domingo, 22 de fevereiro de 2026

Justiça que tarda, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Na mira por escândalo de 2022, governador estuda antecipar saída para evitar cassação

O Tribunal Superior Eleitoral marcou para 10 de março a retomada do julgamento de Cláudio Castro. Se for condenado, o governador do Rio será cassado e perderá os direitos políticos por oito anos.

Castro é acusado de usar a máquina e desviar dinheiro dos cofres do estado para se reeleger em 2022. O caso, conhecido como escândalo dos cargos secretos, foi revelado ainda durante a campanha. Envolvia o uso irregular da Uerj e da Fundação Ceperj para contratar milhares de cabos eleitorais, remunerados com saques na boca do caixa.

Em maio de 2024, o governador foi julgado no Tribunal Regional Eleitoral e escapou por apenas um voto. A Procuradoria-Geral Eleitoral recorreu ao TSE, onde o processo passou a andar a passo de tartaruga. Ficou adormecido por um ano até finalmente ser levado ao plenário em novembro passado.

Num longo relatório, a ministra Isabel Gallotti apontou o “cometimento sistemático de gravíssimas irregularidades” para favorecer Castro na disputa pelo Palácio Guanabara. “O Ceperj e a Uerj, instituições com relevantes funções sociais, foram desvirtuados para servir de fachada a um esquema de cooptação de votos”, resumiu.

Ao citar os pagamentos em espécie, a relatora apontou um “esforço deliberado para driblar a transparência e os mecanismos de controle”. “O objetivo não era atender ao interesse público, e sim criar uma rede de apoiadores remunerados com verbas estaduais e promover a imagem do governador e seus aliados”, disse.

Ela afirmou que Castro ocupou “posição central na arquitetura e execução do esquema ilícito”. “Não apenas anuiu com as práticas, mas as autorizou”, sentenciou, ao votar pela cassação do governador. O julgamento foi interrompido a pedido do ministro Antonio Carlos Ferreira, que disse precisar de tempo para “melhor refletir”.

Quando o processo foi instaurado, também estavam na mira o então vice-governador Thiago Pampolha e o então presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar. O primeiro renunciou em troca de um cargo vitalício no Tribunal de Contas do Estado, e o segundo foi preso e afastado por suspeita de vazar uma operação policial contra o Comando Vermelho.

Restou o governador, que voltou a sonhar com o Senado após recuperar popularidade com as matanças nas favelas da Penha e do Alemão. Ele nega as acusações e diz não haver “qualquer elemento novo que justifique a revisão de decisões já analisadas”.

Se os fatos narrados pela Procuradoria forem verdadeiros, o crime já compensou para Castro. Dos 39 meses de mandato que pretendia exercer, ele está prestes a completar o 38º. Planejava renunciar até 4 de abril para disputar uma vaga no Legislativo.

Agora, segundo aliados, o governador estuda antecipar a saída em algumas semanas, numa manobra para melar o julgamento e escapar da possível cassação. Seria uma desmoralização para o TSE — mas o tribunal não tem a quem culpar por sua própria demora.

 

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