quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Cenário insustentável para 2026 e temerário para 2027. Por Aylê-Salassié Filgueiras Quintão *

Lula devia aproveitar essa chance que Donald Trump está lhe oferecendo de participar, em companhia de algumas personalidades mundiais, do Conselho da Paz, para discutir um entendimento entre Israel e o Hamas e a recuperação de Gaza . É uma chance concreta de entrar para a História. 

A solução saída desse Conselho terá reflexos sobre outros conflitos que estão acontecendo no mundo. Dificilmente , por aqui,alcançaria resultado igual, mesmo que o ego indique que poderá atrapalhar a sua pretensa reeleição.

Daqui há duas semanas, o Congresso Nacional retoma suas atividades, e ele não tem a maioria; o Judiciário deixará de falar monocratimente por um presidente de plantão. Os escândalos do Banco Master, do INSS, o dos Correios e , por analogia , ao Mensalão e ao Petrolão, que estão surfando no tempo , começarão a ser desenterrados e pautados na política, em praça pública, pelos carnavalescos.

A campanha para a reeleição pode perder o fôlego diante de rememoradas vinculações às omissões as manifestações e opiniões , em momentos inoportunos, contra a prisão de Maduro, à invasão da Ucrânia pela Rússia, a mobilização contra o regime do aiatolás no Irã, a perseguição de religiosos na Nicarágua, a derrota dos grupos terroristas, ou seja tudo que ele defende e defendeu até agora. A ficha criminal de Maduro tem um agravante: ajuda a conspurcar não apenas a imagem de Lula, mas a de todos os governantes de esquerda do Continente que, a bem da verdade, deixaram o Poder desonrosamente.

O Brasil está no meio disso, devido a uma ideia, de Lula e Fidel Castro, de criar o Foro de São Paulo, com a proposta de unir todas as forças populares, revolucionárias, de esquerda e até transgressoras: guerrilhas, narcotraficantes e políticos corruptos do Continente. O Foro era financiado pelo tráfico de drogas, pelo petróleo venezuelano e, quiçá, pelo BNDES para e promover tanto mobilizações populares, eleger governos, e conquistar apoio de congressistas nos respectivos Parlamentos . Os fantasmas aflorados nesse cenário são tenebrosos. A Colômbia e o Peru tiveram vários presidentes denunciados e presos. Outros escaparam. Esses episódios remetem ao admirável José Mujica, o maior revolucionário no meio deles todos, que passou ileso, na Presidência do Uruguai, ganhando credibilidade mundial . Seu governo não teve uma acusação sequer de corrupção, e os uruguaios foram tidos em pesquisas realizadas por agências internacionais como povo mais feliz do Continente.

No Brasil, o cenário é um pouco diferente, envolve, sim, a política com atitudes ainda perversas – lembrando, em novas narrativas, o velho coronelismo e as promessas de bem estar social e do crescimento da oferta de empregos. Puderas, o Tesouro, via INSS, ampara diretamente , com salário família , 48 milhões de brasileiros (justo para o desempregados), mas , por outro lado,  beira àquela compra de votos  praticada no Nordeste pelos coronéis. Os gastos com as “bondades do Governo”, acrescidos da concessão de reajustes acima da inflação para o salário mínimo e para o Judiciário, somadas aos juros da dívida projetam superar, em prazo curtíssimo, o PIB nacional, hoje em 12,3 trilhões de reais.

Põe-se enormes esperanças no recente Acordo do Mercosul com a União Europeia que, teoricamente, promoverá, em dez anos, uma redução para “zero” das tarifas comerciais.de 8,6 mil produtos, 5,4 mil de imediato (!). Alardeia-se que a participação do Brasil no comércio global vai dar um salto de 8% para 36% , ao ter à sua disposição um mercado de 720 milhões de consumidores e um PIB conjunto de 22 trilhões de dólares. Continuamos sonhando ou blefando para uma população que não sabe sequer o que é o Mercosul. A impressão que se tem é a de que o Acordo, que demorou 40 anos para ser assinado, tramitando em Parlamentos de 40 países, lá e cá, pode até ter efeito positivo, a longo prazo, na economia – que vem sendo amparada pelo “maldito” agronegócio – mas seus reflexos nas próximas eleições é quase nulo.

Ao contrário do que se apregoou na solenidade de assinatura no Palácio López, no Paraguai, o Mercosul não demonstra “maturidade institucional”. Não é de agora. Kristina Kircher o fragilizou em vários momentos, introduzindo exigências exclusivamente portenhas. Hugo Chavez, da Venezuela, foi aceito como membro do Mercosul, legitimado por aquele grupo de governos membros de esquerda, embora não tivesse a menor condição de fazê-lo. Tentou introduzir no organismo suas teses militares bolivaristas. Sua passagem por ali foi altamente predatória. Desestabilizou o organismo com o seu autoritarismo e suas teses políticas inoportunas. A Venezuela teve de ser suspenso antes que destruísse o Acordo regional. A Bolívia, de Evo Morales, gerou um punhado de inflexões na sua operacionalidade, à busca de “preferencialidades”.

Aparentemente, portanto, a assinatura do Acordo entre o Mercosul com a União Europeia, na presença da Presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, foi um “rearranjo político”, após frustrações anteriores e ainda não conta com o apoio de um grupo de países e parlamentos da Europa. No Brasil, o cidadão comum, mais de 90% dos 48 milhões de beneficiados com o Bolsa Família, não tem o menor entendimento do que se trata o Mercosul e, muito menos, da dimensão teórica do Acordo, Não vai ser fácil implementá-lo. “Não vamos deixar o Acordo avançar mais", disse o ministro da Agricultura, da Polônia, país produtor e exportador de matérias primas agrícolas e minerais.

Por isso, embora ser membro do o Conselho de Paz para Gaza, acrescenta pouco, senão ao ego inflado do atual Presidente . É uma massagem que explora o narcisismo - vindo de Trump, merecedor de desconfianças - além de ser mesmo um risco eleitoral interno, pode provocar outros vacílos discursivos. O que atrai mesmo Lula é o tabuleiro político provinciano. O internacional não parece ser o seu forte. Quem o salva ou o compromete é o ex-ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. Enquanto der samba, Bolsonaro - não sei se um Trump melhorado ou piorado - continuará a desfilar na ala da frente dos marqueteiros do Planalto, exposto no "Abre Alas", como , um "golpista". E assim, reconstruindo a história como narrativas demonizantes geradas no imaginário, protagoniza-se também o lado oposto da campanha, ajudando a alimentar as mobilizações para uma eventual reeleição . Mas , na campanha de 2026, é muito provável que venha a ser acusado de venezualização do Brasil, ou seja, de omisso com relação às organizações do narcotráfico e de tentar transferir as vocações minerais brasileiras para interesses orientais (Rússia e China).

Com estatísticas pouco confiáveis, a governabilidade no Brasil está sendo salva pelo agronegócio e, de certa forma, pelo petróleo que jorra pelo litoral, contestado agora pela ideia da “energia limpa”, ecológica. As instituições estão sendo capturadas pela transgressão . O déficit nominal do setor público consolidado (governos federal e regionais) chegou a R$1,027 trilhão. A “farra fiscal”, as emendas parlamentares, os incentivos aos empresários e as bondades poderão sofrer no novo mandado presidencial um retrocesso enorme. É grande a insegurança dos investidores internacionais . As notas do Brasil nas agencias de classificação de risco são baixas. Os candidatos não devem se exacerbar em promessas. O cenário para a governabilidade a partir de 2027 é altamente temerário.

*Jornalista e professor

 

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