sábado, 31 de janeiro de 2026

A importância silenciosa, mas decisiva, do Presidente da República. Por Filipe Lobo d'Ávila*

Expresso(Portugal)

*Advogado, antigo vice-presidente do CDS

A história recente mostra que, em momentos de bloqueio, a intervenção presidencial foi determinante para devolver clareza ao sistema político ou, quando mal-usada, para acentuar crises democráticas. Esta magistratura de influência é um poder que exige coragem, ponderação e sobretudo exige sentido de responsabilidade

Num país habituado a olhar para o Governo como o centro da ação política, é fácil subestimar o papel do Presidente da República. No entanto, a estabilidade democrática portuguesa depende, em grande medida, da forma como o Presidente exerce os seus poderes - discretos na aparência, mas profundos no exemplo e nas consequências.

A importância do cargo não se mede pelo número de decisões diárias, mas pela capacidade de intervir nos momentos em que o país mais precisa de equilíbrio, prudência e visão institucional.

O Presidente é, antes de tudo, o garante do regular funcionamento das instituições. Esta função, tantas vezes repetida e tão pouco compreendida, significa que cabe ao Chefe de Estado assegurar que nenhum órgão de soberania se desvia do seu papel, que as crises políticas não se transformam em crises de regime e que a Constituição permanece o fio condutor da vida democrática. Quando o sistema entra em tensão, é para o Presidente que o País olha - não para governar, mas para arbitrar. Não para dividir, mas para unir.

A dissolução da Assembleia da República é talvez o exemplo mais evidente do peso político do cargo. Não é um gesto simbólico. É uma decisão que redefine ciclos, altera maiorias e pode mudar o rumo do país, como já se viu no passado democrático do País. A história recente mostra que, em momentos de bloqueio, a intervenção presidencial foi determinante para devolver clareza ao sistema político ou, quando mal-usada, para acentuar crises democráticas. Esta magistratura de influência é um poder que exige coragem, ponderação e sobretudo exige sentido de responsabilidade.

Por outro lado, a influência do Presidente não se esgota na gestão de crises. A nomeação do Primeiro Ministro, o veto político, o pedido de fiscalização preventiva ao Tribunal Constitucional e a nomeação de chefias militares são instrumentos que moldam o equilíbrio de poderes. Mesmo quando não usados, a sua simples existência condiciona comportamentos, incentiva consensos e impede excessos. O Presidente é, assim, um contrapeso permanente. Uma garantia de que o país não fica refém de maiorias circunstanciais ou de impulsos governativos. Não é oposição ao Governo, é equilíbrio no sistema.

No plano simbólico, o Presidente desempenha uma função que nenhum outro cargo pode assumir: a de representar a unidade nacional. Representar Portugal. Num tempo de polarização crescente, esta dimensão torna-se ainda mais relevante, na diplomacia externa e na ação prática.

O Presidente é eleito por todos e fala para todos. Não é um Líder de Bancada, não é um Líder de Oposição, não é um Líder Partidário, é um Presidente de todos. A sua palavra tem peso não porque impõe, mas porque agrega. É esta autoridade moral, construída na distância do quotidiano partidário, que permite ao Chefe de Estado ser uma referência de estabilidade e confiança.

A importância do Presidente da República não está, portanto, na gestão do dia-a-dia, mas na capacidade de proteger o país dos seus próprios sobressaltos.

É um cargo que exige experiência, prudência, firmeza, moderação e visão institucional. E é precisamente por isso que, em Portugal, o Presidente continua a ser uma das figuras mais determinantes da nossa democracia - mesmo quando parece estar em silêncio.

Pela importância fundamental que tem, a escolha presidencial não permite indiferença, absentismo ou falta de comparência.

Considero por isso absolutamente irrelevante e até patética a dicotomia entre democratas vs anti-democratas ou socialistas vs representantes de uma qualquer direita pura.

As eleições presidenciais não são eleições partidárias. Elegemos aquele que se apresenta aos portugueses como a melhor escolha para todos representar, no quadro constitucional existente.

A moderação e a capacidade de diálogo do Presidente serão essenciais para garantir a influência presidencial e é por isso que aquilo que verdadeiramente importa acaba por ser o perfil dos candidatos a Presidentes.

No dia 8 eu não votarei contra ninguém. Não votarei pela negativa: ou porque é socialista, ou porque é de extrema-direita, ou porque pertence ao clube ou porque pertence a outra coisa qualquer.

Votarei na pessoa que considero ter melhor perfil para o cargo. Votarei naquele que considero ser a escolha mais segura para o futuro dos meus filhos e naquele que considero ter o perfil adequado para os desafios do cargo de Presidente da República. Para o equilíbrio do sistema e para a pacificação democrática. Votarei Seguro.

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