segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O BC pode cortar a Selic contra o mercado? Por Alex Ribeiro

Valor Econômico

A mensagem do Copom de dezembro acabou sendo contaminada por outros fatores, como as preocupações com as eleições de 2026 e as remessas de lucros e dividendos ao exterior

O jeito de os banqueiros centrais se comunicarem mudou muito desde que Alan Greenspan, que foi chefe do Federal Reserve (Fed), afirmou que havia aprendido a “murmurar com grande incoerência”. Se algo que ele tivesse dito parecesse muito claro, era porque o ouvinte havia entendido mal. Agora, a nova fronteira é falar até por memes, como fez o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, na entrevista do Relatório de Política Monetária (RPM), citando um deles.

A mensagem que ele queria passar: alguns participantes do mercado financeiro se enganaram quando leram uma mensagem conservadora apenas porque o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC não telegrafou que vai começar a cortar os juros já nesta reunião de janeiro.

O meme é um pouco batido, feito em cima daquele quadrinho em que o Batman dá um tapa na cara do Robin, que já foi usado em diversas situações. “Mas ele não telegrafou janeiro, então foi ‘hawkish’”, diz o Robin, usando o jargão que indica um banco central conservador. “Ele não vai telegrafar nada”, responde o Batman, ao desferir a bofetada.

Na coletiva do RPM, Galípolo foi cercado de perguntas, reformuladas de todas as formas, que queriam extrair alguma pista sobre o que, afinal, será decidido na reunião que acontece em três semanas. Sua resposta: não podia dizer nada porque nada foi decidido.

Foi quando se referiu ao “memezinho” que está rodando por aí e falou sobre a situação absurda de se procurar a “quadratura do círculo”. “Estou tentando tirar uma dica num texto que não dá dica”, disse Galípolo. Ou seja, se alguém viu algo claro no murmúrio do Copom é porque entendeu as coisas errado. O Copom manteve a porta aberta; quem fechou foi o mercado.

Nos dias em que saíram o comunicado e a ata do Copom de dezembro, o mercado financeiro reprecificou as chances de uma baixa na taxa básica em janeiro. Até então, as chances de corte da Selic nas opções do Copom estavam em 60% e, ultimamente, as chances de manutenção chegaram perto de 70%.

Não foram só os operadores que mudaram sua visão; os economistas também. A mediana das projeções dos analistas econômicos para o Copom de janeiro passou de corte de 0,25 ponto percentual para a manutenção da taxa nos atuais 15% ao ano. A média das projeções para a Selic em janeiro vai subindo, de 14,81% antes da comunicação do Copom para 14,92% agora.

O ponto não é revisar as apostas, é por que revisá-las: por dados ou por ausência de telegrafia. Uma coisa é acharem que, dada a evolução do cenário econômico esperada até a reunião de janeiro, não vai haver espaço para a redução da Selic. Mas o que se viu foram vários participantes de mercado dizendo que, já que o BC não telegrafou que vai cortar, não vai ter corte.

A esta altura, não deveria haver dúvida sobre a mensagem do Copom. Galípolo disse e repetiu, na entrevista do RPM: “Não há nenhuma seta dada nem porta fechada para as próximas reuniões”. Já se sabia, pelo comunicado e pela ata do Copom, que não havia nenhuma seta dada. A novidade foi justamente ele dizer que não havia porta fechada - e quem estava fechando era o mercado, depois de tirar conclusões precipitadas da comunicação do Copom.

A questão que se impõe é se haveria clima para cortar o juro em janeiro, quando vai se consolidando a aposta de que não haverá corte. O Copom sempre pode baixar, mas esses movimentos têm maior credibilidade quando o mercado acha que é a hora de começar o ciclo de distensão.

Uma possibilidade é vir um dado econômico que mostre um progresso não esperado no combate à inflação que faça o mercado mudar de visão. Um dado mais ou menos dentro das expectativas, como o IPCA de 0,33% em dezembro, não altera muito as coisas - ainda mais porque alguns indicadores qualitativos foram ruins.

Em parte, a mensagem do Copom de dezembro acabou sendo contaminada por outros fatores, como as preocupações com as eleições de 2026 e as remessas de lucros e dividendos ao exterior. No penúltimo dia de 2025, a cotação do dólar chegou a R$ 5,57. Agora, algumas dessas inquietações estão dando uma trégua, mas a aposta majoritária na manutenção dos juros em janeiro está cristalizada.

Com a ajuda de dados mais fracos do mercado de trabalho nos Estados Unidos, na sexta-feira, o dólar estava mais próximo de R$ 5,35. Voltamos à vizinhança do valor que o Copom utilizou, dentro do seu cenário-base, para projetar a inflação em 3,2% em meados de 2027, o horizonte em que deve cumprir a meta de 3%.

O dólar pode subir durante as eleições, mas não é o dólar, mecanicamente, que deveria determinar a Selic. Galípolo disse, em dezembro, que as eleições importam apenas na medida em que afetam a inflação. Mas qual inflação? “O nosso horizonte relevante já é um horizonte que perpassa o processo eleitoral”, pontuou, na entrevista do RPM.

Se não for pela evolução dos dados, a outra forma pela qual o mercado financeiro poderia, em tese, mudar a precificação das chances de corte de juros é por uma indicação do Copom, a tal mensagem telegrafada. Neste ano, porém, Galípolo ainda não se pronunciou nenhuma vez, nem para murmurar. Resta saber se, até a reunião, ele vai reabrir a porta que o mercado fechou.

 

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