Disputa de poder não pode atrasar transição energética
Por O Globo
Plano brasileiro atrasa por conflito dos
ministérios de Minas e Energia e Casa Civil com Meio Ambiente e Fazenda
Depois da sensação de frustração ao final da COP30 com a dificuldade de alcançar uma proposta consensual de “mapa do caminho” para a transição energética, o Brasil tomou uma decisão acertada: como continua na presidência da COP até a próxima conferência, anunciou que formularia seu próprio projeto. Mas o prazo se esgotou no início de fevereiro sem nenhum resultado concreto, porque os ministérios envolvidos — Casa Civil, Minas e Energia, Meio Ambiente e Fazenda — simplesmente não conseguem se entender. É compreensível que a proposta do “mapa do caminho” enfrentasse em Belém a resistência dos países cuja economia está atrelada aos combustíveis fósseis. É inexplicável, porém, que esbarre na disputa por espaços de poder em Brasília.
De um lado estão os ministros de Minas e
Energia (Alexandre
Silveira) e da Casa Civil (Rui Costa).
Do outro, Meio Ambiente (Marina Silva)
e Fazenda (Fernando
Haddad). Minas e Energia deseja concentrar as questões básicas relacionadas
ao projeto e tem a seu lado a Casa Civil, defensora de uma agenda
desenvolvimentista que já produziu outros atritos com o Meio Ambiente. Fazenda
e Meio Ambiente defendem que o projeto envolva diversas áreas, sem concentrar
as decisões num único ministério. O embate transformou uma tarefa que parecia
simples em mais uma dificuldade da agenda climática.
Organizações ligadas ao meio ambiente
preocupam-se com o risco de centralização das decisões. “As medidas precisam
ser claras e ter meios de implementação. Devem ser concebidas com a
participação da pasta ambiental e outros ministérios numa perspectiva intersetorial,
sob pena de se transformarem em mais um documento sem ambição climática
capitaneado por Minas e Energia”, afirmou a coordenadora de políticas públicas
do Observatório do Clima, Suely Araújo.
O ideal seria os ministérios se entenderem,
com a Casa Civil ajudando no trabalho colaborativo. Se Minas e Energia é mais
cauteloso na definição de metas, preocupado com a segurança energética, não
pode se eximir do compromisso com a redução da dependência de petróleo, gás e
carvão mineral, como defende o Meio Ambiente. Para isso, é necessário criar
instrumentos financeiros capazes de arcar com os custos da transição
energética, como pretende a Fazenda.
A transição é multidisciplinar. Reúne aspectos
políticos, tecnológicos e financeiros. Também é preciso ser realista. “Em
contexto de crescente uso de inteligência artificial, com aumento na demanda
por energia, o desafio a enfrentar é a segurança energética”, afirma Fernando
Luiz Zancan, presidente da Associação Brasileira do Carbono Sustentável (ABCS).
“O debate não deve se restringir ao fim do uso de combustíveis fósseis. Isso
limita a discussão, já que não acontecerá. Precisamos nos concentrar no manejo
das emissões. Há a possibilidade de reinvenção da indústria com carbono
neutro.”
Todos os argumentos devem ser contemplados.
Para isso, contudo, é necessário um rumo claro, capaz de, na vida real, atingir
um objetivo estratégico: mitigar as emissões de carbono e gases de efeito
estufa. Se os ministérios se desentendem na formulação de políticas, o
recomendável é o presidente da República intervir para colocar ordem em sua
equipe.
Educação tornou-se crítica para defesa
nacional e preservação da democracia
Por O Globo
No novo campo de batalha das guerras cognitivas,
a arma mais eficaz é a formação dos cidadãos
A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan),
a aliança militar ocidental, incluiu recentemente em seus estudos um novo
domínio em que são travadas as guerras. Além dos tradicionais terra, mar e ar e
dos recentes espaço e ciberespaço, os pesquisadores da Otan acrescentaram o
“domínio cognitivo” como sexto campo de batalhas. Nesse novo campo, travam-se
disputas em que se busca aguçar a polarização nas sociedades, minar a confiança
em governos, manipular o discurso público, influenciar eleições e
desestabilizar regimes democráticos por meio de campanhas de desinformação. Nos
estudos da Otan, a Rússia é considerada uma ameaça direta nesse novo domínio, e
a China é classificada como “desafio sistêmico”.
Em 2020, a Otan produziu o estudo “Otan 2030
— Unidos para uma Nova Era”. Embora o termo “guerra cognitiva” ainda não
aparecesse de forma estruturada, o documento já dava ênfase às “ameaças
híbridas” que visam a espalhar desinformação por meio de manipulação digital.
Depois o conceito se tornou mais amplo e profundo. Ele tem relação com aspectos
psicossociais de cada sociedade e se manifesta diariamente nos diversos meios
de comunicação, que ganharam velocidade com o advento da internet e se tornam a
cada dia mais insidiosos com a inteligência artificial (IA). A guerra
cognitiva, na visão dos pesquisadores da Otan, pode ser definida como um
conflito que se trava a cada momento na difusão da informação. A mente humana é
seu principal campo de batalha.
É o que se vê cotidianamente nas redes
sociais, onde circulam conteúdos fraudulentos para atingir todo tipo de
adversário, sejam indivíduos, países, empresas ou instituições. Nos países
democráticos, onde a população vota periodicamente, o choque entre diversos
discursos para convencer o eleitorado é um dos poucos momentos em que a guerra
cognitiva se dá de forma explícita, sobe à superfície.
A defesa contra essas armas depende do preparo das mentes atingidas por elas — ou, noutras palavras, de sua formação. Só uma população bem instruída é capaz de se proteger contra manipulações que, em última análise, podem colocar em risco o projeto nacional de perpetuar a democracia, como afirmou em sua coluna no GLOBO Priscila Cruz, presidente do movimento Todos Pela Educação. Ela faz um alerta: a baixa qualidade da educação no Brasil deixa a maior parte da população vulnerável à enxurrada de desinformação que circula pela internet. Está em jogo não apenas uma disputa política, mas o controle da mente numa sociedade desigual também na capacidade de discernimento diante do que é verdade ou mentira. Por isso investir em educação não é essencial apenas para o desenvolvimento econômico, mas também para a defesa nacional e para a preservação das liberdades e da democracia.
PT x Bolsonaro, parte 3
Por Folha de S. Paulo
Datafolha mostra Flávio em empate com Lula
num 2º turno, o que repetiria polarização das últimas eleições
Com Orçamento em frangalhos e escândalos,
disputa se prenuncia dura para o petista, que tem filho na condição de
investigado em potencial
Quando a pretensão presidencial do
senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ) foi anunciada por
seu pai, em dezembro do ano passado, havia bons motivos para desconfiar da
seriedade da empreitada.
Previa-se que Flávio herdaria a elevada taxa
de rejeição do eleitorado a Jair
Bolsonaro (PL), àquela altura já preso e condenado por
tentativa de golpe de Estado. O próprio senador afirmou de início que poderia
não levar a candidatura até o fim —e haveria um "preço" para isso.
O que parecia não mais que uma manobra para
garantir a fidelidade ao sobrenome por parte dos demais postulantes à direita,
entretanto, vai se impondo como realidade política pela força das intenções de
voto.
Em pesquisa Datafolha realizada
neste início de março, Flávio tem cerca de um terço das preferências do
eleitorado no primeiro turno; no segundo, consegue
um empate técnico com o incumbente, Luiz Inácio Lula da
Silva (PT),
de 43% a 46%, respectivamente.
Com a ressalva de que ainda há muito a
acontecer até a abertura das urnas, os números de hoje apontam para mais uma
disputa presidencial polarizada entre um petista e um Bolsonaro —a terceira
consecutiva desde 2018, quando Jair derrotou o hoje ministro da Fazenda,
Fernando Haddad.
Cogitado como uma terceira via, o governador
do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), não
alcança mais de 7% das intenções no primeiro turno. Outros nomes, como os
governadores de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo),
do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), e de Goiás, Ronaldo
Caiado (PSD), marcam ainda menos.
Já o governador de São Paulo, Tarcísio de
Freitas (Republicanos), preferido das forças do centro à
direita, deixou claro que não se animará a concorrer contra o candidato
escolhido por Jair Bolsonaro, seu padrinho político.
Pelo cálculo político mais convencional,
Tarcísio, menos rejeitado, seria um adversário mais difícil que Flávio para
Lula. O que se prenuncia, no entanto, é uma contenda dura para o petista.
Mesmo com a entrada em vigor da isenção do
Imposto de Renda para rendimentos até R$ 5.000 mensais, sua principal bandeira
eleitoral até aqui, a avaliação de Lula não mostra melhora. Consideram seu
governo ruim ou péssimo 40% dos brasileiros aptos a votar, ante 37% em
dezembro, enquanto os que o acham bom ou ótimo se mantêm em 32%.
A economia, sufocada por juros nas alturas,
não promete maiores surpresas positivas até o pleito, e as contas orçamentárias
em frangalhos não permitem novos aumentos de gasto público sem severas
consequências.
Os escândalos no campo político são sempre
perigosos para o ocupante do Palácio do Planalto —e Lula tem um filho na
condição de investigado em potencial. Enquanto isso, o bolsonarismo celebra as
suspeitas que se acumulam no caso Banco Master contra seu maior algoz, o ministro
Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Motor chinês perde potência
Por Folha de S. Paulo
Gigante asiático, que ostentava taxas de
crescimento acima de 10% até 2010, agora admite taxa abaixo de 5%
Guerra no Oriente Médio amplia incertezas no
país, que importa petróleo da região, assim como risco de mais um choque de
tarifas dos EUA
A perda de fôlego da economia da China consolidou-se
como fator constante nos cálculos do crescimento global na última década. A
expansão de mais de 10% ao ano do PIB do
gigante asiático jamais se repetiu após 2010. A meta recém-anunciada de uma
taxa entre 4,5% e 5% neste ano indica um aprofundamento dessa tendência.
O teto coincide com o resultado do ano
passado. O piso
significaria o pior desempenho desde 1990 (3,9%), excetuando-se
o auge da pandemia, em 2020.
Ao apresentar tal perspectiva, o
establishment de Pequim considerou os cenários para a guerra desencadeada
no Oriente Médio por
EUA e Israel contra o Irã.
Embora a China detenha a maior produção de
petróleo do planeta e reservas estratégicas invejáveis, cerca de 50% de suas
importações do insumo provêm da região em conflito —12% do Irã— e transitam pelo
Estreito de Hormuz, no momento clausurado pelo regime de Teerã.
O horizonte temporal incerto da guerra expõe
todos os países aos riscos de
queda do comércio e da atividade. Nesse sentido, a projeção não
deixa de ser um alerta à parcela do mundo avessa às iniciativas do
americano Donald Trump.
A possível retomada do tarifaço dos Estados
Unidos sobre bens chineses em meados deste ano, quando
expirarão as sobretaxas reduzidas a 10%, pode coincidir com dificuldades
maiores para a realocação da exportação chinesa a outros mercados.
Se o cenário internacional ainda é movediço,
maiores certezas há sobre os gargalos domésticos da China para impulsionar o
crescimento econômico. Desde a crise financeira de 2008, o país vem fracassando
em sua tentativa de fazer do consumo interno o motor do PIB, ainda hoje
alavancado por exportações e investimentos.
A persistente crise no setor imobiliário, o
elevado desemprego entre jovens, os gastos sociais do governo aquém das
necessidades da população e o veto ao acesso de migrantes rurais aos serviços
públicos das cidades traduzem-se na falta de confiança do consumidor e na opção
predominante pela poupança.
Os seguidos pacotes de estímulo ao consumo e
a redução da taxa básica de juros, hoje em 3% ao ano, anunciados pelo governo
de Xi Jinping pouco alteraram o quadro —que dificulta o cumprimento da meta de
duplicar o PIB per capita chinês até 2035, incluída no 15º Plano Quinquenal
divulgado na quinta-feira (5).
Sem expansão significativa da economia por longo período, o próprio regime ditatorial pode ingressar em uma era de incertezas.
O melhor dos mundos
Por O Estado de S. Paulo
Pesquisa mostra que brasileiros criticam
gasto público, mas querem que o Estado dê amplo suporte à população. Cabe às
lideranças políticas dizer aos cidadãos que essa conta não fecha
Uma pesquisa realizada pelo Instituto Ideia a
pedido do Movimento Orçamento Bem Gasto revelou que a maioria da população
reconhece que a gestão das contas públicas é um problema grave para a sociedade
brasileira. A maior parte dos consultados acredita que o governo federal gasta
mais do que pode e quase metade apoia a existência de regras para controlar as
despesas.
Essas convicções, no entanto, são deixadas de
lado quando os entrevistados são chamados a opinar sobre alguns dos maiores
dispêndios do Orçamento-Geral da União. A ampla maioria considera que os
benefícios pagos pelo governo devem ser reajustados anualmente junto com o
salário mínimo, e a maior parte defende a existência de um valor mínimo
obrigatório para investimentos em saúde e educação.
Essa contradição reflete perfeitamente os
debates que ocorrem entre o Executivo e o Legislativo sobre o quadro fiscal. De
maneira geral, todos são favoráveis a medidas que resultem em cortes de
despesas ou, ao menos, que reduzam desperdícios, mas basta o governo apresentar
algo concreto para que uma legião se insurja contra a proposta.
O problema nem sempre se deve a uma
polarização que impossibilita debates e acordos entre direita e esquerda. No
governo Lula, por exemplo, a oposição mais ferrenha às tímidas propostas da
equipe econômica geralmente vem de integrantes do próprio PT.
