quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

A pulsão de Trump é totalitária. Por Rui Tavares

Folha de S. Paulo

Pulsão do presidente dos EUA é totalitária, não apenas autoritária, o que implica em experiência desestruturante

Negar fascismo de Trump cria mais problemas do que resolve

Uma coluna no jornal The New York Times, de autoria de Michelle Goldberg, faz uma admissão importante: a de que estiveram certos aqueles que durante todos estes anos defenderam a tese de que Donald Trump representa um tipo de fascismo do século 21.

O argumento, que pode ser estendido a muitos dos aliados e imitadores de Trump, repousa no fato de que os críticos da tese foram sempre argumentando que faltavam dois elementos essenciais para poder considerar Trump fascista: a existência de uma milícia violenta e a emergência de uma retórica internacional agressiva expansionista.

Com o ICE, corpo policial militarizado que persegue minorias e impõe o medo à oposição, matando e prendendo sem culpa formada, e com o seu ataque à Venezuela e os seus discursos sobre a anexação da Groenlândia e até do Canadá, Trump preencheu os requisitos que lhe faltavam para poder ser considerado fascista.

Na verdade, o debate já poderia ter ficado encerrado antes, quando os trumpistas tentaram invadir o Capitólio. Depois desses acontecimentos, o historiador Robert Paxton, um dos maiores especialistas mundiais na história do fascismo, e até então circunspecto na utilização do termo, mudou de ideia.

Para resumir, chegamos ao ponto em que negar que Trump seja fascista cria mais problemas do que resolve, e em que entender o que significa um fenômeno fascista de tipo novo no nosso século esclarece mais do que atrapalha a análise.

Mas se escrevo sobre esse assunto não é pelo prazer de resolver uma disputa intelectual. O que é uma raridade. Como dizia Zygmunt Baumann, normalmente os cientistas sociais não resolvem problemas: aborrecem-se e passam ao problema seguinte. Mais importante do que isso é olhar mais longe e ver a que pistas nos pode levar a realidade do segundo mandato de Donald Trump.

Como defensor há longa data da tese de que estamos perante um fascismo do século 21, pela primeira vez vejo-me a observar o trumpismo e a pensar que posso ter errado por defeito, não por excesso. A mutação tem sido demasiado rápida, demasiado brutal, demasiado bizarra. Por isso, recentemente, dei por mim a pensar: e se a pulsão de Trump for totalitária, não apenas autoritária?

Faz alguma diferença? Acho que sim, e que é enorme. Um modelo mental autoritário é repressivo e força a população à concordância ou pelo menos à obediência, mas é previsível e estável. Se a pulsão de Trump for totalitária, o que é verdade hoje de manhã pode ser mentira amanhã à noite, ou até mesmo hoje ao fim da manhã, e em cada vez tem de ser defendido com a mesma veemência. A experiência é muito mais desestruturante.

Pensemos assim. Para o autoritarismo, a verdade imposta pode ser que 2+2=5. Está errado, mas toda a gente sabe o que dizer em público para se conformar com o regime. Mas num modelo mental totalitário 2+2 pode 3 ou 5 ou 7. Ninguém sabe. A resposta pode variar de acordo com os humores do homem forte.

Os EUA ainda não são um regime totalitário. Mas a pulsão de Trump é totalitária. Se acham que isso não tem consequência para o mundo, perguntem aos groenlandeses.

Nenhum comentário: