Lula precisa conter tentação intervencionista
Por Folha de S. Paulo
Governo anuncia mais subsídios para frear
preços de combustíveis; pacote deve ser, de fato, temporário
Tarefa seria menos árdua se finanças
governamentais não estivessem em situação vulnerável, o que também dificulta o
controle da inflação
Na segunda-feira (6), o governo Luiz
Inácio Lula da
Silva (PT) anunciou
novos subsídios temporários para conter o impacto da guerra no Irã sobre
os preços domésticos dos combustíveis, desta vez atingindo, além do óleo diesel,
o gás de
cozinha (GLP), o biodiesel e o querosene de aviação.
No mesmo dia, a Petrobras anunciou a demissão do diretor de Logística, Comercialização e Mercados, área responsável por vendas e formação de preços. Dias antes, Lula havia atacado publicamente um leilão de GLP realizado pela estatal, que resultou em ágios de mais de 100% sobre os valores costumeiros.
O contexto é mais do que suficiente para
evidenciar como o impacto de um choque econômico em ano eleitoral pode aguçar o
ímpeto intervencionista da administração petista —a ideologia partidária,
afinal, tanto advoga ações diretas do Estado sobre os mercados quanto minimiza
as consequências nefastas do desequilíbrio orçamentário.
A guerra já gerou efeitos negativos
consideráveis. Em apenas um mês, as expectativas mais consensuais para a
inflação neste ano subiram de 3,91% para 4,36%, bem acima da meta de 3% e mais
próximas do teto de 4,5%.
Não por acaso, o Banco Central deixou de se
comprometer com novas quedas de sua taxa de juros,
há pouco reduzida de 15% para ainda elevadíssimos 14,75% ao ano. Quanto mais
alta a Selic,
piores as perspectivas para as já muito deficitárias contas do governo e para o
endividamento das famílias —dois outros temas espinhosos na campanha eleitoral.
Por ora, o governo tem sido relativamente
contido em suas medidas. Ao menos no papel, os subsídios já concedidos, que
somam R$ 31 bilhões em custos, serão compensados pelo imposto instituído sobre
as exportações de petróleo e
pela alta da tributação sobre os cigarros.
É fundamental, porém, que as providências
sejam de fato temporárias, mesmo que o impacto da guerra perdure. Preços
irrealistas resultam em desabastecimento, e o Tesouro não tem como arcar com as
benesses por tempo indefinido —estima-se um rombo orçamentário federal superior
a R$ 1 trilhão neste 2026.
Cumpre ainda zelar pela solidez da Petrobras.
A estatal já será a principal onerada pelo imposto sobre a exportação do
petróleo. Tem ganhos com o aumento das cotações internacionais, mas tende a ser
obrigada a repassá-lo a seus preços internos.
A tarefa de lidar com o choque global de
oferta seria menos árdua se o país não estivesse em situação tão vulnerável nas
finanças governamentais, o que também dificulta o controle da inflação. Sob
Lula, o déficit público saltou de 4,6% do PIB, em 2022,
para 8,3% no ano passado, bem acima do padrão das principais economias globais.
A poucos meses da eleição, é irrealista
esperar ajuste fiscal. A guerra pode tornar ainda mais problemática a herança a
ser deixada para o próximo governo.
Cuidados com as canetas emagrecedoras
Por Folha de S. Paulo
Rápida expansão no consumo exige regulação de
farmácias de manipulação, que têm desrespeitado normas
Em SC, a Anvisa apreendeu 1,3 milhão de
ampolas de tirzepatida; farmacêuticas têm capacidade de fabricar 10 milhões de
canetas ao ano
As chamadas canetas
emagrecedoras promoveram uma revolução no tratamento da obesidade.
A enorme expansão do consumo em curto período de tempo, porém, exige a atenção
do poder público.
Os dispositivos de aplicação subcutânea
contêm medicamentos que
imitam o hormônio intestinal GLP-1 (como semaglutida, liraglutida e
tirzepatida), que aumenta a saciedade e ajuda a controlar a glicose.
Desde 2010, tanto no Brasil como na Europa e nos EUA, a liraglutida é usada no
tratamento de diabetes.
Em 2021, países desenvolvidos aprovaram a
semaglutida para perda de peso; no Brasil, isso se deu em 2023.
O uso dos produtos tem se ampliado para fins
estéticos, elevando o risco de efeitos colaterais quando não há o devido
acompanhamento médico.
Os preços são impeditivos para grande parte
dos brasileiros. O Ozempic (semaglutida) pode chegar a R$ 1.387, e o Mounjaro
(tirzepatida), a R$ 2.400.
