quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

A escatologia como método. Por Merval Pereira

O Globo

Temos certa tradição de ferir o que o ex-presidente José Sarney chamava de “liturgia do cargo” com palavras que não deveriam estar na boca dos presidentes.

Na era classificada como “do populismo”, corremos o risco de ter uma campanha eleitoral de baixo nível, mesmo que o candidato oficial do bolsonarismo, senador Flávio Bolsonaro, se disponha a fazer o papel de moderado, que não cabe no figurino do irmão autoexilado, muito menos no do pai preso. Embora a linguagem populista não seja obrigatoriamente escatológica, já temos certa tradição de ferir o que o ex-presidente José Sarney chamava de “liturgia do cargo” com palavras que não deveriam estar na boca dos presidentes.

Nesta semana o presidente Lula esteve na inauguração de mais imóveis do programa Minha Casa, Minha Vida. Disse que foi ideia dele acrescentar uma varanda nos apartamentos, que apelidou “varanda do pum”. Passou então, sob aplausos, a explicar que a tal varanda permitiria que alguém pudesse sair da sala para que os demais integrantes da família não ficassem sujeitos “aos gases que ninguém pediu para o camarada soltar”. Aparentemente fez sucesso, a maioria riu e aplaudiu. Mas a “liturgia do cargo” foi por água abaixo.

O uso explícito da escatologia (referência a fezes, urina, excreções corporais) faz parte desse populismo que procura se aproximar do povo. A linguagem deixa de ser mediadora institucional para ser definidor de identidade. Na linguagem populista, a quebra de decoro não é descuido, é método. Lula já havia passado desse limite numa conversa que vazou, quando era investigado pela Lava-Jato. Mandou Fátima Bezerra e Maria do Rosário irem para cima de um procurador de Rondônia, que tinha histórico de bater na mulher.

— Cadê as mulheres de grelo duro? — perguntou, indignado, o presidente.

Não é Lula, apenas, quem ultrapassa os limites da linguagem com seu jeito populista de ser. Já tivemos um presidente, Fernando Collor, que anunciava ao microfone ter “aquilo roxo”. Antes, o general Figueiredo garantiu que gostava mais de cheiro de cavalo que de povo. Como sabemos, por meio do ChatGPT, o suor é uma secreção da pele cujo cheiro forte surge quando as bactérias se decompõem pelas glândulas das axilas e da virilha. Claro que o general quis dar uma resposta impactante a quem lhe fazia tal pergunta — e ficou na História.

Quem quebrou o recorde de linguagem chula foi o ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje na cadeia. Exemplos de expressões chulas que usou com frequência: “cagar regra” em declarações públicas; comentários sobre funções intestinais (“fazer cocô dia sim, dia não”) em transmissão oficial durante a pandemia; publicação e comentários com referências a urina e secreções que repercutiram internacionalmente. Recursos recorrentes: coloquialismo e palavrões; metáforas corporais ou grotescas ( isso o presidente americano, Donald Trump, usa muito); ironia agressiva e insultuosa.

O objetivo não é convencer pelo argumento, mas sinalizar pertencimento (“ele é um dos nossos”). A retórica populista busca o conflito permanente, como mostram os exemplos daqui e de Trump nos Estados Unidos. A comunicação cria a sensação de que as instituições atrapalham a vontade popular, e o líder se apresenta como atalho. Quando aparece, a escatologia cumpre funções específicas: produz choque midiático imediato; desorganiza o debate racional; humilha simbolicamente o adversário; reforça a imagem de “autenticidade brutal”. É uma retórica de rebaixamento deliberado do espaço público, aproximando política de espetáculo. No populismo, contradições não são problema. A fala vale mais que o programa; a reação importa mais que a precisão; o “sentimento de verdade” substitui fatos. A comunicação funciona como mobilização contínua, não como prestação de contas.

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