Folha de S. Paulo
Banco não recolhia nem dinheiro que
instituições são obrigadas a deixar no BC
Ativos eram superavaliados ou fictícios, não
entrava dinheiro para cobrir o que saía
O Master foi liquidado por "profunda e crônica crise de liquidez" que comprometeu a "capacidade para satisfazer seus compromissos". Por "grave e reiterado descumprimento de normas", em "particular quanto à manutenção dos níveis regulamentares de recolhimentos compulsórios" e gestão de riscos de crédito e liquidez. Por "prática de ilícitos graves no âmbito de operações de cessão de ativos a terceiros". É o que escreveu o Banco Central em esclarecimentos prestados ao TCU (Tribunal de Contas da União) em 18 de dezembro de 2025.
Um ministro do TCU, Jonathan de Jesus,
questionou a atuação do BC e requisitou informações. Até a semana passada,
estava no ar a hipótese de que esse ministro do TCU quereria cancelar a
intervenção do BC no Master (inviável) ou dar razão à queixa do Master (o que
poderia render indenização). Depois da reação aos lobbies pró-Master e ao vazamento
de mais indícios de crimes do banco, a ofensiva
foi contida.
O escândalo federal, suspeitas sobre as
ligações políticas de Daniel Vorcaro e do Master, lobbies, guerra digital etc.
são relevantes, cruciais, talvez, para saber do tamanho da corrupção no país.
Mas é preciso lembrar do "filme que deu origem à série". O Master era
um morto-vivo ao menos desde 2024.
Para resumir em linhas uma história de
páginas, note-se o seguinte. Um banco tem haveres (ativos que rendem fluxos de
dinheiro, como empréstimos, que também podem ser vendidos). Tem deveres (pagar
empréstimos que tomou para financiar suas atividades, como CDBs, e depósitos de
clientes, por exemplo). Os ativos do Master não rendiam o bastante ou
dificilmente poderiam ser vendidos logo, a bom preço e baixo custo (como
precatórios), se não eram fictícios. No passivo, tinha os célebres CDBs que
rendiam juros exorbitantes.
Não entrava dinheiro bastante, passou a sair
muito. A partir de 2024, o banco passou a "captar" (tomar mais
dinheiro emprestado) em quantidade que era apenas fração do planejado. A partir
de novembro de 2024, não conseguia rolar (renovar) o total de CDBs para pagar
CDBs que venciam. "Além disso, foram registrados diversos episódios de
recolhimento insuficiente de depósitos compulsórios", escreveu o pessoal
do BC.
O banco parou então de conceder empréstimos a
empresas, a vender créditos, a procurar interessados em comprá-lo. Em abril de
2025, o BC disse que as providências eram insuficientes para diminuir o
problema de liquidez (mais dinheiro saindo do que entrando) —nem conseguia
depositar o compulsório. Pede então dinheiro ao Fundo Garantidor de Crédito
(fundo bancado por bancos para cobrir perdas de clientes até certo limite). De
maio a setembro, captou R$ 90,2 MILHÕES em operações garantidas pelo FGC;
recebeu R$ 4,3 BILHÕES do FGC.
A partir de maio, Vorcaro passa a vender
partes do banco e de seus bens: a KOVR (seguros, previdência, por R$ 418
milhões), parte dos próprios bens para o BTG (R$ 954 milhões), o fundo Itaminas
(R$ 401 milhões). A conta não fechava. Em abril de 2025, o conglomerado Master
deixava de recolher cerca de R$ 500 milhões em compulsórios (dinheiro que
bancos têm de deixar estacionado no BC); em agosto, "devia" R$ 2,5
bilhões. Em 2025, era um zumbi, com dinheiro que não tinha, valor de capital
superestimado por irregularidades, ativos fictícios ou de nenhuma liquidez;
quando foi liquidado, estava sem carteira de crédito que rendesse dinheiro,
além do "problema" do crédito fictício. Fim.
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