Foi a mobilização dos deputados petistas que
garantiu a aprovação, na Câmara, do arcabouço fiscal proposto pelo ministro da
Fazenda, Fernando Haddad, e a retirada das áreas de saúde e educação do alcance
desse limite. No dia seguinte, foi a mesma bancada que liderou as articulações
para retomar a política de valorização do salário mínimo, também à revelia do
arcabouço.
Nenhuma âncora fiscal pode funcionar se
parcela tão significativa das despesas ignora suas regras. Ora, as despesas
ligadas ao salário mínimo correspondem a cerca de 30% dos gastos primários do
governo. Além de indexar boa parte das aposentadorias e pensões, o piso é
referência para o Benefício de Prestação Continuada (BPC), o seguro-desemprego,
o salário-maternidade, o seguro-defeso e o abono salarial, entre outras.
O apoio popular a um tema, no entanto, não
pode ser justificativa para aprová-lo, assim como sua rejeição não pode ser
pretexto para barrá-lo. A população sempre quer o melhor dos mundos, ainda que
sua pretensão seja utópica. Cabe ao governante assumir o papel pedagógico de
expor essas questões, definir a agenda e estabelecer prioridades.
“Isso começa por tratar as pessoas, o eleitor
e o cidadão como adultos capazes de perceber as contradições e a necessidade de
fazer escolhas”, disse o economista Fabio Giambiagi, pesquisador associado do
FGV/Ibre, ao Estadão.
A forma como o debate sobre a tarifa zero tem
sido conduzido representa o exato oposto disso. A pesquisa mostrou apoio
massivo ao transporte público gratuito e rejeição majoritária ao aumento de
impostos para financiá-lo. Que a população pense dessa forma é até
compreensível, mas é inaceitável que o governo, em nome do apelo eleitoral do
tema, finja que essa conta fecha.
Reformas não são temas palatáveis. Se é
difícil convencer a sociedade sobre a necessidade de aprová-las, ignorar a
realidade é contratar um ajuste ainda mais duro no futuro. Foi somente após
registrar uma inflação anual de três dígitos, assistir ao derretimento de sua
moeda e ver a pobreza atingir metade da população que a Argentina desistiu, ao
menos por ora, do peronismo.
Eleito sob a promessa de adotar um polêmico
Plano Motosserra, o presidente Javier Milei tem promovido cortes dolorosos nas
despesas. Ao contrário do que se imaginava, no entanto, seu governo tem sido
bem avaliado, a ponto de recentemente ter conseguido aumentar sua base no
Congresso e aprovar uma reforma para ampliar a jornada de trabalho.
O Brasil não precisa chegar a uma situação
tão extrema para reequilibrar as contas públicas. Basta que o presidente da
República cumpra o papel para o qual foi eleito e assuma sua posição de
liderança de conduzir o País com responsabilidade.
A atualidade de Adam Smith
Por O Estado de S. Paulo
Há exatos 250 anos, ‘A Riqueza das Nações’
explicava algo que mal existia: o crescimento sustentado – que só se dá no
livre mercado, no dinamismo comercial e na previsibilidade jurídica
Poucas ideias envelheceram tão bem – e seguem
tão contestadas – quanto a de que sociedades prosperam quando permitem que
pessoas troquem, concorram e se especializem livremente. Há 250 anos, Adam
Smith ofereceu em A
Riqueza das Nações uma explicação para algo que mal existia:
crescimento sustentado.
Durante quase toda a história humana,
praticamente ninguém ficou mais rico de uma geração para outra. Renda imóvel.
Expectativa de vida em torno de 30 anos. Mortalidade infantil devastadora. O
que mudou não foi a natureza humana, mas o ambiente institucional: mercados
mais amplos, divisão do trabalho, liberdade para inovar – e falhar. Esse
arranjo rompeu séculos de estagnação.
Proteção à propriedade, abertura ao comércio
e regras previsíveis tornaram possível a acumulação de conhecimento e capital.
Sistemas descentralizados não exigem que alguém saiba tudo, apenas que cada um
saiba algo. Partem de uma premissa incômoda, mas libertadora: somos falíveis, e
ninguém detém conhecimento suficiente para dirigir o todo.
O processo não foi perfeito. Houve miséria
urbana, guerras e colapsos. Ainda assim, há dois séculos, cerca de 90% da
humanidade vivia na pobreza extrema; hoje, é menos de 10%. A expectativa de
vida mais que dobrou. A mortalidade infantil despencou. A alfabetização deixou
de ser privilégio e virou moeda comum. Após a guerra fria, a globalização
turbinou esse processo. Países que se integraram ao comércio mundial, sobretudo
na Ásia, experimentaram quedas massivas da pobreza.
