Abusos no litoral refletem desprezo pelo turismo
Por O Globo
Se país quer ser potência do setor, precisa
tratar civilizadamente quem vai às praias, e não tentar espoliar
A agressão a dois turistas às vésperas do Ano Novo em Porto de Galinhas, litoral de Pernambuco, chamou a atenção para a desordem e para os abusos que afligem a costa do país. Eles haviam se recusado a pagar pelo aluguel de cadeiras de praia e guarda-sol além do combinado. Diante da repercussão, a prefeitura interditou a barraca, multou os responsáveis e proibiu a cobrança de consumo mínimo. Medidas similares de controle já foram tomadas pelas prefeituras de Salvador e Maraú (BA), Guarujá e Santos (SP) e também Rio e Niterói (RJ). A Secretaria Nacional do Consumidor anunciou um manual de boas práticas para vendedores e banhistas e prometeu uma nota técnica voltada à fiscalização.
A alta de preços em períodos de maior demanda
é tão previsível quanto as queimaduras nos pés descalços em areias escaldantes.
Um pastel chegou a ser vendido a R$ 40 em Florianópolis. Cadeiras e guarda-sóis
eram alugadas por até R$ 380 no Guarujá. Um prato com frutos do mar em Búzios
custava R$ 500 no início do ano. No último fim de semana, o Procon identificou
232 barracas sem tabela de preço nas praias do Rio. Multiplicam-se golpes nas
maquininhas de cobrança.
Mas o Brasil tem experiência suficiente com o
fracasso de controle de preços para saber que se trata de ação tão
bem-intencionada quanto inútil. É escassa a chance de medidas dessa natureza
terem efeito prático diante de uma força que segue a demanda com a mesma
regularidade com que as marés seguem as fases da Lua. Isso não quer dizer,
porém, que nada possa ser feito para disciplinar as praias na alta estação.
É preciso haver licenciamento correto dos
serviços, cobrança de impostos e garantia de que ninguém seja dono da praia.
Quem quiser levar suas próprias barracas e alimentos não pode ser assediado.
Nesse aspecto, há muito a aprender com outros países, como a Grécia, polo
turístico que atraiu, de janeiro a outubro do ano passado, 35,2 milhões de
visitantes (no Brasil, seria o equivalente a receber mais de 700 milhões, em
vez dos 9,3 milhões que vieram para cá em 2025).
As regras em vigor nas praias gregas mostram
que é perfeitamente possível manter a situação sob controle nos momentos de
explosão da demanda. Diante do afluxo crescente de gente, a Grécia aprovou em
2024 uma nova legislação para ocupação da costa. A exploração comercial é
restrita a no máximo 50% do espaço, ou 30% nas áreas protegidas. Cada concessão
ou barraca tem direito a um máximo de 500 metros quadrados e só pode ocupar 60%
com guarda-sóis (30% nas áreas protegidas). É obrigatória uma distância de seis
metros entre elas para dar espaço aos banhistas. Violações são punidas com
multas pesadas, além de apreensão de material. Há ainda um aplicativo para os
visitantes obterem informações úteis e encaminharem reclamações aos órgãos de
fiscalização. A vigilância passou a ser feita com ajuda de drones. Em cinco
dias, no início do verão de 2024, foram distribuídos € 350 mil em multas a
bares e restaurantes que ocupavam ilegalmente áreas de praias que deveriam
estar livres.
O regramento das praias gregas é apenas uma
entre várias fontes de inspiração para o Brasil. A desordem e os abusos nas
nossas praias viram notícia no mundo todo. Se o país almeja se tornar uma
potência turística como a Grécia, precisa encontrar meios de tratar
frequentadores das praias de modo civilizado, em vez de tentar espoliá-los.
