Por Andrea Jubé e Murillo Camarotto / Valor Econômico
Líder do governo na Câmara avalia que proposta não
deve ser aprovada, vê feridas na relação com Motta ‘cicatrizadas’ e analisa
eleições
Em meio à crise com a saída prematura do ministro
Ricardo Lewandowski do Ministério da Justiça, o líder do governo na Câmara dos
Deputados, José Guimarães (PT-CE), acha difícil que a proposta que era a
bandeira da pasta, a proposta de emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública,
seja votada antes das eleições. “Subiu no telhado”, admitiu. Ele também
descarta a criação de uma pasta da Segurança Pública ainda neste ano.
Sobre o desentendimento do PT com o presidente da
Casa, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), no fim do ano, afirmou que as
feridas “estão cicatrizando”. Acrescentou que a redução da escala 6 x 1 é
prioridade do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva neste semestre.
Vice-presidente do PT e
coordenador do grupo de trabalho eleitoral da sigla, ele disse que o partido
tem nesta eleição o desafio de alterar a correlação de forças na Câmara e no
Senado. A meta é eleger pelo menos 90 deputados federais, e impedir a oposição
de fazer maioria no Senado. Em tom de desabafo, reclamou da vida difícil do
governo no Congresso: “É dolorosa a realidade aqui dentro. Chega a ser
dilacerante”.
Guimarães sustentou que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, não tem o direito de sair do governo e ir pra casa. Ele defende que Haddad seja candidato em São Paulo, ao governo ou ao Senado. “O Haddad tem missão a cumprir”.
A seguir os principais pontos da entrevista ao Valor:
Valor: PT
e Hugo Motta se desentenderam no fim do ano passado. E agora, como está a
relação?
José Guimarães: Eu acho que esse
episódio [do PL] da dosimetria deixou feridas que, aos poucos, estão
cicatrizando. O caso da Câmara já cicatrizou com a ação que nós fizemos com o
Hugo Motta no final do ano, [as conversas] com Lula, Haddad, etc. Mas eu acho
que também serviu de lição.
Esse episódio [do PL] da
dosimetria deixou feridas que, aos poucos, estão cicatrizando. Serviu de lição”
Valor: O
senhor também se refere ao PL antifacção, relatado por um adversário? Qual
lição ficou?
Guimarães: Você
tem um mundo plural aqui dentro, em que as matérias polêmicas precisam ser
relatadas, na minha opinião, por gente que consiga fazer a síntese dessa
realidade, nem só para um lado, nem só para o outro.
Valor: O
senhor mencionou que o Congresso terá apenas seis meses efetivos de
funcionamento. Como isso impacta a agenda de votações?
Guimarães: O Congresso
funciona, na prática, até junho, porque depois entramos no período pré-eleitoral.
Nesses seis meses, precisamos escolher o que vamos discutir e votar. Há
matérias que surgem naturalmente - medidas provisórias, reajustes, situações
emergenciais - e há temas estratégicos. Para mim, a redução da escala 6x1 é um
tema estratégico porque responde a uma nova realidade do mundo do trabalho.
Valor: Mas
há resistência do setor produtivo e até da população, que teme a redução de
jornada com corte de salário. Esse debate está maduro?
Guimarães: Esse debate
precisa ser feito. A discussão envolve justamente esclarecer que redução de
jornada não significa, necessariamente, redução salarial. Isso tudo precisa ser
enfrentado com transparência.
Valor: Qual
proposta deve avançar? Há vários projetos tramitando.
Guimarães: Existem projetos
antigos, como a PEC apresentada pelo Reginaldo [Lopes, do PT-MG], e há a PEC
mais recente, da deputada Érika [Hilton, do Psol-SP]. O caminho é semelhante ao
que fizemos em outras pautas, como no Imposto de Renda ou no corte de
benefícios fiscais: organizar o debate, buscar síntese e construir maioria.
Reeleição do Lula é a
prioridade das prioridades. Depois, a eleição de senadores e deputados”
Valor: Parte
da indústria e do empresariado é contra a proposta. É hora de brigar?