Imperfeições existem. Crises ocorrem. Mas
qual sistema produziu resultados superiores de forma consistente? Como observou
Churchill, “o vício inerente do capitalismo é a distribuição desigual de
benesses; a virtude inerente do socialismo é a distribuição igual de misérias”.
O mal-estar político atual não apaga esses
resultados. Ganhos graduais raramente viram manchete; perdas localizadas
dominam o debate. À medida que padrões de vida sobem, também sobem
expectativas. Eis o paradoxo: o “problema” do mundo liberal pode não ser seu
fracasso, mas sua eficácia prolongada.
Ordens abertas não oferecem repouso final.
Não há decisão última nem autoridade incontestável. Mercados e democracias
funcionam como processos contínuos de correção: não prometem infalibilidade,
prometem revisão. Essa abertura gera progresso – e ansiedade. Mercados produzem
riqueza, mas não produzem automaticamente coesão cívica. Produzem escolhas –
sobre onde viver, como trabalhar, que vida levar. E escolhas ampliadas não
eliminam conflitos; às vezes os tornam mais visíveis.
Nesse ambiente florescem promessas de
controle estatal mais assertivo: tarifas, políticas industriais voluntaristas,
nacionalismos econômicos. Experimentos semelhantes já foram testados. O Brasil
conhece todos – desgraçadamente, bem demais. Produziram ganhos pontuais e
custos duradouros, além de captura por interesses organizados.
O exemplo chinês é frequentemente invocado
como prova de que crescimento pode coexistir com forte centralização. Convém
lembrar que sua aceleração ocorreu com a liberalização iniciada após a morte de
Mao. A virada estatista recente coincide com a desaceleração. Nem mesmo os
Estados Unidos – por décadas a principal vitrine da economia aberta – ficaram
imunes às ilusões de demagogos como Donald Trump.
Nunca se tratou de escolher entre ausência ou
onipresença do Estado. Sempre houve Estado, garantindo contratos e regras
gerais. A diferença está entre garantir condições de concorrência e escolher
“campeões nacionais”. A primeira coisa amplia possibilidades; a segunda concentra
riscos – e também ganhos para os “campeões”, enquanto as perdas são
socializadas.
Celebrar A Riqueza das Nações não exige idolatria. O
mercado é imperfeito. Mas sistemas baseados em trocas voluntárias, competição e
regras estáveis produziram a elevação de bem-estar mais espetacular da história
humana.
Ordens abertas raramente colapsam de súbito;
mas podem se estreitar aos poucos. A riqueza das nações modernas nasceu da
desconfiança do controle centralizado e da confiança na pluralidade criativa. O
grande risco hoje não é a escassez de recursos, mas o empobrecimento dessa fé.
Rearranjo chinês
Por O Estado de S. Paulo
China reduz meta de crescimento de curto
prazo, mas espera dobrar PIB per capita em 2035
A China anunciou que buscará crescer entre
4,5% e 5% em 2026, uma redução de até meio ponto porcentual em relação à meta
de crescimento de cerca de 5% que perseguiu entre 2023 e 2025.
Ao estabelecer a meta de expansão do PIB mais
baixa desde o início dos anos 1990, Pequim reconhece que navega num “cenário
grave e complexo, no qual choques e desafios externos se entrelaçam com
dificuldades internas e escolhas políticas difíceis”.
Uma China que cresce menos é um alerta para
parceiros comerciais como o Brasil e tantos outros, que nos últimos anos
tornaram-se extremamente dependentes das exportações para o gigante asiático.
Mas do ponto de vista chinês um rearranjo econômico interno faz todo o sentido.
Para além do caos comercial instalado por
Donald Trump desde que retornou à Casa Branca, Pequim está ciente de que sua
grande batalha é interna. Mais do que crescer de forma acelerada exportando
toda sorte de produtos para o mundo, modelo que permitiu à China a transição de
um modelo de quase subsistência para o posto de segunda maior economia do
mundo, Pequim sabe que precisa estimular seu mercado doméstico. O desafio agora
é crescer menos quantitativamente e mais qualitativamente.
Para isso, o governo de Xi Jinping aposta em
medidas de estímulo ao consumo interno, como um programa de financiamento de
troca de bens usados por novos, orçado em cerca de US$ 36 bilhões. Se
funcionará, é outra questão. Nos últimos anos, o governo vem adotando medidas
graduais para tentar convencer os chineses a gastarem mais, sem ter tido muito
sucesso. Para especialistas, as políticas de estímulo ao consumo seguem sendo
tímidas.
