Correio Braziliense
A mensagem é “se a ONU não
funciona, eu funciono”. E o mundo pode ser tentado a aceitar a promessa de
eficácia como substituto de legitimidade
A criação do “Conselho da Paz” por Donald Trump, com pretensão de gerir conflitos e “reconstruir Gaza”, à primeira vista, parece uma excentricidade, que mistura marketing e voluntarismo autoritário. Entretanto, revela algo mais profundo: a substituição do sistema internacional historicamente moldado desde a Paz de Vestfália, que inspirou a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) no imediato pós-guerra, por uma gramática de poder antiga e brutal, que nos remete à Roma de Augusto. Ou seja, o mundo da soberania e do equilíbrio pelo da tutela e da hierarquia, com fora a Pax Romana como ordem imperial.
A Paz de Vestfália não foi apenas o
encerramento da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), na qual as rivalidades
entre católicos e protestantes e assuntos constitucionais germânicos foram
gradualmente transformados numa luta europeia, do Império Sueco e a França para
diminuir a força da monarquia dos Habsburgos, que daria origem ao Império
Austríaco. A carnificina corroeu economias, destruiu cidades e esgotou
sociedades na Europa Central, sobretudo na Alemanha, e tiveram fim com a
assinatura, em 1648, dos tratados de Münster e Osnabrück, chamados de Paz de
Vestfália.
Vestfália foi o reconhecimento de que a
guerra não é “destino”, mas falha de regulação; e que Estados, ainda que
desiguais, podem coexistir por meio de regras mínimas, negociações e limites
recíprocos. A soberania territorial, a diplomacia permanente e a noção de
“equilíbrio de poder” formaram, a partir dali, uma arquitetura que estruturaria
por séculos a política internacional europeia e, depois, mundial. Ex-secretário
de Estado dos EUA, Henry Kissinger via em Vestfália mais um procedimento do que
uma moral: se há regras, há previsibilidade; se há previsibilidade, há
contenção; e, se há contenção, há sistema.
Trump opera no sentido inverso. Seu “Conselho
da Paz” não é apresentado como instância multilateral, mas como clube privado
de adesão condicionada. O desenho institucional vazado, com mandato vitalício
do presidente fundador e a exigência de pagamento bilionário para assentos
permanentes, é mais do que um ataque à ONU. É uma simulação de governança
internacional, na qual a cooperação deve pagar pedágio e depende de submissão.
O novo organismo sustenta-se na força do dinheiro e na coerção militar. A ordem
é unipessoal: o “sistema” não existe como pacto, mas como extensão do governante.
Na lógica westfaliana, não há “dono” do
sistema, mas potências, alianças, conflitos e limites. O arranjo é imperfeito,
mas pressupõe um princípio essencial: a igualdade formal dos Estados soberanos.
Já a lógica de Trump é estritamente hierárquica: há o centro imperial e a
periferia, que pode ser premiada, punida ou cooptada. A “paz” deixa de ser um
equilíbrio construído e passa a ser uma ordem imposta. Em vez do direito como
contenção da força, a força se traveste de direito.
Corte Imperial
É aqui que a figura de Augusto é exumada e
deixa de ser apenas uma referência histórica. Otaviano Augusto consolidou um
império a partir do esgotamento da república e do cansaço social diante de
décadas de guerra civil. Sua grande sacada – e sua perversidade histórica – foi
transformar o fim do conflito em justificativa para a concentração de poder. A
Pax Romana, celebrada como era de prosperidade, foi também o preço
institucional de uma ordem imperial: unidade interna sob disciplina, periferias
sob tutela, e política externa organizada pela ideia de “pacificação” das
províncias. A paz era o nome da vitória. E a vitória era o direito.
A analogia é quase perfeita. Trump tenta
repetir esse movimento no plano global. A ONU, com sua paralisia crônica, suas
contradições e sua incapacidade de resolver crises como Gaza ou Ucrânia,
fornece o álibi perfeito para a substituição do multilateralismo por um império
informal. A mensagem é “se a ONU não funciona, eu funciono”. E o mundo, cansado
de impasses, pode ser tentado a aceitar a promessa de eficácia como substituto de
legitimidade. O perigo é que, nesse novo arranjo, a paz depende de obediência.
A obediência não é fruto do direito, mas do temor diante da assimetria absoluta
de poder.
O Conselho da Paz de Trump aparece como a
forma institucional da hegemonia sem constrangimentos. A ONU, mesmo frágil,
nasceu do pós-guerra como tentativa de conter o retorno do Estado hobbesiano da
guerra total. A Carta das Nações Unidas consagra princípios que, embora
violados repetidamente, estabelecem um padrão moral e jurídico de
autodeterminação, integridade territorial e inviolabilidade de fronteiras.
Trump despreza esse vocabulário porque limita a sua liberdade de ação. A
alternativa que propõe é um mecanismo de esferas de influência onde “paz”
significa aceitar o mapa desenhado pelo mais forte.
Gaza é o laboratório desse modelo. Não se
trata apenas de “reconstrução” e “estabilização”, mas de tutela internacional
com rosto americano, delimitada por interesses estratégicos e por alianças
seletivas. Na Ucrânia, por exemplo, o princípio de soberania nacional é
substituído pela barganha entre grandes atores. O mesmo padrão aparece nas
tensões sobre Groenlândia, México, Venezuela, Cuba, Irã: o intervencionismo não
é improviso, é a nova linguagem do Império.
Nessa moldura, o Conselho da Paz é mais um
rito de submissão. Ao obter adesão rápida de autocracias e aliados
incondicionais, Trump cria uma “corte imperial” contemporânea: um círculo de
reconhecimento simbólico, dependência política e convergência utilitária.
Convidado para participar do conselho, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
está numa saia justa.

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