Guilherme Caetano e Vera Rosa / O Estado de S. Paulo
Ministro da Secretaria-Geral faz autocrítica, mas concentra artilharia em Flávio e Tarcísio Ministro da SecretariaGeral, é deputado federal pelo PSOL e está licenciado. Foi líder dos sem-teto e disputou a Prefeitura duas vezes
“O time da Faria Lima adora um bolsonarismo
envernizado. Tudo o que eles querem é um Bolsonaro que coma de garfo e faca,
que é o Tarcísio. Mas a Faria Lima não tem voto. Na direita, quem tem voto é o
Bolsonaro. Então, na pratica, quem o Bolsonaro indicar como candidato, será
candidato.”
Há três meses no cargo, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, levou um tom mais político para o núcleo do governo. Na lista de suas missões neste ano eleitoral de 2026 está a de dar uma “chacoalhada” na base social da esquerda perdida para a direita e atrair trabalhadores que têm flertado com o bolsonarismo, como aqueles das plataformas de aplicativos.
“A esquerda precisa aprender a dialogar com a
nova classe trabalhadora”, disse Boulos em entrevista ao Estadão, fazendo uma
autocrítica global. “No mundo, a esquerda está lidando com esse mesmo dilema. E
nós temos que repensar, inclusive, a relação de resistência que se construiu
entre a esquerda e o povo evangélico”.
Ex-líder dos sem-teto, o novo ministro virou
um dos principais nomes do Palácio do Planalto para enfrentar a artilharia
bolsonarista. O estilo combativo aparece até mesmo na parede de seu gabinete,
onde há um brasão com a frase Madeira que Cupim não Rói, uma homenagem ao
escritor Ariano Suassuna.
Nesta temporada, os dois principais alvos de Boulos são o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Na sua avaliação, ainda não está certo qual deles será o desafiante de Lula.
O presidente Lula pediu para o sr. pôr o
governo na rua. A quê o sr. atribui o fato de a avaliação negativa do governo
ter superado a positiva na última pesquisa Genial/Quaest?
A mesma pesquisa mostrou o presidente
favorito para a reeleição em todos os cenários. Hoje tem uma situação da
polarização no Brasil e no mundo. O eleitor que se define como de direita vai
desaprovar o governo do presidente, por mais que ele possa sentir melhora na
vida dele, por uma razão da polarização ideológica. Acabou a era do consenso.
O mesmo levantamento diz que 51% dos
brasileiros acham que Lula errou ao condenar as ações do presidente dos EUA,
Donald Trump, na Venezuela. Esse tema pode desgastar o presidente na campanha?
Não acho. O que o presidente Lula fez foi
defender a paz no continente e dizer que nem o Brasil nem a América Latina
devem admitir colonialismo. Ele não reconheceu a legitimidade da eleição do
(Nicolás) Maduro. O Brasil questionou a entrada da Venezuela no Brics e (a
Venezuela) não entrou por causa disso. Patriotismo não é só na hora de levantar
bandeira em manifestação.
De que forma o governo tratará do assunto?
A eleição vai ser marcada por três grandes temas. Primeiro: soberania nacional. Haverá uma discussão com a sociedade se a gente quer um Brasil soberano ou como uma colônia dos EUA. Quem usou o bonezinho do MAGA (sigla em inglês para ‘Faça a América Grande De Novo’) terá que se explicar. Segundo tema: justiça tributária. Esse é o governo que, pela primeira vez, mexeu no vespeiro de taxar super rico e zerar o Imposto de Renda (para quem ganha até R$ 5 mil). Qual é a posição daqueles que vão ser nossos adversários? Terceiro: o fim da escala 6x1.
Mas é possível aprovar esse projeto até a
eleição? Há muita resistência.
Queremos aprovar dois projetos importantes
este ano e dialogamos para isso. Um deles é o fim da escala 6x1, com redução da
jornada de 44 para 40 horas semanais. O segundo é garantir direitos para os
trabalhadores de aplicativos.
