Valor Econômico
Grandes questões econômicas são decididas na
surdina, com pouca discussão na sociedade
O Estado brasileiro é uma fonte quase inesgotável de oportunidades de negócios e as grandes empresas que atuam no país sabem que, para se manter lucrativas, precisam combinar estratégias de mercado com o desenvolvimento de relações íntimas com a classe política.
É difícil cravar que as coisas por aqui são piores do que em outros países, mas lacunas institucionais levam a crer que as decisões de políticas públicas e econômicas, no Brasil, quase sempre são tomadas levando em conta apenas os interesses privados, e não o que seria melhor para a sociedade.
Isso acontece nas três esferas de poder, mas
com o Legislativo e o Judiciário em recesso, cito um exemplo recente de como o
Poder Executivo é permeável aos lobbies empresariais.
No Valor de sexta-feira (9), as repórteres Marli
Olmos e Giordanna Neves mostram que as montadoras tradicionais de veículos,
representadas pela Anfavea, e as suas concorrentes chinesas, tendo à frente a
BYD, travam uma disputa nos bastidores a respeito do fim da isenção do imposto
de importação sobre veículos híbridos e elétricos.
Trata-se de uma batalha que influencia a
concorrência no setor - em 2025 a BYD já terminou o ano como a sétima empresa
em vendas - e também os planos dos consumidores que pretendem trocar de carro
nos próximos meses. No entanto, salvo a cobertura da imprensa, não se vê o
governo empenhado em levar essa discussão a público, trazendo à luz estudos
para justificar sua decisão de aumentar ou não os tributos sobre os elétricos.
O debate, lamentavelmente, fica restrito ao
jogo de gabinetes. Pesquisando a ferramenta Agenda Transparente, desenvolvida
pela organização Fiquem Sabendo (da qual sou conselheiro) e que compila os
compromissos públicos de centenas de autoridades do governo federal, é possível
ver que o presidente da Anfavea, Igor Calvet, tem realizado uma intensa
peregrinação por Brasília desde o final de outubro.
O principal alvo do executivo é o Ministério
do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC). Constam reuniões realizadas
por Calvet com o vice-presidente e titular da pasta Geraldo Alckmin ou seus
secretários nos dias 28/10 (quando foi acompanhado dos dirigentes das
principais fabricantes, autopeças e sindicato dos metalúrgicos), 05/11, 04/12,
09/12 e 23/12.
Já a BYD escalou seu vice-presidente,
Alexandre Baldy, para o corpo-a-corpo com as autoridades. Além de tentar
convencer os secretários do MDIC sobre a necessidade de manutenção da isenção
de tributos sobre a importação de veículos elétricos semi e desmontados (houve
reuniões no órgão em 11/11 e 17/12), o executivo da montadora chinesa conta com
um trunfo: o peso da política baiana no governo federal. Desde que assumiu a
fábrica da Ford em Camaçari (BA), a BYD caiu nas graças dos petistas. Como medida
é fundamental na estratégia da BYD para continuar crescendo no mercado, Baldy
acionou o ministro Rui Costa na Casa Civil em pelo menos duas ocasiões nos
últimos dois meses, em 12/11 e 11/12.
Aliás, os nomes de Calvet e de Baldy como
representantes das grandes montadoras em operação no país dizem muito sobre
como o lobby é parte das táticas empresariais no Brasil.
Igor Calvet foi secretário de Desenvolvimento
e Competitividade Industrial no governo Temer e presidente da Agência
Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) na gestão de Bolsonaro (ambos
os órgãos vinculados ao MDIC). É também o primeiro presidente da Anfavea que
não fez carreira nas grandes montadoras.
Alexandre Baldy, por sua vez, foi deputado
federal (2015-2019), ministro das Cidades de Temer e secretário de Transportes
Metropolitanos de São Paulo no governo Doria. Hoje, além da vice-presidência da
BYD, Baldy é também o presidente do PP em Goiás e dirigente da Agência Goiana
de Habitação, na administração de Ronaldo Caiado.
Não há, a princípio, nada de errado em
empresas contratarem ex agentes públicos para defender seus interesses. Aliás,
o lobby é uma atividade legítima, que faz parte da prática democrática.
Precisamos, porém, fazer aprimoramentos para que seu exercício não distorça as decisões
governamentais.
Apesar de a publicação de agendas públicas
ser um avanço recente, levado a cabo pela Controladoria-Geral da União, essa
transparência nos encontros de autoridades com agentes privados tem que ser
adotada também no Congresso Nacional e aplicada obrigatoriamente no Judiciário
(no STF hoje só os ministros Cristiano Zanin e Cármen Lúcia costumam publicar
seus compromissos).
Além disso, como me lembrou o leitor Plinio
Porciúncula, há mais de quarenta anos tramitam no Congresso Nacional propostas
legislativas para se regular a atividade dos lobistas, mas nunca houve vontade
política em levar essa pauta adiante. Saber quem são, o que fazem, quem
contrata e o que defendem os lobistas que transitam pelos gabinetes de Brasília
é fundamental.
Por fim, em vez de deliberar questões de
interesse público a quatro paredes, o governo precisa publicar as razões e,
principalmente, os fundamentos técnicos que comprovam que sua decisão é a
melhor para o país, e não para a empresa X ou Y.

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