Por não contarem com uma rede de proteção
social significativa, os chineses são tradicionalmente cautelosos em relação ao
consumo, tendência reforçada pela recente pandemia de covid-19. Traumatizados
pelo severo lockdown imposto
pelo governo e por uma crise no mercado imobiliário que se arrasta há anos, os
chineses resistem a gastar.
Embora a meta oficial de inflação para este
ano seja de 2%, instituições financeiras como o ING estimam que o índice de
preços ao consumidor encerrará 2026 bem abaixo disso, em 0,9%. A China,
contudo, tem metas para atingir até 2035, e a que realmente lhe importa é
dobrar o PIB per capita do país. De acordo com dados do Banco Mundial, o PIB
per capita chinês equivalia a US$ 13.300 em 2024, enquanto o do Brasil era de
US$ 10.310.
Pequim aposta fortemente em setores como
inteligência artificial, robótica e biomedicina, nos quais já vem se
destacando, e se comprometeu a aumentar em 10% o orçamento anual para ciência e
tecnologia.
A burocracia chinesa almeja a vanguarda
global em segmentos tecnológicos de alto valor, o que garantiria a prosperidade
da população e, sobretudo, a manutenção do regime de governo.
Obviamente, o alto grau de incerteza econômica e geopolítica atuais desafia a estratégia chinesa. Mas convém não duvidar de um país que, poucas décadas atrás, tinha um PIB inferior ao do Brasil e hoje já rivaliza com os EUA.
Violência e discriminação ainda perseguem as
mulheres no país
Por Valor Econômico
Apesar de avanços, as mulheres até hoje enfrentam tratamentos desiguais em relação aos homens
Nas fábricas, escritórios, nas ruas ou no
lar, as mulheres até hoje enfrentam tratamentos desiguais em relação aos
homens. Há poucas delas nos cargos de direção das maiores empresas, há muitas
delas - a maioria - na massa de trabalhadoras, mas que recebem menos que homens
para executar o mesmo serviço. Na vida privada, as mulheres são as principais
vítimas de tratamentos física ou psicologicamente violentos, como feminicídios,
estupros, assédio sexual ou financeiro. Em 2025, 1.568 mulheres foram mortas no
país, segundo o relatório “Retrato dos Feminicídios no Brasil”, do Fórum
Nacional de Segurança Pública. Em uma década, o número de mortes violentas de
mulheres mais que triplicou e a curva é ascendente.
As mulheres conquistaram seu lugar no mundo
do trabalho com preparo - são mais escolarizadas que os homens, por exemplo.
Essas qualidades ainda não são plenamente reconhecidas. Levantamento do
Ministério do Trabalho com 54 mil empresas com mais de 100 empregados mostrou que
elas ganham em geral 21,2% menos que homens. A diferença não é pequena. Pessoas
do sexo feminino compõem 41,1% do contingente formalmente empregado, mas
recebem só 35% da massa total de rendimentos. Se os salários fossem iguais para
os dois gêneros, essa massa cresceria R$ 92,7 bilhões. Há discriminação dupla
no caso das mulheres negras. Em relação a homens não brancos, seu salário médio
é 53% menor, isto é, eles ganham mais que o dobro. No topo da cadeia de comando
das empresas, houve progressos. Entre executivos, as mulheres ocupam 35,7% dos
cargos, segundo a consultoria Grant Thorton. Pesquisa mundial feita pelo
LinkedIn mostra, no entanto, que há um funil na cúpula das organizações para as
mulheres. Enquanto sua participação nos cargos de entrada é de 47,8%, em
funções seniores é de 37%, e 22,3% em vice-presidências. Não chega a um terço
(29,1%) a proporção de mulheres CEOs.
A demonstração de competência e de preparo
intelectual abriu caminho nas empresas onde, entretanto, muitas vezes permanece
entrincheirada a cultura machista. Mulheres com mestrados e doutorados são em
maior número que as pessoas do sexo masculino com idêntica formação, mas eles
são promovidos com mais frequência. Na ocupação de cargos que estão mais
próximos aos centros de decisão as mulheres ainda são preteridas. A conquista
de posições na hierarquia empresarial pelas mulheres levou à criação, à
extensão e à intensificação dos programas de diversidade e inclusão, que têm
melhorado a produtividade das empresas. Globalmente, 92% das empresas médias,
segundo a Grant Thornton, estão comprometidas com esses programas.
Fora do mundo do trabalho, há uma realidade
trágica. São mulheres menores de idade as principais vítimas de estupros, que
em 2025 chegaram a 83 mil casos - um a cada seis minutos. Esse é um dos crimes
mais difíceis de combater: dois terços deles são cometidos por pais, tios e
membros das famílias dos menores. As maiores vítimas são as mulheres negras,
55,6% do total.
Mulheres adultas têm outras armadilhas pela
frente, e a pior, que avança no Brasil, é o feminicídio, a morte violenta de
mulheres por não se submeterem aos desígnios masculinos. Metade desses crimes é
cometida em pequenas cidades do interior, onde a subnotificação é imensa. “A
violência contra as mulheres está aumentando”, diz Maria da Penha Fernandes, a
farmacêutica cearense que ficou tetraplégica ao ser alvejada pelos tiros do
marido e que deu nome à lei que agora completa 20 anos - um marco na história
da legislação de proteção às mulheres (Valor,
ontem). “Nas cidades do interior não há a quem apelar nem onde reclamar”, diz.
As estatísticas confirmam. Metade das mortes ocorre em cidades até 100 mil
habitantes. Nelas, segundo o Fórum, apenas 5% têm Delegacia da Mulher (criação
da lei Maria da Penha) e só 3% têm Casa de Abrigo.
Mas a vigilância contra o feminicídio está
aquém do desejável nas cidades maiores. O Estado de S. Paulo registrou
crescimento de 96,4% nos assassinatos entre 2021 e 2024. Mais de dois terços
das cidades acima de 100 mil têm Delegacia da Mulher. A execução da lei falha.
Pelo menos 13,1% das mulheres mortas tinham Medida Preventiva de Urgência, que
garante proteção à mulher. Segundo o g1, há 336 homens condenados ou suspeitos
de feminicídio que continuam em liberdade. O relaxamento do cumprimento legal é
péssimo, porque desincentiva as mulheres de denunciarem agressões ou pedirem
proteção.
O assassinato é o caso extremo na cadeia da
discriminação. Foram vítimas de algum tipo de violência (ofensa, espancamento,
tentativa de ato sexual à força etc.) 37,5% das mulheres, segundo o relatório
do Fórum, um universo projetado de 17,7 milhões de mulheres.
O arcabouço legal contra a violência e a desigualdade contra a mulher existe, falta dotar as polícias e serviços de assistência social de recursos, pessoal e capilaridade. Contra a desigualdade no emprego, a determinação das empresas para eliminar a discriminação contra a mulher tem tudo para avançar mais rapidamente.
O fantasma dos furtos no Brasil
Por Correio Braziliense
O que antes era um delito de oportunidade,
hoje é o combustível de uma cadeia complexa que envolve receptação qualificada,
revenda de peças e de produtos em pontos físicos e até mesmo por meio da
internet
Uma mudança na dinâmica da criminalidade vem
ocorrendo de forma quase silenciosa no Brasil. Enquanto os índices de
ocorrências violentas, como o homicídio, apresentam quedas graduais em diversas
capitais, o furto — que não causa marcas de sangue, mas deixa um profundo
impacto psicológico nas vítimas — segue uma trajetória inversa e alarmante.
Números mais recentes do Anuário Brasileiro
de Segurança Pública indicam a resistência maior à redução desse registro,
especialmente nas grandes cidades. Os dados ainda apontam que esse ato
delituoso atinge várias camadas da sociedade, além de desafiar o setor de
segurança em níveis variados.
Uma das leituras possíveis sugere a
ocorrência de uma "especialização" desse tipo de crime: o que antes
era um delito de oportunidade, hoje é o combustível de uma cadeia complexa que
envolve receptação qualificada, revenda de peças e de produtos em pontos físicos
e até mesmo por meio da internet. Nesse cenário, discutir sobre a falta de
policiamento ostensivo é fundamental, mas outros pontos importantes se colocam
para a solução das questões envolvendo os furtos.
Um deles é a falha na punição. O sistema judiciário,
muitas vezes, trata a ocorrência sob o princípio da insignificância ou por meio
de decisões que permitem ao infrator retornar às ruas antes mesmo de a vítima
concluir a burocracia do boletim de ocorrência. Esse "ciclo" acarreta
uma dose considerável de impunidade que desestimula a denúncia e mantém os
autores dos delitos em atividade quase constante.
O risco da perda patrimonial — que faz o
cidadão alterar a rotina, deixar de frequentar espaços públicos e viver sob
aparatos de vigilância que pesam no orçamento — também impacta a economia
nacional, causando prejuízos bilionários. Na conta dessa "sangria,"
entram o preço do objeto subtraído e uma série de valores, interferindo,
inclusive, no Orçamento da União. As avaliações recentes sinalizam que furtos,
roubos e estelionatos devem gerar perdas equivalentes a cerca de 1% do Produto
Interno Bruto (PIB).
