sábado, 21 de março de 2020

Merval Pereira - Aos trancos e barrancos

- O Globo

Quase totalidade dos consultados está muito pessimista quanto aos impactos do coronavírus sobre a economia

A inquietação da sociedade brasileira segue em progressão geométrica, qual o corona vírus Covid-19, e a insatisfação com a ação do governo, especialmente do presidente Jair Bolsonaro, que volta e meia tenta minimizar a gravidade da situação, começa a se manifestar nas redes sociais e em panelaços, por enquanto ainda restritos a capitais.

Para mapear expectativas relativas à intensidade e à duração dos impactos da crise global provocada pela Covid-19 sobre a economia brasileira, o economista Claudio Porto, fundador da Macroplan, consultoria especializada em análise prospectiva e estratégia, conduziu na segunda semana de março sondagem junto a um grupo de 150 pessoas de todo o país, entre eles economistas, sociólogos, cientistas políticos, engenheiros, gestores sênior de empresas pesquisadores e professores de universidades.

O resultado desta sondagem evidencia que a quase totalidade dos consultados está muito pessimista quanto à intensidade dos impactos do Corona vírus sobre a economia brasileira: 86% acreditam que será alta ou muito alta. Já quanto a duração da crise, a convergência é menor: 59% acreditam que será muito curta ou curta, enquanto 41% acreditam que será longa ou muito longa.

Ascânio Seleme - Bolsonaro parece inoculado por um cognitusvírus

- O Globo

Presidente tumultua o trabalho dos outros e confunde a população

Por que Jair Bolsonaro não consegue fazer a coisa certa? Difícil responder a esta pergunta sem entender a cabeça confusa do presidente, que em pouco mais de um ano jogou por terra quase todo o seu capital político. Não se trata de compreender apenas seu comportamento na epidemia de coronavírus, embora essa seja a evidência mais clara de sua incapacidade, mas sim os sucessivos equívocos que vem cometendo desde a sua posse. A resposta mais adequada talvez se encontre avaliando a sua capacidade cognitiva usando como ponto de vista a política.

O Brasil experimentou mais de duas décadas de governos de centro-esquerda, com os oito anos de Fernando Henrique, outros oito de Lula e mais seis anos de Dilma. Desde o primeiro mandato de FH, os presidentes do Brasil foram inteligentes o suficiente para entender que, depois de empossados, o discurso de campanha deve obrigatoriamente mudar. Os três citados abriram seus leques e expandiram seus horizontes de maneira a tentar atender aos anseios e às demandas de todos os brasileiros.

FH governou sempre com maioria no Congresso e conseguiu até mesmo o apoio do PT ou de parte dele em votações importantes. Com essa maioria aprovou a emenda da reeleição e foi reeleito no primeiro turno. O ex-presidente tucano era agregador, sabia jogar com o time. Muitas vezes preferia contrariar seu próprio partido em benefício de aliados. Sabia depois compensar os companheiros que momentaneamente eram deixados de lado.

Ricardo Noblat - Se não quiser cair mais cedo, melhor que Bolsonaro feche a boca

- Blog do Noblat | Veja

Ameaças mortais

No dia em que se convenceu em definitivo que o coronavírus passou como uma retroescavadeira sobre a política do ministro Paulo Guedes, o governo foi de uma precisão espantosa ao anunciar o que está por vir, e o presidente Jair Bolsonaro outra vez terrivelmente irresponsável no combate que trava com a realidade.

Está por vir, este ano, um crescimento do PIB estimado em 0,02%, capaz de provocar saudade do pibinho de 1.1% de 2019, que, por sua vez, deu saudade do PIB de 1,3% legado a Bolsonaro pelo ex-presidente Michel Temer. Por que um crescimento de 0,02% e não de 0,03% ou de 0,01%? Pergunte ao Guedes.

