Folha de S. Paulo
A defesa do regime inclui rever hábitos
institucionais
Caso Banco Master mostra que corte precisa
impor-se limites republicanos mais estritos
Nos últimos anos, o Supremo Tribunal Federal
desempenhou um papel decisivo na contenção de investidas antidemocráticas reais.
Não se trata de retórica nem de gratidão automática. Executivo, bolsonarismo,
setores do Legislativo, militância e influenciadores digitais, jornalismo
ativista de direita e até frações das Forças
Armadas testaram os limites da ordem constitucional.
O STF resistiu e reagiu quando outras instituições vacilaram.
Justamente por isso, causa inquietação crescente a constatação de que hoje a defesa da democracia passa, paradoxalmente, por proteger o próprio STF de práticas e comportamentos que corroem sua autoridade republicana. Um tribunal constitucional não pode ser, ao mesmo tempo, o guardião último da democracia e o violador contumaz das regras de impessoalidade, sobriedade e contenção que estruturam o ideal republicano.
O caso do Banco Master funciona
como catalisador dessa inquietação. Não apenas pela gravidade das suspeitas que
cercam o escândalo financeiro nem apenas pela sucessão de decisões heterodoxas,
recuos, sigilos excessivos e movimentos erráticos associados à sua condução no
Supremo.
O que realmente alarma é a naturalidade com
que relações impróprias entre membros da corte, seus familiares e interesses
econômicos poderosos passaram a ser tratadas pelos próprios
juízes como irrelevantes ou como perseguições injustas e de má-fé.
Não é necessário supor crime para reconhecer
o problema. Há coisas que podem ser formalmente legais e ainda assim
inaceitáveis. A intimidade reiterada com os círculos do poder e a convivência
despreocupada com grandes interesses econômicos —sobretudo quando esses
interesses se encontram sob investigação— produzem um dano que não é penal, mas
institucional. Corroem a aparência de imparcialidade, alimentam suspeitas
razoáveis e enfraquecem a credibilidade de que o STF depende para exercer sua
função.
O caso Master não surge no vácuo. Ele se
insere em um padrão mais amplo de ausência de limites, já perceptível há anos
na relação de membros da corte com o poder econômico, com eventos luxuosos,
circuitos internacionais de prestígio e uma sociabilidade que pouco tem de
republicana. Episódios desse tipo foram tratados, durante muito tempo, como
excentricidades toleráveis. Hoje, já não é possível fingir que são
irrelevantes.
Não é a primeira vez que esse alerta se
impõe. Em 2024, escrevi nesta Folha que
o juiz que se imagina, ao mesmo tempo, magistrado e celebridade —uma "Very
Important Person" nos camarotes do poder— precisa acabar, por incompatibilidade
direta com o padrão republicano da vida pública. Se um juiz do STF é ministro
—isto é, servidor— da ideia elementar de que todos são
iguais perante a lei, como pode comportar-se como membro de um
clube exclusivo, o das castas superiores do país?
Se a República garante, a alto custo num país
tão pobre, tantas prerrogativas à Suprema Corte, inclusive salariais, não é
aceitável que juízes ou seus familiares usem essa posição para enriquecimento
pessoal ou para desfrutar do champanhe e do caviar —caronas em
jatinhos, congressos e hotéis de luxo— bancados por interesses
privados do clube dos bilionários.
O argumento de que toda crítica à corte
favorece golpistas é intelectualmente pobre e politicamente perigoso. Ao
contrário: é justamente a erosão da
credibilidade republicana do Supremo que fornece munição aos
que desejam desacreditá-lo por contrariedade política. Um tribunal que se fecha
em copas, reage corporativamente e relativiza padrões éticos em nome da
autoproteção enfraquece sua própria defesa social. Democracias não se sustentam
apenas com decisões corretas; sustentam-se também com instituições que inspiram
confiança.
Um STF forte não é aquele que exige
deferência incondicional, mas o que se submete voluntariamente a padrões mais
elevados do que os impostos ao restante da sociedade. A centralidade política
que o tribunal assumiu na última década não autoriza exceções morais; ao
contrário, exige autocontenção
institucional, transparência e rigor ético redobrado.
Defender a democracia, neste momento,
significa também afirmar que o STF não pode tudo. Que não pode frequentar sem
custo simbólico o mesmo universo social que deveria julgar com distância e
isenção. Que não pode confundir poder constitucional com licença aristocrática.
Se não compreender isso, corre o risco de
perder exatamente aquilo que o tornou indispensável nos anos mais sombrios: a
autoridade moral para dizer não quando todos os outros dizem sim.

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