sábado, 18 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Ameaça de Gilmar Mendes a senador é desproporcional

Por Folha de S. Paulo

Reação do ministro do STF viola o princípio constitucional que protege palavras e votos dos parlamentares

Mendes e colegas optam por fechar-se em copas e contra-atacar com superpoderes os críticos que cobram limites e compostura no tribunal

Para um ministro do Supremo Tribunal Federal, há dois modos de lidar com a crise de credibilidade que atinge o colegiado. O mais razoável é admitir que existem problemas de condutas de juízes e de excesso de poder da corte e, a partir daí, entabular uma agenda para corrigi-los com cuidado e equilíbrio.

O segundo é o encastelamento. Faz-se de conta que toda crítica a um colega ou ao modo de operação do tribunal compõe um complô para acabar com a democracia. A partir daí, a receita manda contra-atacar, valendo-se de todo o amplo arsenal hoje acessível a um integrante do STF.

A crueldade como política, por Oscar Vilhena Vieira*

Folha de S. Paulo

Não tem sido fácil cumprir as ambiciosas promessas da democracia

Orbán inspirou líderes populistas e autoritários como Trump, Erdogan, Modi e Bolsonaro

Democratas ao redor do mundo foram tomados por enorme euforia com a derrota de Viktor Orbán nas eleições desta semana na Hungria, após 16 anos no poder. A ascensão de Orbán, em 2010, interrompeu a chamada "terceira onda de democratização", desencadeada pela Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974, a partir da qual dezenas de países ao redor do mundo transitaram para a democracia.

A democratização de países como Argentina, Chile, Brasil, Polônia, Hungria ou África do Sul não se limitou a almejar o estabelecimento de eleições livres e competitivas. Como contraposição à crueldade, à tortura, à censura, ao racismo ou ao arbítrio, inerentes aos regimes autoritários que sucederam, o Estado de Direito, os freios e contrapesos e os direitos humanos tornaram-se elementos constitutivos das novas democracias constitucionais.

Mandantes e mandatários, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

A quarta fase da Operação Compliance Zero foi a primeira disparada sobre bases da delação de Daniel Vorcaro. É informação relevante; porque não será pequena a tentação para que nos satisfaçamos já à primeira oferta de delatados. Paulo Henrique Costa estava dado – cabeça à mesa – fazia tempo. O ex-presidente do BRB – a quem se pagaria propina de R$ 140 milhões – era burocrata cujo poder executivo, num banco público, não lhe dava autonomia para decidir negócio de bilhões. A conta não fecha.

Dívida sai da periferia; chega ao centro, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

A nova era da dívida dos países está criando uma geografia da desigualdade

O Fundo Monetário Internacional (FMI) recentemente reduziu a projeção de crescimento de 2026 do PIB mundial de 3,4% para 3,1% no seu cenário base. Outros cenários apresentam que crescimento pode cair para 2,5% ou até 2%. Alertando que a economia global está sendo testada por choques, enfrentando riscos crescentes e pode entrar em cenário adverso rapidamente. Traduzindo em miúdos: O mundo ainda não entrou em recessão – mas passou a caminhar perigosamente para ela.

Ficar por quê, por Flávia Oliveira

O Globo

O desemprego é o menor da série histórica do IBGE, iniciada em 2012; a recuperação da renda é constante

Esta não é uma coluna sobre Big Brother Brasil, o reality show da TV Globo que adentrou a reta final da 26ª edição. Mas o critério de eliminação do programa cai como uma luva na análise eleitoral a que me proponho. Toda semana, o BBB reúne os integrantes indicados, por voto, ao paredão, e Tadeu Schmidt — a quem abraço e à família pela perda de Oscar, ídolo de todos nós, torcedores do esporte brasileiro — os convida a declarar em meio minuto por que cada um deve permanecer na casa hipervigiada pelo prêmio de R$ 5 milhões. Quem decide é o eleitor — digo, o público.

Matar um para assustar cem, por Thaís Oyama

O Globo

Susto é endereçável não apenas a Alessandro Vieira, mas também aos candidatos que disputarão a eleição para o Senado

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes quer que o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) seja investigado por abuso de autoridade por ter defendido, no relatório da CPI do Crime Organizado, o indiciamento dele e de outros colegas da Corte. O pedido de Gilmar deixou juristas perplexos, dado que a Constituição garante a parlamentares imunidade por suas opiniões. Tendo sido o relatório de Vieira rejeitado pela CPI, o que o senador ali escreveu não passou, dizem, de ponto de vista. Inexiste qualquer “ato de poder” que possa ser qualificado como abusivo.

O vão entre as palavras, por Eduardo Affonso

O Globo

Talvez consigamos produzir similar nacional para a palavra de primeira necessidade neste país

Alguém comentou no X (onde mais?) que blackface é um problema tão grave no Brasil que nem sequer existe palavra em português para designá-lo. Procede. Mas nem tanto.

A falta de timing é um caso sério entre nós, e tampouco encontramos um jeito nosso de expressar essa “sensibilidade para o momento propício de realizar ou de perceber a ocorrência de algo, ou senso de oportunidade quanto à duração de um processo, uma ação etc.”. Perdão, Houaiss, mas timing é melhor.

Brasília 66, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Brasília assistiu a rebeliões e golpes de Estado. Hoje é uma cidade grande, com os desafios inerentes ao seu tamanho, com atividade política própria. O tempo da aventura no Planalto Central terminou

O presidente Juscelino Kubitschek foi objetivo. Concluiu apenas os principais prédios da nova capital da República na data da inauguração: 21 de abril de 1960. Foram terminados o Palácio da Alvorada, o do Planalto, o Supremo Tribunal Federal, o Congresso, o esqueleto da Catedral, os ministérios, a igrejinha Nossa Senhora de Fátima, as duas asas — Sul e Norte —, o Lago Paranoá e poucas superquadras. Os pioneiros terminaram de construir a cidade que hoje é a terceira maior do Brasil, depois de São Paulo e Rio de Janeiro. 

Na década de sessenta, no século passado, Brasília era uma aspiração. O presidente Jânio Quadros, que governou por apenas oito meses e alguns dias, renunciou a seu cargo, fugiu para São Paulo, onde ficou homiziado na base aérea de Cumbica.  Dali foi para o exílio. Quando saiu de Brasília, disse que jamais voltaria a "esta cidade malsinada". Fez uma única obra em Brasília. Ordenou a construção de um pombal na praça dos Três Poderes. João Goulart, o Jango, também não fez nada em favor da cidade. Ele governou do Palácio das Laranjeiras, no Parque Guinle, no Rio de Janeiro.

Quem liderará o futuro do Ceará? Por Juliana Diniz

O Povo (CE)

Ainda não sabemos como se dará a disputa ao governo estadual no Ceará daqui a alguns meses. Embora seja esperado que as definições definitivas das candidaturas se arrastem até o limite do prazo, quando todos os atores podem ponderar os riscos e articular suas composições, observamos, no Ceará, algo além e mais complexo do que o simples manejo do tempo disponível. Em verdade, partidos e lideranças partidárias ainda estão lidando com os efeitos do racha político vivenciado entre PT e PDT no pleito de 2022, e com as consequências disso para os projetos pessoais.

Ex-presidente do BRB pode tentar correr com delação no caso Master, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Aconselhado a delatar antes, Paulo Henrique Costa foi preso na 4ª fase da operação Compliance Zero

Suspeita-se que ele possa ter recebido vantagens financeiras ou de outro tipo para não delatar antes.

Preso na 4ª fase da operação Compliance Zero da Polícia Federal, Paulo Henrique Costa, o ex-presidente do BRB, pode agora ter incentivos para correr e fechar uma delação até mesmo antes de Daniel Vorcaro, dono do Master, que já assinou um acordo de confidencialidade para iniciar a colaboração.

Acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, Costa é suspeito de ter ocultado seis imóveis recebidos como propina, avaliados em R$ 146,5 milhões.

Estamos todos à venda? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Corrupção é fenômeno mais disseminado do que gostaríamos de acreditar

Desonestidade é fruto de negociação interna entre ganho material e autoimagem

Sou meio ingênuo para esquemas de corrupção e outras promiscuidades público-privadas. Já há anos me queixo do circuito Elizabeth Arden de palestras e viagens de ministros do STF. Acreditava, talvez tolamente, que os atrativos oferecidos para conquistar a boa vontade de julgadores ficavam mais ou menos limitados à hospitalidade de luxo e outros prazeres efêmeros. A percepção de que os arranjos podem envolver significativo aumento patrimonial foi, para mim, um pouco chocante.

Governador em exercício trava máquina bolsonarista no Rio, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Ricardo Couto decreta auditoria e exonera aliados de Cláudio Castro

Homem das rachadinhas do filho 01, Queiroz virou subsecretário à beira-mar

Saquarema é um dos principais destinos do surfe no Brasil. Desde o ano passado, quem tira onda por lá é Fabrício Queiroz, o homem das rachadinhas de Flávio Bolsonaro.

O repórter Bernardo Mello revelou que Queiroz, sob o abrigo de aliados do antigo chefe, virou o subsecretário de Segurança e Ordem Pública da cidade. Queimado de sol e com óculos escuros, ele posa de xerife local. A nomeação foi um ajuste entre o ex-prefeito Antonio Peres, que comanda o diretório municipal do PL, e o filho 01.

Vamos conversar sobre o poder do Estado em uma sociedade sem limites claros, por Antônio Márcio Buainain*

Jornal da Unicamp

"A questão, portanto, não é apenas se o Estado sabe o que fazer, mas se ainda consegue, de fato, fazer valer suas decisões"

Nas conversas anteriores neste espaço, discutimos diferentes manifestações de um mesmo problema. Primeiro, o descompasso entre um Estado desenhado para uma realidade que já não existe mais e uma sociedade que mudou de forma acelerada. Depois, a emergência quase permanente governos funcionando sob a pressão de crises sucessivas. Em seguida, as dificuldades da proteção social em um contexto de envelhecimento, transformação do trabalho e reconfiguração das famílias. Em todos esses casos, a conclusão apontava na mesma direção: decisões difíceis precisariam ser tomadas, prioridades precisariam ser estabelecidas, e escolhas precisariam ser sustentadas ao longo do tempo. Mas é justamente isso que, em boa medida, já não estamos conseguindo fazer.

A Guerra do Irã e seus impactos fiscais, por Marcus Pestana

Há mais de seis semanas, a economia mundial sofre os efeitos da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. O conflito militar afetou uma área expandida envolvendo Arábia Saudita, Catar, Bahrein, Iraque, Kuwait e Líbano. O brusco aumento dos preços do petróleo, principal insumo ainda com capacidade de afetar a matriz energética global, as cadeias produtivas e os fluxos comerciais internacionais, lançou a economia em uma espiral de incertezas e temores. O salto da cotação do petróleo Brent de US$ 71 para mais de US$ 100 o barril acendeu a luz amarela sobre a possibilidade de um ciclo marcado por aguçamento da inflação mundial, retração do comércio e da economia, comprometimento das cadeias logísticas, ou mesmo crise energética persistente, a depender do nível de comprometimento da estrutura produtiva petrolífera do Oriente Médio.

Não é (só) a economia, por Cláudio Couto

CartaCapital

Ela importa na decisão de voto, mas não explica tudo

Passada a desincompatibilização dos ocupantes de cargos no Executivo que pretendem concorrer nas eleições, fica claro o quadro da disputa presidencial e nos estados. Salvo surpresas, as candidaturas ao Planalto estão postas: Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão), Cabo Daciolo (Mobiliza), Aldo Rebelo (DC) e Samara Martins (UP). Além da possível postulação de Romeu Zema (Novo), há o balão de ensaio da candidatura de Ciro Gomes (PSDB). É, porém, improvável que o cea­rense desista de uma candidatura forte na disputa pelo governo de seu estado para entrar num jogo embolado e com pouco espaço para crescimento de candidaturas alternativas a Lula e Flávio.

Juntar os cacos, por Jamil Chade

CartaCapital

Restabelecer a democracia na Hungria não será tarefa fácil, avalia Lajos Bokros, ex-ministro das Finanças

A Hungria viveu uma experiência única nos últimos 16 anos. Descobriu, em plena luz do dia, como morrem as democracias. Com a derrota nas urnas de Viktor Orbán, o país tem tudo para entrar em uma nova fase, inédita no século XXI no Ocidente: como renascem as democracias. Na entrevista a seguir, o ex-ministro das Finanças da Hungria, Lajos Bokros, não esconde o entusiasmo com o fim do governo Orbá­n, denuncia o que chamou de “Estado mafioso” criado pelo líder da extrema-direita e destaca que o trabalho de reconstrução de uma democracia liberal será enorme. Bokros liderou a economia húngara nos primeiros anos após o fim da Guerra Fria e foi parlamentar europeu depois da adesão da Hungria à UE.

Guerra imoral, por Aldo Fornazieri

CartaCapital

Mesmo com toda a inferioridade militar, a heroica resistência dos iranianos está impondo uma derrota política e moral aos EUA e Israel

Sempre foi uma tarefa espinhosa estabelecer relações entre política, interesses de Estado, guerra e moralidade. Atribui-se a Maquiavel a formulação da autonomia da política em relação às normas morais. Já a guerra, como disse Clausewitz, é a continuação da política por outros meios. De todo modo, é certo que a moralidade da política e, por consequência, da guerra difere da moral do cidadão e do senso comum.

A conduta dos Estados modernos tem sido marcada por duas leis interdependentes: a lei da conservação e, dela derivada, a lei do conflito pela sobrevivência. Por isso, estudiosos afirmam ser ainda mais difícil estabelecer uma conexão entre moralidade e política internacional, já que esta frequentemente desliza para conflitos armados.

Punitivismo progressista, por André Barrocal

CartaCapital

Lula promete criar o Ministério da Segurança e espera por mais poderes do Congresso para atuar na área

Os brasileiros estão inseguros por causa da criminalidade, e não é de agora. Esse sentimento faz com que confiem menos nos outros e se tornem mais punitivistas, ou seja, queiram soluções “linha-dura”, como a redução da maioridade penal e a pena de morte. Entre mulheres, negros e aqueles que ganham até um salário mínimo, a preocupação com o crime é ainda maior do que a média. Esse quadro foi descrito em um livro do ano passado, O Brasil no Espelho, baseado em 9,9 mil entrevistas realizadas no fim de 2023. É um guia para entender uma guinada de Lula e do governo. Está em marcha no lulismo a construção de uma espécie de “punitivismo progressista”, com o qual o presidente pretende melhorar o ibope e as chances de reeleição.

Máquinas de pensar? Por Manfred Back e Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

Seu avanço oculta o monopólio de dados e ajuda a bloquear o pensamento

“…a tirania da IA preside ao nascimento de uma besteira desconhecida até agora – a estupidez artificial – espalhada por toda parte, nas telas e redes informáticas. Então a besteira natural pode ganhar nobreza como loucura.”
(Jean Baudrillard)

Inteligência Artificial vs. Artificial Inteligência, eis a questão, diria ­Hamlet! Seria a destruição criadora ou a destruição destruidora?, diria Schumpeter. No artigo Máquinas de Computação e Inteligência, Alan ­Turing, em 1950, fez um teste, criou uma máquina para verificar se a inteligência das máquinas seria equivalente à inteligência humana. Testou se a inteligência dita artificial é inteligência ou não.

Alan Turing faz uma premonição: “Acredito que a pergunta original, ‘as máquinas podem pensar?’, é insignificante demais para merecer discussão. No entanto, acredito que, no final do século, o uso das palavras e a opinião geral das pessoas instruídas terão mudado tanto que será possível falar de máquinas pensantes sem esperar ser contrariado”.

Poesia | O Correr da Vida, de Guimarães Rosa

 

Música | João Gilberto - Brasil Pandeiro (1982), de Assis Valente