Mesmo assim, segundo dados do Ministério do
Desenvolvimento, a importação das canetas deu um salto no país, de US$ 644,9
milhões em 2023 para US$ 1,6 bilhão em 2025 —alta de 148%.
A venda por farmácias de manipulação é
permitida, mas os estabelecimentos só podem produzir em pequena escala para
atender prescrições médicas individualizadas. As regras, entretanto, não estão
sendo respeitadas.
De acordo com a Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (Anvisa),
o setor importou pelo menos 100 kg de tirzepatida entre novembro de 2025 e
abril deste ano, o que é suficiente para a fabricação de cerca de 20 milhões de
canetas de 5 mg. Numa farmácia de manipulação em Florianópolis (SC), técnicos
do órgão apreenderam
mais de 1,3 milhão de ampolas de tirzepatida.
Como comparação, as farmacêuticas
internacionais têm capacidade de fabricar de 9 milhões a 10 milhões de canetas
ao ano.
Em novembro, a Polícia
Federal deflagrou a
Operação Slim, contra estabelecimentos que fabricam em larga escala
e sem controle de qualidade adequado.
Na segunda (6), a Anvisa anunciou
que avaliará cobranças mais rígidas para a importação dos
insumos usados na produção das canetas nesses locais e medidas que visem
garantir que as doses só sejam fabricadas após a apresentação de prescrições
médicas.
Trata-se de ações necessárias para garantir a segurança dos consumidores, diante da explosão do uso de um produto que promove enormes benefícios no combate à obesidade, mas que exige cautela na administração.
Isenções a combustíveis criam dúvida fiscal
Por O Globo
Governo quer cobrir perdas com alta na
arrecadação de impostos sobre petróleo, mas não há garantia
O governo anunciou um novo pacote para conter
os efeitos negativos da alta do petróleo e do gás provocada pela guerra no
Oriente Médio. Entre as medidas estão subvenção a diesel e gás de cozinha e
isenção de impostos federais sobre biodiesel e querosene de aviação
(PIS/Cofins). Os estados cobrirão metade do subsídio ao diesel importado. As
novas regras têm validade de dois meses, com a possibilidade de prorrogação até
agosto. No mês passado, o governo já eliminara impostos federais sobre
importação e venda de diesel e editara Medida Provisória (MP) para subsidiá-lo.
Somados, os pacotes de março e abril deverão ter impacto fiscal de R$ 31
bilhões em um ano.
O governo brasileiro não está sozinho ao
tentar reduzir os prejuízos econômicos trazidos pela guerra. Austrália,
Espanha, Itália e Polônia também abriram mão da receita de impostos para
minorar os impactos da alta do barril nos postos de combustível. No caso
brasileiro, porém, dois fatores exigem atenção. Primeiro, o presidente Luiz
Inácio Lula da
Silva tem demonstrado desapreço renitente pela saúde das contas públicas.
Segundo, a seis meses de uma eleição em que tentará conquistar outro mandato,
cresce a tentação de aproveitar o pretexto para abrir o cofre do Tesouro.
O governo argumenta que o impacto fiscal está
sob controle. “Estamos bem tranquilos em relação à neutralidade fiscal da
proposta”, afirmou o ministro do Planejamento, Bruno Moretti. A aposta do
governo é que a perda de arrecadação será coberta pelo aumento na receita
auferida com impostos e royalties pagos pela produção local de petróleo,
beneficiada pela alta do barril (se ele ficar em US$ 90, a estimativa é
arrecadar mais R$ 40 bilhões). Noutra frente, a alta do IPI sobre cigarros também
será usada para compensar as desonerações.
A expectativa do governo é que zerar os
impostos sobre o querosene de aviação acarrete queda de R$ 0,07 por litro, ou
algo em torno de R$ 30 milhões por mês. “Não faz sentido tentar segurar o preço
de passagens de avião pago pelas classes A e B e empurrar o custo para
contribuintes que jamais viajarão de avião”, diz Marcos Mendes, economista do
Insper. Ainda há outras medidas de socorro ao setor aéreo.
Como ressaltou o próprio ministro da Fazenda,
Dario Durigan, nada garante que as medidas terão efeito positivo para o
consumidor. Poderá prevalecer o aumento nos postos de combustíveis e
distribuidores de gás diante do cenário de escassez. Para contornar isso, o
governo tenta aprovar em regime de urgência no Congresso um novo tipo penal
para combater reajustes abusivos e editou MP dando à Agência Nacional do
Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis o poder de interditar estabelecimentos
em falta grave. Persiste a dúvida sobre a capacidade de coibir práticas
desleais. Controle de preços nunca funcionou.