Melhor, não. O ex-Posto Ipiranga havia perdido parte do seu brilho desde que assumira o cargo. O coronavírus encarregou-se de apagá-lo. São coisas que acontecem. A culpa não é dele. Guedes tinha o sonho de passar à História como o autor da proeza de ter reformado o Estado como nenhum dos seus antecessores o fizera.

Bolsonaro atrapalhou parte do seu sonho. O vírus, o que restava. Nem pensar que pedirá demissão de novo. Pediu três vezes. Há controvérsia a respeito: dizem que foram quatro. Mas essa não é a hora de pedir de novo. Soaria a deserção com medo do tsunami que se avizinha. O mar recuou. Vem onda gigante.

Só não vê quem não quer ou é cego. Economia não é uma ciência, embora os economistas se comportem como se fossem cientistas. Há previsões para todos os gostos sobre o tamanho do PIB ao final do ano e uma única certeza: ele afundará. 2020 será mais um ano perdido, e tudo indica que o próximo também.

Míriam Leitão - O PIB desaba e o governo erra

- O Globo

Governo reduziu o crescimento para zero, mas está atrasado. O país terá PIB negativo e a recessão será menor, a depender da rapidez do governo

Apenas nove dias depois de ter revisto o crescimento do PIB para 2,1%, o Ministério da Economia fez nova revisão para zero. Isso mostra a rapidez dos acontecimentos e a lentidão das projeções do próprio governo. O número 0,02%, desenhado assim para não entrar no negativo, será sem dúvida revisto novamente. O país está entrando em recessão e o ano de 2020 terminará com o encolhimento do PIB. A torcida é para que haja capacidade de mitigar a queda.

Essa revisão para 0,02% significa que pelo menos R$ 70 bilhões de receita não entrarão nos cofres públicos. Ao mesmo tempo o Tesouro precisará gastar muito mais, num valor que ainda não foi quantificado. Mas se, por hipótese, numa projeção otimista, ele tiver uma despesa extra de 1% do PIB para enfrentar a crise, o déficit que estava previsto em R$ 124 bilhões vai superar R$ 260 bilhões. O mais urgente agora é evitar o colapso do sistema de saúde, e proteger todo um vasto contingente de brasileiros que está ficando sem capacidade de geração de renda.

O presidente Bolsonaro continuou errando ontem. No mundo os governos tomam medidas cada vez mais duras e ele usou ontem a palavra “gripezinha” para definir o coronavírus e de novo brigou com governadores. Não faz sentido que numa crise deste tamanho o presidente da República se preocupe com picuinhas ou entre em competição com os líderes dos entes subnacionais, que tenham que escrever cartas ao presidente. Bolsonaro deveria estar liderando, deveria estar desobstruindo os canais de diálogo, deveria ter entendido o que o mundo inteiro está dizendo: estamos diante de uma crise sem precedentes.

Hélio Schwartsman - Bolsonaro, um risco ambulante

- Folha de S. Paulo

Despreparo do presidente é não só intelectual como emocional

Que Jair Bolsonaro não tem nenhum preparo para ser presidente nós já sabíamos desde antes da eleição. Mas, como o povo é soberano e o povo o escolheu para nos liderar, restava a esperança de que seu mandato transcorresse sem maiores regressões.

Ele tentaria impor sua agenda obscurantista, mas as instituições resistiriam. Alguns retrocessos seriam inevitáveis, mas ao menos as ideias mais aparvalhadas não chegariam a materializar-se no nível de leis e emendas constitucionais. Mesmo a regulamentação infralegal, que depende só da caneta presidencial, poderia ser desfeita pela Justiça nos casos mais gritantes, como de fato ocorreu.

Isso, porém, é passado. Agora, tudo mudou. Topamos com um cisne negro —a Covid-19 e seus desdobramentos econômicos— que exigiria um governante à altura dos desafios. Alguns líderes crescem na crise. Bolsonaro não é um deles.

