sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Caso Master é iceberg que ameaça confiança institucional no país. Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Não há “caso pequeno” quando o caminho do dinheiro se mistura ao poder. O detalhe institucional mais sensível talvez tenha sido a disputa sobre a custódia das provas

As investigações da Polícia Federal (PF) sobre o Banco Master e a liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central (BC), em novembro, transformaram um caso bancário em um teste de resistência institucional do Brasil. Não se trata apenas de apurar uma fraude financeira — que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, descreveu como possivelmente a “maior fraude bancária” do país —, mas de medir até que ponto os pilares que sustentam a economia continuam protegidos contra pressões políticas, atalhos jurídicos e redes de influência, que rondam os tribunais superiores do país, inclusive o Supremo Tribunal federal (STF).

Daniel Vorcaro, fundador e CEO do Master, não figurava entre os gigantes do sistema, mas se tornou protagonista nacional desse risco sistêmico pelo volume de dinheiro envolvido, pela capilaridade de sua base de investidores e pela teia de conexões que construiu no mundo político e jurídico. A segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada na quarta-feira, reforçou essa dimensão: mandados de busca e apreensão em 42 endereços, bloqueio de bens e valores acima de R$ 5,7 bilhões e o avanço sobre figuras como Nelson Tanure e João Carlos Mansur indicam que a apuração não é periférica — e que não há “caso pequeno” quando o caminho do dinheiro se mistura ao poder. Na verdade, começou um efeito dominó.

O detalhe institucional mais sensível talvez tenha sido a disputa sobre a custódia das provas. O ministro Dias Toffoli determinou inicialmente que todo o material apreendido pela PF ficasse lacrado no STF, medida fora da praxe. Após pedido da Procuradoria-Geral da República, voltou atrás e decidiu remeter o conteúdo à PGR. Na prática, sem embargo da tecnicalidade, é um sinal de que o caso ultrapassou o âmbito policial e já se transformou em arena de tensão entre instituições.

O Master aparecia como o 22º maior banco do país, com cerca de R$ 63 bilhões em ativos financeiros, algo em torno de 2% do tamanho do Itaú, segundo ranking do Valor Econômico. Em condições normais, sua quebra não deveria representar risco macroeconômico clássico. Mas a crise bancária raramente nasce apenas do tamanho: nasce da interconexão. O banco alcançou 1,6 milhão de investidores, com aproximadamente R$ 41 bilhões em CDBs, o que aciona diretamente o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), espécie de seguro do sistema.

O impacto desse ressarcimento é da ordem de um terço do caixa do fundo, estimado em cerca de R$ 122 bilhões em recursos líquidos. É a maior crise de um banco brasileiro em termos de pressão sobre o FGC e, por isso, o episódio não é apenas um escândalo financeiro: é um episódio capaz de contaminar expectativas, percepção de segurança e credibilidade do mercado. A estabilidade econômica depende de um elemento invisível: confiança. O investidor que compra CDB faz um pacto: aceita juros maiores em troca de uma promessa institucional de segurança, ancorada na supervisão do BC e no colchão do FGC. Quando esse pacto é rompido, o prejuízo não se resume a quem investiu no banco. O prejuízo vira dúvida sistêmica.

No olho do furacão

A liquidação do Master ocorreu após suspeitas de fraude envolvendo a venda de carteiras de crédito ao BRB, banco estatal do Distrito Federal, em operação de R$ 12,2 bilhões. A suspeita central é que o Master teria inflado artificialmente ativos — inclusive com créditos inexistentes — para melhorar sua condição financeira antes de uma possível venda. O modelo de negócio de Vorcaro, baseado em captar recursos oferecendo CDBs com taxas acima do mercado, ajudou o banco a crescer rapidamente. Não é crime oferecer juros altos, porém, quando o custo do dinheiro é elevado demais, surge o retorno “milagroso” de algum lugar.

Parte das suspeitas envolve fraudes grosseiras. Outra parte envolve estruturas sofisticadas de fundos e intermediações que demandam perícia técnica e abrem espaço para uma engenharia de ocultação: o dinheiro circula, passa por gestores, atravessa fundos, reaparece em ativos de baixa qualidade, dilui rastros e dificulta a responsabilização. A pergunta mais perigosa não é apenas “quem praticou a fraude”, mas “como isso pôde existir por tanto tempo”. Quando um esquema desse porte amadurece, a falha já não é apenas de um banco: é do ecossistema regulatório e do mercado. E, se essa percepção pública se consolida, o dano deixa de ser financeiro e se torna institucional.

O Master virou um caso explosivo porque Daniel Vorcaro acumulou conexões no mundo político e empresarial. A tentativa de venda do banco ao BRB, aprovada pelo Cade, mas barrada pelo BC, escancarou o choque entre duas lógicas. A lógica política é a do acordo e da mediação. A lógica regulatória é a do risco e da prudência. Quando o Banco Central veta uma operação, está dizendo que, naquele caso, a autonomia técnica prevalece sobre a acomodação.

Esse é um ponto decisivo. A independência do BC é um dos ativos mais importantes da economia brasileira, porque reduz incerteza, melhora previsibilidade e impede que o sistema financeiro vire extensão de disputas partidárias. Quando a crise de um banco se transforma em um cabo de guerra entre regulador e atores políticos, instala-se o pior ambiente possível: o de que regras são negociáveis conforme o poder de pressão. A centralização da investigação sob sigilo, a relatoria concentrada, decisões incomuns e a presença indireta de ministros no noticiário criaram um risco adicional: o de o STF ser percebido não como árbitro distante, mas como protagonista da crise.

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