O pior cenário seria uma combinação de
consumidores pagando caro pelo combustível e governo descontrolando as contas
públicas para bancar as isenções. A meta fiscal para este ano é um superávit
primário de 0,25% do Produto Interno Bruto (PIB), ou R$ 34,3 bilhões. Em crises
passadas, o governo Lula adotou a estratégia de engordar a lista de exceções
que não entram no cálculo da meta, mas elevam a dívida pública. Desta vez, há
pelo menos a promessa de buscar a neutralidade. Será preciso honrá-la.
Aposentadoria especial para agentes de saúde
abre precedente descabido
Por O Globo
Se Congresso referendar abuso, é certo que
outras categorias reivindicarão isonomia, em prejuízo da Previdência
É descabida a Proposta de Emenda à
Constituição (PEC) que cria aposentadoria especial para agentes de saúde. Não
surpreende que governo federal e prefeituras se mobilizem para tentar barrá-la
no Congresso, onde ela tem conseguido apoio em ano eleitoral. De acordo com
estudos do Ministério da Previdência, caso a benesse prospere, o rombo do
regime de aposentadoria crescerá R$ 29,5 bilhões em dez anos — R$ 18,6 bilhões
recairiam sobre os sistemas previdenciários municipais que têm regras próprias
e R$ 10,9 bilhões sobre a União. O impacto total, porém, pode ser maior, uma
vez que as estimativas do governo não levam em conta a revisão das
aposentadorias já concedidas aos agentes, como previsto no texto da PEC, nem o
risco jurídico de outras carreiras reivindicarem na Justiça regras mais
flexíveis — situação altamente provável.
Há 230.842 agentes de saúde nos regimes
próprios de Previdência e 135.770 vinculados ao INSS. A PEC permite que se
aposentem aos 52 anos (homens) e 50 anos (mulheres), com o último salário da
carreira e direito a paridade com reajustes da ativa, regalias extintas há mais
de 20 anos no serviço público e inexistentes no INSS. A reforma da Previdência
de 2019 foi aprovada para tentar equilibrar as contas, uniformizar regras e
acabar com a profusão de exceções. A PEC viola esse espírito e cria novas
despesas num sistema que já não consegue se sustentar.
A reforma fixou idades mínimas para
aposentadoria: 65 anos para homens e 62 para mulheres. Mesmo assim, o sistema
continua deficitário — a estimativa é que o rombo chegue a R$ 339 bilhões neste
ano. Os sistemas previdenciários de estados e municípios não estão em situação
melhor. Dos 2.132 regimes próprios, apenas 20 não apresentam déficit atuarial.
Os demais, por imposição legal, executam planos para cobrir os rombos.
A despeito dos efeitos deletérios para
as contas
públicas, a PEC passou incólume pela Câmara e deverá ser analisada nas
próximas semanas pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado antes de ir
a plenário. Ela tem teor semelhante a um Projeto de Lei Complementar aprovado
por unanimidade no Senado em novembro do ano passado e enviado à Câmara, que
cria aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde e de combate a
endemias.
Entre os muitos problemas da PEC está a distorção injustificada na administração pública. A aposentadoria antecipada deveria ser excepcional, destinada a profissionais expostos a riscos comprovados — não é o caso da ampla maioria dos agentes de saúde. Não se questiona a importância do trabalho da categoria para o bem-estar dos brasileiros, mas ela não é a única a prestar serviços relevantes. Se aprovado esse disparate, é certo que outras carreiras reivindicarão os mesmos benefícios, alegando o princípio da isonomia. E a Previdência, já depauperada, terá de se virar para pagar. Espera-se dos parlamentares compromisso maior com o país, e não com uma categoria específica, em busca de votos de ocasião. A lei precisa ser a mesma para todos os cidadãos, como manda a Constituição.
Senado tem o dever de rejeitar Messias
Por O Estado de S. Paulo
Sem notável saber jurídico e com trajetória
marcada por episódios políticos lamentáveis, indicação de Jorge Messias para o
STF é um teste para o compromisso do Senado com a Constituição e o País
No dia 1.º de abril, o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva enviou ao Senado a mensagem que oficializa a indicação do atual
advogado-geral da União, Jorge Messias, para a vaga de ministro do Supremo
Tribunal Federal (STF) aberta após a aposentadoria de Luís Roberto Barroso. Se
Messias está “leve” pela formalização de sua escolha, como revelou a pessoas
próximas, angustiada deve estar a sociedade brasileira diante da perspectiva de
mais um despreparado para o cargo tomar assento na mais alta corte do País. O
Senado tem o dever perante o Brasil de evitar que isso aconteça e rejeitar
Messias.
A Constituição estabelece em seu artigo 101
que os ministros do STF devem ter mais de 35 e menos de 70 anos e possuir
notável saber jurídico e reputação ilibada. Se pouco pode ser dito sobre a
reputação de Jorge Messias, um ilustre desconhecido até os estertores do
governo Dilma Rousseff – quando se celebrizou como o “Bessias”, partícipe da
artimanha para aboletar Lula na Casa Civil e, assim, conferir-lhe foro
privilegiado no auge da Lava Jato –, é evidente que não há nada em sua
trajetória profissional que sequer sugira que o indicado possua notável saber
jurídico.
É preciso ter respeito pelo sentido das
palavras. “Notável”, na acepção do texto constitucional, significa um
conhecimento profundo do Direito, que vá muito além de sua dimensão
técnico-profissional. Ademais, a expressão escolhida pelo constituinte
originário pressupõe uma autoridade intelectual que não pode ser meramente
alegada ou vir descrita num currículo qualquer. O saber jurídico de um ministro
do STF precisa ser amplamente reconhecido por toda a comunidade jurídica e
acadêmica, acima de quaisquer controvérsias. É evidente que o sr. Messias não
atende a esse pressuposto da Lei Maior.
A instruir a recusa de sua indicação, cabe
ainda examinar com cuidado a atuação de Messias à frente da AGU. Iniciativas
como a criação da tal “Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia”, nome
pomposo para um órgão de censura, atestam cabalmente que, entre a defesa dos
direitos e garantias fundamentais, viga-mestra da “Constituição Cidadã”, e a
defesa do interesse do governo em controlar o debate público, definindo o que é
ou não “verdade”, o advogado-geral da União não hesitou ao privilegiar o
voluntarismo do Palácio do Planalto.
Outro ponto que impõe a reprovação de Messias
pelos senadores é o abastardamento do processo de escolha dos ministros do STF
pelo presidente da República. É verdade que a Constituição confere ao chefe do
Executivo o poder de indicar nomes para compor o Supremo. Mas Lula fez dessa
nobre prerrogativa um meio de premiar lealdades pessoais e garantir que seus
interesses políticos imediatos estejam representados na Corte. Nesse sentido,
se Messias vier a ser aprovado pelo Senado, a crise de credibilidade por que
passa o Supremo – a mais grave em toda a sua história republicana – só tende a
piorar com ainda mais politização das decisões judiciais e fomento à desarmonia
entre os Poderes, sobretudo entre o STF e o Congresso.
Por fim, mas não menos importante, o Senado
tem de considerar a questão temporal. Messias tem apenas 46 anos. Malgrado
estar no intervalo etário previsto pela Constituição, isso significa, na
prática, que ele poderá permanecer no Supremo até 2055, quando completará 75
anos e atingirá a idade para aposentadoria compulsória. Ou seja, a má escolha
de Lula, se corroborada pelos senadores, poderá influenciar a jurisprudência
constitucional do País por longas décadas. Uma temeridade.
Diante de tudo isso, a sabatina na Comissão
de Constituição e Justiça e a posterior deliberação da indicação de Messias
pelo plenário do Senado têm de ser norteadas pela coragem de romper com o
ineditismo da reprovação na história recente e pelo espírito republicano de
resguardar o melhor interesse do País. Como já sublinhamos nesta página, o
Brasil precisa de um Supremo que sirva à República, não aos interesses do
governo de ocasião nem muito menos aos dos atuais integrantes da Corte. Hoje,
mais do que nunca.
O Senado tem agora uma nova oportunidade de
mostrar compromisso com a Constituição e o País. Se o fizer, deixará no passado
décadas de leniência na aprovação de nomes claramente desqualificados para
compor o STF, o árbitro maior do Estado Democrático de Direito.
A delicada saúde mental das crianças
Por O Estado de S. Paulo
Em SP, dispara o atendimento a crianças de 5
a 9 anos com estresse e hiperatividade. Especialistas culpam o celular, o que
demanda mudança de mentalidade a respeito do uso precoce do aparelho
Crianças cada vez menores têm demandado
atenção em saúde mental na rede pública de saúde paulista. Uma reportagem
publicada recentemente no Estadão mostrou
que só ano passado nada menos do que 1,2 milhão de atendimentos ambulatoriais
foram realizados com pacientes de idade entre 5 e 9 anos. Para ter ideia da
gravidade, de 2023 para 2025 houve um crescimento de 50% nesse tipo de serviço,
segundo a Secretaria de Estado da Saúde. E nenhuma outra faixa etária superou o
volume de atendimentos ambulatoriais prestados a esse público tão novo. Como se
vê, não vai nada bem a saúde mental dos pequenos paulistas.
