Eu me recordo que certa vez – isso se deu no
início dos anos 90 – nós tivemos um encontro na Praça Mauá, no centro do Rio de
Janeiro, às nove e meia da manhã e conversamos até às seis da tarde. Eu nem fui
trabalhar naquele dia, e peço perdão tardio à Editora Terceiro Mundo por isso.
Matei o trabalho. Acontece nas melhores famílias. Mas a causa era nobre:
repassamos toda a História do Brasil, desde o período pré-colonial até a
redemocratização, nada mais nada menos...
Giva, como todos nós o chamávamos, foi um velho amigo de meu pai. Era sobrinho do grande músico José Siqueira, fundador da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB). Givaldo frequentava a nossa casa já nos anos 50, na fase do Governo JK, e me conheceu ainda guri, de calça curta. Enfrentou uma clandestinidade pesada, que durou de 1964 a 1979. Viveu em várias partes do mundo, a começar pela ex-União Soviética e pela Itália.
No período da legalidade do PCB, em meados da
década de 80, nós nos víamos com frequência quase diária na sede do Comitê
Central, onde também se alojava o Secretariado. Batem ponto na sede
partidária por essa época homens como Giocondo Dias, Dinarco Reis, Almir
Neves, Marcos Jaimovich, Sérgio Augusto de Moraes, Geraldo
Rodrigues dos Santos, José Raimundo da Silva e Ivan Alves, meu velho pai, que
dividia uma sala com Givaldo, justamente. Uma vez por semana, em média,
apareciam por lá, já que vivem em outros estados da Federação, Salomão Malina,
Regis Fratti e Luiz Carlos Azedo, de São Paulo; Francisco Inácio de Almeida e
Roberto Freire, de Brasília, e Paulo Elisiário Nunes, de Belo Horizonte. Eram
os tempos da glasnost e da perestroika de Gorbachev, que
muito nos animava então.
Depois, prosseguimos mantendo contato,
Givaldo e eu, nas acaloradas reuniões da Fundação Astrojildo Pereira e do
Diretório Nacional do Partido. Às vezes, divergimos, como é natural, mas sempre
com respeito mútuo.
Uma certa ocasião, Givaldo me convidou para
escrevermos um livro juntos, sobre a natureza do desenvolvimento das bases
materiais que nós dois relacionamos ao fim da União Soviética e à própria
dificuldade revelada na marcha pela construção do socialismo. A ideia era tirar
o foco apenas das questões dos desvios burocráticos do processo iniciado em
1917 na Rússia, questões por sinal reais, e entender que nenhuma transformação
social se faz à revelia das condições materiais objetivas – e que essas
condições para a superação da ordem capitalista tinham que ver com a automação,
que lançava os alicerces para tornar obsoleta a exploração do homem pelo homem.
Um pouco como a Revolução Industrial inglesa tornou o trabalho escravo obsoleto
também. Uma Revolução Industrial que também significou a passagem da sociedade
com base na exploração vegetal e animal para aquela assentada na exploração
mineral, conforme destacam E. Labrousse e R. Mousnier em seus esplêndidos
estudos sobre a nova ordem econômica iniciada na Inglaterra já no
último quartel do século XVIII.
Infelizmente, o livro com o Givaldo Siqueira
não se concretizou, mas ficou a reflexão: qual seja, o socialismo real não
criou sua própria base material, uma unidade produtiva adequada aos seus
propósitos políticos (como a unidade fabril para o capitalismo, por exemplo). E,
sem base própria, não é possível edificar uma nova ordem social.
Algo que notei ao longo da vida, é que
pessoas inteligentes também erram, mas Givaldo raramente se equivocava em suas
conclusões. E ele estava certíssimo ao propor um resgate da Democracia
pelo movimento marxista. O atraso tecnológico resultava também daí, dessa falta
de oxigenação da vida pela informação e pela educação. O Givaldo enxergava
lá na frente.
Independentemente de discordarmos dele em uma ou outra visão política que poderia expressar, Givaldo Siqueira encarnava a velha escola partidária, que forjava formuladores de grande qualidade - e que tanta falta faz ao Brasil de hoje
*Ivan Alves Filho, historiador

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