terça-feira, 28 de abril de 2026

Guerra pode decidir eleição brasileira, por Christopher Garman*

Valor Econômico

O custo dos alimentos é central para a popularidade do presidente Lula

A eleição presidencial deste ano dá sinais de que será apertadíssima — e o fiel da balança pode vir do Oriente Médio. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva começou 2026 com uma aprovação de 48%, mas viu esse percentual recuar para 44%. Sua vantagem sobre os candidatos de oposição se evaporou, e várias pesquisas agora mostram Flávio Bolsonaro à frente do presidente em simulações de segundo turno por um ponto percentual, dentro da margem de erro.

Historicamente, a aprovação de um governante sobe nos meses que antecedem a eleição, seja em virtude de programas implementados que aumentam sua popularidade, seja porque o governo tem tempo para “vender seu peixe” ao eleitorado. Esse movimento ainda pode acontecer no Brasil: o governo está prestes a anunciar um programa de renegociação da dívida das famílias, e o Congresso caminha para aprovar o fim da escala 6x1. Ambas as medidas podem trazer algum ganho para a candidatura de Lula e explicam, em parte, por que a Eurasia Group ainda o considera um ligeiro favorito.

Neste cenário, a maior ameaça à reeleição do presidente está a milhares de quilômetros: no Oriente Médio. Nas reuniões do Fundo Monetário Internacional realizadas em meados deste mês em Washington, os presentes discutiram não apenas as repercussões do fechamento do Estreito de Ormuz, mas também se a crise está caminhando para o fim. O consenso foi que, caso a guerra não termine em breve, a restrição da oferta de combustíveis e fertilizantes gerará fortes repercussões inflacionárias. O Brasil está mais bem posicionado que seus pares por ser um produtor de petróleo. Mas o choque inflacionário de uma guerra prolongada certamente pode gerar um buraco político grande demais para que Lula consiga escapar.

Se, entre janeiro e março, a queda na aprovação do presidente veio provavelmente na esteira do escândalo do Banco Master, que aumentou a relevância do tema corrupção entre os eleitores, agora é a guerra no Oriente Médio — através de seus reflexos econômicos — que pode começar a prejudicar os números de Lula. E a crise já deu seus primeiros sinais: no último mês, a gasolina e o diesel tiveram altas de dois dígitos nas bombas, e os preços dos fertilizantes começaram a afetar os alimentos, alimentando o mau humor da população com o custo de vida. Uma pesquisa Genial/Quaest realizada em abril mostra que 72% acham que os preços dos alimentos subiram nos mercados, ante 58% que reportaram o mesmo em março. Já a parcela dos pesquisados que afirmaram que seu poder de compra caiu em relação ao ano passado subiu de 64% em março para 71% este mês.

Parte da alta de preços dos alimentos é sazonal. Mas se os governos dos EUA e do Irã não chegarem a um acordo em breve, os preços nas gôndolas tendem a subir ainda mais. Não tanto como efeito da alta do petróleo (o governo tem instrumentos para mitigar a alta do diesel e de combustíveis com subsídios e redução de impostos), mas pela falta de fertilizantes e diesel se o trânsito pelo Estreito de Ormuz não for normalizado ao longo de maio. Nesse caso, a capacidade do governo para conter a alta de preços será muito mais restrita.

Muitos analistas argumentam que a eleição deste ano não será definida pela economia. Mas basta ver o comportamento dos índices de aprovação de Lula em 2025 para averiguar o quão central é o custo dos alimentos para sua popularidade. A alta de quase 8% nos preços dos alimentos vista entre o final de 2024 e o início de 2025 puxou a queda na aprovação de Lula de 49% para perto de 42% no primeiro semestre do ano passado. Já a recuperação dos números do presidente, que muitos atribuíram ao tarifaço do governo norte-americano, deveu-se principalmente a cinco meses de deflação nos preços dos alimentos no segundo semestre.

Assim, os desdobramentos da guerra no Irã ao longo de maio podem ser decisivos para os resultados da eleição brasileira de outubro. Se Washington e Teerã chegarem a um acordo que leve ao início de uma abertura do Estreito (o que a Eurasia Group considera provável), o impacto inflacionário tende a ser transitório. O presidente Lula ainda veria sua aprovação cair em maio com o aumento de preços decorrente da crise, mas essa tendência poderia ser revertida ao longo de junho e julho — apoiada não só no fim da escala 6x1 e no programa de renegociação de dívida, mas pelos programas aprovados em 2025, cuja implementação está sendo concluída agora, incluindo as ampliações do Gás do Povo e da Tarifa Social e a isenção do Imposto de Renda para a classe média.

Se, no entanto, a crise no Irã persistir (uma possibilidade real) e a renda das famílias for afetada, as repercussões para os consumidores brasileiros serão maiores — e podem fazer a diferença no resultado das urnas.

*Christopher Garman é diretor-geral do Eurasia Group.

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