Pará precisa de apoio federal para coibir
contrabando de madeira nobre
Por O Globo
Sistema de controle estadual se mostra
ineficaz. Estudo detectou 78 mil m3 de mercadoria suspeita de ilegalidade
Tem-se agravado a ação de grupos que atuam na
extração ilegal de madeira de lei no Pará, de acordo com informações divulgadas
no início do ano pela ONG britânica Environmental Investigation Agency (EIA),
especializada na denúncia de crimes ambientais. A vigilância sobre essa
indústria clandestina precisa ser reforçada e seguida de punições rigorosas.
Entre 2019 e 2024, a EIA identificou, a
partir da análise de bancos de dados e imagens de satélites, 53 mil metros
cúbicos de madeira de alta qualidade do Pará com fortes indícios de extração
ilegal, como
revelou reportagem do GLOBO no ano passado. O resultado de análises
posteriores divulgado neste mês constatou que mais 25 mil metros cúbicos de
madeira foram vendidos com suspeita de ilegalidades. Os negócios obscuros
envolveram, portanto, 78 mil metros cúbicos de madeira nobre.
Da cadeia de ilegalidades faziam parte 19
serrarias, 16 exportadores e, na ponta final do crime, 30 importadores
nos Estados
Unidos e União Europeia (UE). Uma das rotas de exportação do produto
ilegal conectava fazendas do Pará à Global Forest Lumber Company, importadora
americana dona de marcas exclusivas de madeira de alta qualidade, como ipê e
cumaru brasileiros. A Maximo, uma dessas marcas, vendeu ipês para instalações
em hotéis das redes Marriott e Hyatt na Flórida e para um espaço VIP do Grande
Prêmio de Fórmula 1 de Miami, em 2023.
Diante de algumas dessas descobertas, o
governo da Holanda multou um importador que infringiu o Regulamento Europeu da
Madeira, conjunto de regras que exige investigação da origem do produto. Uma
lei europeia veda importações de regiões de desmatamento ilegal. Os Estados
Unidos contam também com legislação semelhante. Em 2008, a lei de proteção à
vida selvagem de 1900, conhecida como Lei Lacey, foi ampliada para vetar a
importação de plantas e madeiras obtidas de forma ilegal.
Leis desse tipo são o instrumento necessário
para que haja retaliação — e nem será possível reclamar de protecionismo. O
Brasil pode pagar caro no comércio exterior pela tibieza na fiscalização. O
sistema estadual autônomo do Pará não tem se mostrado eficaz para coibir a
extração ilegal. É preciso conectá-lo à plataforma do Ibama para conter a
degradação seletiva da Floresta Amazônia no estado.
Uma proposta feita num encontro realizado em setembro do ano passado entre Ministério Público do Pará, MP Federal, Ibama e Secretaria Estadual de Meio Ambiente é implementar um sistema digital de rastreamento em tempo real do comércio de madeira do Pará, integrado à plataforma federal do Ibama. A ideia precisa ser levada adiante com presteza. Apenas com apoio federal a questão tem alguma chance de ser resolvida.
Caso Master exibe valor público do jornalismo
profissional
Por Folha de S. Paulo
Quando autoridades cooperam para abafar
escândalo, vem da imprensa o impulso crítico contra a acomodação
Veículos prestam um serviço público ao
preencher lacunas deixadas por instituições desinteressadas na elucidação das
fraudes
Se o poder corrompe, o poder absoluto
corrompe absolutamente. A ideia, expressa pelo historiador britânico Lord Acton
no final do século 19, ilumina uma tendência das organizações políticas que não
zelam pelos freios e contrapesos.
A crise de desconfiança que se aproxima da
cúpula do Judiciário brasileiro dialoga com a profecia de Acton. Durante muitos
anos os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) vieram
acumulando poderes atípicos para colegiados da última instância constitucional.
Canetadas coletivas e individuais reformaram
o sistema partidário, derrubaram e reescreveram leis e emendas à Carta,
mandaram soltar, prender e soltar de novo, produziram sucessivas reviravoltas
jurisprudenciais, censuraram, enterraram escândalos de corrupção confessada e
atropelaram legisladores, governantes, delegados e procuradores.
