O Globo
Não é democrático o Estado que permite a
tomada de territórios populares por grupos criminosos
Novembro termina com o desejado desfecho da
Ação Penal 2668, que puniu o núcleo crucial da trama golpista, incluindo um
ex-presidente da República, sentenciado a 27 anos e três meses em regime
fechado, três generais e um almirante. Na semana derradeira, a prisão
antecipada de Jair Bolsonaro numa sala tornada cela na Polícia Federal em
Brasília e o trânsito em julgado, que encarcerou os demais integrantes do topo
da organização criminosa, à exceção de um foragido, Alexandre Ramagem,
ex-diretor da Abin.
O deputado federal (PL-RJ) foi o candidato bolsonarista a prefeito do Rio de Janeiro no ano passado. Foi derrotado por Eduardo Paes (PSD) no primeiro turno. Tivesse ganhado, escaparia pela fronteira amazônica abandonando a cidade, como fez com o mandato na Câmara? Fica o questionamento a quem entrega o voto a imerecidos. O abandono dos cargos para fugir da Justiça tornou-se método na extrema direita brasileira, a ponto de ser argumento para tirar Bolsonaro da custódia domiciliar para a prisão preventiva.
O ex-presidente, agora, cumpre a pena
estabelecida pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF). Inelegível
a perder de vista, perdeu os vencimentos que apurava no PL. A depender do
corporativismo, até o meio do ano que vem, o Superior Tribunal Militar poderá
cassar posto e patente do ex-capitão do Exército, assim como dos cúmplices. O
dia histórico em que a democracia brasileira sinalizou punição a golpistas,
após inúmeros episódios de ruptura e tentativa, saiu até no New York Times.
O Brasil, é verdade, se livrou do risco ao
regime estabelecido na Constituição de 1988, julgou e condenou os responsáveis.
Mas a democracia segue incompleta. E golpeada. Há como atacá-la escrachada,
como fizeram Bolsonaro e comparsas, ou discretamente; instantânea ou
gradualmente; brutal ou cinicamente. Fragiliza a democracia a cúpula da Câmara
dos Deputados e do Senado Federal, que, em birra com o Executivo, impõe à
legislação ambiental, numa tarde de votação, um retrocesso de quatro décadas e
meia, como assinalou o Observatório do Clima em nota. É forte a democracia em
que parlamentares condenados fogem do país e mantêm mandatos e salários na
Câmara?
Ameaça o sonho democrático o governante que,
tendo oportunidade, rejeita a pluralidade nas indicações às Cortes superiores.
A idade mínima, reputação ilibada e notório saber jurídico, exigências da Carta
Magna aos ministros do STF, somou-se o atributo subjetivo da lealdade. Não a
que diz respeito ao compromisso com a lei e com a sociedade, mas ao alinhamento
a um líder, personalíssima. Não são democráticas as instituições que enxergam
universalidade num só grupo social, os homens brancos de meia-idade.
Desmoraliza a democracia o sistema que
oferece somente aos que têm prestígio, dinheiro e poder os benefícios dirigidos
a todos e todas. Em 2017, Adriana Ancelmo, então mulher de Sérgio Cabral,
ex-governador do Rio, conquistou o direito à prisão domiciliar por ter um filho
pequeno. No ano seguinte, um habeas corpus coletivo concedido pela Segunda Turma
do STF estendeu o benefício às demais presas grávidas e mães de menores de 12
anos. Mais tarde, resolução do Conselho Nacional de Justiça (369/2021)
estabeleceu o direito a gestantes, mães, pais e responsáveis por crianças e
pessoas com deficiência.
O ex-presidente Fernando Collor de Mello,
condenado a oito anos e dez meses de reclusão por corrupção passiva e lavagem
de dinheiro, passou uma semana num presídio em Maceió até obter no STF, em maio
deste ano, o direito à custódia domiciliar humanitária, em razão da idade
avançada (75 anos) e de comorbidades graves. O caso inspirou a defesa de
Bolsonaro a reivindicar o mesmo. Ainda ontem, o procurador-geral da República,
Paulo Gonet, se manifestou favorável à prisão domiciliar do golpista Augusto
Heleno, 78 anos, que revelou diagnóstico de Alzheimer após ser levado ao
Comando Militar do Planalto para cumprir a pena de 21 anos. É hora de um novo
pedido de habeas corpus coletivo, seguido de resolução do CNJ, para crer na
isonomia entre apenados.
Não é democrático o Estado que permite — por
ato ou omissão — a tomada de territórios populares por grupos criminosos e,
supostamente, para expulsá-los viola direitos e ceifa vidas. A democracia
definha onde feminicídios, estupros, agressões a meninas e mulheres multiplicam-se.
Sete em dez brasileiras vítimas de violência doméstica sofreram impacto também
no trabalho remunerado (46%), nos estudos (42%) e nas relações sociais (68%).
Democracia não sobrevive onde povos indígenas, comunidades quilombolas,
populações ribeirinhas são alijadas do debate sobre proteção ao meio ambiente e
à biodiversidade. Não é democracia se racismo, misoginia, homofobia são crimes
no papel, não na real.
Prender golpistas é vacina pela democracia.
Faltam outras.

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