O Globo
Ele parece ignorar algumas questões
essenciais sobre o mercado global de petróleo, que pretende controlar
Donald Trump tem certeza de que é o dono do
mundo — e age com base nessa convicção —, mas parece não ter conhecimento de
questões cruciais envolvendo desde petróleo até armas nucleares. Dentro de um
mês, expira o último e mais amplo acordo nuclear entre Estados Unidos e Rússia.
Com isso, as duas potências estarão livres para aumentar (e eventualmente usar)
seus arsenais sem qualquer restrição. Jornalistas do New York Times perguntaram
a Trump, em entrevista na semana passada, como ele se preparava para essa
situação. Ele respondeu vagamente:
— Se vai expirar, vai expirar.
Os jornalistas ficaram com a nítida impressão
de que Trump simplesmente não estava a par do assunto. Tanto que acrescentou,
sem dar qualquer detalhe:
— Faremos um acordo melhor.
Disse que incluiria a China nesse novo tratado,
mas parou por aí. Nada sobre negociações, prazos, metas. Trump também parece
ignorar algumas questões essenciais sobre o mercado global de petróleo, que
pretende controlar. Ele estava triunfante quando afirmou que, em breve, os
Estados Unidos receberiam de 30 milhões a 50 milhões de barris da Venezuela, de
imediato, para reforçar os estoques das refinarias americanas. Ora, 50 milhões
de barris não afetam em nada o mercado mundial, nem o americano. Os Estados
Unidos produzem 14 milhões por dia — ou mais de 50 milhões em apenas quatro
dias.
A China é, quer dizer, era a maior compradora
de petróleo venezuelano até a semana passada, quando Trump anunciou que todo o
óleo da Venezuela seria então destinado aos Estados Unidos. Fará falta aos
chineses? Nem de longe. Segundo dados da revista Economist, a China tem um
estoque de 1,2 bilhão de barris, volume equivalente a quatro meses de
importação. E sempre pode comprar de outras fontes, como o Brasil, que produz 4
milhões de barris por dia e já tem a China como principal cliente.
A propósito, cabe aqui uma observação local:
se o Brasil pretende mesmo explorar o petróleo da Margem Equatorial, deve se
apressar. Se demorar muito, encontrará um mercado com sobra de óleo, a preço
muito baixo e com consumo em queda. O mesmo argumento vale para a Venezuela.
Tutelando o país sul-americano, os Estados Unidos ficarão em posse da maior
reserva de óleo do mundo, nada menos que 300 bilhões de barris. O problema é
como explorar essa riqueza.
Depois de anos de chavismo, uma mistura de
ditadura, incompetência e roubalheira, falta tudo na indústria venezuelana:
infraestrutura, capital e mão de obra. Para recuperar plenamente a produção de
óleo, seriam necessários investimentos de mais US$ 100 bilhões, por vários
anos. Trump garantiu que as grandes companhias americanas estão prontas para a
tarefa — mas nenhuma delas manifestou disposição. Pelas mesmas razões: há
petróleo suficiente no mercado, o preço não está bom. E uma outra dúvida,
crucial: Trump tem mais três anos de governo. O que acontecerá depois dele?
Noutras partes do mundo, a preocupação é o
inverso: o que acontecerá durante o governo Trump. Na mesma entrevista ao NYT,
os jornalistas perguntaram se ele admitia que seu poder dependia do respeito às
leis internacionais. Respondeu:
— Depende da definição de lei internacional.
Quem faz essa definição? Acertaram: ele
mesmo.
— Não preciso de lei internacional —
acrescentou —, porque não pretendo machucar ninguém.
Mas não tem limites? Respondeu:
— Meus critérios morais, meu discernimento
(em tradução livre).
E por aí foi. Ele sabe que os Estados Unidos
já têm o direito de construir bases militares na Groenlândia. Mas insistiu que
era importante “ter a propriedade” da ilha. Dá mais conforto, explicou, mesmo
que crie uma crise com a Otan, aliança militar ocidental.
Finalmente, questionado se sua ação na Venezuela
não autorizava a China a fazer a mesma coisa com Taiwan, garantiu que não.
Disse que Taiwan não manda “imigrantes e bandidos” à China, como a Venezuela
mandava para os Estados Unidos. E acrescentou ter dito a Xi Jinping que não
ficaria feliz com a invasão de Taiwan. Arrematou: eles, os chineses, não farão
isso “enquanto eu for presidente”.

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