Folha de S. Paulo
Maior razão para Trump querer a maior ilha do
Ártico é seu ego
Quem esperava cooperação contra o caos
climático encara o colonialismo
Há muitas razões geopolíticas para que Trump queira a maior ilha do Ártico, mas nenhuma supera o que o motiva de fato: satisfazer seu ego. Foi o próprio Trump que colocou o imbróglio sobre a Groenlândia nestes termos em mensagem ao premiê norueguês. Ao relacionar o fato de não ter recebido o Nobel da Paz à sua insistência bélica de anexar a Groenlândia, Trump explicita sua política externa personalíssima, na qual o interesse nacional é condicionado à maximação errática de sua autoimportância.
Isso não quer dizer que ele não tenha razões
para querer a Groenlândia —que vai da riqueza mineral da ilha à um Ártico em
disputa entre Rússia e China e à expansão de rotas marítimas na região. O
problema é que nem a Groenlândia nem a Dinamarca,
que a controla, são hostis aos interesses americanos. Pelo contrário. Nisso o
caso da Groenlândia difere do caso venezuelano, por exemplo. Trump não precisa
governar a Groenlândia para drenar seus recursos ou para atuar militarmente na
região; já pode fazê-lo.
A princípio, a crise internacional gerada
pela Groenlândia parece um contrassenso. Os EUA são o único país, além dos
dinamarqueses, a ter uma base militar permanente na ilha. Estreitar os laços
com a Otn e os europeus poderia fortalecer, ao invés de diminuir, a presença
dos EUA na ilha. O nó do contrassenso groenlandês começa a se desatar quando a
psique trumpista é colocada na mesa: Trump não quer a Groenlândia pela
Groenlândia, mas sim para mostrar ao mundo que pode, se quiser.
Groenlândia é um exemplo de novas fronteiras
coloniais abertas sobre a crise climática construídas sobre territórios nunca
de fato livres. Nos anos 60 e 70, médicos dinamarqueses promoveram a
esterilização forçada de mulheres e crianças da Groenlândia, além de casos
recorrentes de racismo contra povos originários da ilha, conforme contou o
jornalista dinamarquês Rune Lykkeberg no The Guardian.
Quem esperava mais cooperação internacional
contra o caos climático talvez tenha que se contentar com o colonialismo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário