segunda-feira, 20 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais /Opiniões

Na dívida pública, Lula 3 repete Dilma

Por Folha de S. Paulo

Governo projeta passivo de 86% do PIB; sem mudar política fiscal, país estará em risco de novo colapso

É enganoso o argumento de que EUA e Japão possuem dívidas maiores; eles têm capacidade superior de crédito, e gastos com juros são menores

Dada a mixórdia de artifícios contábeis utilizados na apuração dos resultados do Tesouro Nacional ao longo dos últimos anos, hoje o indicador mais claro e confiável para avaliar a política fiscal é a evolução da dívida pública —e ela aponta um fracasso alarmante neste terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

De acordo com as projeções do recém-divulgado projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), os passivos de União, estados e municípios atingirão o equivalente a 86% do Produto Interno Bruto em 2027. A cifra, se confirmada, mostrará alta de 14,3 pontos percentuais ante os 71,7% do PIB do final de 2022.

Inflação de 2028 tira folga do Copom, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

Desancoragem das expectativas de inflação de longo prazo poderá limitar o tamanho do ciclo de corte de juros

O maior desafio do Banco Central na política monetária é a desancoragem das expectativas de inflação de longo prazo. Os sinais recentes não são bons: já houve piora nas projeções para 2028, que ficaram mais distantes da meta, e há indícios de que a tendência continuará.

É pouco provável que isso inviabilize o corte de juros que o Banco Central planeja na reunião da semana que vem, que o mercado aposta que será de 0,25 ponto percentual, para 14,5% ao ano. Mas poderá limitar o tamanho do ciclo de corte - ou seja, poderemos terminar o ano com uma taxa de juros mais alta do que teríamos com uma maior ancoragem das expectativas.

Dívidas minam percepção da economia e governo aposta contra bets, por César Felício

Valor Econômico

Bancarização e abundância de crédito fácil e caro fomentam o aumento da inadimplência

Desemprego em mínimas históricas, inflação na casa de 5% ao ano, renda em alta e PIB em crescimento contínuo, embora baixo, deveriam proporcionar calmaria para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se aventurar em sua reeleição. Pesquisas como a Genial/Quaest da semana que passou deixam claro que não é isso o que acontece e há um consenso de que uma das razões é a corda do endividamento apertando o pescoço das famílias.

Um estudo da LCA Consultores, com base em dados da Serasa e do Banco Central, mostram que o garrote começou a apertar depois da pandemia de covid-19 e subiu degraus de dois em dois no governo Lula. O total de dívidas negativadas passou de R$ 221,2 bilhões para R$ 321,6 bilhões entre dezembro de 2022 e dezembro de 2025.

Entre 2016 e 2020 o número de consumidores inadimplentes ficou oscilando no patamar de 60 milhões de pessoas.

De 2021 para cá saltou para 81,2 milhões.

Impostos aumentam para todos, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

A carga tributária no Brasil tem subido porque o governo a cada ano gasta mais do que arrecada

O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, é contra a taxa das blusinhas. O vice-presidente Geraldo Alckmin é a favor. O chefe deles, o presidente Lula, meio que tirou o corpo fora dessa disputa dentro de seu governo, mas deu a entender que pode engrossar o grupo dos que propõem a extinção desse imposto.

Ocorre que, politicamente, a taxa gerou desgaste para o governo petista. Do ponto de vista da política econômica, a medida faz sentido. Taxa das blusinhas é o nome genérico que se deu ao imposto federal de importação de 20%, aplicado sobre compras eletrônicas em sites internacionais, especialmente nos chineses. Ela foi aplicada a partir de agosto de 2024. E se somou ao ICMS de 17%, cobrado pelos estados desde julho de 2023. Na conta final, o imposto total foi para cerca 40%.

Interesses particulares capturam a cidade, por Irapuã Santana

O Globo

Não fazemos nossa parte e vamos ao Judiciário reclamar de qualquer coisa

Muita gente reclama que o Judiciário se mete em tudo. No entanto é complicado buscar uma solução diferente quando não fazemos nossa parte e vamos até ele reclamar de qualquer coisa.

No último dia 10, o STF precisou se manifestar para permitir a expedição de novos alvarás para demolições, cortes de árvores e construções de prédios na cidade de São Paulo. Isso porque, no final de fevereiro, o Tribunal de Justiça de São Paulo proibiu a emissão desses alvarás até segunda ordem.

Por que Lula deve renunciar à candidatura, por Miguel de Almeida

O Globo

É questão de coerência. Em 2022, ele prometeu, caso eleito, não buscar outro mandato

Lula deve renunciar à intenção de ser candidato. Pelo bem do Brasil e de sua biografia. É questão de coerência. Em 2022, ele prometeu, caso eleito, não buscar outro mandato — seria o quarto. Foi quase uma troca: votem em mim pela última vez. Quem jamais o engoliu, a ele e ao PT, aceitou a permuta. Os eleitores independentes o ajudaram a despachar Jair Bolsonaro. Se, em 2018, a quantidade de votos brancos e nulos foi o equivalente a 8,8% do eleitorado no primeiro turno, em 2022, ano do escambo, mal chegou aos 4,4%, algo como 5,4 milhões de votos. Mas a abstenção superou os 20%. Lula ganhou com a diferença de míseros 2,1 milhões de votos — diferença perto de 1%. E prometeu em sua primeira manifestação:

Lula e o neoliberalismo, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

O petista não foi eleito por seu ‘discurso de esquerda’, mas pela rejeição do eleitor ao seu oponente

Há muito tempo a palavra “neoliberalismo” deixou de ser um conceito do campo econômico para se tornar um “palavrão intelectual”, como observou Rajesh Venugopal, professor da London School of Economics, no Reino Unido. Em artigo publicado em 2015, ele analisou o uso do termo, demonstrando como passou a servir a generalizações teóricas e à descrição de fenômenos sem conexão entre si. De uma delimitação do papel do Estado como regulador da atividade econômica, transformou-se em definição de atitudes políticas autoritárias, ou de imperialismo, ou de uma nova forma de exploração dos pobres pelos ricos, ou até mesmo de massificação de produtos culturais.

Ética pública: um imperativo constitucional, Eduardo Muylaert *

O Estado de S. Paulo

Implantar uma nova cultura ética significa romper com práticas que naturalizam privilégios e confundem o público com o privado

Comportamentos que, na iniciativa privada, levariam à demissão imediata por justa causa tornaram-se corriqueiros em setores da administração pública, inclusive em altas esferas do poder. Práticas incompatíveis com o interesse público passaram a ser tratadas como normais – quando não justificáveis – corroendo a confiança nas instituições e esvaziando o sentido constitucional da ética na gestão do Estado.

“É preciso saber aproveitar as oportunidades”, ouvi certa vez, horrorizado. Traduzindo: mesmo sem roubar, sem incorrer em peculato, a posição de poder – por menor que seja – autorizaria o uso de meios pouco ortodoxos para benefício próprio. Nessa interpretação “generosa”, a passagem pelo poder geraria quase um direito à vantagem. Só os tolos, muito tolos, não o fariam.

Dissonância cognitiva, Denis Lerrer Rosenfield *

O Estado de S. Paulo

Os fatos são obliterados em proveito de uma narrativa que procura conquistar a opinião pública. Uma vez que já perderam no combate, tudo fazem para impor a sua narrativa

O mundo tal como existia a partir da 2 . ª Guerra Mundial desmoronou. Vivemos hoje a sua derrocada progressiva, com o enfraquecimento e o desaparecimento daí resultantes de suas instituições. Os horrores da 2.ª Guerra deram lugar, naquele então, a tratados internacionais que respondiam aos interesses das potências vencedoras. Note-se, todavia, que a paz tinha um significado restrito, válido para a Europa Ocidental, não se aplicando ao Leste Europeu. Enquanto a guerra desaparecia desse território limitado, outrora considerado o centro do mundo, ela proliferava pelo mundo afora. Exemplos são inúmeros nas invasões de Hungria, República Checa e Afeganistão, no Vietnã, na Argélia, no Iraque e várias no Oriente Médio, além das africanas. Tudo sustentado no equilíbrio militar nuclear.

A semente do próximo Fidel, por Oliver Stuenkel*

O Estado de S. Paulo

Trump segue padrão histórico: período de nfluência americana seguido por reação nacionalista intensa

Tudo indica que Donald Trump buscará replicar em Cuba uma estratégia semelhante à que usou na Venezuela: quer transformar a ilha socialista em um país alinhado e submisso aos EUA, sem necessariamente alterar outros elementos centrais do sistema político. Isso pode envolver substituir o atual presidente, Miguel Diaz-Canel, por alternativa mais maleável.

Nos bastidores em Washington, fala-se que Trump está buscando uma espécie de “Delcy cubana”, em referência à líder venezuelana cuja permanência no poder depende, em grande medida, do apoio de Washington. Demandas de Trump incluem compensar cidadãos e empresas dos EUA por propriedades confiscadas após a revolução de 1959.

Efeitos não antecipados da corrupção, por Marcus André Melo*

Folha de S. Paulo

No caso do Banco Master não há efeitos mitigadores do impacto dos malfeitos

No caso do escândalo do Supremo, é a defesa da democracia que tem sido mobilizada

Nada mais atual do que a afirmação do senador Jaques Wagner ao comentar a estratégia de reeleição da presidente Dilma Rousseff em 2014: "Estamos em campanha e tenta-se fazer palanque sobre um tema rejeitado pela população, que é a corrupção... Ninguém ganha eleição dizendo ‘sou honesto’. Até porque ninguém acredita".

A disputa pelo Senado e a armadilha da dispersão, por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

Dados de 1998 a 2022 mostram que candidatos da coligação do governador têm muito mais chance

Desafio é não permitir que votos dos eleitores se diluam entre muitos nomes de um mesmo grupo político

Na última semana, a disputa pelo Senado passou a ocupar mais espaço no debate político. Seja pela pressão de alguns partidos em busca de espaço nas chapas num ano em que estarão em disputa duas cadeiras por estado, seja ainda pela indefinição sobre quem serão os candidatos em alguns estados. A isso se soma o uso abertamente eleitoreiro que o senador Alessandro Vieira fez do relatório da CPI do Crime Organizado.

Voto negro tem poder, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Qual o projeto político dos candidatos para a população negra brasileira?

A realidade já deixou evidente que a falta de consciência social e de letramento étnico-racial afeta diretamente o povo

Com a proximidade das eleições gerais, a pergunta que não sai da minha cabeça é: Ei, senhor(a) candidato(a), qual o seu projeto político para a população negra brasileira?

Indagação semelhante me ocorre em relação a propostas voltadas à proteção, segurança e bem-estar das mulheres. Como se sabe, o público feminino vem sendo atacado sistematicamente em nosso país —a média de feminicídios foi de 4 mortes ao dia em 2025.

Como se lê o kkkkkk em Portugal, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Comparado com os sonoros rárárá, rêrêrê, ririri, rôrôrô e rururu, o kkkkkk é só um cacarejo

Se você escrever kkkkk para sua namorada lisboeta, ela lerá kappakappakappakappa

Os leitores mais regulares desta coluna sabem de minha aversão pelo kkkkkk com que muitas pessoas encerram suas mensagens pela internet. Sabem também de minhas razões para isto. Primeiro, na vida real, ninguém ri kkkkkk, mas de outras maneiras, muito mais ricas. A começar pelo rá-rá-rá, uma explosão aberta e sonora, um brado de bem-estar no mundo. Ou o rê-rê-rê, um riso de desprezo, de ironia. E o ri-ri-ri, uma forma afetiva de rir, embutindo uma crítica ao que se ouviu. E não para por aí.

A íntegra do discurso histórico de Lula em Barcelona

 

Poesia | Sentimento do Mundo, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Joao Gilberto & Tom Jobim - Corcovado