Para reverter esse quadro, o Brasil precisa
ir além do que vem fazendo. O investimento maior em inteligência, focando o
rastreio financeiro dos "administradores" dos esquemas, é urgente.
Partir de forma firme para a identificação e o posterior fechamento de
estabelecimentos que operam a receptação é outra medida essencial. Usar a
tecnologia como barreira de furtos e arma de investigação deve ser prioridade.
Criar mecanismos para garantir que o infrator seja punido, sem necessariamente
lotar ainda mais os presídios, mas por meio de monitoramento e de penas
alternativas eficazes, completa o rol de ações necessárias.
O país não pode aceitar o furto como "de baixo potencial ofensivo", dificultando formas de coibir a prática. Tratar o pequeno delito com a seriedade é o caminho para assegurar o direito básico de viver sem a sombra da subtração da paz e dos bens conquistados com trabalho.
Controle da dengue depende da prevenção
Por O Povo (CE)
A situação mais crítica é a de Quixeramobim,
único município com IIP alto. Isso significa que mais de 3,9% dos imóveis da
cidade do Sertão Central do Ceará — a 186,5 km de Fortaleza — apresentam focos
do mosquito
No Ceará, 84,2% dos municípios tiveram índice
baixo de infestação do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, da
zika e da chikungunya, em imóveis no ano passado. O copo meio cheio mostra que
a ampla maioria das 184 cidades cearenses manteve o risco de infestação do
inseto sob controle.
Mas não se pode ignorar a situação dos 29
municípios com nível médio ou alto de infestação. Os dados constam no Boletim
Entomológico da Secretaria da Saúde do Estado (Sesa), que mede, entre outros
indicadores, o Índice de Infestação Predial (IIP), voltado à identificação de
criadouros e à medição do nível de concentração de focos do mosquito.
A situação mais crítica é a de Quixeramobim,
único município com IIP alto. Isso significa que mais de 3,9% dos imóveis da
cidade do Sertão Central do Ceará — a 186,5 km de Fortaleza — apresentam focos
do mosquito. Fortaleza, Senador Sá, Varjota, Viçosa do Ceará, Carnaubal,
Ipueiras, Fortim, Jaguaretama, Canindé, Ibicuitinga, Quixadá, Choró, São Luís
do Curú, Itapajé, Maracanaú, Redenção, Itapiúna, Baturité, Aracoiaba, Umirim,
Horizonte, Ipaumirim, Orós, Jucás, Crato, Araripe, Caririaçu e Barbalha têm
situação intermediária, com índice entre 1% e 3,9%. Os demais 155 municípios
têm índice baixo, inferior a 1%.
A coleta de dados é uma etapa essencial no
combate à disseminação de doenças sazonais e previsíveis, como as arboviroses
transmitidas pelo Aedes aegypti. Assim, a concentração de esforços nas
localidades em situação mais crítica permite uma gestão mais eficiente de
recursos.
Segundo Carla Freitas, articuladora da área
técnica do controle vetorial das arboviroses da Sesa, entre 2018 e 2025 houve
tendência de redução progressiva do Índice de Infestação Predial na maioria dos
municípios cearenses. É um avanço significativo, mas isso não significa
erradicação do risco.
A redução do índice é efeito direto da
atuação de agentes de endemias, que fazem visitas às residências para orientar
a população, reforçando ações de prevenção e identificando riscos durante o
período chuvoso no Ceará. Entre os meses de fevereiro e maio, os mosquitos
encontram condições mais propícias para reprodução.
Mesmo em um cenário controlado, as
arboviroses transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti são doenças graves, com
risco de morte para a população. Em 2025, três óbitos foram causados pela
dengue. É a menor marca em 18 anos, mas ainda ilustra o perigo da doença,
que chegou a vitimar 70 pessoas em 2013. Houve ainda 4.742 casos confirmados,
incluindo registros do sorotipo 3, que não circulava no Estado há décadas e que
impõe cuidados ainda maiores.
A prevenção é o caminho para combater as arboviroses. Tanto o monitoramento quanto o engajamento da população para evitar a proliferação do Aedes aegypti, assim como os avanços da medicina, como a vacina contra a dengue — cujo acesso vem sendo ampliado no Sistema Único de Saúde (SUS) — contribuíram para criar um cenário de estabilidade há muito vislumbrado. Ainda há, porém, espaço para avançar. E a população tem um papel fundamental nos próximos passos.

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