Guimarães: É verdade, mas a
vida política também vai resolvendo essas resistências. O Brasil está passando
por muitas transformações. Nós aprovamos, por exemplo, o corte de benefícios
fiscais - algo que ninguém acreditava que fosse possível - e aprovamos. Houve
resistência, mas não houve o caos que muitos anunciavam.
Valor: O
fim da escala 6x1 pode se tornar uma bandeira da campanha de reeleição de Lula?
Guimarães: Acho que sim. Veja
o exemplo da isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil. Quando isso foi
anunciado, houve uma reação enorme, diziam que era impossível. No fim, foi
aprovado exatamente como o governo queria. Esses episódios mostram que é
possível enfrentar resistências e avançar.
Valor: Além
do fim da jornada 6x1, o governo vai se empenhar em quais outras pautas?
Guimarães: Há outras matérias
importantes: regulação das big techs, inteligência artificial, o PL antifacção.
São temas que o país precisa discutir.
Valor: A
PEC da Segurança Pública é uma das prioridades. Ainda tem chances de avançar
este ano?
Guimarães: Eu acho difícil. É
ano eleitoral e essa pauta é muito sensível. Se não houver mudanças no
relatório [do deputado Mendonça Filho, do União-PE], não faz sentido levar uma
PEC ao plenário para ser derrotada. Segurança e direitos das minorias são temas
que a direita explora com muita desinformação.
Valor: Subiu
no telhado então?
Guimarães: Acho que subiu.
Valor: Não
chega ao plenário?
Guimarães: Se a gente não
mudar algumas coisas no relatório do Mendonça Filho, aí não é negócio para o
governo. Se tem um tema que quando chega no plenário, a gente não consegue
aprovar, é segurança. A direita inventa todo tipo de marmota quando vai debater
esse tema.
Valor: Com
a saída do ministro Ricardo Lewandowski do Ministério da Justiça, o PT defende
a divisão da pasta, com a criação do Ministério da Segurança Pública. Isso é
viável para este ano?
Guimarães: Defendo
essa tese. A saída dele foi uma surpresa para mim. Mas acho que o governo
deveria aproveitar para fazer uma reformulação e criar o Ministério da
Segurança, com um quadro preparado para enfrentar o problema em parceria com os
governadores.
Valor: Há
tempo hábil para isso neste ano?
Guimarães: Só após a aprovação
da PEC da Segurança. E não sei se essa PEC será aprovada neste semestre.
Valor: Qual
a prioridade do PT nesta eleição? Reeleger Lula?
Guimarães: O PT tem duas
responsabilidades. Primeiro, ajudar o Lula a montar palanques amplos, garantir
a frente ampla nos Estados, agregar aliados. E, segundo, o PT vai se dedicar a
cumprir a sua missão mais grandiosa dos últimos tempos: alterar a correlação de
forças na Câmara e no Senado. Temos que impedir que a oposição faça maioria no
Senado, e eleger pelo menos 90 deputados federais.
Valor: O
PT vai sacrificar candidatos a governador para investir nas vagas de senadores?
Guimarães: Nós temos 11
candidatos a governador e 18 ao Senado, é o contrário da eleição passada. Não
estou dizendo que eleger governadores não seja importante. Mas é em Brasília
que a coisa se desenvolve, é aqui onde se encontram as maiores dificuldades
para conseguir governar no modelo do presidencialismo de coalizão.
Valor: A
maior dificuldade é não ter maioria no Congresso?
Guimarães: Isso é uma tortura,
é o que eu vivi nesses últimos três anos. É dolorosa a realidade aqui dentro.
Chega a ser dilacerante, por conta da necessidade que temos de aprovar os
projetos. Precisa de muita capacidade de articulação.
Valor: O
Centrão é maioria no Congresso desde a redemocratização. Como mudar isso?
Guimarães: O PT tem que saber
priorizar a utilização do fundo eleitoral. Primeiro vem a reeleição do Lula,
depois, a eleição dos senadores, e em terceiro, dos deputados federais. Se o PT
souber priorizar isso, podemos sair vitoriosos.
Valor: Não
preocupa a popularidade de Lula não crescer?
Guimarães: O Brasil de hoje
jamais será o Brasil de 2010, quando Lula entregou o governo para a presidente
Dilma [Rousseff], e ele tinha mais de 80% de ótimo e bom. Hoje temos as redes
sociais, a polarização política, o mundo é outro.
Valor: O
PT não tem palanques fortes em São Paulo e Minas Gerais, Isso não é um
problema?
Guimarães: Acho que Lula tem
chance de ganhar em São Paulo, ele está muito bem na capital e na região
metropolitana. Se o PT botar uma chapa competitiva lá, com [Fernando] Haddad e
[Geraldo] Alckmin, o palanque terá densidade eleitoral.
Valor: Mas
nenhum dos dois quer. Alckmin prefere continuar como vice, e Haddad disse que
não disputará mais eleições.
Guimarães: Isso é uma coisa
que o Lula terá que resolver. O Haddad é um vitorioso. Não dá pra sair do
governo e ir para casa. Eu vou debater fortemente isso dentro do PT. O Haddad
tem missão a cumprir. Ele é um dos ministros mais fortes do governo, precisa
estar à disposição do projeto, como todos nós.
Valor: Haddad
é questionado pela trajetória da dívida pública, que continua crescendo.
Guimarães: Esse discurso de
gasto público é uma fantasia. O país que tem o maior déficit público são os
Estados Unidos. Eu duvido que os arautos do ajuste fiscal digam que o
[presidente Donald] Trump gasta demais.
Valor: Mas
os Estados Unidos são o país mais rico do mundo.
Guimarães: Os países são
desenvolvidos porque são endividados. O Brasil está em uma situação de
estabilidade econômica que também pode se endividar se for para ajudar os mais
pobres. Esse é um problema de visão de mundo, de visão de governos.
Valor: E
sobre Minas Gerais?
Guimarães: Acho temos um
problema que é Minas, não estamos bem para governador, mas acharemos uma
solução. Três Estados são fundamentais para o Lula: São Paulo, Rio de Janeiro e
Minas. Resolvendo bem isso, podemos ganhar. E o Nordeste é o nosso paraíso.
Valor: Continua
sendo? Lula também perdeu apoio lá.
Guimarães: Continua sim, cai
e volta. Por exemplo, vi uma pesquisa no Ceará mostrando Lula 50 pontos na
frente do Flávio Bolsonaro.
Valor: No
Ceará, o PT não está preocupado com a candidatura de Ciro Gomes (PSDB) ao
governo?
Guimarães: Mesmo que o Ciro
dispute o governo, não terá alteração na eleição para presidente.
Valor: Mas
não é importante para o PT manter o governo lá?
Guimarães: Mas o [governador]
Elmano de Freitas [do PT] está avaliado positivamente com 70%, e nós temos
muita coisa pra mostrar no Ceará.
Valor: Vocês
veem o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como um adversário mais fácil para
Lula?
Guimarães: Quem quer ganhar a
eleição não escolhe o adversário. Vamos derrotar ou ele, ou o pai dele [o
ex-presidente Jair Bolsonaro, que está inelegível], ou quem quer que seja.
Valor: Acha
que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), ainda pode
concorrer à Presidência?
Guimarães: Acho difícil. Acho
que a família Bolsonaro não vai abrir mão.
Valor: O
senhor ainda considera o bolsonarismo forte no país?
Guimarães: Tem perdido muita
força. Acho que essa eleição pode ser um divisor de águas [dessa polarização].
Valor: Há
quem veja o PT de salto alto, achando que a reeleição de Lula está garantida.
Guimarães: Não acho isso. Será uma eleição dura. Não por conta do projeto do Lula, mas por conta da realidade do país, da polarização. Na política, é sempre bom uma dose de humildade.

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