Tanta força gravitacional fatalmente atrairia
a cobiça de agentes públicos e privados interessados em fazer valer as suas
demandas. Contratações
de advogados parentes de ministros e convites para salamaleques
com lobistas tornaram-se lugar-comum. Cedo ou tarde viriam as tentativas de
corromper sumos magistrados.
Ainda não se sabe se a máfia instalada
no banco Master atingiu
esse limiar, mas já se divisa a dificuldade de investigar às claras um caso
quando ele começa a incomodar ministros da corte.
Afinal, eles podem muito —Alexandre de
Moraes acaba de sacar da algibeira da heterodoxia mais um
inquérito secreto— e de suas decisões não cabe recurso.
No episódio do Master, convivas do
ex-banqueiro investigado na política partidária e em outras paragens da
burocracia tampouco pretendem encontrar autores e cúmplices do descalabro,
quando não se empenham em sabotar apurações e intimidar fiscais.
A convergência de forças tão poderosas no
sentido de abafar o caso teria prevalecido não fosse a atuação da imprensa
profissional. Do trabalho metódico de repórteres e editores de veículos
compromissados com perseguir fatos tem dependido o direito dos brasileiros à
informação sobre essa fraude gigantesca e tentacular.
Os conflitos
de interesse de julgadores e suas decisões incomuns, bem como a
intrincada engenharia das fraudes bilionárias e suas ramificações, foram
escancarados pela imprensa e por isso já não podem ser ocultados sob o manto do
pacto de silêncio.
Ao concorrerem entre si pela primazia da
notícia para cumprir o contrato com seus leitores, ouvintes e espectadores, os
veículos prestam um notável serviço público nesse caso. Suprem, pela
investigação independente e crítica, parte da lacuna deixada por instituições
de Estado quando seus integrantes abandonam a equidistância prudencial.
As revelações da imprensa profissional
atendem às demandas de uma opinião pública perplexa com os acontecimentos
em Brasília,
que exige apuração profunda dos indícios de vultosas fraudes e corrupções em
torno do Master.
Energia limpa passa ao largo de crise na
Europa e alhures
Por Folha de S. Paulo
Em 2025, a UE gerou mais eletricidade limpa
do que por combustíveis fósseis, que incitam a crise do clima
Enquanto China, Índia e o bloco europeu
avançam na transição energética, os Estados Unidos regridem sob obscurantismo
de Trump
A volatilidade geopolítica no atual cenário
global não conseguiu afetar a marcha da descarbonização na União
Europeia. Em 2025, pela primeira vez os 27 países do bloco geraram
mais energia
eólica e solar do que a proveniente de combustíveis fósseis,
segundo relatório da Ember, entidade do setor.
Na média, elas foram responsáveis por 30%
da eletricidade produzida na UE, enquanto a oriunda da queima de
fósseis representou 29%. Hidrelétricas responderam por 11%, e outras fontes
limpas, por 7%, totalizando 48% de energia renovável.
O restante (23%) foi gerado por usinas
nucleares, que não estão nessa categoria, mas emitem baixíssimas quantidades de
dióxido de carbono, gás responsável pelo aquecimento global.
O impulso descarbonizante provém sobretudo da
energia fotovoltaica, que cresceu 20,1% no bloco, chegando a 13% em 2025.
Eólica e hidrelétricas recuaram sob impacto da mudança
climática, com secas e temperaturas extremas a prejudicar o
rendimento de torres de vento e usinas fluviais. Mas a energia do sol mais que
compensou o retrocesso.
O ímpeto de liderança da UE nas negociações
sobre o aquecimento global arrefeceu, é fato, como se viu
na COP30 em Belém.
Se, por um lado, novas prioridades
geopolíticas reorientam investimentos públicos para a defesa militar, por
outro, os setores solar e eólico se beneficiam com a redução da dependência do
gás natural russo, arma fóssil de coerção brandida no contexto da guerra
na Ucrânia pelo
autocrata Vladimir
Putin.
Parte da ampliação da matriz limpa no
continente decorre da maturação de investimentos passados, à medida que
instalações construídas são comissionadas. O principal vetor de crescimento vem
dos preços competitivos das energias limpas, com a eletricidade fotovoltaica a
liderar o avanço.
O fenômeno é mundial. A Agência Internacional
de Energia projeta que a capacidade de geração por renováveis dobrará até 2030,
e 80% dessa alta virá do modal solar, com China, Índia e
UE liderando o processo de transição.
O progresso só não será mais acelerado por
força da reviravolta nos Estados
Unidos. A AIE revisou para baixo em 50% as estimativas anteriores
sobre expansão de fontes limpas no país após Trump determinar fim de subsídios,
vetos a importações e suspensão de projetos em terras federais.
A China, maior emissor de carbono em termos absolutos, responderá por 60% do incremento em renováveis. Resta claro quais nações estão dispostas a atuar no enfrentamento da crise do clima.
Arte sob tutela
Por O Estado de S. Paulo
A esquerda explora politicamente o sucesso de
‘O Agente Secreto’, tratando críticas ao filme como expressão da direita
reacionária. Essa instrumentalização da arte empobrece a cultura
O filme O Agente Secreto foi indicado a quatro categorias
do Oscar – melhor filme, melhor filme internacional, melhor direção de elenco e
melhor ator. Trata-se de um feito e tanto, que coroa uma trajetória já robusta
de premiações internacionais e constitui motivo legítimo de alegria nacional. É
reconhecimento ao trabalho liderado pelo cineasta Kleber Mendonça Filho e pelo
ator Wagner Moura, além de confirmação da vitalidade do cinema brasileiro e de
sua capacidade de dialogar com o mundo em alto nível artístico. Num país
historicamente errático no apoio à cultura, cada conquista internacional nessa
área merece ser celebrada.
No entanto, a imagem do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva ao lado da equipe do filme, durante sessão especial no
Palácio da Alvorada, celebrando O
Agente Secreto como uma espécie de chancela política do Brasil
que “voltou”, ilustra os riscos de uma relação demasiadamente próxima – e
instrumental – entre cinema, arte e política partidária. Quando conquistas
artísticas passam a ser usadas como prova de sucesso de um projeto de poder, a
arte deixa de ser um fim em si mesmo e passa a ser meio. E isso é sempre
prejudicial – à cultura, à política e à própria obra celebrada.
De um lado, há o uso político explícito
dessas indicações, como se O Agente
Secreto simbolizasse uma virada civilizatória e como se o
reconhecimento internacional de um filme fosse evidência das qualidades de um
governo específico, e não resultado do talento de artistas que, vale lembrar,
produziram obras relevantes sob governos de todas as cores. A apropriação
simbólica da arte pelo poder é antiga, mas não por isso menos deletéria. De
outro lado, o ambiente de polarização extrema em que o Brasil se atolou
compromete algo ainda mais delicado: a possibilidade de análise crítica do que
se faz no País em matéria artística e cultural. Quando tudo passa a ser lido
exclusivamente pela lente da ideologia, a crítica deixa de ser exercício
intelectual e passa a ser tratada como ato político hostil – ou, pior, como
traição ao País.
Viu-se isso à direita, nos boicotes
bolsonaristas ao premiado filme Ainda
Estou Aqui, de Walter Salles, rejeitado não por seus méritos ou
limites cinematográficos, mas por sua leitura histórica e política. Vê-se
agora, com frequência crescente, à esquerda, reações virulentas contra qualquer
avaliação crítica de O Agente
Secreto, tratando essa crítica como expressão da direita
reacionária.
Como em outros campos do debate público, a
polarização eliminou nuances. Já não há espaço para o meio-termo, para a
ambiguidade, para o debate qualificado. Restam apenas anjos e demônios, o bem e
o mal. Corre-se o risco de filmes bons serem rejeitados por setores da direita
por expressarem uma visão progressista do mundo e, no extremo oposto, de obras
medianas, mas politicamente engajadas, serem alçadas ao Olimpo cultural por
parecerem estar “do lado certo da História”.
Arte e política nunca foram esferas isoladas,
mas há sinais claros de que algo se agravou na paisagem cultural brasileira, em
especial com o poder das milícias digitais. Ondas organizadas de ataque,
difamação e intimidação transformam divergência estética em ofensa nacional,
criando um ambiente de patrulhamento moral que sufoca a crítica.
O Agente Secreto é uma obra
ambiciosa, justamente por isso merecedora de escrutínio crítico. Kleber
Mendonça Filho é um cineasta de mérito inequívoco; Wagner Moura, um ator de
qualidade evidente. É desejável que o audiovisual brasileiro seja valorizado no
exterior. Nada disso está em disputa. O que está em disputa é outra coisa: a
liberdade da crítica, a autonomia da arte e a saúde da cultura política
brasileira. Quando a patrulha chega à fruição artística, o resultado não é
fortalecimento cultural, mas empobrecimento do debate público. Arte não precisa
de tutela política. Precisa de liberdade, inclusive para ser contestada. Sem
isso, não há cultura viva. Há apenas propaganda com verniz artístico.
Escoadouro de dinheiro
Por O Estado de S. Paulo
O fato de que nem mesmo dois recordes
seguidos de arrecadação tenham sido suficientes para reequilibrar as contas
públicas mostra claramente que o foco de Lula deveria estar nas despesas
O governo Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu
um feito e tanto e bateu novo recorde de arrecadação no ano passado. Foram R$
2,887 trilhões em receitas, um aumento real de 3,65% sobre 2024, ano em que a
arrecadação também havia alcançado o maior nível da série histórica. A
diferença, nada trivial, é que o crescimento das receitas, em 2024, foi de 9,6%
em termos reais, o que evidencia uma perda de fôlego que, em conjunto com
outros indicadores, sugere que não é prudente esperar por um novo recorde neste
ano.
Uma das contribuições mais expressivas para a
arrecadação veio do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), cujo aumento deu
origem a uma crise entre o governo Lula e o Congresso Nacional. O tributo era
um dos poucos que poderiam ser elevados por decreto presidencial, ou seja, sem
aval do Legislativo, mas os parlamentares ainda assim o derrubaram sob a
justificativa de que a sociedade não aguentava mais aumento de impostos.
Derrotado, Lula vivia um de seus piores
momentos desde o início de seu terceiro mandato, mas aproveitou a deixa para
explorar a narrativa que opunha pobres e ricos, retomando um dos discursos
preferidos do lulopetismo. Em paralelo, foi ao Supremo Tribunal Federal (STF) e
restabeleceu a maior parte das medidas que haviam sido sustadas.
Funcionou, tanto sob o ponto de vista
político quanto pelo econômico. De um lado, o IOF rendeu R$ 86,5 bilhões, alta
de 20,5% sobre o ano anterior. De outro, o enredo também garantiu ao governo,
sem dificuldade alguma, a aprovação do projeto de lei que isentou do Imposto de
Renda da Pessoa Física (IRPF) trabalhadores que ganham até R$ 5 mil mensais e
ampliou a tributação sobre a alta renda, certamente uma bandeira eleitoral a
ser explorada à exaustão durante a campanha.
Outras medidas propostas pela equipe
econômica do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, também mostraram sua
relevância. A arrecadação do Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF) sobre
residentes no exterior aumentou 12,9%, para R$ 86,2 bilhões, e sobre
rendimentos de capital a alta foi de 6,4%, para R$ 162,6 bilhões, desempenho
puxado pelas mudanças na tributação sobre fundos exclusivos, conhecidos como um
investimento dos chamados super-ricos.
Haddad parece estar bastante satisfeito,
tanto que já anunciou a intenção de deixar a pasta em breve para se dedicar à
campanha pela reeleição de Lula. Sairá, tudo indica, com a sensação de dever
cumprido, já que conseguiu elevar as receitas da União a despeito da
resistência do Congresso e da sociedade e garantiu a sobrevivência do arcabouço
fiscal ao menos até o fim de 2026.
Manter a arrecadação em alta, no entanto,
será bem mais desafiador a partir de agora. A arrecadação tende a acompanhar o
crescimento econômico, que tem desacelerado desde o segundo semestre do ano
passado. Não é por outra razão que Haddad deixou de esconder sua contrariedade
com a taxa básica de juros em 15% ao ano, sem jamais reconhecer o quanto o
governo contribui para manter a Selic em nível tão elevado.
Como Lula não aceitou cortar gastos nem no
início do mandato, não será no final que isso ocorrerá. Logo, só resta mesmo
apelar às receitas para não ter de alterar a meta fiscal a meses da eleição. O
governo ainda não desistiu de acabar com a isenção sobre títulos incentivados,
como as Letras de Créditos do Agronegócio (LCA) e Imobiliário (LCI) e as
debêntures de infraestrutura. Quanto ao Congresso, já ficou claro que está
disposto a negociar, bastando para isso que o governo libere o pagamento de
emendas parlamentares.
O País registra déficits primários há mais de
dez anos, e o fato de que nem mesmo dois recordes de arrecadação consecutivos
tenham sido capazes de reequilibrar as contas públicas escancara que o problema
do Brasil está nos gastos. As eleições podem até adiar esse debate, mas por
pouco tempo, pois a estratégia do governo de recuperar receitas e empurrar o
ajuste fiscal com a barriga está prestes a se esgotar.
Quantidade não é qualidade
Por O Estado de S. Paulo
Faculdades de Medicina se multiplicam pelo
País, mas o nível sofrível da formação assusta
De acordo com o Diretório Mundial de Escolas
Médicas, usado como referência pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o
Brasil é o segundo país com o maior número de escolas de Medicina do mundo,
atrás apenas da Índia. Mas o recente resultado do Exame Nacional de Avaliação
da Formação Médica (Enamed), que revelou que em nada menos de 1/3 dos 351
cursos avaliados a qualidade é baixíssima, prova que quantidade não é o mesmo
que qualidade. No caso do exercício da medicina, que impacta diretamente a vida
dos cidadãos, trata-se de um problema gravíssimo.
A Associação Nacional das Universidades
Particulares (Anup) bem que tentou na Justiça evitar a divulgação do resultado
do Enamed, alegando possível “dano reputacional e material” às instituições.
Convenhamos que não há muita dúvida de que o “dano reputacional” de escolas
ruins é irrelevante diante do dano real causado aos brasileiros por médicos com
formação inadequada.
Os 99 cursos com os piores resultados são, em
sua ampla maioria, privados; quatro pertencem à rede pública federal, nos
Estados do Maranhão (UFMA), Pará (UFPA), Bahia (UFSB) e Paraná (Unila). No
outro extremo do ranking, as dez mais bem avaliadas são públicas. Todas as
reprovadas sofrerão sanções do MEC que podem até ser consideradas brandas: vão
do veto à ampliação de vagas até a proibição total da oferta de novas vagas
enquanto não se readaptarem, além de as instituições privadas ficarem
inabilitadas ao Fies, o programa de financiamento estudantil.
O fato é que o boom das escolas de Medicina no País, embora
pareça uma boa notícia, virou um grande problema, pela falta de rigor no
acompanhamento desse crescimento. Desde a década de 1990, a quantidade de escolas
médicas tem aumentado, mas foi a partir de 2013, com a criação do Programa Mais
Médicos, no governo da então presidente Dilma Rousseff, que o ritmo de abertura
de cursos acelerou.
O Mais Médicos passou a incentivar a abertura
de novas faculdades por meio de editais de chamamento público. Foram três de
2014 a 2018, quando o então presidente Michel Temer decretou moratória de cinco
anos na abertura de novas escolas para repensar o programa e conter o aumento
desordenado de instituições, atendendo a pleitos de entidades médicas, como o
Conselho Federal de Medicina (CFM), que advertiam para o risco de deterioração
na formação profissional.
Mesmo durante o período de moratória muitos
cursos foram abertos, burlando a proibição por meio de liminares judiciais. Em
2023, no início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a
moratória acabou e um novo edital foi lançado com previsão de 95 novos cursos.
Entre 2024 e 2025, 77 já foram criados, com quase 4.500 vagas.
O Brasil tende a ultrapassar a marca de 1 milhão de médicos entre 2030 e 2035, mas, a julgar pelo resultado do Enamed, muitos terão formação deficiente. Como se já não bastasse a distribuição profundamente desigual de médicos no Brasil, corre-se o risco de despejar no mercado profissionais desqualificados. É um cenário preocupante num país que já enfrenta sérios problemas na área de saúde.
Basta à violência contra a mulher
Por Correio Braziliense
Milhões de brasileiras, todos os dias, são
vítimas de parceiros, ex-companheiros, colegas de trabalho, chefes que levam a
brutalidade e o machismo às últimas consequências
A cada seis horas, um feminicídio é cometido
no Brasil. Passado o primeiro quarto do século 21, o país ainda convive com
níveis bárbaros de violência contra a mulher. Apesar dos avanços obtidos com a
Lei Maria da Penha e a legislação que tipifica o assassinato por gênero no
Brasil, sociedade e o poder público assistem à escalada de agressões que fazem
parte do cotidiano nacional. Milhões de brasileiras, todos os dias, são vítimas
de parceiros, ex-companheiros, colegas de trabalho, chefes que levam a
brutalidade e o machismo às últimas consequências.
A violência de gênero ocorre em diversos
níveis e ambientes. No mundo do trabalho, são graves as diferenças entre homens
e mulheres — a começar pela diferença salarial. Em média, as trabalhadoras
recebem um salário 20% menor do que homens na mesma função. Essa disparidade
levou o governo federal a publicar, em 2023, a L ei 14.611, que dispõe sobre a
igualdade salarial. A norma determina a empresas a elaboração de relatórios que
identifiquem a realidade salarial do ponto de vista do gênero. Sob o prisma econômico,
esse é apenas um dos retratos — infelizmente, há outros ainda mais cruéis e
violentos — da violência e arbitrariedade cometidas contra as brasileiras.
É preciso reconhecer as conquistas obtidas
nos últimos anos. Destaque-se, em primeiro lugar, o legado da Lei Maria da
Penha. Este ano, a lei completa 20 anos de vigência, com mecanismos que
oferecem meios para impedir a sanha dos agressores. O uso da tecnologia, a
construção de unidades da Casa da Mulher Brasileira e outras medidas protetivas
são importantes para conter a truculência masculina. Em complemento à Maria da
Penha, a Lei do Feminicídio, de 2015, representa outro esforço relevante e
necessário. No ano passado, 1.470 mulheres foram vítimas de feminicídio. A fim
de propor uma reflexão sobre o problema, o governo federal instituiu o 17 de
outubro como Dia Nacional de Luto e Memória às Mulheres Vítimas de Feminicídio.
Para um fenômeno social de tamanha magnitude,
elaborar uma legislação não se mostra suficiente. É preciso ir além. O combate
à violência contra a mulher exige uma mudança cultural. É urgente o engajamento
mais efetivo do poder público, da iniciativa privada, da imprensa, das escolas
e das universidades, apenas para citar alguns, em favor de uma rede de
prevenção contra a violência de gênero.
