O Globo
De aparência passiva, o cinismo esconde uma
capacidade perversa de alimentar as vilezas do viver em sociedade
A ideia era fazer uma pausa neste domingo de Páscoa — arquivar por um mísero dia qualquer noticiário de guerra e deixar falar a poesia. A intenção brotou do acaso, em meio à inescapável leitura sobre a insanidade do confronto no Irã. Um dos analistas da atualidade citava um poeta persa do século XII, Attar de Nishapur, e sua obra mais célebre, “A conferência dos pássaros”. Nela, o poeta narra a história de todos os pássaros do mundo que, por não terem rei, partem em revoada à procura de um soberano. Cada alado representa uma das falhas humanas que impedem o mundo de encontrar sua luz. Em conjunto, escolhem por guia uma poupa de grande sabedoria, que lhes informa qual será o teste de determinação: atravessar sete vales místicos. São eles os vales da Busca, do Amor, do Conhecimento, do Desapego, da União, do Maravilhamento, da Pobreza e Aniquilação.
Muitos pássaros se recusam até a levantar
voo, outros desistem a meio caminho, e tantos mais morrem ao longo do percurso.
Restam apenas 30 para vislumbrar o monte sagrado que procuravam. Ao chegarem a
seu destino, contudo, descobrem não um rei a sua espera, e sim um espelho.
Moral da história: o que os pássaros buscavam jamais esteve distante deles.
Procuravam encontrar a si mesmos, juntos. No poema de Attar, a certeza de quem
somos no coletivo define nossa humanidade. Sozinhos, nos agarramos a algo que
torna a jornada impossível, seja por amor, apego, medo, aniquilação, ódio. Ou
cinismo.
Enquanto o mundo só se revela por meio do
nosso engajamento com ele (é nessa adesão que repousa a experiência humana
plena), o cinismo age como sua mais perfeita negação. Talvez seja o sentimento
mais corrosivo em um ser humano — de aparência passiva, o cinismo esconde uma
capacidade perversa de alimentar as vilezas do viver em sociedade. Dentre os
poetas mais refinados da música, o australiano Nick Cave dedica parte de seu
tempo refletindo sobre a coragem de ter esperança como anteparo a essa praga.
Continuou a fazer música enquanto convivia com a perda de um filho adolescente
— o garoto de 15 anos havia ingerido LSD e caíra de um precipício em Brighton,
na Inglaterra —
e, sete anos mais tarde, com a morte de outro, mais velho, que acabara de sair
de uma prisão em Melbourne.
— De certa forma, meu trabalho se tornou uma
rejeição explícita ao cinismo e à negatividade — diz o músico em seus escritos.
— Não tenho tempo para isso, nem para censura ou condenação implacável. Não
tenho estômago para todo o ciclo de culpa perpétua. A vida é curta demais para
não nos maravilharmos. Permaneço cautelosamente otimista.
Cave ainda acredita numa “espécie de corrente
subterrânea de preocupação e conectividade, movimento radical e coletivo em
direção a uma existência mais empática e aprimorada”. Em homenagem à Páscoa e a
ele, a coluna estava inclinada a prosseguir explorando diferentes noções de
otimismo e esperança — esse anseio sincero por melhoria do mundo — que cada um
de nós nomeia de acordo com referenciais próprios. Não mais.
Um homem corpulento em júbilo, quipá na
cabeça, garrafa de champanhe nas mãos e pin dourado em forma de forca na lapela
celebrava uma conquista que perseguia havia anos. Era Itamar Ben-Gvir, ministro
de Segurança Nacional de Israel, feroz defensor do extremismo de direita,
comemorando a aprovação da pena de morte para palestinos condenados por atos
terroristas letais contra israelenses. Julgada por tribunais militares, a
execução se dará por enforcamento.
— Em breve vamos contá-los um por um —
garante o ministro em vídeo que circula nas redes sociais.
O inverso não foi sequer cogitado: pena
semelhante não se aplica a israelenses responsáveis pela morte de palestinos.
Dessa forma, para além da eliminação de mais de 70 mil civis em Gaza e a caçada
às terras e vidas palestinas ainda remanescentes na Cisjordânia ocupada, Israel
agora se aproxima da barbárie fundamentalista do arqui-inimigo Irã.
O editorial do diário Haaretz que tratou do
assunto fala em ascensão do terrorismo judaico e precipício dos fundamentos
democráticos e morais do Estado. Mas o texto não foi escrito no convencional
estilo do jornal. Intitulado “A canção do carrasco”, está em verso de seis
estrofes e rimas internas. A linguagem é bíblica, sombria, lírica. Começa
assim: Céus — tende piedade de
mim/Não há Deus em vós, nem decreto guia/Escolheram-me, gélido e cru/No escuro
sangrento do serviço prisional.
Talvez só mesmo a poesia nos salve, enquanto os homens-pássaros em revoada não encontrarem seu caminho interior.

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