São crianças que precisam de cuidados
especializados, como consultas com psicólogos e psiquiatras, terapia individual
e em grupo, acompanhamento multiprofissional, prescrição e monitoramento de
medicamentos e ações de acolhimento. Nas ocorrências mais complexas, em que os
pacientes oferecem risco para si ou para quem está à sua volta, há a internação
psiquiátrica. E o número desse tipo de procedimento também cresceu: alta de 8%,
ou 119 crianças internadas.
Entre os principais motivos de atendimento
ambulatorial, estão os transtornos de desenvolvimento e a deficiência
intelectual ou o atraso cognitivo. Muitos deles têm causas genéticas, como o
autismo e o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), mas há
também aqueles desencadeados por fatores externos, como a depressão e a
ansiedade. Isso quer dizer que determinados estilos de vida têm empurrado as
crianças para os consultórios de psicólogos ou psiquiatras – ou até mesmo para
a internação. E são as famílias que, voluntária ou involuntariamente, expõem
seus filhos a situações de risco, sobretudo quando lhes entregam em mãos um
aparelho celular.
Como bem explicou o psiquiatra infantil
Gustavo Estanislau, ouvido pelo Estadão,
o uso de telas afasta as crianças das brincadeiras livres, o que, por óbvio,
aumenta o risco de sobrepeso e obesidade, bem como prejudica o desenvolvimento
de habilidades psíquicas, motoras e socioemocionais na fase da vida em que as
interações deveriam ser estimuladas, e não bloqueadas. Segundo Estanislau, o
uso de telas deixa as crianças mais sensíveis à frustração, hiper-reativas ao
tédio e estressadas. Não à toa, elas se alimentam e dormem mal, manifestando,
não raro, problemas que são comuns apenas na vida adulta.
Por tudo isso, essa alta de atendimento
revela um paradoxo: os pais conseguem captar as necessidades dos filhos para
lhes oferecer ajuda, o que indica superação do preconceito, da vergonha e do
estigma, mas são esses mesmos pais que hoje levam seus filhos aos ambulatórios
que lhes deram acesso pouco controlado a vídeos, joguinhos e redes sociais. Os
sinais de ansiedade e angústia, de um lado, são precocemente identificados pelos
responsáveis, o que é positivo. Mas, de outro lado, constata-se que tamanho
sofrimento das crianças foi causado, não raro, por escolhas erradas feitas por
aqueles que justamente deveriam protegê-las.
Os alertas vêm de várias direções, o que
indica que o problema não ocorre apenas em São Paulo e não atinge somente os
pequenos. Recentemente, uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE), que ouviu 118 mil adolescentes com idade de 13 a 17 anos,
constatou que três em cada dez dos estudantes nessa faixa etária se sentem
tristes sempre ou, no caso de 42,9%, se dizem “irritados, nervosos ou
mal-humorados por qualquer coisa”. Além disso, 18,5% acham que “a vida não vale
a pena ser vivida”.
Para evitar que as crianças de 5 a 9 anos
arrastem tantos problemas para a adolescência, seus pais deveriam seguir o que
dizem o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a Constituição federal:
cuidar, com absoluta prioridade, de seus filhos, a começar por jamais permitir
que fiquem expostos às telas. Não é em vão que recentemente adotou-se uma lei
que proíbe o uso dos celulares nas escolas: eles dispersam e prejudicam a
aprendizagem. E, em casa, não é diferente: eles viciam e adoecem.
Lula vilaniza aplicativos
Por O Estado de S. Paulo
Para constrangê-los, governo manda aplicativos
de transporte e entrega detalhar seu preço
A Secretaria Nacional do Consumidor
(Senacon), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, publicou recentemente
no Diário Oficial da
União uma portaria em que obriga as plataformas digitais de transporte e
delivery a detalharem aos seus clientes a composição do preço do serviço
realizado por um motorista ou entregador.
Não está claro o que o consumidor ganha ao
tomar conhecimento do quanto aufere cada agente econômico envolvido nos
serviços de transporte e de entrega por aplicativos. Transparência é sempre
bom, especialmente em se tratando de preços, mas nesse caso parece improvável
que o consumidor seja impelido a mudar de ideia e descartar o serviço se souber
qual é a remuneração dos trabalhadores e qual é o ganho das plataformas
digitais.
