O Estado de S. Paulo
Eis uma oportunidade que não poderia ser perdida, capaz de assegurar o futuro da democracia e o enterro do ‘socialismo do século 21’
Maduro, hoje recolhido a uma cela num presídio nova-iorquino – destino merecido – foi um cruel ditador, impiedoso em suas ações. Seus meios de governar, se é que se pode utilizar essa expressão, foram a violência generalizada por meio da repressão, da tortura, do estupro, do silenciamento de toda e qualquer crítica. Utilizou um sistema repressivo baseado nas Forças Armadas, na polícia e nas milícias bolivarianas, com o uso constante da intimidação e do assassinato. Nada o detinha em sua dominação despótica. Eis o resultado do tão alardeado “socialismo do século 21”, produtor de miséria, de desigualdade social extrema, reduzindo a sua população à maior pobreza, enquanto a nomenclatura “socialista”, “comunista” usufrui dos maiores privilégios. Que tal regime tenha sido e seja ainda para alguns, um farol da esquerda beira ao incompreensível.
Pretender mascarar essa realidade com
discursos feitos sob medida para uma suposta “catástrofe humanitária”, no caso
de um ataque americano, como o fez o presidente Lula, é nada mais do que falta
de bom senso ou de senso pervertido. A “catástrofe humanitária” foi produzida
pela ditadura de Chávez e de Maduro, pelos socialistas do século 21, com cerca
de 8 milhões de refugiados obrigados a deixar o país, de uma população de 28
milhões, sob os olhares “desumanos” da esquerda que os apoiava e ainda os apoia
sob a bandeira da luta contra o imperialismo. Onde estavam as palavras de
“solidariedade”, tão em voga entre esses “humanistas”, quando se trata do
terror islâmico e das posições da esquerda mundial? Humanismo capenga seria até
um elogio!
O vocabulário esquerdista para caracterizar a ação americana não poderia ser mais inapropriado. Fala-se como se fosse algo evidente: invasão e guerra. Qual invasão? Onde estão as tropas em solo e os tanques? Tratou-se, isto sim, de uma operação especial de comando, com forte apoio aéreo e naval, conduzida com esmero, atingindo apenas alvos militares. Uma vez a operação concluída, os militares se retiraram do país, deixando os demais membros do governo por ora no poder. Não há, portanto, guerra, salvo se os americanos decidirem-se por ocupar o país, passando a dominá-lo diretamente, destituindo os atuais governantes. Neste caso, passariam para o combate frontal contra os que se recusarem à ocupação, quaisquer que sejam os seus inimigos: Forças Armadas, policiais, milícias bolivarianas, grupos guerrilheiros, narcotráfico e assim por diante.
Que Maduro e sua mulher tenham sido levados
para fora do país só poderia ser motivo de festejo. O líder do inferno foi
embora, porém não levou os seus assessores e parceiros junto. Deve-se, sim,
lamentar, não o ataque americano, mas a sua incompletude. De nada adianta,
salvo se o interesse for só petrolífero, deixar o regime chavista intacto, com
a mera substituição de sua liderança, supostamente alinhada aos interesses de
Trump. O regime criminoso, nestas circunstâncias, permaneceria o mesmo. Seria
uma espécie de esquerdismo trumpista, algo verdadeiramente bizarro.
Se Trump continuar por essa via, estará
perdendo uma grande oportunidade. De nada adianta os estrategistas americanos
declararem que estão evitando, assim, um Iraque ou um Afeganistão, deixando a
cúpula ditatorial no poder. As condições não são as mesmas, porque a Venezuela
realizou sistematicamente eleições fraudadas, sendo a última escandalosamente
fraudulenta, causando repúdio internacional, inclusive por parte de setores da
esquerda. Diferentemente daqueles países, a Venezuela tem um presidente eleito,
que não foi empossado, Edmundo González, que foi obrigado a fugir do país para
não ser preso. Há uma líder oposicionista, com amplo apoio popular – ao
contrário do declarado pelo presidente americano – e ganhadora do Nobel da Paz.
Mulher corajosa, amargando a resistência e a clandestinidade. Eis uma
oportunidade que não poderia ser perdida, capaz de assegurar o futuro da
democracia e o enterro do “socialismo do século 21”. Basta a realização de
eleições, que seriam certamente vencidas por ela, aí sim a legítima
representante do povo.
Deveria causar espécie que essa alternativa
não esteja sendo diretamente cogitada. Seria importante ressaltarmos aqui dois
fatores, para além da cobiça por petróleo, que não é dos americanos, nem da
ditadura chavista, “socialista”, mas dos venezuelanos.
O primeiro deles seria a inveja de Trump por
ela ter sido ela agraciada com o Prêmio Nobel. Uma razão certamente menor, mas
que infelizmente rege as pessoas em geral e o mundo político em particular.
Aliás, ela, habilidosa, elogiou a Trump quando conquistou esse reconhecimento
internacional. Não foi isso, porém, suficiente.
Haveria ainda um segundo fator, menos nobre,
o de que Maria Corina é uma mulher, ousada, altiva, e que não se deixaria
dominar, como o está aparentemente fazendo a dita presidente interina Delcy
Rodríguez. Ela não se curvaria a ordens americanas, colocando-se,
democraticamente, como legítima representante do povo venezuelano.

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