O Estado de S. Paulo
Os candidatos poderiam se antecipar e propor as reformas necessárias. Empurrar com a barriga é muito perigoso, apesar de mais confortável
Apesar de acontecer tão longe do Brasil, a
convulsão popular no Irã talvez possa trazer algo que os ingleses chamam de
alimento para pensar.
Já houve grandes manifestações no país, como o Movimento Verde (2009) e Mulheres, Vida e Liberdade (2022). Ambos foram massacrados pelo regime teocrático, que agora se vê diante de uma juventude irada e de um contexto geopolítico mais desfavorável: pressão de Israel e dos Estados Unidos.
A subestimação de grandes movimentos
populares porque não provocam resultado imediato é um grande erro de regimes
políticos petrificados.
Além do mais, o Irã vive um problema moderno
que deveria interessar a todo mundo: a crise hídrica. Os líderes religiosos
autorizam a exploração das reservas subterrâneas sem muito cuidado e agora
cidades como Teerã sofrem por falta de água sem muita esperança no futuro
próximo.
O Brasil é uma democracia na qual os governos
renovam-se de quatro em quatro anos. Isso representa, ao mesmo tempo, um alívio
e cria uma esperança de reformas. Mas já tivemos grandes manifestações
populares em 2013 e a resposta a elas foi uma regressão política em 2018.
As eleições de 2022 apenas restabeleceram o
status anterior, mas não trouxeram as reformas que o País precisa.
Não temos uma situação hídrica dramática, mas
esse é um tipo de variável que não se pode descuidar. As pessoas compreendem o
poder da água exatamente quando ela começa a faltar. Entramos, este ano, num
novo processo eleitoral. Possivelmente trará esperanças. Mas é necessário
enfatizar que as grandes reformas podem estar fora da agenda.
Para começar, vivemos um clima de
desconfiança em relação às instituições. O Congresso abocanhou uma grande parte
do Orçamento e vai gastá-la com emendas parlamentares. Isso contraria a
racionalidade da gestão, mas abre também uma porta para desvios de verbas. A
Polícia Federal tem investigado deputados acusados de corrupção. Mas esses
processos são apenas a ponta do iceberg. Não há estrutura policial para
monitorar todo o Brasil e acompanhar o uso de R$ 60 bilhões. O que ocorre, na
verdade, é uma prestação simbólica de serviço, uma tentativa pedagógica de
inibir outras tentativas de desvio.
No âmbito do Executivo, envolvendo vários
governos, temos ainda o escândalo do INSS, que vitimizou milhares de
aposentados. Parte do dinheiro foi restituída. Mas a punição dos responsáveis
ainda não foi concluída assim como a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito
(CPMI) que investiga o caso.
Como se não bastassem as dificuldades em duas
esferas, o Judiciário também perdeu legitimidade com os escândalos recentes. O
Superior Tribunal de Justiça (STJ) está sendo investigado, pois houve denúncias
de venda de sentenças em um terço dos gabinetes dos ministros, segundo
reportagem da revista Piauí.
O Supremo Tribunal Federal (STF) foi, de
certa forma, arrastado pelo escândalo do Banco Master. A mulher do ministro
Alexandre de Moraes, Viviane Barci, tinha um
contrato de R$ 129 milhões com o banco até 2027, recebendo cerca de R$ 3,6
milhões mensais. Além do problema em si, esse contrato revelou como o STF errou
ao derrubar um artigo que impedia que os ministros julgassem casos defendidos
por parentes. A situação se agravou com a entrada do ministro Dias Toffoli no
caso. Ele viajou para Lima num jato particular ao lado de um advogado do
Master. Decretou sigilo absoluto no processo e queria fazer uma acareação entre
os acusados de fraude bancária com um funcionário do Banco Central, cuja missão
foi a de investigar e liquidar o Master. Como se não bastassem todas essas
suspeições, a imprensa divulgou que familiares de Toffoli tinham negócios de
investimentos com o Banco Master.
No momento, fala-se num código de ética para
o STF. Toffoli poderia ser enquadrado de A a Z, pois não são poucas suas
decisões suspeitas. Uma delas foi suspender uma multa de R$ 10 bilhões da
J&F. A ex-mulher de Toffoli foi advogada da empresa. Muitas dessas questões,
exceto, talvez, o caso do INSS, não chegam à maior parte da população. Daí a
tendência nas eleições de enfatizar melhorias materiais, naturalmente baseada
na presunção de que apenas isso interessa e que, na existência dessas
melhorias, tudo é permitido. De fato, as maiores crises surgem de dificuldades
materiais. Isso não significa que o problema dos valores não exista e que, aos
poucos, não empolgue aquelas pessoas que contam apenas com melhorias materiais.
Naturalmente, o problema de valores é mais
agudo entre os que têm mais conforto material. Mas o modelo de políticas
sociais, às vezes, passa por crises e aí se compreende a necessidade de reforma
e o desgaste das instituições aparece claramente para todos.
Diante de tudo isso, os candidatos poderiam
se antecipar e propor as reformas necessárias. Empurrar com a barriga é muito
perigoso, apesar de mais confortável. Algumas reformas dependem e muito dos
eleitores. A reforma política, por exemplo, não sairá nunca sem uma pressão
popular. Daí a tarefa de renovar ao máximo um Congresso que nunca sairá de sua
zona de conforto se não receber uma dose ainda que pequena de sangue novo. Na
verdade, quase todas as variáveis eleitorais dependem dos próprios eleitores.
Se prevalecer a apatia, só voltaremos ao assunto na próxima grande crise.

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