Portanto, é lícito supor que o objetivo real
do governo Lula seja o de constranger as empresas que intermedeiam esses
serviços e, ao mesmo tempo, de aparentar preocupação com a exploração do
trabalho por aplicativo. Incapaz até aqui de entender as demandas dos
trabalhadores desse ramo de atividade, o governo improvisa medidas para dar a
sensação de que está fazendo algo por esses milhões de eleitores Brasil afora.
Para isso, o governo petista faz o que sabe
fazer de melhor: instrumentaliza instâncias do Estado para fins eleitorais.
Nesse caso, a Senacon, ao que tudo indica, usou de suas prerrogativas na área
do Direito do Consumidor para tratar de assuntos da área do Direito do Trabalho
– o que constituiria desvio de finalidade. Afinal, a remuneração pelo trabalho
não é problema do consumidor.
Há poucos dias, o governo apresentou uma
proposta de regulamentação das entregas por aplicativos, com pagamento mínimo e
adicional por quilômetro rodado. No evento em que o projeto foi apresentado,
tal como se estivesse num comício, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da
Presidência, Guilherme Boulos, afirmou que os aplicativos cobram “uma taxa de
agiotagem”. Boulos pode ser a face da nova liderança de esquerda, mas o
palavrório recende ao velho sindicalismo.
O problema, para Lula, Boulos e para a
esquerda brasileira em geral, é que o novo mundo do trabalho é território
estrangeiro para quem se fez na política investindo na luta de classes. Os
trabalhadores da era digital prezam a liberdade e entendem a intervenção
estatal como prejudicial a seus interesses.
Lula, no entanto, continua fazendo promessas, nas quais cada vez menos gente acredita, conforme se infere pelas mais recentes pesquisas de intenção de votos. Na campanha eleitoral passada, Lula dizia que a regulamentação da atividade dos motoristas e entregadores de aplicativos seria uma prioridade de sua gestão. Não foi: no primeiro ano de mandato, o presidente instalou um “grupo de trabalho” para discutir um projeto para a categoria e, desde então, pouco avançou. Ou seja, como um bom demagogo, Lula da Silva só trata o tema como prioritário em ano eleitoral.
Novas medidas do governo vão na direção
errada
Por Valor Econômico
Apesar de ser um importante exportador de
petróleo, o Brasil não está imune a um choque adicional e/ou duradouro dos
preços internacionais
Preocupado com o estresse econômico
alimentado pela guerra dos EUA e Israel contra o Irã em ano eleitoral, o
governo federal anunciou na segunda-feira (6/4) novas medidas para conter os
impactos da alta da cotação dos combustíveis. A medida provisória (MP) prevê
ações para evitar oscilações no preço do diesel, além de mitigar efeito no
preço do gás liquefeito de petróleo (GLP), conhecido como gás de cozinha, e no
combustível da aviação, o QAV. O ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno
Moretti, afirmou que as medidas têm neutralidade fiscal. A compensação virá de
anúncios já feitos pelo governo em torno do imposto de exportação e de receitas
atreladas ao barril de petróleo. No papel até pode ser neutra, mas o fim da
guerra no Oriente Média ainda é incerto, e, mesmo que o conflito terminasse
hoje, suas consequências terão custos que continuarão se disseminando no
próximos anos — no mínimo.
Durante o anúncio, Moretti afirmou que o novo
pacote de “bondades” terá um impacto de R$ 31 bilhões aos cofres públicos — que
abrange as medidas anunciadas esta semana e as que já estavam em vigor,
previstas em MP editada em março. Segundo ele, a alta das receitas atreladas ao
petróleo, o imposto de exportação e o aumento do IPI sobre cigarro irão
garantir a neutralidade das medidas do ponto de vista fiscal. Se o petróleo
ficar a US$ 90 na média do ano, como está na proposta do governo, o aumento na
receita seria da ordem de R$ 40 bilhões, ou seja, haveria espaço fiscal para
mais medidas, se necessário.
Essa conta, porém, corre o risco de pecar
pelo otimismo. Apesar de ser um importante exportador de petróleo, o Brasil não
está imune a um choque adicional e/ou duradouro dos preços internacionais, uma
vez que importa mais de 25% dos derivados consumidos, com destaque para nafta,
querosene de aviação e diesel. Além disso, 30% dos fertilizantes importados
pelo nosso setor agrícola vêm do Oriente Médio. Segundo dados do Banco Mundial,
o preço do fertilizante nitrogenado mais comum, a ureia, subiu 54% de fevereiro
para março, atingindo US$ 726 por tonelada métrica. Esse valor representa um
aumento anual de mais de 80% e o preço mais alto desde abril de 2022, quando os
preços dispararam após a invasão da Ucrânia pela Rússia.
A guerra no Oriente Médio já afeta as
perspectivas de crescimento da economia global, incluindo o Brasil, à medida
que choques energéticos se propagam e pressões inflacionárias se intensificam.
A diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, afirmou na segunda-feira que
as novas projeções da instituição — que a realiza sua reunião de primavera em
Washington na próxima semana — apontam uma inflação mais alta e um crescimento
global mais lento, mesmo que o conflito seja resolvido rapidamente. Ou seja, o
estrago já está feito, o que poderá obrigar o Banco Central do Brasil a adotar
uma postura de política monetária mais restritiva — com o mercado revendo as
previsões para a Selic no fim do ano, para 12,5%, embutindo uma redução no
decorrer de 2026.
O choque do petróleo tende a desacelerar o
crescimento, o que se traduz lá na frente num limite à alta dos preços. Porém,
a intervenção governamental distorce o sinal dos preços, o que pode levar a
gastos maiores de consumo e manter a pressão de alta sobre os preços dos
combustíveis — exatamente o contrário do objetivo do governo.
A guerra, como diz o presidente Lula, não tem
nada a ver com o Brasil, mas os seus prejuízos à nossa população poderiam ser
mitigados se o país não tivesse escolhido depender tanto do petróleo, como
lembra Edvaldo
Santana (Valor, 2/4): “Os dois últimos
governos, incluindo o atual, insistiram no incentivo ao uso dos combustíveis
fósseis, um erro brutal escancarado agora pela guerra dos EUA contra o Irã”.
Santana lembra que o primeiro choque de petróleo, do início dos anos 1970,
levou o Brasil a inovar com o Proálcool, que tornou o país em uma referência
mundial em biocombustíveis nos anos 1990.
A China, por sua vez, se preparou para a
eventualidade de um choque externo. Pequim viu nas energias renováveis —
principalmente solar e eólica — um meio para reduzir sua vulnerabilidade
externa em combustíveis fósseis. A ampla adoção de veículos elétricos na China
também funciona como mais uma proteção contra o atual choque do petróleo. Já o
Brasil, apesar de contar com uma matriz elétrica 94% limpa e renovável, não
possui um programa de eletrificação intensiva do transporte urbano, nem mesmo
do transporte público.
Reduzir a dependência dos combustíveis fósseis não apenas diminuiria a vulnerabilidade do país a choques externos, mas também ajudaria a mitigar os crescentes custos decorrentes do aquecimento global. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Brasil perde cerca de 1,3% do PIB por ano por causa de eventos climáticos extremos. Apesar dos custos que a guerra impõe à população num ano sensível pelo calendário eleitoral, o Brasil se arrisca a novamente a perder uma oportunidade com medidas que vão na direção errada, tanto ambientalmente quanto do ponto de vista fiscal e da política monetária.
Diversidade no espaço
Por Correio Braziliense
Ainda falta muita gente nessa viagem. Os
representantes do Sul Global, por exemplo, seguem sem ter um lugar nas jornadas
rumo à imensidão do espaço
Prevista para pousar no planeta Terra na
próxima sexta-feira, a missão Artemis II carrega consigo um peso histórico
inegável para a exploração espacial. Não é por acaso: afinal, a humanidade não
visita o seu satélite desde 1972, quando a Apollo 17 concluiu a missão que
levou o homem à Lua.
Mas, apesar de histórica em vários sentidos,
a verdadeira inovação da Artemis II não está no design do foguete ou nas
observações históricas do lado oculto da Lua. O que realmente faz dessa missão
um marco histórico é quem está sentado na cabine de comando. Ao levar a
primeira mulher, o primeiro homem negro e o primeiro não norte-americano para o
espaço profundo, a Nasa decreta o fim de uma era.
É claro: pessoas de outros países, mulheres e
negros participam há décadas de missões na Estação Espacial Internacional,
sempre com razoável sucesso. Mas visitar o espaço profundo e a Lua era, até
então, um privilégio restrito.
Basta olhar pelo retrovisor. Quando o homem
pisou na Lua, o espaço era o clube mais restrito do planeta. Os heróis do
programa Apollo tinham um perfil padronizado: homens, brancos, americanos e
militares. Eles eram o retrato exato de uma superpotência em plena Guerra Fria,
em um país que, apesar de todos os avanços tecnológicos, ainda era rasgado pela
segregação racial e pelo machismo. O famoso "grande salto para a
humanidade" foi, na prática, dado por uma parcela bem pequena dela.
A escalação da Artemis II vira essa página. A
presença da engenheira
Christina Koch, do piloto Victor Glover e do canadense Jeremy Hansen ao lado do
comandante Reid Wiseman corrige uma distorção histórica. E isso está longe de
ser apenas uma jogada de relações públicas. É o reconhecimento prático de que
explorar o universo não deve ser um direito reservado a um único grupo
demográfico.
É preciso, porém, conter a euforia e olhar
para a foto oficial da missão com uma dose de realismo. A presença de um
astronauta de fora dos Estados Unidos é um avanço, mas, em termos geopolíticos
e culturais, um canadense está muito próximo dos EUA — no que pesem as atuais
rusgas entre os dois países causadas pela administração do presidente Donald
Trump.
Ainda falta muita gente nessa viagem. Os
representantes do Sul Global, por exemplo, seguem sem ter um lugar nas jornadas
rumo à imensidão do espaço. A verdadeira pluralidade de nações que não orbitam
a influência direta de Washington continua ignorada.
A Artemis II é um começo. Um passo tardio, sem dúvida, mas importante. A missão mostra que as agências espaciais finalmente entenderam que de nada adianta ter a melhor tecnologia do século 21 se continuarem operando com a exclusividade do século passado. É um avanço que pode, e deve, ser ampliado no futuro. Mas, para que a humanidade realmente consiga se enxergar por inteiro quando olhar para as estrelas, a porta dessa nave precisará se abrir muito mais.
Pacote vai conter alta no preço do diesel?
Por O Povo (CE)
Fazem parte das medidas ampliar a subvenção
ao óleo diesel; destinar recursos para a importação do gás de cozinha e a
isenção de impostos sobre o diesel e o querosene de aviação
Sem perspectiva de que a guerra de Israel e
Estados Unidos contra o Irã chegue ao fim, países ao redor do mundo se veem
obrigados a ajustar suas economias para fazer frente à alta do petróleo.
O comportamento errático do presidente
americano, Donald Trump, que a cada instante dá uma declaração contrariando o
que dissera há pouco, torna a situação ainda mais caótica. A imprevisibilidade
cria situação de instabilidade, dificultando o planejamento.
Com seu estilo belicoso e brutal, Trump
arrastou o mundo a uma crise sem precedentes. O mais grave é que tudo leva a
crer que ele não tem a mínima noção de como sair do labirinto infernal que ele
mesmo criou. Analistas internacionais afirmam que Trump se recusa a ouvir
assessores com mais experiência, mesmo sem saber para onde ir. A mais recente
ameaça do presidente dos EUA, de "eliminar o Irã em uma noite",
parece impossível, a não ser que se pense na loucura do uso de armas de
destruição em massa.
O fato é que uma das consequências da guerra,
o encarecimento do óleo diesel, provoca alta generalizada nos preços,
impactando toda a cadeia produtiva, que depende do combustível para transportar
mercadorias.
Na questão econômica, uma das preocupações no
Brasil é quanto ao aumento da inflação, fazendo com que o Banco Central se
torne cauteloso em relação à possibilidade de reduzir a taxa básica de juros, o
que era uma tendência antes do recrudescimento do conflito.
Para fazer frente a essa realidade, o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou um pacote de medidas com o objetivo
de reduzir as consequências da guerra sobre o preço dos combustíveis.
Fazem parte das medidas ampliar a subvenção
ao óleo diesel; destinar recursos para a importação do gás de cozinha e a
isenção de impostos sobre o diesel e o querosene de aviação. No entanto, até
agora, três grandes distribuidoras não aderiram ao pacote: a Vibra (antiga BR),
Ipiranga e Raízen, que respondem por 50% das importações privadas de diesel.
Especialistas ouvidos pelo O POVO dizem que a
eficácia das medidas para conter a alta dos combustíveis dependerá da duração
do conflito.
O presidente do Conselho do Centro de
Estratégias em Recursos Naturais (Cerne), Jean Paul Prates, avalia que as
subvenções ao diesel podem ter algum efeito "!no curtíssimo prazo,
especialmente em momentos de pico internacional". Mas é preciso deixar
claro, diz ele, que as medidas não atacam "a raiz do problema", pois
o preço do diesel continua atrelado ao mercado internacional.
Além disso, ainda será preciso conferir se a redução de preços chegará à bomba de combustível.

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