domingo, 18 de janeiro de 2026

Entrevista | Guilherme Boulos: ‘Esquerda precisa dialogar com nova classe trabalhadora’

Guilherme Caetano e Vera Rosa / O Estado de S. Paulo

Ministro da Secretaria-Geral faz autocrítica, mas concentra artilharia em Flávio e Tarcísio Ministro da SecretariaGeral, é deputado federal pelo PSOL e está licenciado. Foi líder dos sem-teto e disputou a Prefeitura duas vezes

“O time da Faria Lima adora um bolsonarismo envernizado. Tudo o que eles querem é um Bolsonaro que coma de garfo e faca, que é o Tarcísio. Mas a Faria Lima não tem voto. Na direita, quem tem voto é o Bolsonaro. Então, na pratica, quem o Bolsonaro indicar como candidato, será candidato.”

Há três meses no cargo, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, levou um tom mais político para o núcleo do governo. Na lista de suas missões neste ano eleitoral de 2026 está a de dar uma “chacoalhada” na base social da esquerda perdida para a direita e atrair trabalhadores que têm flertado com o bolsonarismo, como aqueles das plataformas de aplicativos.

“A esquerda precisa aprender a dialogar com a nova classe trabalhadora”, disse Boulos em entrevista ao Estadão, fazendo uma autocrítica global. “No mundo, a esquerda está lidando com esse mesmo dilema. E nós temos que repensar, inclusive, a relação de resistência que se construiu entre a esquerda e o povo evangélico”.

Ex-líder dos sem-teto, o novo ministro virou um dos principais nomes do Palácio do Planalto para enfrentar a artilharia bolsonarista. O estilo combativo aparece até mesmo na parede de seu gabinete, onde há um brasão com a frase Madeira que Cupim não Rói, uma homenagem ao escritor Ariano Suassuna.

Nesta temporada, os dois principais alvos de Boulos são o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Na sua avaliação, ainda não está certo qual deles será o desafiante de Lula.

O presidente Lula pediu para o sr. pôr o governo na rua. A quê o sr. atribui o fato de a avaliação negativa do governo ter superado a positiva na última pesquisa Genial/Quaest?

A mesma pesquisa mostrou o presidente favorito para a reeleição em todos os cenários. Hoje tem uma situação da polarização no Brasil e no mundo. O eleitor que se define como de direita vai desaprovar o governo do presidente, por mais que ele possa sentir melhora na vida dele, por uma razão da polarização ideológica. Acabou a era do consenso.

O mesmo levantamento diz que 51% dos brasileiros acham que Lula errou ao condenar as ações do presidente dos EUA, Donald Trump, na Venezuela. Esse tema pode desgastar o presidente na campanha?

Não acho. O que o presidente Lula fez foi defender a paz no continente e dizer que nem o Brasil nem a América Latina devem admitir colonialismo. Ele não reconheceu a legitimidade da eleição do (Nicolás) Maduro. O Brasil questionou a entrada da Venezuela no Brics e (a Venezuela) não entrou por causa disso. Patriotismo não é só na hora de levantar bandeira em manifestação.

De que forma o governo tratará do assunto?

A eleição vai ser marcada por três grandes temas. Primeiro: soberania nacional. Haverá uma discussão com a sociedade se a gente quer um Brasil soberano ou como uma colônia dos EUA. Quem usou o bonezinho do MAGA (sigla em inglês para ‘Faça a América Grande De Novo’) terá que se explicar. Segundo tema: justiça tributária. Esse é o governo que, pela primeira vez, mexeu no vespeiro de taxar super rico e zerar o Imposto de Renda (para quem ganha até R$ 5 mil). Qual é a posição daqueles que vão ser nossos adversários? Terceiro: o fim da escala 6x1.

Mas é possível aprovar esse projeto até a eleição? Há muita resistência.

Queremos aprovar dois projetos importantes este ano e dialogamos para isso. Um deles é o fim da escala 6x1, com redução da jornada de 44 para 40 horas semanais. O segundo é garantir direitos para os trabalhadores de aplicativos.

