terça-feira, 17 de março de 2026

Givaldo Siqueira, o Giva, por Ivan Alves Filho

Com Givaldo Siqueira, pernambucano de Serra Talhada radicado desde menino no Rio de Janeiro, tive conversas pautadas sempre pelo humor e pela inteligência. Paulinho da Viola dizia ser o Givaldo o maior papo do Rio de Janeiro e com toda razão. As conversas com ele, velho dirigente do Partido Comunista Brasileiro (PCB), iam muito além da política inclusive. O nosso querido Clube de Regatas do Flamengo, por exemplo, rendia muito assunto.

Eu me recordo que certa vez – isso se deu no início dos anos 90 – nós tivemos um encontro na Praça Mauá, no centro do Rio de Janeiro, às nove e meia da manhã e conversamos até às seis da tarde. Eu nem fui trabalhar naquele dia, e peço perdão tardio à Editora Terceiro Mundo por isso. Matei o trabalho. Acontece nas melhores famílias. Mas a causa era nobre: repassamos toda a História do Brasil, desde o período pré-colonial até a redemocratização, nada mais nada menos... 

Giva, como todos nós o chamávamos, foi um velho amigo de meu pai. Era sobrinho do grande músico José Siqueira, fundador da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB). Givaldo frequentava a nossa casa já nos anos 50, na fase do Governo JK, e me conheceu ainda guri, de calça curta. Enfrentou uma clandestinidade pesada, que durou de 1964 a 1979. Viveu em várias partes do mundo, a começar pela ex-União Soviética e pela Itália. 

No período da legalidade do PCB, em meados da década de 80, nós nos víamos com frequência quase diária na sede do Comitê Central, onde também se alojava o Secretariado. Batem ponto na sede partidária por essa época homens como Giocondo Dias, Dinarco Reis, Almir Neves, Marcos Jaimovich, Sérgio Augusto de Moraes, Geraldo Rodrigues dos Santos, José Raimundo da Silva e Ivan Alves, meu velho pai, que dividia uma sala com Givaldo, justamente. Uma vez por semana, em média, apareciam por lá, já que vivem em outros estados da Federação, Salomão Malina, Regis Fratti e Luiz Carlos Azedo, de São Paulo; Francisco Inácio de Almeida e Roberto Freire, de Brasília, e Paulo Elisiário Nunes, de Belo Horizonte. Eram os tempos da glasnost e da perestroika de Gorbachev, que muito nos animava então. 

Depois, prosseguimos mantendo contato, Givaldo e eu, nas acaloradas reuniões da Fundação Astrojildo Pereira e do Diretório Nacional do Partido. Às vezes, divergimos, como é natural, mas sempre com respeito mútuo. 

Uma certa ocasião, Givaldo me convidou para escrevermos um livro juntos, sobre a natureza do desenvolvimento das bases materiais que nós dois relacionamos ao fim da União Soviética e à própria dificuldade revelada na marcha pela construção do socialismo. A ideia era tirar o foco apenas das questões dos desvios burocráticos do processo iniciado em 1917 na Rússia, questões por sinal reais, e entender que nenhuma transformação social se faz à revelia das condições materiais objetivas – e que essas condições para a superação da ordem capitalista tinham que ver com a automação, que lançava os alicerces para tornar obsoleta a exploração do homem pelo homem. Um pouco como a Revolução Industrial inglesa tornou o trabalho escravo obsoleto também. Uma Revolução Industrial que também significou a passagem da sociedade com base na exploração vegetal e animal para aquela assentada na exploração mineral, conforme destacam E. Labrousse e R. Mousnier em seus esplêndidos estudos sobre a nova ordem econômica iniciada na Inglaterra já no último quartel do século XVIII. 

Infelizmente, o livro com o Givaldo Siqueira não se concretizou, mas ficou a reflexão: qual seja, o socialismo real não criou sua própria base material, uma unidade produtiva adequada aos seus propósitos políticos (como a unidade fabril para o capitalismo, por exemplo). E, sem base própria, não é possível edificar uma nova ordem social. 

Algo que notei ao longo da vida, é que pessoas inteligentes também erram, mas Givaldo raramente se equivocava em suas conclusões. E ele estava certíssimo ao propor um resgate da Democracia pelo movimento marxista. O atraso tecnológico resultava também daí, dessa falta de oxigenação da vida pela informação e pela educação. O Givaldo enxergava lá na frente. 

Independentemente de discordarmos dele em uma ou outra visão política que poderia expressar, Givaldo Siqueira encarnava a velha escola partidária, que forjava formuladores de grande qualidade - e que tanta falta faz ao Brasil de hoje

*Ivan Alves Filho, historiador

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