O Globo
É estarrecedora a letargia completa das
instituições que, pela Constituição, teriam a obrigação de contê-lo
A cada dia com ao menos uma nova e grave
arbitrariedade de Donald Trump, doméstica ou além-fronteiras, cresce uma dúvida
tão básica quanto perturbadora: nenhuma instituição ou país será capaz de
detê-lo? Há meses já não é exagero temer pela implosão não só da democracia
americana, mas de todos os complexos mecanismos que configuraram a ordem
mundial desde o Pós-Guerra, e, ainda assim, não se forma uma coalizão capaz de
minimamente representar um freio à escalada.
O capítulo da semana é a inacreditável crise pelo controle da Groenlândia, que parece coisa de jogo de tabuleiro de criança, mas é séria. Trump reavivou sua antiga obsessão por adquirir o território, pertencente à Dinamarca, com desculpas para lá de delirantes. A ofensiva veio, uma vez mais, acompanhada de ameaças tarifárias contra os aliados da Europa, que, por sua vez, ditaram o anúncio de retaliações — dinâmica que vai se reproduzindo em relação a vários países e blocos e mina qualquer previsibilidade nas relações geopolíticas e comerciais.
No plano interno americano, Trump também
intensificou ataques a líderes democratas e medidas de força, com um Serviço de
Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) cada vez mais fora de controle
tocando o terror em todo o país. Em novembro, depois de um grupo de seis
congressistas democratas exortar membros das Forças Armadas e da inteligência a
“recusar ordens ilegais”, Trump os acusou de sedição e chegou a sugerir que
poderiam ser punidos severamente, até com a morte, para logo em seguida tentar
minimizar a declaração.
É o tipo de conduta padrão dos candidatos a
autocrata: testar os limites dia a dia em várias frentes, fingir recuos quando
a coisa foge um pouco ao controle para, logo em seguida, lançar nova ofensiva
tentando minar os mecanismos de contenção domésticos e internacionais (estes
cada vez mais desmoralizados).
O fato de que não ter sofrido nenhuma derrota
relevante até aqui na execução rápida e sem disfarces desse desmonte é uma
resposta clara e assustadora à pergunta inicial: não, a democracia americana,
estudada e propalada ao longo dos séculos como modelo para o resto do mundo,
não se mostra aparelhada para lidar com um líder que voltou disposto a não ser
contido como foi, por pouco, da primeira vez.
É estarrecedora a letargia completa das
instituições que, pela Constituição, teriam a obrigação de contê-lo, do
Congresso à Suprema Corte, passando pelas agências, cada vez mais dizimadas
pela política de terra arrasada e pela perseguição a servidores de Estado. A
imprensa se divide entre perplexa, alarmada e condescendente, a depender do
veículo, mas não é, até aqui, um ator capaz de retardar seu avanço.
No eleitorado, apesar da rejeição crescente a
Trump, resiste a ambivalência. Pesquisas apontam que a maioria dos americanos
se opõe à ideia de intervenções expansionistas e desaprova táticas violentas de
agentes federais. Mas permanecem as bolhas de apoio incondicional ao
republicano, num sinal de que o apreço à democracia como valor inegociável é
cada vez menor.
Já não se trata, portanto, de repetir a
pergunta com que abri este texto. Está claro que o estamento político e legal
americano não é capaz de evitar que Trump lance os Estados Unidos a um caminho
sem volta rumo à ruptura de suas principais alianças externas e a um embate direto
com outras potências ou blocos.
Seu segundo mandato evidencia que não basta
haver eleições periódicas e separação formal de Poderes se esses mecanismos
podem ser contornados ou subvertidos. Isso só se resolve com uma reforma
urgente e profunda, com que não só democratas, mas também republicanos precisam
se comprometer imediatamente. Se nem a maior potência democrática está imune a
um presidente que redefine o uso do poder demonstrando pouca preocupação com
limites legais ou morais, não se tem no horizonte a perspectiva de estabilidade
ou paz mundial.

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