Lula vetou cerca de R$ 400 milhões em emendas. Isso não agrava ainda mais a difícil relação entre o governo e o Congresso?

Acho que não. Nós estamos vivendo um negócio do rabo abanando o cachorro. R$ 61 bilhões em emenda aprovados no Orçamento? Isso é uma esculhambação. Como é que você vai governar o Brasil desse jeito? Nesse estágio, em algum momento, nós vamos ter que fazer um freio de arrumação.

Como o governo vai lidar na campanha com acusações de que o presidente chamou para o Planalto um ministro que coordenou invasão?

Eu não participei de orçamento secreto, nunca usei mal a coisa pública, não tenho qualquer acusação dessa natureza. Existe um preconceito tremendo contra o movimento social. O Movimento Sem-Teto nunca invadiu a casa de ninguém. O que o movimento fez foi identificar imóveis em situação ilegal, com dívidas muitas vezes maior que o valor do próprio terreno, e pressionar para que se cumpra a lei, o Estatuto da Cidade, de 2001, para que esses imóveis sejam desapropriados para utilidade pública.

A segurança pública não será o carro-chefe da campanha de Lula, mas os adversários vão focar nisso. O que o governo propõe?

Estou doido para o Flávio Bolsonaro, se for candidato, falar de segurança porque daí a gente vai falar de milícia do Rio, de Adriano da Nóbrega, que teve familiar assessor no gabinete dele, de Escritório do Crime. Estamos preparados para fazer o debate. Foi Lula que teve a coragem de mandar uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição). Por que os governadores de direita e o Centrão são contra o governo assumir mais responsabilidade na segurança? Eles estão dando conta sozinhos? Não me parece.

O sr. acha que o senador Flávio Bolsonaro irá até o fim na disputa pela Presidência ou o governador Tarcísio deve entrar?

O time da Faria Lima adora um bolsonarismo envernizado. Tudo o que eles querem é um Bolsonaro que coma de garfo e faca, que é o Tarcísio. Mas a Faria Lima não tem voto. Na direita, quem tem voto é o Bolsonaro. Então, na prática, quem o Bolsonaro indicar como candidato, será candidato.

Que experiência da eleição de 2024 o sr. levará para a próxima campanha?

A gente aprende mais na derrota do que na vitória. Tem gente que, depois de perder a eleição, tenta dar golpe. Um aprendizado que eu tive foi da importância de a esquerda se abrir para um diálogo franco com a nova classe trabalhadora do País. Nós precisamos aprender a dialogar com esses segmentos, não só a partir daquilo que a esquerda propõe para eles, mas a partir do que eles querem. No mundo, a esquerda lida com esse mesmo dilema. E nós temos que repensar, inclusive, a relação de resistência que se construiu entre a esquerda e o povo evangélico.

O sr. vai deixar o governo para disputar a eleição?

Eu pretendo ficar porque entrei no governo em outubro. O presidente me fez pedidos, me deu missões e eu não largo missão no meio do caminho.

O PT ainda não tem um candidato ao Palácio dos Bandeirantes. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, será esse nome?

Eu vou te devolver com uma pergunta: a direita tem candidato para o Palácio dos Bandeirantes? O Tarcísio vez ou outra flerta (com a ideia de) ser candidato à Presidência. A esposa dele (Cristiane) publicou uma nota na rede social dizendo que era o marido dela que deveria ser o novo “CEO do Brasil”. Isso mostra a cabeça tacanha, a falta de projeto nacional e de projeto popular porque, se o presidente é CEO, ele (Tarcísio) deve enxergar a população como seus empregados. É algo triste até de se ver. Mas o palanque de São Paulo vai ser definido no tempo certo. Por mais que Bolsonaro tenha lançado Flávio, me parece que o grupo do Tarcísio não ficou muito contente com isso. Então, vamos esperar o que eles vão fazer.

Nenhum comentário: