Cidades sem receita própria distorcem federalismo
Por Folha de S. Paulo
Em 4 de cada 10 municípios, repasses federais
e estaduais respondem por 90% ou mais dos orçamentos
Pior ainda, cidades passaram a receber
montantes anômalos oriundos de emendas parlamentares destinados, no geral, a
obras paroquiais
Em sistemas federalistas, é esperado que a maior parte da receita pública venha do governo nacional, que tem maior capacidade de tributar em todo o território do país. Também é normal que municípios recebam recursos federais e estaduais, pois arrecadam menos e têm de atender mais de perto aos cidadãos. No Brasil, entretanto, tais relações assumiram proporções disfuncionais.
Como mostra
levantamento feito pela Folha, 4 de cada 10 cidades brasileiras
—ou, mais precisamente, 2.190 das 5.569— tinham 90% ou mais de seus orçamentos
dependentes de verbas obtidas de governos estaduais e da União em 2024. Cinco
anos antes, mais da metade delas estava nessa situação (2.950), contudo, é cedo
para apontar se a melhora configura uma tendência.
Uma comparação com os Estados
Unidos, um país de referência para nosso modelo federativo, é
ilustrativa. Lá, em uma carga tributária total de 25,6% do Produto Interno
Bruto, os municípios arrecadam 3,7% do PIB. Aqui, a
carga total é bem maior, de 32,3%, mas os municípios arrecadam menos, somente
2,4% do produto.
A razão principal para essa discrepância é
que, no Brasil, se institucionalizaram mecanismos de repasse obrigatório de
recursos entre os entes federativos. Entre eles, destaca-se o Fundo de
Participação dos Municípios (FPM), composto por 25,5% das receitas dos
federais Imposto de
Renda e Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Isso não
se dá sem efeitos colaterais relevantes.
Para os prefeitos, tornou-se politicamente
mais simples reivindicar aumentos do FPM em Brasília do que arcar com o
desgaste de cobrar os devidos impostos dos munícipes —basta dizer que o fundo
absorvia não mais de 10% dos recursos do IR e do IPI quando foi criado, nos
anos 1960.
Esse processo de expansão das transferências
foi intensificado com o restabelecimento da democracia e a Constituição de
1988. Desmembrar e criar cidades com direito a verbas federais crescentes e
poderes Executivo e Legislativo passou a ser um grande negócio para o mundo
político, e surgiram mais de 1.300 novas prefeituras e câmaras de vereadores
até o ano 2000.
A farra só começou a ser contida por uma
emenda constitucional aprovada em 1996, que condicionou a criação de municípios
a uma lei federal que regulasse o procedimento. Desde então, o Palácio do
Planalto tem barrado iniciativas nesse sentido.
Distorções, porém, persistem. Prefeitos que
contam com o conforto de repasses garantidos da União têm pouco incentivo a
aperfeiçoar a cobrança dos impostos municipais, ISS e IPTU,
e a melhorar a eficiência dos gastos.
Pior ainda, nos últimos anos, eles passaram a
receber montantes
anômalos de recursos oriundos de emendas de deputados e
senadores ao Orçamento federal —destinados, no mais das vezes, a obras
paroquiais de baixa qualidade que alimentam o clientelismo, quando não a corrupção.
Feitos e frustrações de Marina
Por Folha de S. Paulo
Pasta do Meio Ambiente reduz desmatamento,
mas novamente é limitada pelo desenvolvimentismo petista
Planalto promove combustíveis fósseis com
incentivo ao gás natural, subsídios a automóveis e exploração de petróleo na
Foz do Amazonas
Marina Silva deixou
o cargo de ministra do Meio Ambiente na
última semana —ela é cotada para concorrer a uma vaga no Senado pela
federação PSOL-Rede.
Nessa nova passagem pela pasta, conseguiu
reduzir de forma expressiva o desmatamento,
feito que já havia alcançado entre 2003 e 2008, durante o primeiro e parte do
segundo mandato de Luiz Inácio Lula da
Silva (PT).
Mas o assim chamado desenvolvimentismo
petista —fator que contribuiu para a sua saída do governo em 2008— novamente se
impôs desta vez e, com um Congresso
Nacional permeável à atuação de lobbies, dificultou outros
avanços no setor.
Sob o desmonte promovido por Jair
Bolsonaro (PL), a área devastada na Amazônia Legal
subiu de 10,1 mil km² em 2019 para 11,5 mil km² em 2022, com pico de 13 mil km²
em 2021 (maior patamar desde 2006), de acordo com o sistema Prodes do Instituto
Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Em 2025, o
indicador caiu a 5,7 mil km², o terceiro menor da série histórica
iniciada em 1998.
