamento do excesso de gastos dos EUA (o país consome mais do que produz, tem déficit externo).

Como quase qualquer governante, Trump quer crédito fácil, juros baixos "para todos" e também para o governo, que, imagina, poderia assim gastar mais sem que a dívida cresça muito. No fim das contas, assunto enrolado, isso implica que o BC, o Fed, vai financiar o governo (de modo mais descarado do que tem feito desde 2008 e por mero desejo de Trump).

Onde já ouvimos essa conversa? Brasil?

Enfim, Trump é ameaça para o dólar, para o crédito e para economia dos EUA; incentiva o mundo a se preparar para a guerra. Mera "vontade política", arbítrio, dá nisso.

Nenhum comentário: