(Dora Kramer, no artigo, Perda total, ontem, em O Estado de S. Paulo)
Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
sábado, 5 de dezembro de 2009
Reflexão do dia – Dora Kramer
(Dora Kramer, no artigo, Perda total, ontem, em O Estado de S. Paulo)
Merval Pereira:: Ambiguidades
O presidente Lula apenas repetiu o seu pensamento original sobre o tema quando disse, na Alemanha, que Estados Unidos e Rússia só teriam moral para exigir que o Irã não fabrique armas nucleares se abrissem primeiro mão de seus próprios arsenais. Quando candidato já favorito, na campanha da eleição presidencial de 2002, Lula, em um debate promovido por militares, provocou grande polêmica e teve que voltar atrás quando criticou a adesão do Brasil ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares e, numa referência direta aos países desenvolvidos, afirmou que o acordo só teria sentido se todos deixassem de usar armas nucleares.
Se a posição de Lula já estava equivocada naquela ocasião, agora ainda mais, quando o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, no início do ano em Praga, reafirmou a proposta de um mundo "sem armas nucleares", que havia lançado na campanha presidencial.
O tratado vigora desde 1970, veta pesquisas para a produção de bombas atômicas, e foi assinado por 187 dos 190 países da ONU, mas ratificado por menos da metade.
O Irã foi um dos primeiros a assinar, ao tempo do governo do xá Reza Pahlevi, mas, a partir da Revolução Islâmica, em 1979, passou a descumpri-lo e a ser alvo de pressões internacionais.
Com o fim da Guerra Fria, Estados Unidos e Rússia vêm em processo de negociação para a redução do arsenal nuclear e, na Conferência de Revisão do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), em 2000, houve acordo sobre medidas de desarmamento nuclear pelas potências atômicas, mas os ataques terroristas aos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001 fizeram com que o assunto sofresse um retrocesso.
As críticas à adesão do Brasil ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, somente formalizada no governo de Fernando Henrique Cardoso em 1998, têm no embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, novo ministro do Planejamento Estratégico do governo e ex-secretário-geral do Itamaraty, um de seus porta-vozes históricos e vêm provocando polêmicas permanentes.
Já no início do primeiro governo, o então ministro de Ciência e Tecnologia, Roberto Amaral, do PSB, em uma entrevista a um repórter da BBC, disse que o Brasil não podia renunciar a nenhum conhecimento tecnológico, nem mesmo sobre a bomba atômica.
A defesa da integração militar na América do Sul foi tema de uma palestra do então ministro da Casa Civil da Presidência, José Dirceu, em uma reunião internacional em Campos do Jordão, também no início do governo Lula.
Não falou na questão nuclear, mas citou China, Índia e Rússia como exemplos de países que impõem suas presenças no cenário mundial também pelo poderio militar, sendo que o Brasil é, dos Brics, o único que não tem armas nucleares.
Há cerca de dois anos, o então secretário de Política, Estratégia e Relações Internacionais do Ministério da Defesa, general-de-Exército José Benedito de Barros Moreira, defendeu em um programa de televisão que o Brasil desenvolva a tecnologia necessária para a fabricação da bomba: "Nós temos de ter no Brasil a possibilidade futura de, se o Estado assim entender, desenvolver um artefato nuclear. Não podemos ficar alheios à realidade do mundo."
O descumprimento do TNP ocorreria, segundo ele, no caso hipotético de um país vizinho fabricar a bomba ou "no momento em que o Estado se sentir ameaçado".
Poucos países dominam a técnica de enriquecer urânio: EUA, Rússia, China, França, Alemanha, Holanda e Inglaterra. O Brasil também está entre eles. Já tivemos problemas com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que, anos atrás, já no governo Lula, quis impor novas regras para a inspeção em Resende, uma fábrica semi-industrial que, em alguns anos, deve produzir o urânio necessário para o funcionamento das duas usinas de Angra e da terceira que virá a ser construída.
As instalações de Aramar hoje estão sob salvaguardas da AIEA, e as de Resende estão sendo negociadas. Lá se utiliza uma centrífuga especial para enriquecimento de urânio que o governo brasileiro protege por ser uma técnica pioneira.
O que o presidente Lula deveria fazer é ressaltar o exemplo da nova administração americana e levar ao Irã essa postura. É inexplicável essa defesa do programa nuclear do Irã, que o mundo está criticando.
O Brasil sempre foi a favor da redução das armas nucleares; incluímos na Constituição de 1988 que o país não terá armas nucleares.
O comentário do presidente Lula deixa implícito que o Irã e outros países têm o direito de ter armas nucleares, pois Estados Unidos e Russia têm. Essa posição é contrária ao consenso internacional, que vê no programa nuclear iraniano características claras de beligerância.
Quem faz usinas nucleares secretas e se recusa a inspeções dos organismos internacionais não está fazendo um programa de utilização pacífica da energia nuclear.
O objetivo mais óbvio da posição brasileira é ter o apoio do Irã para sua reivindicação de ter um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, mas essa explicação não resiste à lógica, já que, com essa atitude, o Brasil perde o apoio dos países que têm poder de veto, inclusive e, principalmente, os Estados Unidos.
A proximidade com a Venezuela, que já propôs um programa nuclear conjunto, e com o próprio Irã, e as declarações de autoridades diversas, civis e militares, não ajudam nossa confiabilidade internacional, que historicamente é boa.
Posições como a injustificada defesa do programa nuclear do Irã, em vez de usarmos a eventual influência que tenhamos para convencer aquele país a se submeter às inspeções internacionais, só colocam ambiguidade na retomada do projeto nuclear brasileiro, que oficialmente tem fins pacíficos e é sujeito a inspeções internacionais.
Dora Kramer:: Mal comparado
DEU EM O ESTADO DE S. PAULOVotos vencidos na sessão em que o Supremo Tribunal Federal aceitou a denúncia contra o ex-governador de Minas Gerais e senador Eduardo Azeredo, os ministros Gilmar Mendes, Eros Grau e José Antonio Toffoli sustentaram suas posições na ausência de provas materiais de que Azeredo tenha sido o cabeça do esquema de arrecadação ilegal de recursos para a campanha eleitoral de 1998, conforme apontou o Ministério Público.
Eros Grau chegou a citar explicitamente o processo dos acusados de montar sistema semelhante de empréstimos fraudulentos e desvio de recursos de empresas estatais, em âmbito nacional no governo Luiz Inácio da Silva.
Em defesa de Azeredo, o ministro invocou o fato de o presidente Lula não ter sido incluído na denúncia do procurador-geral da República. Para ele, se não havia motivos consistentes para acusar o presidente, não havia razão também para implicar o então governador e agora senador.
Mais ou menos o que alegou Eduardo Azeredo quando da primeira sessão do julgamento em que o relator Joaquim Barbosa deu seu voto considerando os indícios fortes o suficiente para que se abrisse processo contra o principal beneficiário das operações.
"Eu acho estranho. Não vou entrar no mérito da outra questão, mas a situação é muito semelhante. Eu era governador, uma campanha descentralizada, com delegação de poderes. O presidente Lula também concorreu em situação semelhante e ele não recebeu nenhum inquérito a esse respeito", disse Azeredo na ocasião, reivindicando isonomia de tratamento.
O comparativo, na verdade, não faz sentido a não ser para acusados e interessados em fazer valer a tese de que erros repetidos e generalizados se transformam em acertos consolidados.
Embora tenha sido o beneficiário maior do esquema montado, operado e transplantado de Minas para o Planalto por Marcos Valério - como bem disse o ministro Ayres Britto, o publicitário que não entendia nada de publicidade, mas sabia tudo sobre operações financeiras -, o presidente Lula não foi acusado de nada.
Não por condescendência do então procurador-geral, Antônio Fernando de Souza, ou pela alegação de que "não sabia de nada", mas pela deliberada decisão da oposição de deixar o presidente da República de fora da história.
Entre fazer o certo e adotar a atitude que lhe parecia politicamente mais conveniente, os oposicionistas - PSDB à frente - ficaram com a segunda opção.
Quando Duda Mendonça confessou à CPI dos Correios que tinha recebido dinheiro "não contabilizado" como o publicitário da campanha presidencial de 2002, as investigações da comissão poderiam ter tomado o rumo do Palácio do Planalto.
Não tomaram porque o então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, entrou em campo, abriu negociações com os caciques do PSDB, em especial com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que mandaram os rapazes da CPI recolher os flaps.
Acharam que tinham material suficiente para impedir a reeleição de Lula e que avançar mais poderia ser politicamente perigoso. Fizeram uma conta eleitoral e deram a ela o nome de responsabilidade institucional.
A denúncia de Antônio Fernando de Souza é basicamente fundamentada nas investigações da CPI. Se dali o presidente Lula tivesse saído nomeado o "beneficiário" do esquema, talvez figurasse no processo contra "os 40" (hoje 39) do mensalão.
Por isso Eduardo Azeredo deveria ser inocentado a priori, a despeito dos indícios apontados no inquérito e cujas provas devem ser buscadas no processo?
Repetindo, claro que isso só faz sentido para os acusados ou para os interessados em fazer valer a tese de que erros repetidos e generalizados se transformam em acertos generalizados.
Não obstante tenham ficado as suspeitas, a participação de Lula é questão vencida. Por erro de avaliação ou inépcia deliberada na investigação, não interessa, foi assim que aconteceu.
O que não justifica que aconteça de novo e se perpetue a prática de invocar isonomia de procedimentos onde não há jurisprudência firmada.
Se ao fim do processo restar provado que Eduardo Azeredo desconhecia a bandalheira sobre a qual se sustentava sua candidatura à reeleição, melhor para ele.
Agora, aceitar de antemão e sem nenhum processo de investigação que um chefe, de governo ou de uma campanha eleitoral na qual é candidato, não se preocupe com a licitude da cadeia de comando a ele subordinada, é conferir ao princípio da presunção da inocência prerrogativas de má-fé.
Bicudos
Na condição de "tucano engajado" na campanha do governador Aécio Neves, o secretário-geral do PSDB, Rodrigo de Castro, envia e-mail para rebater um tucano engajado na campanha de José Serra que diz que Aécio só aceita ser vice se tiver certeza da vitória com Serra.
Diz Rodrigo: "Se Aécio tiver certeza que o Serra ganha, aí mesmo é que não precisa se candidatar a vice."
Fernando Rodrigues:: A pior semana da oposição
DEU NA FOLHA DE S. PAULOBRASÍLIA - Acaba hoje talvez a pior semana para a oposição num ano que já havia sido péssimo para a trinca PSDB-DEM-PPS. Nem o petista mais otimista poderia imaginar um presente de Natal antecipado e assim tão completo.
As três principais siglas anti-Lula foram chamuscadas ao mesmo tempo. O mensalão do DEM quase derrubou o único governador da sigla, José Roberto Arruda, em Brasília. O Supremo Tribunal Federal abriu ação para apurar o mensalão do PSDB, no qual o ex-presidente nacional da sigla Eduardo Azeredo é acusado de ser um dos mandantes. E o presidente nacional do PPS, Roberto Freire, foi citado como beneficiário de propinas do panetonegate candango. Todos, por óbvio, negam ser culpados.
De camarote enquanto flanava pela Europa, Lula também observou de longe vários nomes da cúpula do PMDB serem mencionados no mensalão de Brasília. Para o PT, é uma benção manter os peemedebistas acuados. Há uma redução natural na voracidade atávica por cargos e verbas em troca do apoio a Dilma Rousseff em 2010.
Mesmo antes dos fatos devastadores recentes, as coisas já não estavam bem na seara da oposição. No final do ano passado, a Justiça Eleitoral havia cassado o então governador da Paraíba, Cássio Cunha Lima (PSDB). Há alguns meses, a governadora tucana do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, sofreu uma ameaça de impeachment.
A cereja do bolo da má fase da oposição é a renitente rixa entre José Serra e Aécio Neves sobre quem deve ser e quando será anunciado o nome do candidato a presidente pelo PSDB.
Antes de saber o desfecho da disputa entre ambos, uma avaliação é unânime no meio político: seja quem for o ungido, terá de enfrentar o corpo mole do perdedor do embate interno.
O impacto de toda essa desgraça em 2010 ainda é incerto para tucanos e "demos". Mas, certamente, bom o efeito não deve ser.
Miguel Reale Júnior:: O futuro do Brasil e o de Lula
DEU EM O ESTADO DE S. PAULOEm 1982, Lula, candidato ao governo do Estado em disputa com Franco Montoro, tinha como propaganda o slogan "vote em um homem como você". Perdeu a eleição. Nas seguintes disputas, para a Presidência da República (uma contra Collor e duas contra Fernando Henrique), apresentou-se como alguém oriundo da classe trabalhadora, suado, de roupa esporte, sem cuidado maior com a aparência. Perdeu as eleições. No pleito consagrador de 2002 foi diferente. Não se mostrou como "um homem igual a você", caro eleitor, mas, obedientemente, foi submetido a repaginamento por um personal stylist, por obra do seu marqueteiro, e vestido de executivo, com ternos e gravatas impecáveis, personagem acima do homem comum, digno de ser votado para presidente.
O seu inegável carisma teve de ser repaginado de modo a que a imagem gerasse o reconhecimento de que poderia vir a ser o supremo magistrado da Nação, um homem que não era comum. Conforme correu o exercício da Presidência, porém, Lula sentiu-se cada vez mais livre para se desvestir da roupagem de executivo, para voltar a ser ele próprio o comunicador da Presidência, sem porta-voz, porque ninguém como ele sabe falar com o povo, com a maioria dos brasileiros. A cada ano Lula foi se sentindo mais seguro para usar expressões chulas, reincidir nos erros gramaticais, dizer impropriedades a mancheias, a ponto de se transformar em costume falar o que bem entende. É o pitoresco, o exótico, admitido e concedido a quem tem imensa popularidade.
Esse quadro de alta popularidade permite, agora, ao presidente ser não apenas um "homem como você", brasileiro das classes C e D, mas romper com todas as liturgias do cargo, sendo cada vez mais seduzido a mostrar que um homem comum pode "chegar lá".
Assim, o presidente permite-se todas as liberdades. O Lula é capaz de dizer, por exemplo, que o mensalão - cuja denúncia foi bem lastreada e recebida em larga decisão fundamentada pelo Supremo Tribunal Federal - não passou de uma tentativa de golpe de Estado, com a infiltração de agentes da oposição nas hostes petistas para comprometer os ingênuos companheiros em tramoias arquitetadas para derrubá-lo. Antes dissera que de nada sabia, depois que errar é humano e os amigos deveriam ser perdoados. Agora vem a tese conspiratória, a demonstrar ter-se liberado absolutamente para proclamar o que sua ampla imaginação criadora lhe inspira, sem censura alguma.
Em outro exemplo, pode-se mesmo dizer que o presidente emite ideias sem pudor, como na explicação dada à formação de alianças com as forças menos respeitáveis da nossa vida política. Em entrevista, Lula disse: "Quem vier para cá não montará governo fora da realidade política. Se Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão."
Assim, sua declaração, de duas décadas, de ser o Congresso formado por 300 picaretas, a traduzir um juízo com rigor moral, amainou e transformou os picaretas de ontem, a serem expungidos, nos Judas de hoje, a serem chamados para fazer coalizão.
Mesmo ainda preso a ressentimentos - pois justifica qualquer crítica como "inveja dos poderosos por verem um trabalhador na Presidência" -, Lula agora sente a mais plena liberdade em razão da popularidade alcançada, a ponto de desfazer da verdade, inventando conspirações alucinadas, ou de defender a desnecessidade de moralidade na vida pública, ao instituir a regra da acomodação ao espírito rasteiro prevalecente de colocar o interesse pessoal de poder acima do interesse público, mediante acordos espúrios com políticos sequiosos de poder para fins egoísticos: os Judas, hoje discípulos, mas amanhã traidores.
Assim, misturam-se forças negativas e positivas no mesmo saco, tornando a política inodora e insossa, sem diferenças, a fazer-se o diferente igual.
Basta verificar a base aliada, composta por muitos próceres políticos que ontem eram oposição ao PT, ministros do governo de Fernando Henrique, que "nada fez em comparação com o atual", segundo mantra repetido à exaustão, para constatar a prevalência do adesismo. A consequência é o desfazimento da vida democrática, formada pela contraposição de visões, graças à mitificação de um líder que dissolve valores morais e desconsidera fatos evidentes, para a doce imposição de uma unanimidade de interesse.
Qual será o futuro da Nação neste panorama?
Lula crê, como acreditava Ademar de Barros, outro falastrão, poder eleger um poste, mesmo num país com apagão. Mas terá surpresas numa base aliada composta por vários Judas, cujo interesse é se eleger deputado ou senador, pouco importando estar diretamente no poder central, pois sempre irá negociar com esse poder, na obtenção de vantagens. A reforma política começa pelo exemplo de exigência de firmeza de posições, por isso a legitimação da coalizão com Judas é desastrosa para o futuro de nosso país. Embora a mudança do sistema eleitoral e dos partidos possa até ajudar, o principal está no exemplo a vir de cima.
Manter o PT no poder interessa aos milhares de companheiros colocados nos inúmeros cargos em comissão, criados como "nunca antes neste país", mas não é, a meu ver, uma questão de vida ou morte para Lula.
Qual o futuro de Lula?
Com a repercussão internacional, muito em vista de sua pessoa carismática, com o charme de ser, aos olhos do Primeiro Mundo, o primeiro operário na Presidência, Lula aspira a posições no concerto internacional. Não interessaria mais o que se dá na nossa terrinha.
Importa promover seu reconhecimento internacional, aspirando à posição de secretário-geral da ONU ou ao Prêmio Nobel da Paz. Se assim for, Lula não deixará de conceder a extradição de Battisti para a Itália, a fim de não criar arestas com a comunidade europeia.
Será Lula lá fora.
Miguel Reale Júnior, advogado, professor titular da Faculdade de Direito da USP, membro da Academia Paulista de Letras, foi ministro da Justiça
Oposição quer "agenda positiva" contra crise
DEM e PSDB estudam estratégias para que escândalo Arruda fique circunscrito apenas ao DF e não prejudique a pré-campanha
Para o pré-candidato tucano Aécio Neves, a semana "não foi um bom momento" para a oposição, mas a crise não terá reflexo nas eleições
Da Reportagem Local
Passada uma semana do início do escândalo envolvendo o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM), a oposição começa a se articular para sair das cordas.
A estratégia passa por quatro pontos: movimentar-se para uma expulsão rápida do governador -o que evitaria o prolongamento do "sangramento" dele-, intensificar agenda de viagens dos pré-candidatos para discutir plano de governo, aumentar a pressão pela chapa unindo os governadores tucanos José Serra (SP) e Aécio Neves (MG), e começar a trabalhar palanques em locais problemáticos, como DF, RS e RJ.
A oposição quer circunscrever a crise de Arruda ao Distrito Federal e entrar em 2010 com "agendas positivas". Para isso, o PSDB retomará encontros estaduais para debater programa de governo. Aécio e Serra devem estar juntos nas agendas.
Aécio disse ontem que a semana "não foi um bom momento" para a oposição, mas que a crise "não terá reflexo direto nas eleições de 2010".
A bancada federal do PSDB pretende já em janeiro organizar viagens de grupo de deputados aos Estados. "É um bom momento para entrarmos em contato com vários setores da sociedade", diz o líder do PSDB na Câmara, José Aníbal (SP).
No próximo fim de semana, os tucanos promoverão encontro no interior paulista com aliados do PMDB, do DEM, do PV e do PPS. "É uma demonstração de unidade para as campanhas estadual e nacional", afirmou o vice-presidente do PSDB, o deputado federal Edson Aparecido.
Nesta semana, o tema da chapa única com Serra e Aécio dominou encontro da bancada de deputados federais do partido. O DEM não se opõe à ideia.
"O marco zero é a definição da candidatura, mas não vamos ficar cobrando. Isso não depende dos democratas, que pretendem apoiar o PSDB, que tem dois grandes candidatos", declara o líder do DEM no Senado, José Agripino.
A relação DEM e PSDB ficou estremecida durante a semana. A insatisfação de uma ala tucana, ligada a Serra, com a condução do caso do mensalão do DEM gerou inclusive a tentativa de enfraquecer o presidente da sigla, Rodrigo Maia (DEM-RJ), amigo de Arruda.
Azeredo
O governador Aécio Neves defendeu ontem o senador Eduardo Azeredo, um dia depois de ele virar réu no STF (Supremo Tribunal Federal). Aécio disse que o senador mineiro é "vítima do conturbado momento político" e que Azeredo é um "homem de bem".
Ex-governador de Minas e ex-presidente do PSDB, Azeredo teve a denúncia contra ele aceita por suposta participação no valerioduto tucano, esquema que teria sido montado na tentativa da sua reeleição, em 1998, com desvio de, ao menos, R$ 3,5 milhões de empresas públicas mineiras.
Azeredo sempre disse que não tomou conhecimento dos fatos ocorridos na coordenação financeira da campanha, argumento repetido por Aécio. "Não sou jurista, mas não vi que existissem ali indícios de uma responsabilidade direta dele", disse o governador.
(Fernando Barros de Mello e Paulo Peixoto)
Os 80 anos de Jürgen Habermas, no Prosa deste sábado
DEU NO PROSA & VERSO – O GLOBOEm 2009, não houve aniversário mais comemorado na Alemanha do que os 80 anos de Jürgen Habermas. Mais importante filósofo vivo desse país em que os pensadores são um orgulho pátrio, e uma das principais figuras dos debates políticos do pós-Guerra, ele atravessou o ano em meio a simpósios, exposições e uma série de publicações em sua homenagem. No caderno desta semana, a correspondente do GLOBO em Berlim, Graça Magalhães-Ruether, conta como a Alemanha está celebrando a obra de Habermas, um dos principais nomes ligados ao Instituto para Pesquisa Social, berço da Escola de Frankfurt, que reuniu teóricos de linhagem marxista (como Theodor W. Adorno e Max Horkheimer) com uma postura crítica quanto ao legado do Iluminismo para o Ocidente.
O caderno traz uma entrevista com o filósofo Ludwig von Friedeburg, que assumiu a direção do Instituto após a morte de Adorno, em 1969. Von Friedeburg elogia a independência de Habermas em relação aos outros integrantes do grupo e afirma que a Escola de Frankfurt permanece influente, preservando “o espirito do Esclarecimento”. E também artigos do professor de Filosofia do Direito da UFRJ José Eisenberg e do professor de Filosofia da UERJ Luiz Bernardo Leite Araújo sobre a multifacetada obra de Habermas, que hoje influencia desde estudos históricos sobre a Revolução Francesa (impactados por sua teoria inovadora sobre a esfera pública) até discussões sobre a imprensa, o Direito, e os conflitos atuais da política internacional.
Em sua coluna, José Castello fala sobre "A clave do poético” (Companhia das Letras), coleção de ensaios de Benedito Nunes organizada por Victor Sales Pinheiro, na qual o crítico revisita sua "trajetória intelectual densa, construída na leitura rigorosa e no embate teórico".
O ensaísta e diplomata Sergio Paulo Rouanet, membro da Academia Brasileira de Letras, comenta o segundo tomo da “Correspondência de Machado de Assis” (ABL), série coordenada por ele e reunida, organizada e comentada por Irene Moutinho e Silvia Eleutério. Este segundo volume reúne as cartas machadianas relativas ao período de 1870 a 1889, e será lançado dia 10, às 17h30m, na ABL.
Fechando o caderno, o correspondente do GLOBO em Washington (EUA), Gilberto Scofield Jr., mostra uma tendência nova e, para muitos, preocupante sobre a histórica polarização política entre democratas e republicanos: o fortalecimento de redes de notícia 24 horas como a Fox News e a MSNBC, abertamente partidárias, e a queda de audiência da moderada CNN. Analístas políticos e críticos de mídia comentam os efeitos que o discurso raivoso de parte da mídia (que o ensaísta David Denby, num livro recente, batizou com a onomatopeia "snark") pode ter sobre a capacidade de diálogo dentro da sociedade americana.
Boa leitura.
PMDB nacional discutirá na quarta apoio ao governador do DF
Na segunda (7), a executiva regional já se reunirá para debater o tema.
Presidente em exercício do PMDB defende que o partido deixe o governo.
Eduardo Bresciani
A Executiva Nacional do PMDB se reúne na quarta-feira (10) para discutir se o partido permanecerá no governo de José Roberto Arruda (DEM-DF). A reunião foi convocada nesta sexta-feira (4) pela presidente em exercício do PMDB, deputada Íris de Araújo (GO). Na segunda-feira (7), a executiva regional já se reunirá para debater o tema.
Íris defende que o partido deixe o governo do Distrito Federal. Na executiva local, o deputado Tadeu Filippelli (PMDB-DF) foi quem negociou o apoio a Arruda. Ele, no entanto, já afirmou nesta semana que havia insatisfação com a participação mesmo antes do escândalo de corrupção ser detonado na semana passada com a operação Caixa de Pandora da Polícia Federal.
Nesta semana apareceu ainda um vídeo citando um possível envolvimento da cúpula do partido com o esquema. O presidente da Câmara, Michel Temer (SP), o líder do partido, Henrique Eduardo Alves (RN), e os deputados Eduardo Cunha (RJ) e Filippelli são mencionados pelo empresário Valdir Colaço, dono do jornal Tribuna do Brasil em um vídeo gravado pelo ex-secretário de Relações Institucionais do Distrito Federal Durval Barbosa como beneficiários do esquema de desvio de propina do DF.
O escândalo do mensalão do DEM de Brasília começou no dia 27 de novembro, quando a Polícia Federal deflagrou a operação Caixa de Pandora. No inquérito, o governador José Roberto Arruda é apontado como o comandante de um esquema de distribuição de propina a deputados distritais e aliados.
Para Mendes, mensalão pode gerar crise de 'legitimidade'
Escândalo envolvendo governador do DF repercute no STF e no Senado; Simon cobra explicações do PMDB
BRASÍLIA - O escândalo de corrupção envolvendo o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM), foi o principal assunto discutido em Brasília nesta sexta-feira, 4. Arruda é acusado de chefiar um esquema de desvio de dinheiro e aparece em um vídeo realizado pela polícia federal durante a investigação, que foi divulgado nesta semana.
Ao comentar o caso, que ficou conhecido como mensalão do DEM, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, afirmou que "é preocupante porque pode afetar a legitimidade do sistema político". Mendes defendeu mudanças no financiamento de campanhas eleitorais. "Esse modelo de financiamento exclusivamente privado e captado pelos candidatos ou envolvidos é propiciador desse modelo [de corrupção]. Precisamos refletir sobre esse assunto", ressaltou o ministro.
No Senado, Pedro Simon (PMDB-RS) alfinetou Arruda em plenário e disse que "a corrupção no Brasil daria para comprar panetones para todos os habitantes do planeta", em referência à alegação do governador de que o dinheiro que aparece no vídeo da Polícia Federal teria sido usado para a compra de alimentos para os pobres.
Simon também aproveitou a ocasião para cobrar da direção nacional do PMDB explicações sobre um possível envolvimento de políticos do partido na crise do governo do Distrito Federal, citados em gravações reunidas na investigação feita pela Polícia Federal sobre o caso.
Por outro lado, o senador Mão Santa (PSC-PI) afirmou que o País foi tomado por "um tsunami de desmoralização e corrupção" e voltou a criticar o Governo Federal e o presidente Lula. "Nunca vi tanto descaramento. Está na hora de o bravo povo de Brasília pegar o chicote e colocar esses vagabundos corruptos pra fora", ressaltou.
Política de combate à corrupção
Em nota divulgada nesta sexta-feira, a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) pediu a criação de uma Política Judiciária de Combate à Corrupção, para regulamentar a "prioridade ao julgamento de processos relativos à corrupção e defesa do patrimônio público que envolvem agentes públicos".
A instituição, que participou em 2007 da campanha Juízes Contra a Corrupção, propôs também o fim do foro privilegiado e a criação de varas e câmaras especializadas para julgar esse tipo de crime.
"É preciso dar celeridade e uma resposta mais ágil e eficaz à sociedade sobre esses escândalos contra o erário público", afirmou o presidente da entidade, Mozart Valadares. Segundo ele, a lentidão nos julgamentos dessas ações estimula a impunidade.
Serra recomenda que população escolha candidatos melhores nas eleições de 2010
O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), recomendou hoje que a população escolha candidatos melhores nas eleições de 2010. Questionado sobre o que deveria acontecer para que a população não assistisse novamente "as cenas deploráveis" desta semana, ele respondeu: "Na hora de votar, tem de escolher melhor".
Sem se referir a ninguém especificamente, Serra disse que todos os políticos foram eleitos pelo voto popular. "Todo mundo que está em Brasília, nas prefeituras, nos governo de Estado. Todo mundo é eleito pelo voto popular."
Indiretamente, ele defendeu mudanças no sistema político. "Essa é a preliminar, não há dúvida que tem de aperfeiçoar os mecanismos. Ano que vem é ano de eleição, é ano de pensar bem antes de votar."
Nesta semana, o DEM --principal parceiro do PSDB-- foi envolvido numa crise política após as denúncias de suposta relação entre o governador José Roberto Arruda (DEM-DF) e um esquema de corrupção. As relações entre os dois partidos ficou abalada após o PSDB retirar o apoio a Arruda.
Vídeo liga MIchel Temer e deputados do PMDB a mensalão
Presidente da Câmara e deputados peemedebistas divulgaram notas negando envolvimento no esquema
SÃO PAULO - O empresário Alcyr Collaço, gravado colocando maços de dinheiro na cueca, virou personagem de outra polêmica. Em mais um vídeo gravado por Durval Barbosa, o secretário de Relações Institucionais do governo José Roberto Arruda (DEM) que detonou o esquema do "mensalão do DEM" no Distrito Federal, Collaço aparece contabilizando uma suposta propina paga ao PMDB.
Na última quinta-feira, Michel Temer (SP), presidente nacional do partido e da Câmara dos Deputados, e os deputados Eduardo Cunha (RJ), Henrique Eduardo Alves (RN) e Tadeu Filippelli, que preside o partido no DF, divulgaram notas negando a propina e anunciando que vão processar o empresário.
Na gravação, Barbosa afirma que Arruda "dava 1 milhão por mês para Filippelli". Collaço diz que investigou o assunto e dá a versão dele: "É 800 pau (sic). Quinhentos pro Filippelli, 100 para o Michel, 100 para Eduardo, 100 para Henrique Alves." Temer considerou "uma vilania sem tamanho" a citação de seu nome no vídeo. Henrique Alves, líder do partido na Câmara, disse que as citações eram "incabíveis e despropositadas''.
Eduardo Cunha chamou Barbosa e Collaço de "meliantes". Filippelli afirmou que se tratava de um jogo para envolver o nome dele na Operação Caixa de Pandora. Sem citar Joaquim Roriz (PSC), Filippeli levantou a suspeita de que o ex-governador esteja se vingando por ter perdido o comando do PMDB. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Gilmar Mendes defende mudanças no financiamento de campanhas eleitorais
O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, disse nesta sexta-feira (4/12) que denúncias de corrupção, como as investigadas pela Operação Caixa de Pandora no Distrito Federal, revelam “mazelas” do sistema político e mostram a necessidade de mudanças no financiamento de campanhas eleitorais.
“Isso é preocupante porque pode afetar a legitimidade do sistema político, [despertar] a dúvida do cidadão em relação à seriedade do processo democrático”, disse Mendes após participar de cerimônia no Tribunal de Justiça de Goiás.
O presidente do STF afirmou que o sistema político precisa de mudanças para evitar a corrupção, principalmente em relação ao pagamento de campanhas eleitorais.
“No que diz respeito ao financiamento de campanhas, temos que ser mais enfáticos no que concerne a mudanças, reformas. Esse modelo de financiamento exclusivamente privado e captado pelos candidatos ou envolvidos é propiciador desse modelo [de corrupção]. Precisamos refletir sobre esse assunto.”
Mendes disse que, desde os casos de corrupção no governo do ex-presidente Fernando Collor, o sistema político do país tem passado por sucessivas crises.
“A toda hora, desde 1990, quando tivemos a crise do Collor e do PC Farias [Paulo César Farias, tesoureiro da campanha de Collor], o Brasil tem tido reincidências. Depois tivemos o caso do mensalão, aquela crise na Comissão do Orçamento. Há sucessivas crises nessa área”, citou.
Segundo Mendes, além de mudanças na lei, “é preciso que se introduza uma nova cultura”, assim como melhorar a fiscalização.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Reflexão do dia – Editorial O Estado de S. Paulo
(O Estado de S. Paulo, Editorial – Falso patrono da reforma)
Merval Pereira:: Cada um na sua
DEU EM O GLOBOConsumada a decisão do Supremo Tribunal Federal de abrir processo contra o senador Eduardo Azeredo, do PSDB mineiro, temos definido que cada um dos principais partidos políticos brasileiros carrega agora acusações do mesmo teor. Há o mensalão do PT, o do PSDB e, agora, o do DEM. Mesmo que as características de cada um sejam diferentes entre si — o do PT com caráter nacional e arquitetado de dentro do Palácio do Planalto, de acordo com a acusação acolhida pelo Supremo, e o do PSDB e do DEM de caráter regional em Minas e no Distrito Federal, o fato é que eles não se distinguem para a opinião pública e em termos políticos.
Suas consequências são arrasadoras não só para partidos que, cada um a seu tempo, quiseram assumir a bandeira da moralidade na política, mas também para o debate político.
Nivelando-se por baixo, nossos partidos ficam parecidos aos olhos dos eleitores, e o alívio que hoje sentem os petistas com a desdita de seus adversários oposicionistas é o sintoma mais evidente do desvio de conduta que tomou conta da política brasileira.
Há um raciocínio perverso que leva alguns a acusar os partidos oposicionistas que abandonaram o governo do Distrito Federal de traição a um correligionário, embutindo nesse raciocínio a ideia de que pelo menos os petistas não abandonam os seus.
Uma variante desse raciocínio político degradado leva alguns “democratas” a pensarem que, se o PT não puniu nenhum de seus mensaleiros, por que eles têm que punir os seus? Dizer que o falso moralismo derrotado pelos fatos é um bom indício de que a política agora se travará no debate real das realizações, e não no plano etéreo da moralidade, é aceitar que a corrupção é fator inerente à atividade política.
Esse excesso de pragmatismo é o responsável pela degradação da nossa vida política e se reflete na tentativa que todos os partidos, sem exceção, fizeram e fazem para reduzir a culpa de seus correligionários.
A começar pelo presidente da República, que, não contente de passar a mão na cabeça de todos os mensaleiros e aloprados petistas, ainda tentou relativizar as imagens escabrosas da farta distribuição de dinheiro nas salas do governo do Distrito Federal.
A recusa do DEM de expulsar sumariamente o governador José Roberto Arruda de seus quadros, adiando a decisão por dez dias, só demonstra a força que ele tem dentro do partido, contagiando toda a sua já reduzida estrutura partidária, que vem minguando a cada eleição.
Também o PSDB hesitou em punir o senador Eduardo Azeredo quando surgiu a denúncia do “mensalão mineiro”, que teria sido a origem do “mensalão petista”.
Da mesma maneira que o governador José Roberto Arruda emparedou seus companheiros de partido, ameaçando “radicalizar” no final se “radicalizassem” contra ele, também Azeredo, então presidente nacional do PSDB, mandou seu recado quando achou que seria abandonado pelos companheiros tucanos: “A campanha de 1998 não era só minha. Era de todo o partido, inclusive da reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso no estado”, disse ele em entrevista em 2007.
O fato é que Azeredo continua no PSDB até hoje, e até bem pouco tinha planos de se candidatar à reeleição ao Senado. No momento, parece mais fácil ser candidato a deputado federal.
O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, que naquela eleição concorreu a deputado federal, já o avisou de que não há espaço para disputar uma das duas vagas de senador.
O governador Arruda, por sua vez, dificilmente continuará no DEM, perdendo assim a possibilidade de se candidatar em 2010; mas tentará se manter no governo do Distrito Federal até o último momento, para ser julgado em foro privilegiado pelo Superior Tribunal de Justiça.
E o PMDB é um injustiçado, não aparece em nenhum esquema dos mensalões? A explicação vem de um membro ilustre daquele aglomerado político, o senador Pedro Simon: “O PMDB está em todos eles”.
No mensalão petista, o acusado foi o deputado José Borba, do PMDB do Paraná.
No mensalão do DEM, aparece em uma conversa gravada, entre outros correligionários, o nome do presidente da Câmara, Michel Temer, cotado para ser o vice da chapa da ministra Dilma Rousseff.
Temer nega as acusações e, juntamente com a direção do partido, pretende processar na Justiça seus acusadores. As acusações de corrupção atingem de maneira direta ou indireta a sucessão do presidente Lula, e não apenas os partidos de oposição, embora estes sejam os mais obviamente afetados.
O governador de São Paulo, José Serra, tinha com o DEM uma clara parceria política, que levou Gilberto Kassab à prefeitura paulista. Já o governador de Minas, Aécio Neves, ganhou o apoio recente do presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia, na disputa interna pela candidatura à sucessão de Lula.
Além disso, o partido era o potencial parceiro para indicar o vice-presidente na chapa tucana, se não fosse possível formar uma chapa puro-sangue do PSDB.
A crise instalada pelos escândalos de corrupção no governo do Distrito Federal está abalando as relações interpartidárias, mas é pouco provável que o DEM se afaste da chapa oposicionista, embora seja praticamente certo que não dará mais o vice.
Dora Kramer:: Perda total
DEU EM O ESTADO DE S. PAULOQuem ganha em 2010 com o zero a zero que se estabeleceu entre os grandes partidos em matéria de escândalos de corrupção é uma questão em aberto. Mas, por ora, quem perde não resta a menor dúvida de que é o discurso pela retomada da ética na política e, consequentemente, o País.
Algumas mentes deformadas chegam a comemorar o empate nesse macabro campeonato porque, assim, o assunto estaria devidamente interditado na campanha eleitoral durante a qual os concorrentes tratariam apenas de assunto relevante: a comparação entre os governos Luiz Inácio da Silva e Fernando Henrique Cardoso e a tão desejada polarização em feitio de "nós" contra "eles".
Há quem chegue quase a dar graças a Deus pelo fato de a cúpula do governo do Distrito Federal ter se exibido podre em praça pública, porque isso retiraria o moral das críticas à rotina de imoralidades que tomou conta do ambiente político e facilitaria um compromisso de não-agressão entre os contendores nessa área.
Teríamos chegado então àquele patamar em que, na impossibilidade de se restaurar a moralidade, locupletam-se todos.
É um cenário realmente desanimador, que não permite celebrações, mas possibilita a indagação à capacidade de o Brasil prosseguir em sua trajetória bem-sucedida e obter ainda os avanços em áreas como saúde, educação, segurança pública, preservação do meio ambiente, se não houver um mínimo de preocupação com a correção de condutas.
Impossível imaginar um país desenvolvido onde a dissolução dos costumes seja uma praxe incorporada à rotina pela força do hábito, pela tradição e pela amplitude da adesão.
Alguém terá de romper a inércia e dizer que é preciso pôr um paradeiro nas transgressões simplesmente porque um Estado de Direito não sobrevive se não houver respeito às leis.
Se os partidos não o fizeram por falta de credibilidade para tal, acabarão atropelados pela sociedade. No curso da campanha do ano que vem será absolutamente impossível os partidos ignorarem a mazela.
Não adianta desqualificar o assunto dizendo que é "udenismo" ou "farisaísmo". A questão vai aparecer justamente pelos motivos que os partidos hoje acreditam que ela possa desaparecer.
Como já se viu que não se trata de um mal localizado, é evidente que o desconforto com a indecência generalizada acabará se impondo talvez até de forma preponderante. Não há pacto de não-agressão firmado no Planalto que resista à realidade percebida na planície.
E, nesse aspecto, o escândalo de Brasília foi devastador para todos. Não é uma discussão em tese nem se trata de indícios, suspeitas ou meras acusações. As cenas mostradas na televisão atingem à massa do eleitorado, que imediatamente - até pelas referências feitas no noticiário - se remete a outros casos.
De imediato o maior prejudicado é o DEM. Mas a ele já surgem acoplados personagens do PSDB e do PMDB, para citar apenas os personagens essenciais da eleição presidencial, não obstante legendas das áreas de influência das forças adversárias também estejam representadas na quadrilha.
Isso faz uma conta de soma zero?
Ao contrário. Exibe de maneira escancarada um somatório de atitudes delituosas que não escaparão ao juízo do eleitorado.
Sangue frio
Na sexta-feira em que explodiu o escândalo em Brasília, o vice de José Roberto Arruda, Paulo Octávio, estava de folga em Itaparica (BA). Foi avisado por um amigo empresário do que ocorria na capital e aconselhado a voltar para lá.
Paulo Octávio não se abalou: ficou, dançou, jogou tênis e se divertiu como se não houvesse amanhã.
Pela condescendência do DEM, que não vê motivo para punições não obstante as referências nas gravações sobre a parte que lhe cabia na partilha do dinheiro distribuído por Durval Barbosa, o vice sabia de antemão que não havia por que se afligir.
E, pelo menos por enquanto, não viu razão para demitir seu executivo Marcelo Carvalho, que aparece em um dos vídeos guardando dinheiro numa mala preta.
Só na certa
Observação de um tucano engajado (na campanha de José Serra): "Aécio só aceitará ser vice se tiver certeza de que o Serra vai ganhar."
Troca de guarda
Parcela expressiva do setor produtivo e do mercado financeiro nutre a expectativa de que em algum momento Lula substitua Dilma Rousseff por Antonio Palocci na candidatura presidencial.
Não por coincidência, quem diz isso - e não são poucos - considera José Serra intervencionista demais.
Em dois encontros recentes, e em locais diferentes, reunindo gente da indústria e da área de investimentos, foi bem recebida a informação de que o candidato pode desistir a qualquer tempo mesmo depois de oficialmente indicado em convenção do partido.
Eliane Cantanhêde:: O tamanho do estrago
DEU NA FOLHA DE S. PAULOBRASÍLIA - Jorge Bornhausen e Gilberto Kassab sobrevoaram o DF nesta semana para tentar avaliar o desastre "in loco". Concluíram o que já era "concluível" com base em imagens gravadas e reportagens: o estrago é de bom tamanho. Só que não só no DEM, pois avança pela oposição inteira e já chega à cúpula lulista do PMDB.
O maior empenho dos demo é para jogar Arruda ao mar e lançar uma boia para o vice, Paulo Octávio, desde, claro, que não surjam outros vídeos voadores por aí contra ele. PO, como é chamado, seria uma forma de segurar o governo agora, não de mantê-lo em 2011. Do jeito que a coisa vai, o grande vitorioso em Brasília é a esquerda, PT à frente, PDT logo em seguida. Se os dois se juntarem, podem decidir de véspera a eleição em 2010 na capital.
Na eleição presidencial, a avaliação é de que a oposição não tem para onde correr no DF: o que é pior, ficar sem nada ou ir com Roriz? É mais um vácuo, pois Serra e Aécio não terão como pisar no Rio Grande do Sul sem vaias e vão se deparar com uma penca de palanques para Dilma e nenhum para si no Rio.
Além disso, a oposição está naturalmente em maus lençóis no Norte e não está lá essas coisas no Nordeste, onde Lula tem uma força enorme, apesar de algumas brechas -na Bahia, por exemplo.
É por essas e muitas outras que Bornhausen deve estar louco da vida com o DEM do Paraná, que prefere se aliar ao PDT de Osmar Dias do que ao PSDB do popular Beto Richa, rachando a aliança num reduto favorável. Ele acha que não dá para desperdiçar nada.
Com a chegada de dezembro, da crise na capital e, ontem, do processo no STF contra o ex-presidente do PSDB Eduardo Azeredo, cresce a certeza de que são precisos "grandes lances".
O principal seria a chapa Serra-Aécio, somando os decisivos São Paulo e Minas e salvando PSDB, DEM, PPS e até os próprios Serra e Aécio de um longo limbo. Em alguns casos, sem volta.
Maria Cristina Fernandes:: Onde os extremos se encontram
DEU NO VALOR ECONÔMICOEgressos dos extremos da cadeia partidária e coincidentes na pauta da moralidade, DEM e P-SOL chegam à véspera da sucessão presidencial de flerte com o ocaso.
Um está no clube dos grandes do Congresso desde sempre. Já chegou a ser o partido com o maior número de prefeitos do país. Hoje comanda metade dos mil municípios de seu apogeu. Dos sete governadores que teve nos anos 90, hoje se limita ao quase nenhum da capital federal.
Ocupou os mais poderosos ministérios, estatais e autarquias até a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, ainda que, na única vez em que encabeçou chapa para a Presidência da República, com Aureliano Chaves em 1989, não tenha obtido percentual de votos que chegasse a um dígito.
O outro está no clube dos nanicos desde que surgiu, da costela do PT. Tem quatro deputados federais, um senador - José Nery (PA) - e nenhum governador de Estado. Nunca comandou cargos de poder na administração federal. Isso não impediu que, em 2006, na primeira eleição nacional que disputou, alcançasse, com a então senadora Heloísa Helena, 6,8% do total de votos para a Presidência da República, perdendo apenas para os dois finalistas.
O PT chegou ao poder pelo centro e, no governo, comeu bordas à direita e à esquerda. Às vésperas de o PT iniciar seu último ano como inquilino do Palácio do Planalto, é nas margens do quadro partidário que o quadro sucessório lhe serve de balanço.
No P-SOL, o sucesso da disputa presidencial de 2006 não teve sustentação. Na eleição seguinte, sua fatia no colégio de 51.748 vereadores do país passou de 20 para 25 vereadores.
Naquela eleição, Heloísa Helena enfrentaria a exploração de seus adversários de uma dívida que acumulara com a Receita pelo não recolhimento de impostos incidentes sobre a verba extra a que tinha direito, nos anos 90, como deputada estadual pelo PT. O caso chegou ao Superior Tribunal de Justiça e, na batalha de recursos, a Receita está à frente.
Naquele mesmo ano, a deputada federal Luciana Genro (RS), candidata em Porto Alegre, seria bombardeada internamente depois de receber contribuição da Gerdau à sua campanha.
O economista Cesar Benjamin, vice de HH em 2006, assistiria de longe o partido sucumbir à pira do denuncismo. Voltaria à tona agora para anunciar que não é capaz de distinguir um piadista boquirroto de um aliciador de menores - deficiência que não o impede de exercer o cargo de diretor-presidente de uma rede estadual de rádio e televisão morando a 852 quilômetros de seu local de trabalho.
Em 2010, a única expressão eleitoral de abrangência nacional da extrema esquerda já anunciou que pretende apoiar a senadora Marina Silva (PV). Vale conferir qual será o desempenho do P-SOL nas Câmaras de Vereadores das eleições seguintes.
No DEM, a encrenca de José Roberto Arruda acrescentou pneumonia num paciente terminal. Seus candidatos mais competitivos a governos estaduais - Bahia, Sergipe e Rio Grande do Norte - estão na região onde Lula elege até uma lamparina.
No Senado, repositório de poder do partido, a situação é igualmente crítica. Da atual bancada de 13, pelo menos metade deve sucumbir ao rolo compressor da aliança governista nos Estados.
O DEM minguou longe do poder, mas foi no exercício do seu mais vistoso cargo que o partido lembrou o que é capaz de fazer quando empossado. A oração da propina jogou por terra a estratégia do mais aplicado partido de oposição no Congresso. Investido dessa condição, o DEM chegou até a apresentar projeto de lei para para proibir as empreiteiras de captar financiamento junto ao BNDES para obras no exterior. É um projeto que não teria dificuldades de arrastar o P-SOL se este partido tivesse mais do que uma cadeira na Casa.
Além de não lhes arrebatar novos eleitores, o discurso da moralidade, contradito, abriu um fosso em relação a seu eleitorado tradicional.
São ambos reféns de um governo que, capturado na sua própria armadilha ética, radicalizou as políticas inclusivas e a mistificação da figura do presidente. É jogo jogado.
No passado, o golpismo serviu de refúgio para a direita desprovida de voto e a clandestinidade, à esquerda derrotada pelos seus erros. Hoje não há alternativa às urnas, por mais duro que isso possa parecer.
Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras
EDITORIAL - O falso patrono da reforma
Um dos talentos menos decantados do presidente Lula é o da sua prontidão para cumprir a lei de Gérson, aquela cujos seguidores "gostam de tirar vantagem em tudo", conforme o comercial de uma marca de cigarro estrelado pelo craque da seleção de 1970. Tamanha a maestria do presidente nesse jogo que ele é capaz de tirar vantagem também de seus próprios lapsos ou erros. O mais recente, como se sabe, foi a sua característica reação de desdenhar do escândalo do mensalão, ou do panetone, para usar o termo pitoresco, no Distrito Federal. O fato de serem do DEM, a começar do governador José Roberto Arruda, os principais envolvidos na mais documentada lambança do gênero não freou o impulso pavloviano de Lula de apanhar uma vassoura tão logo ouça a palavra corrupção - não para limpar a sujeira, mas para escondê-la debaixo do tapete.
Foi o que se deu na terça-feira, quando os jornalistas que o acompanhavam a Portugal, onde ele participava da Cúpula Ibero-americana, lhe perguntaram se as cenas mostrando boladas de reais manchados trocando de mãos não eram suficientemente eloquentes para merecer dele pelo menos um "palpite" sobre a bandalheira. Lula não se deu por achado. "Imagens não falam por si", decretou, lapidando mais uma contribuição para a sua já alentada antologia de declarações cúmplices com o que há de mais execrável na política brasileira. Caiu mal, como se diz. A repercussão previsivelmente negativa do abafa o apanhou no contrapé. No dia seguinte, já na Ucrânia, o presidente voador viu-se na contingência de negar que estava sendo condescendente com os maracuteiros do DEM, como havia sido com os mensaleiros do PT em 2005 - e, ao longo de seu mandato, com qualquer político apanhado com a boca na botija.
Desta vez, considerou as imagens "deploráveis" e foi além, sacando da lei de Gérson para se aproveitar do momento e novamente driblar a verdade em benefício próprio. Ele deu a entender que moveu céus e terras para fazer aprovar os dois projetos de reforma política que enviara ao Congresso - e que seriam a panaceia para, nas suas palavras, "moralizar o funcionamento dos partidos" e o processo eleitoral. À parte a crendice nos poderes alvejantes da mudança das normas que regem o sistema, se desacompanhadas de provisões que efetivamente garantam a punição dos transgressores (o que inibe o crime, sabem os juristas, é, antes de tudo, a certeza do castigo), a alegação de Lula é falsa como os panetones de Arruda. O presidente que aprova praticamente o que quiser neste Congresso em que a base governista tem um peso sem precedentes desde a redemocratização do País não fez força alguma - descontadas as expressões corporais de praxe - para emplacar as suas propostas presumivelmente saneadoras.
E não fez pela razão elementar de que as atuais regras do jogo que ele finge reprovar lhe convêm não menos do que aos políticos que bloqueiam o seu aperfeiçoamento e com os quais construiu parcerias reciprocamente vantajosas. É longa a lista dos aliados do presidente cujas carreiras vicejaram à sombra do que há de pior nos padrões reconhecidamente defeituosos que estruturam a política e as eleições no Brasil. O "inimigo oculto" que, segundo Lula, "não deixa os projetos serem votados" é ostensivo nos plenários do Congresso - e no espelho em que ele se contempla. Por exemplo, não fosse a infidelidade partidária que só a Justiça tentou coibir, o Planalto não teria conseguido manejar a composição das bancadas federais com a desenvoltura que se viu no primeiro mandato. A responsabilidade do presidente pela perpetuação do sistema do qual tira proveito não pode ser subestimada.
Na verdade, nunca antes na história deste país houve um presidente que tivesse contribuído tanto quanto Luiz Inácio Lula da Silva para o avanço galopante da gangrena da corrupção em todas as instituições republicanas. Está aí, "falando por si", o tratamento privilegiado que dele mereceram alguns dos protagonistas mais expressivos de recentes episódios escabrosos da cena política nacional, a começar por Roberto Jefferson, passando por Jader Barbalho, Renan Calheiros, José Sarney e Fernando Collor, etc., etc. e tal.
E isso quando, nunca antes na história desta República, houve um presidente com tantas condições, dado o seu poder no Congresso, de promover as reformas que diz ter tentado, mas que na verdade não fez porque não quis.
Tasso: 'PSDB está louco para ter candidato'
Após reunião com Aécio, senador se engaja no movimento para que Serra anuncie logo se vai disputar Presidência
Fábio Fabrini
BELO HORIZONTE. Com a aproximação do prazo dado ao PSDB para definir o candidato à Presidência em 2010, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), aumenta a pressão sobre seu concorrente no partido, o governador paulista José Serra.
Em encontro com o senador Tasso Jereissati (CE) e o ex-ministro das Comunicações Pimenta da Veiga (MG), no Palácio da Liberdade, ele acertou investida para que a cúpula tucana anuncie uma decisão entre o fim de dezembro e o início de janeiro.
Após uma hora de conversa reservada, o senador disse que os militantes estão “loucos” para pôr o bloco na rua, a exemplo do PT, que há meses trabalha o nome da chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff.
— Não posso negar que existe uma ansiedade muito grande dentro do partido para que haja uma definição. O partido está louco para ter um candidato, está louco para sair pregando, falando das nossas propostas, do que enxergamos para o futuro do Brasil — afirmou o senador.
Tasso frisou que, “contra a tradição do país”, o presidente Lula se precipitou ao fazer campanha para Dilma. Diante disso, os tucanos deveriam se adiantar, sob risco de prejudicarem sua candidatura. Segundo ele, esperar até março, como quer Serra, significa perder o timing para fechar alianças com vários partidos, que podem embarcar no projeto do Planalto: — Se a partir de janeiro não houver uma definição, pode ser que aí venhamos a perder tempo.
A investida seria a última aposta de Aécio por seu projeto presidencial. Nas conversas com jornalistas, ele não poupou elogios a Serra e não falou mais em prévias. Também parou com as viagens pelo país em busca de apoio. Ontem, disse que as eleições em Minas são uma prioridade pessoal: — Se o partido optar por estender essa decisão, cabe a mim mergulhar nas coisas de Minas, dedicar-me à construção dos nossos palanques, porque tenho uma prioridade pessoal: dar continuidade ao nosso projeto, que se iniciou em 2003.
Aécio frisou que uma eventual desistência de Serra em março não o fará voltar atrás.
— É definitivo. No momento em que me afasto, vou me dedicar integralmente à questão mineira — disse Aécio, que, nesse caso, disputará o Senado
Cúpula do PMDB reage a acusações
Mencionados em gravações de Durval, dirigentes nacionais do partido irão processar empresário
Após atingir o DEM e diversos outros partidos no Distrito Federal, o escândalo envolvendo o suposto pagamento de propinas a integrantes da cúpula do governo local e aliados ganhou ainda mais dimensão nacional ontem com a revelação de que figuras de destaque do PMDB, entre elas o presidente da Câmara Federal, Michel Temer (PMDB-SP), aparecem em gravações como supostos beneficiários do esquema. Irritados com o envolvimento do partido no caso, os peemedebistas pretendem ingressar na Justiça com queixa-crime contra Alcir Colaço, dono do jornal Tribuna do Brasil, que revela numa conversa com Durval Barbosa, ex-secretário de Relações Institucionais do Distrito Federal, o suposto pagamento de propina para Temer e os deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ), Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) e Tadeu Filipelli (PMDB-DF).
O PMDB defende que as denúncias foram motivadas pela disputa pelo governo do Distrito Federal em 2010. O ex-governador do DF Joaquim Roriz (PSC) rompeu com o partido neste ano, o que na leitura de alguns peemedebistas mostra que ele pode ser o responsável pelas acusações.
– A minha suspeição é que seja uma vingança do Roriz pela sua saída do PMDB. Estou indignado com essa situação. Não conheço nenhuma dessas pessoas, nunca nem ouvi falar neles – disse Cunha.
Tadeu Filipelli também enxergou no episódio a ação de Roriz.
Presidente do PMDB-DF, Filipelli rompeu com Roriz neste ano, com o apoio dos caciques do partido, depois que a legenda desistiu de lançar candidato próprio ao governo do Distrito Federal em 2010 para apoiar a reeleição de Arruda. O ex-governador deixou o PMDB e ingressou no PSC para lançar o seu nome na disputa eleitoral.
Antes dos peemedebistas, contudo, o próprio Arruda também atribuiu a Roriz a responsabilidade pelas acusações que pesam contra ele. O governador do DF, suspeito de ser o comandante do esquema, disse em entrevistas que Roriz desejaria “ganhar no tapetão” a disputa de 2010 e por isso teria convencido Barbosa a divulgar imagens que mostram Arruda e alguns de seus principais colaboradores recebendo dinheiro.
Eduardo Cunha disse que já ingressou ontem mesmo com queixacrime contra Colaço na Justiça Federal. Filipelli também confirmou, por meio de assessores, que tomou medida similar. Da mesma maneira, Temer disse que já preparou petições com queixa-crime para apresentar à Justiça do DF. O presidente da Câmara também prometeu tomar “ações judiciais responsabilizadoras”.
– Hoje é um dia de frieza e de tomar providências concretas para revelar que não temos nenhum temor, mas nenhuma preocupação em relação a isso. Disse a respeito da vilania desses atos e, por isso, digo a vocês que hoje, para revelar absoluto destemor, estou tomando providências judiciais – disse Temer.
Henrique Eduardo Alves também teria, segundo assessores, encaminhado documentos para seus advogados tomarem as medidas judiciais contra Colaço. A revelação de que os peemedebistas A menção aos caciques peemedebistas que chancelaram a saída de Roriz do partido no diálogo entre Collaço e Durval foi divulgada ontem pela Folha de S. Paulo.
Na gravação, Barbosa diz que Arruda “dava 1 milhão por mês para Filippelli”. Collaço fala em outro valor e detalha a suposta partilha: – É 800 pau (sic). Quinhentos pro Filippelli, 100 para o Michel, 100 para Eduardo, 100 para Henrique Alves.
A indignação com que os cacique peemedebistas reagiram à acusação de suposto envolvimento no esquema, contudo, não foi suficiente para convencer a totalidade do partido. Ontem, o senador Pedro Simon (PMDB-RS) encaminhou nesta uma carta à presidente interina do PMDB, Iris de Araujo, na qual pede que o partido se explique publicamente sobre a suspeita. Simon afirma, na carta, que o partido precisa dar uma “cabal satisfação” à sociedade para explicar o episódio.
“Precisamos distinguir entre os bons e os maus políticos, os homens públicos de bem e os homens publicamente envolvidos com o mal.
Precisamos exaltar a boa política e execrar a política que virou caso de polícia. É o que espera o Brasil do PMDB. Confio nas suas providências”, diz o senador. Segundo Simon, não basta Temer e os outros três deputados mencionados numa conversa como suspeitos de receber dinheiro do esquema de corrupção se explicarem sobre o episódio. “É preciso mais.
O PMDB precisa dar uma cabal satisfação à opinião pública brasileira, cada vez mais perplexa com o que ouve e vê em imagens e palavras eloquentes pelo conteúdo e despudoradas pelo que mostram”, conclui o senador. (Com agências)
Mensalão petista abateu planos do empresário
Brasília
Com a Justiça em seu encalço, o empresário Alcyr Collaço aportou na capital do País em 2003. Seu plano era comprar o Jornal de Brasília, que passava por grave crise após a prisão de um dos seus donos, Lourenço Peixoto, envolvido com a máfia dos vampiros, integrada por empresários e servidores graduados do Ministério da Saúde, que desviavam recursos públicos mediante a compra superfaturada de hemoderivados e produtos hospitalares.
Peixoto resistiu ao negócio e Collaço partiu, em sociedade com o jornalista Etevaldo Dias, para comprar o jornal Tribuna do Brasil. Seu proprietário, o ex-senador Mário Calixto Filho (PMDB), também respondia a processo criminal por envolvimento em esquema de corrupção em Rondônia, pelo qual acabou cassado e preso. Após meses de barganha, o negócio foi fechado no início de 2005, por cerca de R$ 5 milhões, mas não envolveu pagamento em espécie.
Em junho de 2005, caiu por terra o plano de montar um grande veículo regional ligado à rede petista, por causa do escândalo do mensalão, mesada paga a deputados em troca de apoio a projetos. Em 2006, Etevaldo deixou a sociedade. "Após o mensalão, os anúncios sumiram e o jornal mergulhou em crise, com dívidas se acumulando e atrasos de pagamento de funcionários", disse. Ele não quis comentar o envolvimento do ex-sócio no escândalo da Caixa de Pandora.
Collaço aliou-se ao governo de Joaquim Roriz e foi atraído rapidamente para a Companhia de Desenvolvimento do Planalto (Codeplan), estatal comandada por Durval Barbosa, pivô da operação Caixa de Pandora. O Ministério Público apurou que entre 2003 e 2006, sob o comando de Durval na Codeplan, foi desviado um montante de cerca de R$ 1,2 bilhão. V.M.C
PT vai homenagear mensaleiros
Festa de 30 anos também servirá para comemorar pesquisa que aponta aumento das intenções de voto em Dilma
Vera Rosa e Clarissa Oliveira
O PT fará uma grande festa de fim de ano na terça-feira, em Brasília, na qual vai homenagear todos os ex-presidentes do partido, mesmo os que são réus no processo do mensalão petista, como o ex-ministro José Dirceu e o deputado José Genoino (SP). O ato, que faz parte da série de comemorações pelos 30 anos do PT, ocorrerá na esteira do mensalão do DEM e no momento em que pesquisa Vox Populi, encomendada pelos próprios petistas, aponta entre 22% e 30% das intenções de voto na ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, para presidente.
"A desgraça dos outros não nos interessa", afirmou o tesoureiro do PT, Paulo Ferreira. "Os petistas vão se reunir para comemorar o bom momento do governo Lula e o sucesso da eleição direta, com recorde de participação dos filiados, que escolheu a nova direção do partido."
Embora seja o fundador do PT, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não comparecerá, pois estará em Montevidéu, onde vai participar da reunião do Mercosul. A presença de Dilma não foi confirmada, já que ela deve acompanhar o presidente.
EXPOSIÇÃO
O partido também tem números para comemorar. Afinal, a pesquisa encomendada pelo PT ao Instituto Vox Populi indica que a maratona de viagens e a exposição constante ao lado de Lula surtiram efeito, ajudando a tornar Dilma mais conhecida.
Os dados, obtidos pelo Estado, mostram Dilma com 22% no pior cenário. Ela disputa com o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), que tem 35%, e o deputado Ciro Gomes (PSB-CE), com 13%. A ex-senadora Heloísa Helena (PSOL-AL) obteve 6%, e a senadora Marina Silva (PV-AC), 3%.
Dos 2 mil entrevistados, 55% sabem que Lula apoiará Dilma em 2010. Eram 46% em maio. Outros 48% responderam que "conhecem bem" a ministra, 33% a conhecem "de nome" e 19% não a conhecem ou não responderam. Em maio, eram, respectivamente, 38%, 36% e 26%.
Nos cenários com Serra, Dilma tem suas melhores performances quando Ciro é excluído. Mas é justamente sem Ciro que Serra amplia a vantagem sobre Dilma.
Nos dois cenários em que o governador de Minas, Aécio Neves, é o candidato do PSDB, Dilma lidera.
E a ética não poderá subir nos palanques de 2010
Especialistas dizem que candidatos à Presidência terão que modificar a estratégia para chegar ao Planalto
Carolina Benevides
CORRUPÇÃO DOCUMENTADA: Discussões sobre corrupção e apagão devem passar longe dos ataques eleitorais
Acostumados a subir nos palanques para exaltar suas qualidades e bater nos pontos fracos dos adversários, os candidatos à Presidência da República e a governador terão que pensar em outra estratégia para as eleições de 2010, depois das denúncias de mensalão tanto no PT como no PSDB de Minas e no DEM do Distrito Federal. “O roto não pode falar do esfarrapado”, diz Roberto Romano, professor de Ética e Política da Unicamp: — Como PT, DEM e PSDB têm seu mensalão, acredito que as campanhas serão baseadas nas grandes obras já realizadas. Dilma (a ministra Dilma Rousseff, do PT) não deve abrir mão do PAC, e o Serra (o governador tucano de São Paulo) vai aproveitar para relembrar o que fez quando era ministro da Saúde e as mudanças no governo de São Paulo.
Para Roberto Romano, para evitar assuntos como o mensalão e o recente apagão que atingiu 18 estados e o que aconteceu durante o governo Fernando Henrique Cardoso, em 2001, os candidatos podem apelar para o futuro.
— Projeções sobre o avanço do país ajudam a mudar o foco.
E, ao usar esse argumento, quem tiver mais capacidade de retórica sai na frente. Agora, se essa expectativa de o discurso da ética não aparecer nos palanques se cumprir, esse será um momento inédito no Brasil.
“Não atacar pode ser consenso entre os partidos”
Coordenador de cursos de pós-graduação em Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), Eurico Figueiredo concorda que os candidatos com chance real de chegar ao Planalto vão fazer o possível para não tocar em questões, no mínimo, polêmicas.
— As lideranças partidárias podem costurar um acordo de cavalheiros e fazer com que não atacar seja consenso. Acredito que as campanhas serão feitas em cima de assuntos que não caminhem para a questão ética.
Mesmo o apagão, se aparecer, não deve ocupar muito espaço.
Como a memória popular é curta, isso permite que tanto PT quanto PSDB divulguem os episódios como algo brando.
Segundo ele, os candidatos ditos “menores”, incluindo Marina Silva, pré-candidata à Presidência pelo PV, e Ciro Gomes, se confirmar sua candidatura pelo PSB, talvez sejam os únicos a mencionar o mensalão dos três partidos.
— Ela pode usar o discurso da ética argumentando que sempre foi correta, que não estava no Congresso quando o mensalão do PT veio à tona e que deixou o partido — diz Eurico, afirmando que Marina conseguiria debater até com quem disser que a ex-ministra só se desfiliou do PT quatro anos depois do escândalo. — Basta lembrar que a desfiliação aconteceu quando entendeu que não havia mais condições políticas e que em toda sua vida pública nunca encontraram nada contra ela.
Segundo Eurico, os estragos podem ser grandes para os candidatos à Presidência do PT e do PSDB se Ciro e Marina realmente resolverem bater no mensalão.
— As pessoas começariam a se perguntar: por que os candidatos do PT, do PSDB e do DEM não tocam nesses assuntos? Por que não falam sobre esse capítulo de seus partidos? Isso pode gerar uma reação nada favorável para Dilma e Serra.
Debates podem deixar políticos numa saia justa
Mesmo proibidos no palanque, os episódios do mensalão e do apagão podem deixar os políticos numa saia justa. Segundo David Flescher, professor de Ciência Política na Universidade de Brasília (UnB), os candidatos não conseguirão evitar o assunto durante os debates.
— Vão blindar palanques e até os programas de TV. Ricardo Berzoini, presidente nacional do PT, já deu esse aviso ao dizer que o partido “não é oportunista nem vai baixar o nível”.
Mas mesmo que o PSDB só queira bater na qualidade de gestão do governo Lula e que o PT só pretenda bater no governo FH, nos debates a imprensa e a população fazem as perguntas que acham pertinentes, e elas precisam de respostas.
O roto não pode falar do esfarrapado.
"PT, DEM e PSDB têm, cada um, o seu mensalão"
(Roberto Romano, professor de Ética e Política da Unicamp)
"As pessoas podem perguntar: por que os candidatos do PT, do PSDB e do DEM não tocam no mensalão?”
(Eurico Figueiredo, coordenador de pós-graduação em Ciência Política da UFF)
PT nacional apoia PT do DF no impeachment
Berzoini afirma, porém, que partido não será oportunista
Flávio Tabak
O presidente nacional do PT, Ricardo Berzoini, disse ontem que o partido não será “oportunista” no mensalão do DEM como outras legendas, segundo ele, teriam sido em situações de crise política. Embora o diretório do partido no Distrito Federal tenha pedido o impeachment do governador José Roberto Arruda (DEM), Berzoini disse que o democrata poderá se defender. A executiva nacional da legenda, segundo ele, apoiará as decisões do diretório do DF, que pediu o impeachment de Arruda.
Para o presidente do PT, os vídeos do inquérito da Polícia Federal que mostram a distribuição de dinheiro a políticos e aliados do governo Arruda têm “gravidade muito forte”.
— Qualquer brasileiro que viu as imagens fica muito preocupado e sem saber até onde vai esse tipo de esquema montado no governo do DF.
Mas, diante dessa crise, o PT não quer reproduzir o oportunismo de outros partidos. Temos que aguardar que os fatos sejam conhecidos por completo.
O impeachment e o inquérito terão dinâmicas diferentes.
Talvez o impeachment seja mais rápido — disse Berzoini, em visita ao diretório estadual do PT no Rio.
FH: impunidade causa repetição de escândalos
DEU EM O GLOBO
Antes de Azeredo virar réu, ex-presidente diz que a Justiça é lenta
Janaína Figueiredo
Correspondente
BUENOS AIRES. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse ontem considerar lamentável o escândalo do mensalão do DEM, mas afirmou que ainda é cedo para avaliar o impacto do caso numa eventual aliança eleitoral com o PSDB.
Após um almoço com empresários argentinos em Buenos Aires, e antes de o senador tucano Eduardo Azeredo virar réu em processo no STF, Fernando Henrique disse que “isso tudo (as imagens do mensalão do DEM) são fatos lamentáveis que, infelizmente, estão se repetindo no Brasil e estão se repetindo pela impunidade”.
— Com os anteriores, o que aconteceu? A Justiça é lenta, não dá satisfação. Isso expõe o Brasil de uma maneira negativa desnecessária — disse.
Perguntado sobre o futuro do governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM), FH disse não poder defender a expulsão de alguém que não é de seu partido”. Em relação a impactos eleitorais, comentou que “é preciso ver qual será a reação do DEM. Se for expulsar não pode ser candidato, então o impacto eleitoral será diferente.
Do ponto de vista global não chega a ter impactos maiores.
Mas locais vai ter”.
Vinicius Torres Freire:: A Copa dos mensalões de 2010
DEU NA FOLHA DE S. PAULOExcesso de corruptos, debate político vazio e programas indistintos devem favorecer mais personalismo na eleição
A NOTÍCIA mais importante de hoje, em especial no Brasil, é o sorteio dos grupos da Copa de 2010, com a decorrente definição da tabela dos jogos.
Os brasileiros começaremos a organizar "bolões", os milhares de grupos de apostas ilegais que reforçam nosso senso de comunidade e identidade e revelam que tipo de sapiência é socialmente reconhecida (entender de futebol e faturar uns trocados fáceis). A Copa será disputada entre junho e julho.
Até lá, refletiremos sobre as dificuldades do grupo do Brasil. A Eslovênia é pior que a Dinamarca? A Austrália parece fraca, mas não costuma encrencar com o Brasil? E se a França cair no nosso grupo? Teremos vingança ou a França do gol de mão nos derrubará outra vez?
Em junho de 2010, também teremos conhecido os candidatos a presidente, suas alianças, seus vices e a quantidade e variedade de desclassificados que estarão a apoiar cada chapa.
De quantos bandalheiros nos lembraremos? Quem estava no mensalão do DEM? Do tucanato mineiro? Na lista da empreiteira? Do velho mensalão do PT?
Dos programas dos candidatos não nos lembraremos, pois eles nem devem estar prontos, como tem sido a praxe. Caso estejam, tendem a ser inanidades vagas, que de resto poderão ser renegadas ainda na campanha, como o fizeram o PT em 2002 e o PSDB em 2006. É provável que saibamos mais das manhas de Costa do Marfim e das táticas da Sérvia.
Os escândalos recentes, o mensalão do DEM e o listão da empreiteira, e outros sob juízo, como mensalão do tucanato mineiro, parecem dar pistas sobre quem ficará morto e ferido no caminho para a campanha de 2010. Parecem, mas de fato darão? Em 2002, a fotografia de pacotes de dinheiro empilhado numa mesa derrubou a candidatura de Roseana Sarney a presidente pelo PFL, agora DEM. Agora, o DEM faz pelo menos o esforço de expulsar o quanto antes José Arruda, que governa o Distrito Federal das pacoteiras de dinheiro.
Mas quem da maioria do povo saberá distinguir a pacoteira brasiliense das bandalhas do Senado de José Sarney (PMDB) e da deputalhada que embolsa dinheiros indevidos? Quem vai se lembrar da velha matriz do valerioduto, de origem tucano-mineira, dos talvez candidatos a vices que aparecem em supostos listões de propinas?
A mensalagem do PT foi quase toda eleita, no voto popular, e volta a comandar o partido. Será mais provável lembrarmos que o Brasil costuma passar melhor pela Inglaterra do que pela França.
Nem se trata de dizer que a ocorrência de bandalhas em toda parte torna os partidos iguais, que "zera o jogo" das acusações de mensalagem e enfraquece o "debate ético", sempre uma piada escarninha. Talvez o problema seja o de dificuldade de processar tanta informação ruidosa, pois mesmo para quem lê jornais tornou-se difícil lembrar-se de tantas folhas corridas.
De resto, mas importante, nem há distinções programáticas essenciais ou identificação de políticos com algum movimento social ou de opinião pública relevantes (que aliás inexistem).
Os eleitores não vão votar a esmo. Ao menos não devem escolher a esmo o candidato a presidente. Mas, mais do que de costume, dada a destruição adicional da política, o personalismo deve dar o tom de 2010.
Lula e Merkel divergem em público sobre o Irã
O programa nuclear do Irã motivou divergência pública, em Berlim, entre o presidente Lula e a chanceler alemã, Angela Merkel. Em entrevista coletiva, Merkel disse que a tolerância com o Irã estava acabando e falou em novas sanções; a seu lado, em seguida, Lula pediu "muita paciência" com o país. No mesmo dia, o chanceler Celso Amorim se reuniu com o presidente Mahmoud Ahmadinejad em Teerã.
Lula e Merkel divergem sobre Irã
Questionados, líderes expõem posições opostas durante encontro em Berlim sobre programa nuclear iraniano
Andrei Netto, enviado especial, BERLIM
O programa nuclear do Irã foi motivo de uma divergência pública ontem, em Berlim, entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a chanceler da Alemanha, Angela Merkel. Enquanto a europeia afirmou que a paciência do chamado "sexteto" - Alemanha, França, Grã-Bretanha, EUA, China e Rússia - está acabando, e indicou que sanções contra o governo de Mahmoud Ahmadinejad podem vir a ser adotadas, o brasileiro pediu diálogo e mais confiança no país persa.
A discórdia veio à tona no final de uma entrevista coletiva. Na última pergunta, os dois líderes foram questionados sobre o encontro entre Lula e Ahmadinejad, realizado em Brasília, há dez dias.
Em sua resposta, Merkel admitiu que o tema havia sido tratado na conversa bilateral com Lula, minutos antes da coletiva. "Temos o mesmo objetivo: transparência e cooperação", disse, referindo-se ao Brasil e à Alemanha. Em seguida, Merkel subiu o tom. "Se o diálogo não acontecer, vamos perder a paciência e adotar novas sanções", ameaçou.
Mas, ao tomar a palavra, o brasileiro ressaltou as diferenças. Lula disse ter recebido na mesma semana os presidentes de Israel, Shimon Peres, e da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, além do iraniano. A seguir, contrapondo-se à ameaça de sanções de Merkel, disse: "O melhor e o mais barato para todos nós é acreditarmos no Irã e termos muita paciência."
"Eu penso que tratar o Irã como um país insignificante, aumentando a cada dia a pressão exercida, poderá não resultar em uma coisa boa", justificou. "Como o Irã é um país de uma cultura muito forte, nós precisamos aumentar o grau de paciência, para aumentar a profundidade das conversas."
Lula também lembrou ter conversado com o presidente dos EUA, Barack Obama, sobre o tema. O objetivo, reforçou, é encontrar "uma brecha, um jeito de as pessoas concordarem que a paz é muito mais barata e muito mais eficaz".
Lula também reiterou que a diplomacia brasileira apoia o programa nuclear iraniano, desde que limitado a fins civis. "Nós no Brasil temos enriquecimento de urânio para produzir energia elétrica. E o que queremos para o Irã? O mesmo que o Brasil tem. O mesmo que o Brasil aceita para si, nós aceitamos para o Irã."
O presidente também criticou a moral dos países que cobram Ahmadinejad, mas detêm armas nucleares. "A autoridade moral para pedirmos para outros não terem é a gente também não ter."
Miriam Leitão:: Ele não fala por mim
DEU EM O GLOBOO presidente Lula defendeu ontem, de novo, o programa nuclear iraniano. A defesa do Irã é tão gratuita que causa espanto. Por que defender o indefensável? Ele disse que os Estados Unidos e a Rússia não têm autoridade para criticar o Irã. Não foram apenas esses dois países que condenaram o programa iraniano. O mundo o condenou porque ele não tem nenhuma cara de ser pacífico.
Parte do raciocínio faz sentido, parte não faz.
Quando defende o desarmamento nuclear de todos, Lula representa a maioria do povo brasileiro, a quem nunca interessou o desenvolvimento de armas nucleares.
Mas não faz sentido é a defesa, extemporânea e gratuita, de um governo que se isola da comunidade internacional, que escondeu parte das suas instalações nucleares, que mentiu para a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e que admite que está enriquecendo urânio além do percentual necessário para produzir energia.
O que o Brasil ganha defendendo um país que na semana passada foi condenado na Agência Internacional de Energia Atômica? China e Rússia votaram contra o aliado. O Brasil se absteve. Nada pior do que a abstenção num caso que merece uma posição clara.
Após sete anos de improvisos catastróficos em viagens internacionais, o presidente Lula ainda não entendeu que ele, quando está representando o Brasil, não fala por si, mas pela nação inteira. Portanto, tem que expressar o sentimento coletivo e não seus impulsos.
Não há qualquer clamor no Brasil de defesa do Irã, muito menos do governo Ahmadinejad. Pelo contrário.
A esdrúxula negativa de fatos históricos como o holocausto torna o governante iraniano definitivamente divorciado do pensamento da maioria dos brasileiros. Quando as urnas iranianas exalavam ainda o mau cheiro das fraudes, o Brasil foi o primeiro país a dizer que a eleição dele foi legítima. Até o Conselho de Guardiões do Irã admitiu que houve em cinquenta cidades do país mais votos que eleitores. A repressão ao movimento popular que pedia eleições limpas matou cidadãos nas ruas, como a jovem Neda.
Naquele momento de indignação em todo o mundo com o governo Ahmadinejad, o Brasil se apressou a dar o aval a eleições fraudulentas.
Com Honduras, ocorreu o oposto: o governo brasileiro condenou as eleições antes mesmo que elas tivessem acontecido. E já avisou que não reconheceria o novo governo.
No caso de Honduras e no caso do Irã, o que a política externa perde é o tom. Ser a favor do desarmamento nuclear o Brasil sempre foi. Mas sempre foi também contra a proliferação nuclear. E o Irã neste momento significa, na opinião das maiores autoridades no assunto reunidos na AIEA, o risco de proliferação nuclear. O mais estranho da declaração de Lula é que ela veio depois de ter sido divulgado um comunicado conjunto com a chanceler alemã Angela Merkel, admoestando o Irã a “responder positivamente” e “cooperar inteiramente” com a AIEA e a ONU. Isso sim é o correto e tira o Irã do isolamento.
No caso de Honduras, a posição defendida pelo presidente Lula, seu secretário de Relações Internacionais, Marco Aurélio Garcia, e seu ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, tem a mesma dubiedade. No princípio, foi no tom exato, depois, desafinou. Numa região devastada por golpes de Estado, o Brasil condenou o golpe e a deportação de Manuel Zelaya, no que fez bem. A posição brasileira começou a sair do tom quando deixou de ser a defesa dos princípios democráticos para ser uma militância zelaysta.
O Brasil condenou uma eleição, a priori, e avalizou outra, quando a população ainda estava na rua indignada com as fraudes.
No mensalão do DEM em Brasília, o presidente Lula só encontrou a palavra “deplorável” no segundo dia.
No primeiro, disse: “as imagens não falam por si”. O presidente da República não pode préjulgar. Mas não condenar antecipadamente não é o mesmo que absolver.
Tudo fala por si no escândalo de Brasília: as imagens, os diálogos gravados, as conversas telefônicas, as desculpas improvisadas e mutantes e a hesitação do Democratas. “Aquela despesa mensal com político sua hoje está em quanto?”, disse o governador de Brasília, José Roberto Arruda.
Muita coisa está fora da ordem nessa frase além do pronome possessivo.
O presidente Lula poderia não ter se manifestado. Seria melhor. Mas sua forma de lidar com a imprensa é autoritária como nos governos militares. Naquela época os generais não davam entrevistas coletivas. Eles falavam quando eram abordados em viagens internacionais.
Ao seguir esse modelo, Lula acaba se aborrecendo quando perguntado por essa “coisinha”. Preferia que perguntassem sobre grandes questões internacionais.
Mas, no dia seguinte, brindou seus interlocutores com a defesa dispensável do programa nuclear iraniano.
No Brasil, nunca se viu um movimento de opinião pública a favor do programa nuclear iraniano. Isso não é uma questão por aqui. O que incomoda, machuca, confunde o país neste momento são estas “coisinhas” deploráveis.
Lula quando fala certas coisas deveria esclarecer que fala por si.





