terça-feira, 28 de abril de 2026

Choque Zema x Gilmar abre campanha, por Fernando Gabeira

O Globo

Se a Polícia Federal for acionada para defender o Supremo de ataques, corre o risco de ser soterrada pela demanda

São evidentes os sinais de que a campanha começou. Lula ironiza Trump porque sabe que o presidente americano será um bom cabo eleitoral para ele e um transtorno para o adversário. No capítulo das polêmicas, o debate Romeu Zema x Gilmar Mendes teve grande destaque. Zema é azarão, a julgar pelas pesquisas. Mas tem um marqueteiro audacioso, que fez animação criticando os ministros do STF. Gilmar saiu para o debate, dando entrevistas a jornalistas, sem escolher os mais camaradas. O resultado foi uma grande exposição do ministro e, provavelmente, um ligeiro avanço de Zema nas pesquisas.

Gilmar expôs muitos aspectos de sua personalidade que não eram tão conhecidos. Começou por criticar a maneira como Zema falava, “algo parecido com o português”. O ministro chegou a pensar que era o idioma falado em Timor-Leste. Zema pode ser complicado, mas fala com um sotaque mineiro. Suponhamos que uma ou outra palavra não seja usual. Mas, com base nessa premissa, consideraríamos o “Grande Sertão” de Guimarães Rosa um verdadeiro atentado.

Parece que os mineiros gostam de brincar com as palavras. Outro dia vi nas redes uma linda jovem mineira ensinando xingamentos: estrupício, energúmeno, marmota e songamonga. Quando cobri a Farra do Boi, ritual hoje proibido, notei que os moradores do litoral falavam também com forte sotaque, marcado pela colonização açoriana em Santa Catarina. No Rio Grande do Sul, conheci um dialeto de origem italiana falado por todos na cidade. Era o talian. Alguns sinais de trânsito na cidade de Serafina Corrêa também eram nesse dialeto.

A diversidade aconselha a não se escudar no português castiço. Mas esse foi apenas um detalhe na longa exposição de Gilmar. Ele reclamou que o Brasil tem 180 milhões ou 200 milhões de juristas, reproduzindo aquela frase de que o país tem 200 milhões de técnicos de futebol. Isso acontece porque somos apaixonados por futebol, e muitas vezes a pressão sobre o técnico acabou levando a soluções bem-sucedidas. Qual é o problema de termos 200 milhões de juristas? O tema deveria ser proibido para os não especializados?

Gilmar não só aconselhou a investigar Zema, como afirmou defender que o inquérito das fake news dure até depois das eleições. É uma certa superestimação dos poderes de Alexandre de Moraes, acossado pelo escândalo do Master. Se a Polícia Federal for acionada para defender o Supremo de ataques, corre o risco de ser soterrada pela demanda. As críticas ao Supremo são inevitáveis. As mais duras, sem dúvida, virão da direita, mas a esquerda também propõe uma reforma do Judiciário.

A proposta de levar o inquérito das fake news até as eleições, sem dúvida, é o aspecto mais grave da temporada de entrevistas de Gilmar. Tem um viés intimidativo que acaba revelando uma posição autoritária, sugerida pelo elitismo no idioma e pela crítica à participação popular nas decisões jurídicas.

Sou um desses 200 milhões de juristas. Achei um absurdo o inquérito das fake news quando foi aberto. Foi uma reação ao trabalho da Receita, que investigava as contas das mulheres de Gilmar e Toffoli. Protestei contra a censura à revista Crusoé e pedi que Moraes e Toffoli renunciassem aos seus cargos. Era um pedido ingênuo, mas considerava muito grave o desrespeito à liberdade de expressão. Se tivessem ouvido aquele apelo, pelo menos não estariam tão enroscados como agora.

 

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