segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Master era um morto-vivo. Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Banco não recolhia nem dinheiro que instituições são obrigadas a deixar no BC

Ativos eram superavaliados ou fictícios, não entrava dinheiro para cobrir o que saía

O Master foi liquidado por "profunda e crônica crise de liquidez" que comprometeu a "capacidade para satisfazer seus compromissos". Por "grave e reiterado descumprimento de normas", em "particular quanto à manutenção dos níveis regulamentares de recolhimentos compulsórios" e gestão de riscos de crédito e liquidez. Por "prática de ilícitos graves no âmbito de operações de cessão de ativos a terceiros". É o que escreveu o Banco Central em esclarecimentos prestados ao TCU (Tribunal de Contas da União) em 18 de dezembro de 2025.

Um ministro do TCU, Jonathan de Jesus, questionou a atuação do BC e requisitou informações. Até a semana passada, estava no ar a hipótese de que esse ministro do TCU quereria cancelar a intervenção do BC no Master (inviável) ou dar razão à queixa do Master (o que poderia render indenização). Depois da reação aos lobbies pró-Master e ao vazamento de mais indícios de crimes do banco, a ofensiva foi contida.

O escândalo federal, suspeitas sobre as ligações políticas de Daniel Vorcaro e do Master, lobbies, guerra digital etc. são relevantes, cruciais, talvez, para saber do tamanho da corrupção no país. Mas é preciso lembrar do "filme que deu origem à série". O Master era um morto-vivo ao menos desde 2024.

Para resumir em linhas uma história de páginas, note-se o seguinte. Um banco tem haveres (ativos que rendem fluxos de dinheiro, como empréstimos, que também podem ser vendidos). Tem deveres (pagar empréstimos que tomou para financiar suas atividades, como CDBs, e depósitos de clientes, por exemplo). Os ativos do Master não rendiam o bastante ou dificilmente poderiam ser vendidos logo, a bom preço e baixo custo (como precatórios), se não eram fictícios. No passivo, tinha os célebres CDBs que rendiam juros exorbitantes.

Não entrava dinheiro bastante, passou a sair muito. A partir de 2024, o banco passou a "captar" (tomar mais dinheiro emprestado) em quantidade que era apenas fração do planejado. A partir de novembro de 2024, não conseguia rolar (renovar) o total de CDBs para pagar CDBs que venciam. "Além disso, foram registrados diversos episódios de recolhimento insuficiente de depósitos compulsórios", escreveu o pessoal do BC.

O banco parou então de conceder empréstimos a empresas, a vender créditos, a procurar interessados em comprá-lo. Em abril de 2025, o BC disse que as providências eram insuficientes para diminuir o problema de liquidez (mais dinheiro saindo do que entrando) —nem conseguia depositar o compulsório. Pede então dinheiro ao Fundo Garantidor de Crédito (fundo bancado por bancos para cobrir perdas de clientes até certo limite). De maio a setembro, captou R$ 90,2 MILHÕES em operações garantidas pelo FGC; recebeu R$ 4,3 BILHÕES do FGC.

A partir de maio, Vorcaro passa a vender partes do banco e de seus bens: a KOVR (seguros, previdência, por R$ 418 milhões), parte dos próprios bens para o BTG (R$ 954 milhões), o fundo Itaminas (R$ 401 milhões). A conta não fechava. Em abril de 2025, o conglomerado Master deixava de recolher cerca de R$ 500 milhões em compulsórios (dinheiro que bancos têm de deixar estacionado no BC); em agosto, "devia" R$ 2,5 bilhões. Em 2025, era um zumbi, com dinheiro que não tinha, valor de capital superestimado por irregularidades, ativos fictícios ou de nenhuma liquidez; quando foi liquidado, estava sem carteira de crédito que rendesse dinheiro, além do "problema" do crédito fictício. Fim.

 

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