No cerrado,
viu-se movimento semelhante, com alta de 6,3 mil km² para 10,6 mil km², entre
2019 e 2022, e diminuição até 7,3 mil km² no ano passado.
Na seara dos combustíveis fósseis, aparece a
contradição entre a pasta do Meio Ambiente e a chefia do Executivo. A Política
Nacional de Transição Energética, lançada pelo Planalto em 2024, prestou-se
a fomentar o gás natural. O programa Mobilidade Verde e Inovação
(Mover), criado por medida provisória no mesmo ano, incluiu medidas retrógradas
em meio ambiente e economia,
como subsídios à indústria automotiva. Lula 3 também elevou o imposto para
importação de carros elétricos e híbridos.
Sob pressão do governo federal, o Ibama
concedeu licença para pesquisa da Petrobras na bacia da Foz do Amazonas poucos
dias antes da COP30 em Belém.
Num Congresso Nacional com forte atuação
do agronegócio,
o ministério sofreu derrota com a aprovação da lei que flexibiliza o
licenciamento ambiental, principalmente no caso do dispositivo que agiliza
autorizações para empreendimentos considerados estratégicos por órgão ligado à
Presidência —regra que recebeu aval do Planalto.
No lugar de Marina, assumiu João Paulo Capobianco, que era secretário-executivo da pasta e não deve mudar a política da gestão anterior. Apesar da melhoria no cenário do desmatamento, o governo Lula ainda deve medidas efetivas em áreas cruciais como transição energética e adaptação aos efeitos da mudança climática.
Diretas são única saída legal para a sucessão
no Rio
Por O Globo
Apenas escolha do novo governador por
sufrágio universal trará segurança jurídica e estabilidade
O Supremo Tribunal Federal (STF)
julgará amanhã a liminar do ministro Cristiano
Zanin que suspendeu a eleição indireta para o governador que exercerá
o mandato-tampão até dezembro, depois da renúncia de Cláudio
Castro (PL) ao Palácio Guanabara. Diante da crise e das incertezas que
cercam a política fluminense, é fundamental a Corte reafirmar que a lei seja
cumprida: a eleição tem de ser direta. A renúncia não passou de artimanha de
Castro para escapar da cassação, burlar as regras eleitorais e garantir a
permanência no poder de seu grupo político. Tal manobra não pode prosperar.
Castro sabia que dificilmente escaparia da
cassação. Por isso renunciou na véspera do julgamento do caso Ceperj — em que
era acusado de contratar funcionários para atuar como cabos eleitorais. Foi
condenado por abuso de poder político e econômico e declarado inelegível pelo
Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A Corte determinou que o novo governador
fosse escolhido pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Mas isso
não aconteceria caso Castro tivesse sido cassado. Quando a cassação ocorre
antes de seis meses do fim do mandato, a lei determina eleição direta. Tal
jurisprudência está firmada no STF, e foi o que ocorreu na eleição suplementar
do Tocantins em 2018. Ora, ao tornar Castro inelegível, reconhecendo a tentativa
de “fraude à lei”, o TSE deveria por coerência ter imposto todas as
consequências cabíveis a uma cassação, entre elas eleições diretas para o novo
governador.
A política fluminense vive uma situação
excepcional. O natural seria o vice, Thiago Pampolha, suceder a Castro. Mas ele
deixou o cargo para assumir uma cadeira no Tribunal de Contas do Estado. O
próximo na linha sucessória seria o presidente da Alerj. Mas o
ex-deputado Rodrigo
Bacellar teve de deixar o posto, pois é investigado por suspeitas de
vazar uma operação policial contra o Comando Vermelho. Tão logo Bacellar foi
cassado no processo do Ceperj, a Alerj elegeu o deputado Douglas Ruas (PL) para
a presidência da Casa. A tentativa de ocupar logo a cadeira de Castro foi
frustrada. O Tribunal de Justiça anulou a votação, pois ela foi realizada antes
da redistribuição das cadeiras descontando os votos dados a Bacellar, como
determinara o TSE.
É indisfarçável a estratégia do grupo
político vinculado a Ruas para se apoderar da máquina pública, já que ele é o
pré-candidato do PL nas eleições de outubro. O uso da máquina foi justamente o
que levou Castro à inelegibilidade. Não seria justo referendar a manobra que a
mantém em poder do mesmo grupo político, sem que o eleitor possa se pronunciar.
Em sua liminar, Zanin determinou também que o governador interino, Ricardo
Couto, permaneça no cargo até o pleito.
Quatro ministros — Alexandre de Moraes,
Flávio Dino, Gilmar Mendes e o próprio Zanin — defenderam eleição direta ao
participar, no plenário virtual, da análise de uma lei estadual fixando regras
para eventuais eleições indiretas. Os outros ministros deveriam seguir o mesmo
caminho, agora que o foco é a reclamação do PSD, partido do ex-prefeito do Rio
e pré-candidato ao governo Eduardo Paes,
pedindo explicitamente as diretas. A Alerj não se mostra credenciada a escolher
com lisura o novo governador. O Supremo precisa trazer segurança jurídica e
estabilidade ao estado. Negar ao povo do Rio o sufrágio universal só favorecerá
a burla das regras democráticas.
Candidaturas ligadas à segurança revelam como
eleitor valoriza o tema
Por O Globo
Ao menos 15 ex-secretários tentarão vaga no
Congresso ou em Assembleias, mostrou reportagem do GLOBO
Ao menos 15 ex-secretários de Segurança ou
chefes de polícia Militar ou Civil anunciaram intenção de se candidatar em
outubro para uma vaga nas Assembleias Legislativas ou no Congresso, como
revelou reportagem do GLOBO. A ausência de candidatos de esquerda ou
centro-esquerda é sinal de como a pauta da segurança — preocupação essencial
dos eleitores — tem sido dominada pelo campo conservador. Todos os 15 nomes são
ligados a legendas de centro ou de direita. A dificuldade do presidente Luiz
Inácio Lula da
Silva em formular um discurso minimamente convincente sobre o tema ficou
evidente na reunião ministerial da semana passada no Palácio do Planalto. Na
lista dos destaques divulgada pelo Planalto, nenhuma menção à área da
segurança.
Motivo para falar no assunto não falta. O
medo do crime é a maior inquietação da população. O último Datafolha mostrou
segurança empatada com saúde como maior problema do país. Pesquisa Quaest
apontou que 27% dos brasileiros afirmam que a violência é
sua maior preocupação, 7 pontos acima da corrupção. O Ipsos revelou que, para
48%, crime e violência são os temas que mais preocupam.
À primeira vista, os indicadores de violência
não parecem amparar a percepção. As mortes violentas caíram 5,4% em 2024
(último dado disponível), para 20,8 por 100 mil habitantes. Na comparação com
2012, a queda foi de 25%. Roubo a residências e furto de veículos também caíram.
A chave para entender a preocupação da população está no aumento dos
estelionatos digitais (17%) e dos roubos e furtos de celulares (acima de 850
mil por ano). Criminosos costumam provocar perdas grandes às vítimas com desvio
das economias ou empréstimos fraudulentos. Quem está on-line ou tem celular se
sente vulnerável.
Houve avanços da pauta da segurança no
Legislativo, com a aprovação do Projeto de Lei Antifacção. Mas a Proposta de
Emenda à Constituição (PEC) da Segurança anda devagar no Congresso. Além de
promover maior integração entre os entes federativos, o texto aumenta a
participação do governo federal no combate à criminalidade ao dar segurança
jurídica ao combate às organizações criminosas. “O governo atrasou em 2025 o
envio da PEC ao Congresso e deixou o debate ser contaminado pela corrida
eleitoral. Agora ninguém sabe quando será destravada”, diz Renato Sérgio de
Lima, presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Boa parte dos candidatos com passagens em secretarias de Segurança e nas polícias Militar ou Civil costuma aderir ao discurso de mão pesada contra os criminosos. Isso pode render votos, mas não resolve o problema. O essencial são políticas com base em evidências científicas, gestão eficaz dos recursos públicos e mais inteligência para perseguir as fontes de financiamento e desarticular as organizações criminosas. Não são temas que costumam atrair a atenção. Mas tratar deles com afinco será fundamental para aliviar as angústias e aflições da população.
É preciso investigar os ministros do STF
Por O Estado de S. Paulo
Gonet tem o dever de apurar a natureza das
ligações de Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Nunes Marques com Daniel
Vorcaro, sob pena de a omissão da PGR ser interpretada como acobertamento
É dever do procurador-geral da República,
Paulo Gonet, requisitar a imediata abertura de inquérito para apurar as
ligações dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes,
Dias Toffoli e Nunes Marques com Daniel Vorcaro e os negócios do Banco Master.
Ainda que inédita, essa providência não seria extravagante. Ao contrário: só
demonstraria que Gonet respeita o princípio da igualdade de todos perante a
lei, pilar da ordem jurídica.
Os fatos envolvendo aqueles ministros e seus
familiares, trazidos à luz pelo diligente trabalho da imprensa profissional,
malgrado não autorizem condenações prévias, tornam estranhíssimo o silêncio
sepulcral do chefe do Ministério Público Federal.
Para começar, Moraes e sua mulher, a advogada
Viviane Barci de Moraes, realizaram ao menos oito voos em jatinhos vinculados a
Vorcaro. Em nota, a sra. Barci de Moraes justificou que o pagamento desses voos
foi realizado por meio de “compensação de honorários advocatícios” – ou seja, o
casal sabia muito bem a quem pertenciam as aeronaves nas quais embarcou.
Sabe-se que o escritório de advocacia da
família Moraes foi contratado pelo Banco Master por R$ 129 milhões, cifra que
supera em muito a cobrança usual pelos mesmos serviços que a mulher do ministro
diz ter prestado a Vorcaro. Mas, admitindo-se que o desempenho da advogada seja
tão exuberante quanto seus honorários, por que seu marido estava a bordo? Na
condição de ministro do STF, Moraes jamais deveria estar nesse voo, especialmente
porque se tratava de contrapartida por serviços advocatícios prestados por
alguém tão próximo como sua mulher – e a um cliente àquela altura sabidamente
envolvido em obscuras transações.
Ademais, no que concerne à família Moraes, há
questões patrimoniais que também exigem esclarecimentos. Nos últimos anos, como
revelado por este jornal, Moraes e sua mulher compraram imóveis que somam R$
23,4 milhões, todos pagos à vista, elevando o patrimônio imobiliário do casal a
mais do que o triplo do registrado à época da posse de Moraes no STF, em 2017.
Os rendimentos conhecidos do ministro, limitados ao teto constitucional, não
explicam essa notável evolução. Pode-se argumentar que a origem dos recursos
seria o trabalho da sra. Barci de Moraes, mas sua atuação na advocacia era
relativamente modesta até a chegada do marido à mais alta instância judicial do
País.
No caso de Toffoli, também há registro de
voos em jatinhos ligados a Vorcaro e a outro empresário. Um dos destinos foi o
resort Tayayá, do qual Toffoli já admitiu ter sido sócio. Novamente, a pergunta
se impõe: a troco de que um ministro do STF aceita viajar a lazer às expensas
de empresários decerto interessados em decisões do STF? Desde quando isso é
aceitável numa república digna do nome?
Nunes Marques, por sua vez, também embarcou
em aeronave pertencente ao enrolado banqueiro para ir de Brasília a Maceió em
viagem pessoal. O voo, segundo seu gabinete, foi custeado por uma advogada do
Banco Master, mulher de um ex-colega do ministro no Tribunal Regional Federal
da 1.ª Região que celebrou o aniversário na capital alagoana. Não nos
esqueçamos de que o filho do ministro, o recém-formado advogado Kevin Marques,
recebeu milhares de reais de uma empresa abastecida por recursos de Vorcaro.
A presença regular de ministros do STF em
voos custeados direta ou indiretamente por Vorcaro pode ser apenas falta de
vergonha. Mas pode ser mais do que isso. A sociedade tem o direito de saber, e
Gonet, o dever de apurar.
Nada do que foi exposto, por si só, a priori configura crime. Mas
os fatos, tomados em conjunto, exigem investigação. O que está em jogo são o
interesse público e a força do Supremo como instituição. É precisamente por
isso que Gonet não pode se omitir, sob pena de sua omissão ser interpretada
como acobertamento – ainda mais quando contrastada com o ímpeto do
procurador-geral para lançar o aparato persecutório do Estado contra cidadãos
comuns, como o empresário condenado a 14 anos de cadeia porque doou R$ 500 para
o fretamento de um ônibus de manifestantes do 8 de Janeiro, sem demonstração de
seu vínculo causal com os atos golpistas.
O ‘lucro social’ da Conab
Por O Estado de S. Paulo
A Conab historicamente sempre deu prejuízo e
dependeu de aportes bilionários do Tesouro Nacional para sobreviver. Não mais:
no léxico lulopetista, a estatal, agora, gera ‘lucro social’
Às vésperas de deixar o cargo para disputar a
eleição, o presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), João
Edegar Pretto, anunciou que a companhia teve um “lucro social” de R$ 18,4
bilhões em 2025. Não se sabe exatamente como ele chegou ao número, mas
supostamente é resultado da relação entre o lucro da estatal e os recursos
investidos em suas políticas públicas nas áreas de abastecimento, segurança
alimentar e nutricional e inteligência agropecuária. Cada R$ 1 teria gerado R$
8,78 para a sociedade brasileira. Parece piada, mas é por meio de termos como
esse que o lulopetismo expressa sua peculiar visão sobre as empresas estatais.
Entre suas várias funções, a Conab é
responsável pelo levantamento de dados sobre a safra agrícola, como produção,
custos, preços e armazenagem. As informações são colhidas diretamente com
produtores e cooperativas, e é com base nelas que o governo faz suas
estimativas sobre o Plano Safra, maior mecanismo de financiamento do crédito
agrícola. É indiscutível, portanto, que a Conab traz algum tipo de retorno à
sociedade. A questão é quantificá-lo, isto é, saber se a Conab presta esse
serviço da melhor maneira possível ou se haveria formas mais eficientes de
realizá-lo. Para isso, é fundamental analisar os indicadores
econômico-financeiros da companhia.
O resultado líquido da Conab referente ao ano
passado ainda não foi divulgado, mas, até o terceiro trimestre de 2025, a
empresa acumulava um prejuízo de R$ 23 milhões. Perto dos Correios, que
registraram um rombo de R$ 6 bilhões entre janeiro e setembro do ano passado,
parece um valor irrisório. Mas a Conab depende fundamentalmente de dinheiro do
Orçamento-Geral da União para se sustentar. Para ter uma ideia, em 2024 a Conab
registrou lucro de R$ 14,1 milhões, mas recebeu R$ 1,260 bilhão em repasses do
Tesouro Nacional. Não fosse esse aporte, a empresa teria encerrado o ano com um
prejuízo de R$ 1,242 bilhão.
Daí se entende o esforço de Pretto para
justificar os resultados da Conab. Recursos públicos são, por natureza,
escassos – e, diante das enormes necessidades da sociedade e de um déficit
estrutural entre receitas e despesas, supõe-se que deveriam ser alocados da
melhor maneira possível, de forma a maximizar o retorno à sociedade. Mas há
formas de avaliar políticas públicas, e a Casa Civil tem uma série de
publicações para guiar a avaliação dessas ações que vai muito além do mero uso
dos recursos. Basicamente, é preciso confrontar os objetivos de uma política
pública e seus resultados efetivos, e não simplesmente fazer uma conta de
padeiro como a que Pretto propôs.
A Conab, por exemplo, tem entre suas
principais ações o programa de formação de estoques públicos e a política de
preços mínimos. Essa atividade, por óbvio, tem um custo: afinal, são 126
armazéns em todo o País e quase 3,2 mil empregados. Isso não necessariamente
significa que a empresa deva ser privatizada ou fechada, mas, no mínimo,
deveria ser um incentivo para reduzir custos.
Se há alguns anos fazia sentido estabelecer
preços mínimos e manter estoques reguladores de produtos agrícolas, talvez hoje
haja formas mais baratas e eficazes de garantir o abastecimento e a assistência
a produtores familiares sem que parte dos recursos públicos acabe nas mãos de
atravessadores e sem que a empresa seja utilizada para acomodar aliados
políticos.
Fazer um debate como esse deveria ser
obrigação no setor público, mas, no mundo em que vivem os petistas, trata-se de
crime de lesa-pátria. Ora, foi a própria Constituição que definiu, em seu
artigo 173, que a exploração direta de atividade econômica pelo Estado só será
permitida por imperativos de segurança nacional ou relevante interesse
coletivo.
O lulopetismo, no entanto, interditou esse
debate há décadas e confunde deliberadamente o chamado interesse coletivo com
seus próprios interesses eleitorais. “Lucro social” é apenas o neologismo mais
recente para escamotear prejuízo, o que permite a perpetuação do uso político
das empresas públicas e sua transformação em escoadouro de dinheiro público à
revelia dos interesses da sociedade.
Alimentando privilégios
Por O Estado de S. Paulo
Câmara de SP ignora o STF e paga desde 2023
um auxílio-alimentação para servidores inativos
Foi em 1998 que o Supremo Tribunal Federal
(STF) decidiu, pela primeira vez, que o auxílio-alimentação é devido apenas aos
servidores da ativa. De lá até 2014, tramitaram na Corte 21 ações sobre o tema,
que, acertadamente, foram encerradas com o mesmo entendimento. A certeza da
inconstitucionalidade levou o STF a baixar, em 2016, uma súmula vinculante, que
diz, de forma cristalina: “O direito ao auxílio-alimentação não se estende aos
servidores inativos”. Apesar desse comando, a Câmara Municipal de São Paulo
decidiu descumpri-la: como mostrou recente reportagem do Estadão, os vereadores
paulistanos acharam por bem criar para os seus servidores efetivos aposentados
um auxílio-alimentação com outro nome.
Como o auxílio-alimentação é proibido para os
servidores inativos, os parlamentares fizeram um malabarismo e, em 2023,
instituíram um novo direito: o “benefício complementar nutricional”. E essa
proposta foi incluída pela Mesa Diretora num projeto de lei que reorganizava os
cargos e as vantagens dos servidores da Casa. Como o texto é de autoria do
comando da Câmara, não é possível nem mesmo identificar a sua paternidade, o
que indica um drible na transparência durante o processo legislativo. Filho sem
pai, o benefício é uma mãe: paga atualmente R$ 1,4 mil por mês aos contemplados
e, desde a sua criação, já custou R$ 14,3 milhões aos cofres públicos.
Obviamente, não basta alterar a nomenclatura
nem diferenciar os valores pagos entre os ativos e os inativos para que o
privilégio se torne legal. O tal “benefício complementar nutricional” é tão
somente um auxílio-alimentação.
Não foi por capricho que o STF vedou esse
tipo de pagamento: o auxílio-alimentação é uma indenização, e não parte da
remuneração do servidor ativo ou inativo. Como tal, deve ser pago a título
indenizatório para cobrir as despesas com a alimentação de quem trabalha, e não
de quem não trabalha. A explicação é tão óbvia que deveria ser dispensável, mas
a Câmara, em nota oficial, sustenta que a lei que instituiu o “benefício
complementar nutricional” é “diversa da lei que criou o auxílio-alimentação” e
que “seu valor mensal é diferente e inferior ao valor mensal pago a título de
auxílio-alimentação”, razão pela qual “o benefício complementar nutricional não
guarda qualquer relação com o auxílio-alimentação pago aos servidores em
atividade”.
Enquanto ofende a inteligência alheia, a
Câmara paulistana atropela a Súmula Vinculante 55, ao mesmo tempo que implode o
princípio constitucional da moralidade, criando um penduricalho que, na
prática, implica um aumento salarial aos servidores inativos.
Das duas, uma: ou a Câmara de São Paulo não sabe elaborar, discutir e aprovar seus projetos de lei – o que não parece razoável –, ou ignora deliberadamente a constitucionalidade e a legalidade em prol do corporativismo e do patrimonialismo de seus servidores, o que é grave. Seja como for, tenha o nome que tiver, esse novo privilégio é inaceitável.
Tarifas e protecionismo são remédios
equivocados
Por Valor Econômico
Apesar de ineficientes, esses instrumentos
têm sido empregados por variados países, como os EUA, para lidar com os
crescentes desequilíbrios no balanço de conta corrente
Entre os vários motivos citados por Donald
Trump para lançar as tarifas de importação generalizadas no “dia da
libertação”, há pouco mais de um ano, destaca-se o desequilíbrio na balança
comercial dos EUA, com o presidente americano obcecado pelo déficit no comércio
de bens e ignorando o robusto superávit na conta de serviços. Outro argumento
repetido por Trump é o de que as tarifas trariam de volta os empregos
industriais perdidos com a globalização. Mas essa receita não é exclusiva do
intempestivo presidente americano. Em um novo estudo, o Fundo Monetário
Internacional (FMI) observa que variados países têm usado tarifas e políticas
industriais para lidar com os crescentes desequilíbrios externos. Porém,
trata-se de uma solução dispendiosa e com efeitos incertos, observam os
economistas do Fundo liderados por Pierre-Olivier Gourinchas.
Depois de uma década de declínio constante
após a crise financeira global, os desequilíbrios globais em conta corrente
estão aumentando novamente, e em um contexto desafiador de múltiplos choques,
como a guerra no Oriente Médio e a guerra tarifária de Trump. A expansão de
políticas industriais — parte delas em resposta às disrupções provocadas pela
pandemia e pela tensão geopolítica, como o nearshoring — e medidas de restrição
comerciais são frequentemente justificadas pelos governos para reduzir os
desequilíbrios em conta corrente. Porém, Gourinchas e equipe argumentam que as
políticas macroeconômicas tradicionais continuam sendo os principais
instrumentos para produzir saldos externos positivos e para lidar com os
desequilíbrios em conta corrente. A análise do FMI sugere que as tarifas melhoram
a conta corrente apenas em circunstâncias limitadas e, em geral, têm efeitos
modestos e incertos. Já as políticas industriais, quando aplicadas com
instrumentos que abrangem toda a economia, podem ter impactos maiores,
aumentando a poupança nacional e reduzindo a demanda interna.
O balanço de conta corrente reflete a
diferença entre a poupança e o investimento de sua população, empresas e
governo. As políticas, sejam industriais ou comerciais, afetam a conta corrente
na medida em que alteram a poupança ou o investimento, assim como as
expectativas das pessoas e empresas. A poupança pessoal aumenta quando as
pessoas esperam uma queda na renda e diminui quando esperam um aumento na
renda. As empresas investem com base em suas perspectivas de retorno, não apenas
na lucratividade atual. Essa percepção, ressalta o FMI, é fundamental para
entender por que muitas políticas comerciais e industriais não raro têm
impactos limitados ou contraintuitivos no balanço de conta corrente.
No caso dos EUA, as tarifas alfandegárias
elevadas e políticas imprevisíveis provocaram grandes oscilações no comércio
exterior no ano passado. As empresas americanas correram para estocar produtos
antes da entrada em vigor das tarifas e, em seguida, interromperam as
importações. Investidores americanos compraram e venderam grandes quantidades
de ouro como proteção contra a volatilidade dos mercados. E apesar de as
tarifas terem reduzido a demanda americana por carros e outros bens de consumo
importados, os EUA sofreram um aumento no déficit de bens de US$ 25,5 bilhões
(+2,1%), para o valor recorde de US$ 1,24 trilhão. As tarifas de fato
impactaram as importações americanas, mas não da maneira que o governo Trump
havia prometido. Em vez de reduzir as importações de forma generalizada, as empresas
americanas simplesmente deixaram de importar produtos chineses — que foram
atingidos por algumas das tarifas mais altas em 2025 — e passaram a importar de
outros fornecedores, como Vietnã e México. Quanto às metas de
reindustrialização de Trump, o setor manufatureiro dos EUA perdeu cerca de 72
mil empregos no ano passado desde o “dia da libertação”.
Para o FMI, a conclusão é clara: “políticas
industriais e tarifas alfandegárias não são atalhos para o reequilíbrio
externo. Quando afetam o balanço da conta corrente, muitas vezes o fazem
suprimindo o consumo ou o investimento — dificilmente uma receita para o
crescimento sustentável. O reequilíbrio duradouro ainda depende de políticas
internas sólidas, não de barreiras comerciais”.
Os desequilíbrios globais, avalia o FMI, são moldados pelas trajetórias e políticas macroeconômicas internas, e não por tarifas ou políticas industriais com foco restrito. A análise mostra que os desequilíbrios globais podem aumentar ainda mais se persistirem as tendências de déficits fiscais elevados e forte demanda interna nos EUA, apoio governamental adicional aos exportadores na China — juntamente com menor provisão de benefícios sociais e menor consumo —, além de investimentos moderados e fraco crescimento da produtividade na Europa. É evidente, segundo essa análise do FMI, que uma ação em conjunto dos países ajudaria a reduzir esse crescente desequilíbrio global. Porém, o cenário externo atual é também de fragmentação e de pouca disposição para enfrentar de forma coletiva os desafios econômicos.
Combate à crise climática exige pluralidade
de vozes
Por Correio Braziliense
A entrada de Carlos Nobre em seleto grupo de
conselheiros do Vaticano evidencia, mais uma vez, que mitigar a crise climática
não pode ser preocupação exclusiva de cientistas e que o Brasil exerce
papel-chave nessa empreitada
Um novo grupo de conselheiros acaba de ser
formado pelo papa Leão 14 para debater questões centrais da existência humana.
Entre os 11 nomes escolhidos para o dicastério, há um brasileiro: o
climatologista Carlos Nobre, referência internacional sobre os impactos do
aquecimento global, sobretudo em florestas tropicais. Nobre junta-se a membros
da Igreja Católica, de organizações internacionais e da sociedade civil que se
debruçam sobre temas como emergência humanitária, saúde e direitos humanos. Sua
entrada no seleto grupo evidencia, mais uma vez, que mitigar a crise climática
não pode ser preocupação exclusiva de cientistas e que o Brasil exerce
papel-chave nessa empreitada.
"Sinto que fui chamado como cientista
para trazer o valor de buscarmos soluções rápidas", comentou Carlos Nobre
sobre a escolha. Não há dúvidas quanto à expertise do novo conselheiro do
Vaticano e à urgência das respostas. O paulista de 75 anos tem uma carreira
marcada por prêmios nacionais e internacionais, gestões e pesquisas em órgãos
ambientais estratégicos e avançados títulos acadêmicos. Ele é um dos autores do
Quarto Relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU
(IPCC), que ganhou o Nobel da Paz em 2007 pelo alerta sobre os riscos do
aquecimento global.
Na ocasião, o Comitê Norueguês do Nobel
argumentou que os cientistas e o ex-vice-presidente estadunidense Al Gore, com
que dividiram o prêmio, eram laureados pelos "seus esforços de ampliar e
disseminar um conhecimento amplo sobre as mudanças climáticas provocadas pelo
homem e por estabelecer as bases para reverter tais mudanças". Quase 20
anos depois, a proximidade de um ponto de não retorno sinaliza que não houve
mudança de rota e a atual gestão na Casa Branca, que o abismo climático não é
considerado por todos.
A Amazônia não escapa da crise, lembrou Nobre
em entrevista ao Correio em meio aos preparativos da COP 30: "Se esse
limite for ultrapassado, até 70% da floresta pode se degradar irreversivelmente
nas próximas décadas". A liberação de mais de 200 bilhões de toneladas de
carbono na atmosfera, impulsionando extremos climáticos pelo mundo, e o aumento
de risco de novas epidemias em razão da destruição do bioma foram apontados
pelo cientista como impactos críticos do fenômeno.
Há de se reconhecer a queda significativa do
desmatamento da Amazônia na gestão de Marina Silva, que deixou a pasta na
semana passada, assim como o cerco ampliado a crimes ambientais, a criação de
unidades de conservação e os avanços no financiamento climático. Por outro
lado, a falta de consenso sobre os mapas do caminho para o fim dos combustíveis
fósseis e o desmatamento embarreirou a promessa de que Belém sediaria a maior
COP da história, como havia planejado o presidente Lula.
Entre os destaques positivos da conferência do clima em novembro último, estão o fortalecimento do fundo de proteção das florestas tropicais, a criação de uma meta global de adaptação e a maior atenção a questões de interesse de indígenas e afrodescendentes. Nesse sentido, a escolha de Carlos Nobre para o alto órgão consultivo do Vaticano impulsiona, de certa forma, passos dados em Belém. É imprescindível que a crise climática paute o debate de instituições diversas e que a pluralidade de vozes marque essa busca pela sobrevivência do planeta.
A luta pela liberdade de imprensa e pela
verdade
Por O Povo (CE)
Ao jornalista não cabe mais apenas produzir
informações para manter o público informado. Ele precisa também afirmar seu
papel de curador e de verificador de informações publicadas para separar o
falso do verdadeiro
Hoje, 7 de abril, Dia do Jornalista, é
um momento especial para analisar o papel desse profissional na sociedade e a
liberdade de imprensa, ameaçada ou suprimida em boa parte do mundo. A data
escolhida para homenagear os profissionais do jornalismo foi instituída pela
Associação Brasileira de Imprensa (ABI) para lembrar Giovanni Battista Líbero
Badaró, médico e jornalista, opositor do governo de Dom Pedro I. Ele foi
assassinado em 1830, e sua morte tornou-se símbolo da luta contra a censura no
Brasil.
Ao jornalista não cabe mais apenas produzir
informações para manter o público informado. Ele precisa também afirmar seu
papel de curador e de verificador de informações publicadas para separar o
falso do verdadeiro. Transitam nas plataformas milhões de "produtores de
conteúdo" sem o mínimo compromisso com o método jornalístico para produzir
informações confiáveis.
A inteligência artificial é capaz
de apresentar "realidades alternativas", facilmente confundidas com a
verdade factual. É uma luta ingente para repor a verdade dos fatos. Mas, mesmo
quando isso ocorre, a falsidade já foi vista por milhões de pessoas, cumprindo
seus objetivos maliciosos ou criminosos.
Ao mesmo tempo, a liberdade de imprensa recua
em todo o mundo, pressionada por governos ou pela pressão econômica. Relatório
da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco),
relativo ao período 2022-2025, mostra que a liberdade de expressão chegou
ao nível mais baixo no mundo em décadas. Segundo a Unesco, o que ocorre é
comparável apenas ao observado na Primeira Guerra Mundial, no período que
antecedeu a Segunda Guerra Mundial e ao fim da década de 1970,
durante a Guerra Fria.
O estudo alerta para o aumento
"alarmante" da autocensura entre jornalistas, do maior controle de
governos e grupos de poder sobre as mídias, e do impacto da IA na produção de
informações falsas.
Estudo publicado em maio de 2025 pela
organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) confirma que a liberdade de
imprensa caiu para o pior nível desde a sua criação, ficando abaixo de 55
pontos, classificando a situação como "difícil".
Das 180 nações avaliadas, 112 pioraram o desempenho. O Brasil surge como exceção, subindo 19 posições, figurando agora no 63º lugar. O relatório relaciona a melhora no Brasil ao fim do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro. Isso não quer dizer que se vive em uma situação ideal, mas mostra ser possível avançar nesse quesito, quando governos tratam a imprensa com profissionalismo, respeitando seu trabalho.

Nenhum comentário:
Postar um comentário