segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Trump: a lei sou eu. Por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Ele parece ignorar algumas questões essenciais sobre o mercado global de petróleo, que pretende controlar

Donald Trump tem certeza de que é o dono do mundo — e age com base nessa convicção —, mas parece não ter conhecimento de questões cruciais envolvendo desde petróleo até armas nucleares. Dentro de um mês, expira o último e mais amplo acordo nuclear entre Estados Unidos e Rússia. Com isso, as duas potências estarão livres para aumentar (e eventualmente usar) seus arsenais sem qualquer restrição. Jornalistas do New York Times perguntaram a Trump, em entrevista na semana passada, como ele se preparava para essa situação. Ele respondeu vagamente:

— Se vai expirar, vai expirar.

Os jornalistas ficaram com a nítida impressão de que Trump simplesmente não estava a par do assunto. Tanto que acrescentou, sem dar qualquer detalhe:

— Faremos um acordo melhor.

Disse que incluiria a China nesse novo tratado, mas parou por aí. Nada sobre negociações, prazos, metas. Trump também parece ignorar algumas questões essenciais sobre o mercado global de petróleo, que pretende controlar. Ele estava triunfante quando afirmou que, em breve, os Estados Unidos receberiam de 30 milhões a 50 milhões de barris da Venezuela, de imediato, para reforçar os estoques das refinarias americanas. Ora, 50 milhões de barris não afetam em nada o mercado mundial, nem o americano. Os Estados Unidos produzem 14 milhões por dia — ou mais de 50 milhões em apenas quatro dias.

A China é, quer dizer, era a maior compradora de petróleo venezuelano até a semana passada, quando Trump anunciou que todo o óleo da Venezuela seria então destinado aos Estados Unidos. Fará falta aos chineses? Nem de longe. Segundo dados da revista Economist, a China tem um estoque de 1,2 bilhão de barris, volume equivalente a quatro meses de importação. E sempre pode comprar de outras fontes, como o Brasil, que produz 4 milhões de barris por dia e já tem a China como principal cliente.

A propósito, cabe aqui uma observação local: se o Brasil pretende mesmo explorar o petróleo da Margem Equatorial, deve se apressar. Se demorar muito, encontrará um mercado com sobra de óleo, a preço muito baixo e com consumo em queda. O mesmo argumento vale para a Venezuela. Tutelando o país sul-americano, os Estados Unidos ficarão em posse da maior reserva de óleo do mundo, nada menos que 300 bilhões de barris. O problema é como explorar essa riqueza.

Depois de anos de chavismo, uma mistura de ditadura, incompetência e roubalheira, falta tudo na indústria venezuelana: infraestrutura, capital e mão de obra. Para recuperar plenamente a produção de óleo, seriam necessários investimentos de mais US$ 100 bilhões, por vários anos. Trump garantiu que as grandes companhias americanas estão prontas para a tarefa — mas nenhuma delas manifestou disposição. Pelas mesmas razões: há petróleo suficiente no mercado, o preço não está bom. E uma outra dúvida, crucial: Trump tem mais três anos de governo. O que acontecerá depois dele?

Noutras partes do mundo, a preocupação é o inverso: o que acontecerá durante o governo Trump. Na mesma entrevista ao NYT, os jornalistas perguntaram se ele admitia que seu poder dependia do respeito às leis internacionais. Respondeu:

— Depende da definição de lei internacional.

Quem faz essa definição? Acertaram: ele mesmo.

— Não preciso de lei internacional — acrescentou —, porque não pretendo machucar ninguém.

Mas não tem limites? Respondeu:

— Meus critérios morais, meu discernimento (em tradução livre).

E por aí foi. Ele sabe que os Estados Unidos já têm o direito de construir bases militares na Groenlândia. Mas insistiu que era importante “ter a propriedade” da ilha. Dá mais conforto, explicou, mesmo que crie uma crise com a Otan, aliança militar ocidental.

Finalmente, questionado se sua ação na Venezuela não autorizava a China a fazer a mesma coisa com Taiwan, garantiu que não. Disse que Taiwan não manda “imigrantes e bandidos” à China, como a Venezuela mandava para os Estados Unidos. E acrescentou ter dito a Xi Jinping que não ficaria feliz com a invasão de Taiwan. Arrematou: eles, os chineses, não farão isso “enquanto eu for presidente”.

 

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