sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

O mundo de cabeça para baixo. Por José de Souza Martins

Valor Econômico

Trump é expressão e instrumento de uma insurreição anômala, fora dos marcos de tudo que é a ordem política

Um conjunto extenso e complexo de anomalias políticas da realidade internacional deram-se a ver com o ataque dos EUA à Venezuela no dia 3 de janeiro e o sequestro do presidente daquele país e de sua esposa e a transferência de ambos, algemados, para uma prisão em Nova York.

Se levarmos em conta que a Segunda Guerra Mundial começou com a invasão da Polônia pela Alemanha nazista, em 1939, com a mobilização de forças militares equipadas e numerosas, teremos que reconhecer que a própria concepção de guerra entre as nações mudou significativamente.

Depois da invasão da Venezuela, da entrada no Palácio e nos aposentos do presidente do país, foram necessários apenas 47 segundos para tirá-lo e à esposa da cama e algemá-los. Pouco depois eles estavam num navio em viagem para a Flórida, em seguida num avião para Nova York e do aeroporto para a prisão, num camburão.

Sociologicamente, nada disso é produto casual da vontade de um desordeiro. Ou de uma pessoa de conduta claramente anômala.

Já em meados dos anos 1960, o Pentágono encomendou uma pesquisa a Harold Garfinkel, sociólogo da Universidade da Califórnia, sobre, no fundo, os mecanismos sociais cotidianos por meio dos quais as pessoas automaticamente recriam a ordem social que possa ter sido rompida por uma interferência intencional ou mesmo espontânea. O efeito espontâneo e contrário das irrupções sociais que começam a se difundir nessa época.

Seu livro “Studies in Ethnomethodology” foi significativamente publicado em 1967, no período da emergência dos movimentos sociais. Em especial o movimento estudantil, mas também os das categorias que fazem reivindicações identitárias, religiosas, etárias, de gênero. Os diferentes.

Garfinkel introduziu a experimentação na sociologia. Suas entrevistas presenciais mas anônimas, de entrevistador cuja cara não pode ser reconhecida, criam insegurança nos entrevistados, que alguns definem como vítimas. Alvin Gouldner chegou a dizer que o experimento etnometodológico só funciona quando dói, quando reduz a vítima à certeza de que ela está sozinha e de que não existem referências para sua conduta. Como faz Trump, as regras sociais são anuladas na molecagem do desrespeito completo a normas, acordos, tratados. O experimentador cria estados de anomia. Inconscientemente, a surpresa do vazio torna o destinatário cúmplice e seu próprio algoz.

Minha suposição é a de que Trump age com base em pressupostos etnometodológicos mesmo não sendo um profissional da área. Mas tem o perfil de uma socialização rara que não o faz uma pessoa nem uma identidade. Ele é um sujeito desidentificado. Por isso, pode se metamorfosear nas alterações bruscas de decisão. Lula, fruto do neocapitalismo europeu, o capitalismo de negociação, tornou-se reconhecidamente hábil negociador. É um decifrador de interlocutores, não os minimiza. Convence-os a julgarem-no frágil para que com ele negociem em vez de hostilizá-lo.

Aparentemente foi o que aconteceu no encontro casual de Lula com Trump na ONU. Ele fez com que Trump entendesse que o que poderia ser interpretado como uma vitória dele, Lula, era de fato, também, vitória de Trump, o que é próprio de uma relação dialética, de contrários, mas não tanto, para que a relação sobreviva.

O desconforto do secretário de Estado Marco Rubio em face da virada de Trump, que anulou a trama antibrasileira dos Bolsonaros, que julgavam ser influentes na Casa Branca, parece indicar que ele próprio está sujeito às surpresas desse tipo de compreensão da realidade política.

De outra maneira, o mesmo aconteceu no episódio da Venezuela. Poucas horas depois do sequestro de Maduro e da esposa, o próprio Trump anunciava entendimentos com a nova presidente, a vice-presidente chavista, cuja posse fora determinada pela Suprema Corte do país.

É claro que nesse jogo Trump neutraliza a Carta da ONU, põe entre parênteses acordos e tratados internacionais, desconstrói sem destruir. Faz de sua vontade uma vontade compulsória e esvaziadora. E enche o espaço esvaziado por sua baderna com regras ad hoc, improvisadas sem nexo com o direito e os tratados. Arvora-se em porta-voz de uma Organização das Nações Unidas informal e desunidas por ele mesmo.

Trump é expressão e instrumento de uma insurreição anômala, fora dos marcos de tudo que é a ordem política. Ele é o poder. Com ele, a América democrática virou uma ameaça aos valores das convenções. De certo modo, a invasão do Capitólio deu certo.

Ele se tornou concretamente uma ameaça aos valores e princípios da Carta da ONU, que asseguram a numerosos países o direito à autodeterminação, a escolher seus caminhos e a resolver internamente seus próprios problemas.

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