Correio Braziliense
O enredo era conhecido desde o fim do ano
passado: o Congresso aprova, o presidente veta, o Congresso se articula para
derrubar o veto e, ao final, o tema desemboca no Supremo Tribunal Federal. Nada
disso ocorre por acaso
O veto integral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao chamado PL da Dosimetria não é um gesto isolado nem um sobressalto institucional. Ele representa, antes de tudo, o segundo capítulo de um roteiro conhecido da política brasileira, em que decisões de alto impacto jurídico servem também como combustível para a disputa eleitoral que se aproxima. O enredo era conhecido desde o fim do ano passado: o Congresso aprova, o presidente veta, deputados e senadores se articulam para derrubar o veto e, ao final, o tema desemboca no Supremo Tribunal Federal. Nada disso ocorre por acaso.
Desde a aprovação da proposta, em dezembro,
Lula sinalizava que não sancionaria um projeto que, a seu ver, enfraquece a
responsabilização pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 e beneficia
diretamente o ex-presidente Jair Bolsonaro e integrantes do núcleo central da
tentativa de ruptura institucional. O veto, assinado em cerimônia no Planalto
sem a presença dos presidentes da Câmara e do Senado, reforça a narrativa do
governo de defesa intransigente do Estado Democrático de Direito. Não
surpreendeu o Congresso. Apenas confirmou o esperado.
No Legislativo, a reação seguiu o script
previsível. A oposição respondeu de imediato, anunciando que vai trabalhar para
derrubar a decisão presidencial. O primeiro posicionamento do senador Flávio
Bolsonaro, carregado de acusações e forte apelo emocional, ilustra bem o
momento político: menos debate técnico sobre dosimetria de penas e mais
investimento em um discurso eleitoral voltado à segurança pública, à crítica ao
Judiciário e à ideia de "perseguição política". O PL torna-se, assim,
instrumento retórico de campanha, não apenas matéria legislativa.
Entre o Planalto e a oposição, o Centrão
ocupa novamente o papel de fiel da balança. Com votos suficientes para decidir
o destino do veto, o bloco ganha margem para negociar caro o apoio. O preço não
se limita a cargos ou emendas. Envolve compromissos eleitorais, alinhamentos
regionais e até a possibilidade de interferir na escolha de candidatos para
outubro, como, por exemplo, cobrar outro nome para o lugar de Flávio Bolsonaro
para representar a direita para presidente, caso não embale nas pesquisas. O
tema jurídico, nesse contexto, converte-se em moeda política de alto valor.
Com a provável derrubada do veto, o desfecho
também é conhecido. A nova lei deverá ser questionada no Supremo Tribunal Federal,
por partidos, pela Procuradoria-Geral da República ou pelo próprio governo.
Caberá à Corte decidir se o texto respeita a Constituição ou se viola
princípios como a proporcionalidade das penas e a proteção ao regime
democrático. Mais uma vez, o Judiciário será chamado a arbitrar uma disputa que
nasce menos do direito e mais da política.
O episódio expõe um sistema institucional sob
tensão permanente, que deixa em todos nós uma grande interrogação: como punir
crimes contra a democracia sem transformar a lei em instrumento de conveniência
política?

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