A Transição Energética
Desde a primeira revolução industrial,
ampliou-se o nível de intervenção humana no planeta. No século XX, estas
intervenções aumentaram consideravelmente, colocando em risco a sobrevivência
dos ecossistemas e da própria humanidade. As chuvas ácidas, o efeito estufa e a
emissão de dióxido de carbono – CO 2 gerados com a combustão de petróleo, carvão
mineral e derivados, junto com o gás metano, são os principais responsáveis pela
emissão de carbono na atmosfera.
Então, a questão energética levava em
consideração apenas os aspectos técnicos de quantificação da produção e consumo
de energia. Esta abordagem viu-se irremediavelmente comprometida com o aumento
do preço do petróleo nos anos 70 do século passado, quando então ficou evidente
a impossibilidade de um crescimento econômico baseado em suprimento de energia
de baixo custo. Assim, foram abalados os mecanismos de funcionamento dos
sistemas energéticos e da própria economia, em escala mundial. As crises do
petróleo, a partir dos anos 70 do século passado, e a realidade atual da
indústria petrolífera mundial acentuam as incertezas em relação à oferta deste
combustível, muitas vezes, desde os primórdios da indústria petroleira,
garantida manu militare.
Este modelo energético é responsável por
graves problemas sociais e ambientais, a exemplo dos acidentes envolvendo
navios petroleiros, vazamentos em usinas nucleares, minas de carvão mineral,
construção de hidroelétricas, produção de biomassa, impactando as populações
atingidas por essas atividades, que migram e sofrem as consequências
econômicas, sociais e ambientais advindas deste modelo.
A infraestrutura energética mundial continua
concentrada e baseada em processos produtivos intensivos em energia. A
mercadoria energética possibilita lucros e benefícios fabulosos a determinados
países e corporações transnacionais, excluindo regiões, países e mais de 1/3 da
população mundial.
Coloca-se como imperativo a necessidade de
uma revisão nas formas de abordagem da questão energética, devendo considerar
outras questões relevantes a ela associadas, além da oferta, entre as quais,
destacam-se as questões social, ambiental e o próprio uso da energia.
Assim, a maneira como a energia é apropriada
da natureza produzida, distribuída e consumida, indica níveis de bem-estar de
uma determinada sociedade e suas interrelações com o meio ambiente. Fica,
então, evidente que a escolha de uma política energética interfere diretamente
na qualidade de vida da população.
O Brasil e a COP 30: oportunidades e desafios
Desde a Convenção de Mudanças Climáticas,
realizada na ECO-92, propondo a diminuição do uso de combustíveis fósseis,
passando pela Conferência de Paris (2016), até a COP 30 realizada recentemente
no Brasil, persistem os entraves para a implementação de medidas efetivas no
caminho da diminuição do uso de combustíveis fósseis. Fundamentalmente, os compromissos
não são implementados por razões políticas e econômicas. A transição energética
para a economia de baixo carbono é um processo de alto custo econômico,
cientifico e tecnológico, onde os EUA, a China, a Rússia e a Comunidade
Européia deveriam ter um maior protagonismo, por ter sido os principais
responsáveis pela atual situação climática do planeta.
Constata-se, por exemplo, que os
investimentos para as guerras hoje em andamento são muito maiores que os
investimentos necessários para a transição energética, ficando evidente o
descompromisso do Complexo Industrial Militar dos EUA, da China, da Rússia e da
Comunidade Europeia, com a sustentabilidade do planeta.
Portanto, a COP30 reiterou a necessidade
urgente de mudanças e medidas efetivas desses países e um maior protagonismo
das organizações multilaterais mundiais, a exemplo da ONU, FMI, OIT e da
própria Indústria Mundial de Petróleo, entre outras, que nos leve a uma outra
perspectiva societária, no caminho da almejada transição energética e da sustentabilidade
humana no planeta.
