domingo, 22 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Raiz do juro alto está nas amarras orçamentárias

Por O Globo

Indexação ao mínimo e vinculação obrigatória de despesas à receita respondem por 40% da alta na dívida

De equívoco em equívoco, o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá representado, ao fim de 2026, uma alta de 10% na dívida pública, para acima de 80% do PIB. Desse aumento, cerca de 40% — ou R$ 518 bilhões — se devem exclusivamente à indexação de benefícios previdenciários e programas sociais ao salário mínimo e à vinculação orçamentária obrigatória de gastos em saúde e educação, de acordo com cálculos do economista Samuel Pessôa. Tal expansão da despesa é o motivo para a taxa de juros brasileira estar entre as mais altas do mundo. Num país célebre pela carga tributária infame, o governo Lula, com o beneplácito do Congresso, apostou no aumento dos impostos para cobrir a despesa. Essa toada é o caminho para o caos. Se a campanha eleitoral permitir algum debate relevante, esse é um tema inescapável.

A democracia desafiada. Recompor a política para um futuro incerto, por Marco Aurélio Nogueira.

Rio de Janeiro, Ateliê de Humanidades, 2023.

INTRODUÇÃO

O presente livro se propõe a interpelar a sociedade e o modo como vivemos, privilegiando alguns de seus aspectos principais, hoje submetidos a amplo debate público. Não pretende oferecer uma teoria abrangente, que dê conta dos múltiplos aspectos da vida como ela é. Trata-se de um ensaio. Não há nele nenhum estudo de caso. Poderei me deixar sensibilizar pelos fatos que transcorrem em meu país, o Brasil, mas o interesse não estará aí. Meu propósito é assumidamente modesto e circunscrito: chamar atenção para certos gargalos que asfixiam a vida atual e sugerir caminhos para compreendê-los.

No centro dos capítulos que se seguirão está a questão da democracia. Trata-se de uma escolha sustentada pela convicção de que não teremos um futuro promissor sem arranjos democráticos sustentáveis. Podemos e devemos discutir de “qual democracia” estamos a falar, que peso deverão ter nela os princípios liberais e socialistas, de que modo será feita a participação dos cidadãos, se os partidos políticos devem ter maior relevo do que as redes sociais, qual o melhor regime para a tomada de decisões, e assim por diante. Mas não há como renunciar à democracia como valor estratégico. Sem isso estaremos sempre a um passo da escuridão autoritária.

O ‘hegemon’ que não sabe recuar, por Luiz Sérgio Henriques

O Estado de S. Paulo

Político talhado para o conflito, Donald Trump é causa e efeito de uma gigantesca destruição não criadora

Um hegemon vingativo, destruidor de instituições que ele próprio ajudou a inspirar, a começar pela ONU e sua Carta de Direitos, está em evidente curso de dissolução da própria hegemonia. Conceito complexo este último. Nutre-se não só do poderio industrial ou militar, mas também, e amplamente, da capacidade de direção política e intelectual – de soft power, em suma. Essa é uma lição secular, anterior a qualquer formulação gramsciana. Já o centauro maquiaveliano, educador de políticos, alertava contra o uso exclusivo da violência. Se o príncipe só mobiliza as qualidades do leão e menospreza as manhas da raposa, ele incute medo nos lobos e termina preso numa armadilha.

Trauma, por Dorrit Harazim

 

O Globo

Na reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU, apenas três países condenaram os EUA e Israel pelo ataque: Rússia, China e Somália

A guerra no Oriente Médio arde. Ao iniciar sua quarta semana de combustão, pode dar a impressão de ter expansão errática, moto próprio e embaralhar nossa percepção de quem é o agressor, quem é o agredido. Em benefício dos fatos concretos, convém eliminar qualquer manipulação ideológica: foram os Estados Unidos e Israel que escolheram atacar o Irã dos aiatolás, ponto. As consequências históricas decorrentes dessa opção deverão ser cobradas de seus respectivos líderes, Donald Trump e Benjamin Netanyahu. Importa pouco se o ocupante da Casa Branca foi ou não arrastado por “Bibi” para deslanchar a ofensiva — Trump abraçou a aventura com doses iguais de “fúria épica” (nome da operação) e leviandade. A jornalista e historiadora Anne Applebaum acerta quando escreve na revista The Atlantic que o 47º presidente americano simplesmente não sabe pensar — nem estratégica, nem histórica, geográfica ou racionalmente.