A misoginia tem raízes históricas neste país
latino, marcado pelo patriarcado e pelo profundo desrespeito aos direitos e ao
papel social das mulheres. Para além das medidas legais protetivas, é preciso
fortalecer práticas que intimidem e impeçam o afloramento do machismo e da
agressividade na relação entre homens e mulheres. Nesse sentido, o evento
"Pela proteção das mulheres: um compromisso de todos", transmitido
pelo Correio Braziliense na próxima terça-feira, se soma às iniciativas para
dar mais visibilidade e proteção à condição feminina.
As mulheres formam a maioria da população brasileira. É obrigação do país, por conseguinte, conceder o respeito e a cidadania a que elas têm direito.
Proteção de dados é causa urgente
Por O Povo (CE)
Todo mundo conhece alguém que já sofreu um
golpe no Brasil. Quem nunca foi vítima de uma tentativa de extorsão,
provavelmente vai precisar enfrentar a prática criminosa em algum ponto da
vida.
O ambiente virtual, sem divisas ou
fronteiras, é fértil para a disseminação de golpes. No centro de tal realidade
está a facilidade com que criminosos conseguem acessar dados sigilosos de
usuários brasileiros. Conforme alerta Lucas Barbosa, jornalista de Segurança
Pública do O POVO e colunista do O POVO , tais informações sensíveis estão à
venda na internet, por preços módicos, em aplicativos como Telegram, WhatsApp,
Discord etc.
Criminosos coletam tais dados e constroem
golpes cada vez mais elaborados, buscando vulnerabilidades e explorando a
boa-fé dos cidadãos. Munidos de informações pessoais, eles transformam a
tentativa de extorsão em uma narrativa criminosa mais crível, explorando
brechas da vida íntima para roubar dinheiro das vítimas.
Com facilidade, grupos criminosos conseguem o
número do RG e o endereço de praticamente qualquer brasileiro. Descobrem
e-mail, aprendem detalhes sobre a família da vítima. Há registros públicos de
criminosos "matarem" pessoas no sistema do Sistema Único de Saúde
(SUS), gerando dor de cabeça burocrática para adversários políticos. No centro
disso tudo está a lentidão de diferentes esferas do poder público para agir de
forma a coibir tais práticas ilícitas.
O ambiente virtual não é terra sem lei. As
práticas criminosas evoluem a cada dia, ameaçando a segurança digital e
financeira dos cidadãos. Cabe à Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD)
adotar um posicionamento sistemático contra o "mercado livre" de
informações sigilosas de brasileiros.
Para isso, porém, é necessário um
fortalecimento institucional do órgão, com ampliação de investimentos em
segurança digital, de forma a intensificar o combate às organizações criminosas
voltadas à extorsão. Cabe ainda ao Poder Legislativo a aprovação de leis que
contemplem o combate a novas modalidades de crimes, bem como o direcionamento de
recursos para as diferentes esferas especializadas no policiamento digital.
Quem também tem papel central são as gigantes
tecnológicas, conhecidas como big techs. É urgente que elas se responsabilizem
pelos crimes cometidos com recursos por elas oferecidos. São empresas
estrangeiras que, para atuar no Brasil, devem ser obrigadas a se adequar à
legislação local. Autoridades policiais, em conjunto com os poderes Executivo,
Legislativo e Judiciário, devem instar as big techs a facilitarem o trabalho
investigativo e a criarem mecanismos de controle, sob risco de serem apontadas
como cúmplices de práticas criminosas.
Como alerta o colunista Lucas Barbosa, a
redução dos Crimes Violentos contra o Patrimônio (CVPs) mascara a explosão das
extorsões, impulsionadas pelas facilidades do ambiente digital. Houve uma
migração da violência, que hoje opera menos pela força e mais pela informação.
Se o Estado não acompanhar essa transformação com investimento, regulação e
ação coordenada, seguirá reagindo sempre tarde demais. Proteger dados,
portanto, deixou de ser um detalhe técnico: tornou-se uma política pública
essencial para a segurança do cidadão.

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