Lula vetou cerca de R$ 400 milhões em
emendas. Isso não agrava ainda mais a difícil relação entre o governo e o
Congresso?
Acho que não. Nós estamos vivendo um negócio
do rabo abanando o cachorro. R$ 61 bilhões em emenda aprovados no Orçamento?
Isso é uma esculhambação. Como é que você vai governar o Brasil desse jeito?
Nesse estágio, em algum momento, nós vamos ter que fazer um freio de arrumação.
Como o governo vai lidar na campanha com
acusações de que o presidente chamou para o Planalto um ministro que coordenou
invasão?
Eu não participei de orçamento secreto, nunca
usei mal a coisa pública, não tenho qualquer acusação dessa natureza. Existe um
preconceito tremendo contra o movimento social. O Movimento Sem-Teto nunca
invadiu a casa de ninguém. O que o movimento fez foi identificar imóveis em
situação ilegal, com dívidas muitas vezes maior que o valor do próprio terreno,
e pressionar para que se cumpra a lei, o Estatuto da Cidade, de 2001, para que
esses imóveis sejam desapropriados para utilidade pública.
A segurança pública não será o carro-chefe da
campanha de Lula, mas os adversários vão focar nisso. O que o governo propõe?
Estou doido para o Flávio Bolsonaro, se for
candidato, falar de segurança porque daí a gente vai falar de milícia do Rio,
de Adriano da Nóbrega, que teve familiar assessor no gabinete dele, de
Escritório do Crime. Estamos preparados para fazer o debate. Foi Lula que teve
a coragem de mandar uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição). Por que os
governadores de direita e o Centrão são contra o governo assumir mais responsabilidade
na segurança? Eles estão dando conta sozinhos? Não me parece.
O sr. acha que o senador Flávio Bolsonaro irá
até o fim na disputa pela Presidência ou o governador Tarcísio deve entrar?
O time da Faria Lima adora um bolsonarismo
envernizado. Tudo o que eles querem é um Bolsonaro que coma de garfo e faca,
que é o Tarcísio. Mas a Faria Lima não tem voto. Na direita, quem tem voto é o
Bolsonaro. Então, na prática, quem o Bolsonaro indicar como candidato, será
candidato.
Que experiência da eleição de 2024 o sr.
levará para a próxima campanha?
A gente aprende mais na derrota do que na
vitória. Tem gente que, depois de perder a eleição, tenta dar golpe. Um
aprendizado que eu tive foi da importância de a esquerda se abrir para um
diálogo franco com a nova classe trabalhadora do País. Nós precisamos aprender
a dialogar com esses segmentos, não só a partir daquilo que a esquerda propõe
para eles, mas a partir do que eles querem. No mundo, a esquerda lida com esse
mesmo dilema. E nós temos que repensar, inclusive, a relação de resistência que
se construiu entre a esquerda e o povo evangélico.
O sr. vai deixar o governo para disputar a
eleição?
Eu pretendo ficar porque entrei no governo em
outubro. O presidente me fez pedidos, me deu missões e eu não largo missão no
meio do caminho.
O PT ainda não tem um candidato ao Palácio
dos Bandeirantes. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, será esse nome?
Eu vou te devolver com uma pergunta: a direita tem candidato para o Palácio dos Bandeirantes? O Tarcísio vez ou outra flerta (com a ideia de) ser candidato à Presidência. A esposa dele (Cristiane) publicou uma nota na rede social dizendo que era o marido dela que deveria ser o novo “CEO do Brasil”. Isso mostra a cabeça tacanha, a falta de projeto nacional e de projeto popular porque, se o presidente é CEO, ele (Tarcísio) deve enxergar a população como seus empregados. É algo triste até de se ver. Mas o palanque de São Paulo vai ser definido no tempo certo. Por mais que Bolsonaro tenha lançado Flávio, me parece que o grupo do Tarcísio não ficou muito contente com isso. Então, vamos esperar o que eles vão fazer.

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