O Globo
Telegramas reunidos em novo livro revelam que
Fiesp criou falso fundo educacional para financiar centro de tortura
No fim de 1971, o comandante do II Exército,
general Humberto de Sousa Melo, procurou a Fiesp com um pedido. Queria dinheiro
dos empresários paulistas para montar o DOI-Codi, sucessor da Operação
Bandeirante.
O americano Thomas Romanach, presidente da
General Electric do Brasil, foi convidado para as conversas. Entusiasmado com o
que ouviu, recrutou outros executivos de multinacionais para abastecer a
caixinha da repressão.
As reuniões são detalhadas em “Olhares ianques: A ditadura brasileira nos arquivos americanos”, novo livro do historiador Felipe Loureiro. Professor da USP, ele leu centenas de telegramas diplomáticos em busca de novos dados sobre a colaboração entre o empresariado e os porões do regime.
Num dos encontros, o general Humberto disse
falar em nome do ditador Emílio Médici, exaltou a “luta contra a subversão e o
terrorismo” e se queixou da “escassez de recursos do II Exército para
prosseguir com esse combate”.
Era a senha para começar a passar o pires. O
militar pediu doações para comprar armas, veículos e aparelhos de comunicação.
Também enfatizou a necessidade de “construir e equipar uma sala para interrogar
prisioneiros” — referência pouco sutil ao local onde presos políticos seriam
torturados.
As tratativas eram relatadas a Washington por
diplomatas graduados, como o embaixador William Rountree e o cônsul Robert
Corrigan. Além de Romanach, os telegramas identificam a participação dos
executivos americanos Mack Verhyden, da Caterpillar, e Lou Rossi, da DuPont. Do
lado brasileiro, as conversas eram lideradas pelo presidente da Fiesp,
Theobaldo de Nigris.
O apoio das multinacionais foi selado em
almoço com o comandante do II Exército na Câmara Americana de Comércio. Além do
presidente da Fiesp, foram ao repasto outros seis figurões do empresariado
paulista: Nadir Dias de Figueiredo, Luís Dumont Villares, Carlos Eduardo Paes
Barreto, Daniel Machado de Campos, José Papa Júnior e Justo Pinheiro da
Fonseca.
Os telegramas revelam uma artimanha para
mascarar o financiamento do DOI-Codi. As empresas doavam o dinheiro a um falso
fundo educacional da Fiesp, que emitia recibo e repassava os recursos à
repressão. Em conversa com o embaixador Rountree, o presidente da General
Electric defendeu a gambiarra. Disse que “meios heterodoxos e às vezes
estranhos de fazer as coisas” não eram incomuns no Brasil.
Fantoches políticos
O vídeo da campanha de Romeu Zema que irritou
o ministro Gilmar Mendes recicla uma técnica antiga: o uso de fantoches na
sátira política.
Os bonecos foram popularizados pelo Spitting
Image, lançado em 1984 pela britânica ITV. O programa debochava da família
real, da premiê Margaret Thatcher e da oposição trabalhista.
O formato foi importado por Agildo Ribeiro,
que também fazia humor suprapartidário. Interagia com fantoches de Sarney,
Brizola, Lula, Collor e Maluf.
Agildo no País das Maravilhas estreou em 1987 na TV Bandeirantes. Seu tema de abertura continua atual: “Ai, Brasil! Ai, Brasil! Qualquer dia a gente acorda, vai olhar e ele sumiu...”.

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