Assim, a transição energética já não pode
mais ser ignorada, inclusive no Brasil. Há um acúmulo de discussão e consensos
da comunidade científica e da sociedade civil mundial sobre os efeitos das
mudanças climáticas, efetivamente, como, mais uma vez, ficou evidenciado nas
discussões e recomendações da própria COP30, quando quase 200 países
reafirmaram o imperativo da transição energética, sem contudo avançar em
soluções urgentes para as duas questões principais do aquecimento global: a
queima dos combustíveis fósseis e o desmatamento.
Os combustíveis fósseis representam em torno
de 80% do consumo de energia primária mundial, com a liderança do petróleo, em
seguida o carvão mineral, e em terceiro lugar o gás natural.
Ainda há que discutir qual a matriz
energética que queremos ter no horizonte dos próximos 5-10-20 anos? Aqui é
fundamental a participação da sociedade na busca de uma avaliação mais ampla
sobre o papel do estado e do mercado na área energética, na perspectiva de uma
matriz energética de baixo carbono, com uma maior participação da biomassa,
energia solar, eólica e o hidrogênio verde.
Institucionalmente, o Brasil deve buscar a
integração dos seus diversos sistemas: elétrico, do petróleo e gás natural, do álcool
e bagaço de cana, do carvão mineral, lenha e carvão vegetal, solar, eólica e
outras biomassas, buscando criar mecanismos, que proporcionem uma efetiva
integração, publicização e participação social mais ampla na discussão,
formulação e implementação da política energética brasileira, incentivando a
regionalização e uma maior integração com a América Latina.
Assim, o desafio brasileiro continua a ser a
afirmação e a implementação de uma política energética que seja integrada
nacionalmente, considerando as potencialidades regionais. Esta nova política
energética brasileira deve reavaliar a atual estrutura tarifária e de preços,
perseguindo a conservação, a eficiência e o desenvolvimento de novas
tecnologias energéticas, em especial para a cogeração, apoiando e participando
de iniciativas para uma maior incorporação das energias solar, eólica e
biomassa, melhorando a confiabilidade do sistema elétrico nacional e, ainda, a
ampliação da produção de energia de forma descentralizada, tanto para atender
populações nas áreas rurais, quanto para a mobilidade urbana, envolvendo instituições
governamentais, comunidades cientificas, organizações empresariais e da sociedade
civil, no caminho de uma matriz energética brasileira de baixo carbono.
A realização da COP30 no Brasil deu um maior
protagonismo à sociedade brasileira,
particularmente, com os países da América Latina e da África, no caminho da
almejada sustentabilidade.
Portanto, a transição energética no Brasil deverá ter como foco a diminuição do consumo de combustíveis fósseis, através da substituição por energias renováveis ou de melhoria da eficiência do uso, pela via de novos processos tecnológicos nas áreas de conservação, cogeração e produção de energia, transporte, construção civil, reciclagem e novos materiais, buscando diminuir a intensidade energética da indústria nacional, considerando a escala de produção, o controle das fontes de energia, o acesso às tecnologias de transformação dessas fontes em energia útil . Ainda, considerar a realidade dos países da África e da América Latina, como o Brasil, fornecedores de bens intensivos em energia que continuam sendo exportadores de minérios, alumínio, papel e celulose, todos energo-intensivos.
Estas são questões relevantes a serem consideradas
na política energética brasileira, pautadas antes, durante e, que vão continuar
a nos desafiar, pós COP30, colocando permanentemente a necessidade de discutir
o papel dos diversos atores políticos, econômicos, sociais e ambientais
envolvidos, tanto no plano nacional, quanto internacional.
Finalmente, destacar que a democratização das
relações entre o Estado e a Sociedade é a base desta almejada transição
energética brasileira, latino-americana e mundial, questões que foram
consideradas na COP30, devendo estar nas Agendas permanentes da ONU, das Organizações
Multilaterais, dos EUA, China, Rússia e União Européia, principais responsáveis
pela degradação social e ambiental da humanidade e do planeta.
*Dr. Sc. da Diretoria do Instituto Politécnico da Bahia

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