Valor Econômico
Lava-Jato nos ensinou que delação gera espetacularização e faz o crime valer a pena
A figurinha do Michael Jackson comendo pipoca
vendo um filme de terror, extraída do clip de Thriller, aparece no meu WhatsApp
a cada rodada de notícias envolvendo as investigações do caso Master.
Num país onde todos imaginam as tenebrosas
transações que são acertadas entre grandes empresários e políticos poderosos no
escurinho do cinema (vide “Cine Trancoso”), é impossível conter a excitação
quando esses vínculos vêm à tona.
O potencial de destruição do Master já era evidente desde o princípio, quando se armaram no Supremo Tribunal Federal, no Tribunal de Contas da União e na cúpula do Congresso Nacional várias manobras para se conter a investigação dos crimes de Daniel Vorcaro.
Graças ao trabalho da imprensa, que revelou
as muitas conexões do banqueiro com ministros do Supremo e figurões da
política, a operação abafa foi contida, e fatos cada vez mais graves estão
vindo à tona.
Com Vorcaro preso novamente, cresce a
expectativa por um acordo de delação premiada. A perspectiva de ver as vísceras
da República brasileira expostas mais uma vez em rede nacional, num
megaescândalo que pelo jeito envolve, além dos suspeitos de sempre, integrantes
da toga e até mesmo o crime organizado, faz salivar aqueles que gostam de ver o
circo da política pegando fogo.
No entanto, é preciso conter a ansiedade e
entender que, se queremos ver Vorcaro e seus asseclas pagarem o preço justo
pela fraude bilionária que cometeram, assim como a extensa rede de autoridades
que se deixou corromper por ele, uma delação premiada só deve ser cogitada em
condições muito especiais. É o que recomenda a nossa experiência com o fracasso
da Operação Lava-Jato.
Desde 2013 a legislação brasileira autoriza a
concessão de benefícios para criminosos que colaboram com as investigações. Em
troca de perdão judicial, redução de até 2/3 do tempo de prisão ou sua
substituição por alguma pena de restrição de direitos, o colaborador tem que
entregar às autoridades elementos que levem, entre outros resultados, à
identificação de outros integrantes da organização criminosa e dos crimes por
eles praticados ou à recuperação de valores obtidos ilegalmente pela quadrilha.
Como condição essencial para a celebração do
acordo, é fundamental que o criminoso entregue informações que levem os
investigadores a conclusões que eles não conseguiriam alcançar com seu trabalho
normal. É o que a lei chama de “colaboração eficaz”.
Essa, aliás, é uma das principais críticas ao
festival de acordos de delação firmados na Operação Lava-Jato. Tome-se o caso
do acerto com os 77 executivos da Odebrecht. Quando a Polícia Federal descobriu
o famoso “Departamento de Operações Estruturadas” e conseguiu acesso ao sistema
de registro de pagamentos das propinas, encontrou o mapa da mina. Bastaria aos
integrantes da força tarefa “seguir o dinheiro” para se chegar às centenas de
políticos que haviam se deixado corromper.
Em vez disso, o Ministério Público resolveu
negociar um grande acordo impondo uma multa de cerca de R$ 12 bilhões à empresa
e aliviando as penas dos executivos - Marcelo Odebrecht, por exemplo passou
apenas 2 anos e meio na cadeia, de uma condenação inicial de 19 anos e 4 meses.
Em troca, os procuradores colheram
depoimentos com detalhes sobre os pagamentos aos políticos. Fez-se muito
barulho, e algumas prisões preventivas foram proferidas, principalmente para
quem não tinha direito ao foro privilegiado. Embora vários processos tenham
sido abertos com base no que revelaram os executivos da empreiteira, há dúvidas
se a Polícia Federal e o Ministério Público não poderiam ter embasado seu
trabalho só com o material apreendido da empresa.
As trocas de mensagens do celular de Daniel
Vorcaro publicadas recentemente são apenas uma pequena amostra do potencial de
informações que está em posse dos delegados da PF. Além disso, a liquidação do
Master e da Reag mantém sob controle de agentes do Estado todo o fluxo do
dinheiro desviado do banco e utilizado inclusive para corromper autoridades.
É difícil imaginar o tipo de contribuição que
Vorcaro possa trazer que não seja possível alcançar com a perícia dos
celulares, computadores e documentos apreendidos até agora, assim como pela análise
das transações financeiras do banco e seus fundos. Além disso, o banqueiro já
deu várias mostras de que não é confiável. Numa eventual delação não há nenhuma
garantia de que ele não dará pistas falsas ou será seletivo nos alvos das suas
revelações.
Vorcaro não é bobo e nos últimos anos deve
ter desviado milhões ou bilhões para algum paraíso fiscal no exterior. Com seu
banco liquidado, a única coisa que ele teme é a prisão.
Firmar um acordo de colaboração premiada com
Vorcaro emite um sinal claro para a bandidagem de colarinho branco no Brasil:
não importa o tamanho da fraude que você cometa, se vier a ser pego basta
negociar uma delação, entregar o nome de alguns políticos, passar um tempo na
cadeia e depois desfrutar do patrimônio acumulado ilegalmente em algum palácio
na Itália ou ilha do Caribe.

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