Travessia estreita entre dois fogos, por Míriam Leitão

O Globo

Haddad deixa legado da reforma tributária. Viveu entre o fogo amigo e as críticas da direita. Aumentou impostos? Sim, sobre os muito ricos

A conquista mais importante da gestão Fernando Haddad no Ministério da Fazenda é a reforma tributária, que será mais valorizada no futuro. Foi relevante também a agenda de justiça tributária, pela qual ele aumentou impostos sobre contribuintes de maior renda que estavam subtributados. Alguém pode dizer que não foi justo cobrar dos fundos exclusivos e offshore — investimentos dos super-ricos — o mesmo tributo pago pela classe média? Outro mérito de Haddad foi acolher na Fazenda a pauta ambiental e climática. O balanço de sua gestão tem mais acertos do que erros, mas para executar seu plano no ministério teve que vencer críticas da direita e muita oposição em seu próprio partido. Haddad viveu entre dois fogos.

Uma CPI que perdeu o rumo, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Comissão Parlamentar de Inquérito deve terminar sem resposta para aposentados

A CPI do INSS deve chegar ao fim nesta semana. Criada para investigar fraudes contra aposentados, foi capturada pela disputa eleitoral e perdeu o rumo na tentativa de pegar carona em outro escândalo.

A comissão foi instalada após a descoberta do esquema que afanou idosos com descontos indevidos. Segundo a Controladoria-Geral da União, os desvios somaram R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024, do início da gestão de Jair Bolsonaro à metade do atual mandato de Lula.

Briga intestina no STF, Por Merval Pereira

O Globo

Gilmar Mendes começa a tentar montar dentro do Supremo um ambiente que permita, mais adiante, anular o processo do Banco Master assim como fez com todos os processos da Operação Lava Jato

A divergência aberta entre os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, o decano da instituição, e André Mendonça, o relator do caso do Banco Master, é a evidência de que a crise de legitimidade que atinge o Supremo não se resolverá tão cedo, muito menos agora, quando os dois ministros se manifestaram publicamente sobre teses conceituais, um fustigando o outro. O ministro André Mendonça, já colocado na mídia como o novo guardião da moralidade jurídica, mandou seu recado em evento da OAB do Rio, afirmando, entre outras coisas, que não cabe ao juiz “ser uma estrela”, mas simplesmente agir de maneira certa, e julgar dentro do que é certo.

Vorcaro quer pautar a delação, por Elio Gaspari

O Globo

Banqueiro tenta se colocar no papel principal das tratativas com a PF; sugestão de que não pretende envolver o STF ignora o princípio de que delações não são para fazer amizades

Daniel Vorcaro é uma pessoa audaciosa e o que ele fez com o banco Master comprova essa característica. Da cadeia, ele sinalizou que partirá para a delação. Até aí, tudo bem, mas em apenas uma semana ele soltou sinais de fumaça, indicando que pretende ser o maestro do espetáculo.

Quando estava solto e tentava ser recebido pelo ministro Fernando Haddad, ele avisava: “Eu preciso falar para ele o que pode acontecer se algo acontecer comigo”.

Enquanto a Polícia Federal digere o conteúdo de seus oito celulares, os primeiros sinais revelaram-no simultaneamente ameaçador e conciliador. Ameaçou revelar suas conexões com o PT e levantou uma bandeira branca para as ligações com magistrados, revelando que não pretende envolver o Supremo Tribunal Federal na sua delação.

Pontos e contrapontos de Gilmar, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Gilmar erra ao embolar voto por clamor popular com espuma midiática e linchamentos morais

Gilmar Mendes embola o jogo e usa da velha regra de que tudo tem dois lados ou, neste caso, das investigações do Master, dois tipos de posicionamento e ação: um atende ao “clamor popular” para avançar e ganhar aplausos; outro, que ele defende, investiga, toma decisões e pretende julgar ao final com base em fatos objetivos, não jogando para a plateia.

Os erros de cálculo de Trump, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Os governos de Irã e EUA cometeram sérios erros de cálculo – o primeiro, no que diz respeito à deterrência; o segundo, às consequências políticas e econômicas da guerra. Agora, ambos precisam de tempo para recolocar a guerra na direção de seus objetivos.

Depois que Donald Trump rompeu o acordo nuclear em 2018, o governo do presidente Ebrahim Raisi, um nacionalista morto em acidente de helicóptero em 2024, alardeou avanços no enriquecimento do urânio para o patamar de 60%. O objetivo era mostrar que o rompimento fora um erro e incentivar os EUA de Joe Biden a voltar à mesa de negociações.

As recaídas de Lula, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Petista deveria dar mais atenção ao BC e aproveitar a inflação razoavelmente contida e as condições favoráveis do emprego e da produção

O inferno são os outros, escreveu Sartre no final da peça Entre Quatro Paredes. Lula transformou essa frase – ou alguma equivalente – em explicação mágica para todos os seus problemas e especialmente, é claro, para os problemas dos brasileiros. Segundo o presidente, o combustível ficou mais caro no Brasil por causa de “pessoas que não prestam” e “tiram proveito da desgraça”. Ele também reclamou, mais uma vez, da política monetária, depois do corte de 0,25 ponto na taxa básica de juros. “Acordei triste hoje porque esperava que o Banco Central abaixasse em 0,5% os juros. Essa guerra chegou até no Banco Central? Não é possível, estamos no sacrifício”, disse ele, aparentemente sem acreditar nos efeitos internacionais da guerra no Oriente Médio. Na mesma noite, apresentadores de tevê, sem exibir descrença e também sem cuidar de moralidade, noticiaram impactos da guerra em bolsas de valores.

Alta do diesel é das maiores do século, há pânicos na finança e nos governos, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Preço do combustível dá salto raro no Brasil; bancões preveem mais inflação no planeta

Juros sobem pelo mundo e pulam por aqui; parte do efeito da guerra está garantido

Em fevereiro, logo antes da guerra, o preço médio do diesel estava quase tão caro quanto no mês que antecedeu o caminhonaço de maio de 2018, greve de caminhoneiros, bloqueio de estradas e locautes que pararam o país. Neste março de guerra e de início de pânicos econômicos, o combustível ficou mais caro do que no paradão de 2018 —mesmo com dados preliminares, já é possível dizê-lo.

Chapa Valdemoro tem golpe de Estado, Banco Master e Moro tentando boquinha, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Aliança eleitoral no Paraná é a síntese perfeita de tudo o que há de errado com a direita nacional

Todo mundo erra, a política exige alianças desconfortáveis, mas chega uma hora que não dá mais

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) declarou seu apoio à candidatura de Sergio Moro ao Governo do Paraná. Moro, por sua vez, declarou sua adesão ao PL de Valdemar Costa Neto, Jair e Flávio Bolsonaro. O candidato do PL do Paraná ao Senado será Filipe Barros.

A chapa Valdemoro Costa Neto é a síntese perfeita de tudo o que há de errado com a direita nacional. É uma síntese de Banco Master com golpe de Estado e Sergio Moro tentando arrumar boquinha.

Relutância é entrave para Haddad, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Uma das condições essenciais a um candidato é transmitir do eleitor entusiasmo pelo cargo que disputa

Não foi o que exibiu o petista durante meses, ao afirmar que preferia chefiar a campanha de Lula ou sair de cena

Um dos pré-requisitos essenciais ao candidato a cargo eletivo é a capacidade de transmitir ao eleitorado entusiasmo pela função que pretende conquistar. Presidente precisa demonstrar gosto em comandar a nação, governador em administrar o estado e prefeito em gerir a cidade.

O bom aviso da transparência, por Muniz Sodré

 

Folha de S. Paulo

Foi-se o pensador alemão Habermas mas, muito antes, já havia morrido sua ideia de democracia deliberativa

O tempo trumpista não é de razão, mas de canhões e tentativas de trocas de comando em terras alheias

Foi-se o pensador alemão Jürgen Habermas. Muito antes do fato, já havia morrido a sua ideia utópica de democracia deliberativa, sustentada por uma esfera pública onde cidadãos discutiriam racionalmente assuntos de interesse comum. Igualmente, desaparecido o seu anseio de um federalismo soberano da União Europeia. A razão cultuada pelo filósofo não resiste ao digitalismo da internet e das redes sociais, apropriado por empresas neoliberais cujo único interesse é a compressão do espaço-tempo para acelerar transações de mercado. A transparência comunicativa por ele teorizada submergiu em algoritmos e plataformas privadas, dispositivos de pura mobilização emocional.

Poesia | Os Estatutos do homem - Thiago de Mello

 

Música | Sidney Miller & Nara Leão - A estrada e o violeiro