Julianna Sofia – Descalabro

- Folha de S. Paulo

'Jabuti' regulamenta aumento nos contracheques desses servidores

À realidade de milhões de brasileiros na miséria, de muitos prestes a perder a capacidade de gerar renda e de outros milhares que serão submetidos à redução de jornada e de salários para manter o emprego, a Câmara dos Deputados contrapôs um feito insólito. Um descalabro diante do mergulho econômico que o país se prepara para dar.

Na noite de quarta (18), deputados aprovaram o que na cartilha brasiliense se convencionou chamar de jabuti, elemento estranho ao objeto de uma proposta legislativa. Na votação da medida provisória do contribuinte legal, foi incluído um contrabando que beneficia os fiscais da Receita com aumento em seus contracheques ao regulamentar um bônus de eficiência criado por lei em 2017.

Devido à ausência de regulamentação, o benefício vem sendo pago em montantes fixos de até R$ 3 mil a servidores ativos, aposentados e pensionistas. Coisa de R$ 1 bilhão anual para um Estado quebrado, que padece com sucessivos déficits primários (sem os custos da dívida pública) desde 2014.

Alvaro Costa e Silva - Como se põe essa máscara?

- Folha de S. Paulo

'Quem é aquele haitiano para me lançar vodu? Eu não acabei, eu não acabei!'

“Como se põe essa máscara? Não estou enxergando nada. Agora sim, parece que acertei. Reconheço: estou morrendo de ciúmes do coronavírus. Conseguiu fechar bares, restaurantes, shoppings, academias, deixar as ruas e as praias vazias, interromper as novelas da Globo, paralisar o futebol. Mas sou mais forte do que ele. Só eu posso existir, mais ninguém nem coisa nenhuma”.

“O Trump me disse que o vírus é uma construção de laboratório, uma arma secreta que os Estados Unidos estavam guardando para uma emergência. Uma espiã conseguiu roubá-la. Aí o governo chinês espalhou a desgraça, de propósito, causando crise nos mercados globais para comprar, na baixa, petróleo e ações das empresas de tecnologia. Estão lucrando trilhões de dólares, às nossas custas. Foi assim com a gripe suína, que os chinas também espalharam. Mas comigo, não”.

“Me nego a mostrar os exames. Se eu peguei o corona, é um problema só meu. O povo sabe disso e está comigo. Um levantamento do gabinete do ódio mostra que, durante os protestos a meu favor, tive contato direto com 300 pessoas, fiz 120 selfies, chutei o boneco Pixuleco e, como se subisse a rampa do Maracanã, corri em delírio empunhando a bandeira do Brasil. Isso é o que importa. O resto é fantasia, histeria, neurose, um problema para lá de superdimensionado, mentira da extrema imprensa. Em matéria de velhinhos, a Itália é uma Copacabana. Todo mundo sabe que esse vírus é igual bebê: demora para chegar”.

Demétrio Magnoli* - A tentação dos esclarecidos

- Folha de S. Paulo

Não declaremos uma guerra ao coronavírus cujas vítimas serão os sem patrimônio, cartão de crédito e investimentos

Trump qualificou o vírus como um “embuste dos democratas” pouco antes da avalanche em Wall Street lançá-lo a algo parecido com a realidade. Um papagaio brasileiro chamado Jair tratou-o como uma invenção da mídia perniciosa, isolando-se no poço da ignorância.

Diante disso, a reação das pessoas esclarecidas foi agarrar-se ao mastro da razão para vencer, antes que seja tarde, a batalha contra a estupidez. No passo seguinte, ainda em curso, o apego à voz da ciência transmuta-se em fanatismo científico e fundamentalismo epidemiológico. Hoje, esse perigo supera o da já desmoralizada negligência.

Vamos mesmo —nós, esclarecidos— partir para o elogio da China? Médicos chineses alertaram para a doença em dezembro, mas foram silenciados. Esqueceremos tão cedo, em nome de uma ilusória “ética de resultados”, que a Covid espalhou-se precisamente naquelas semanas de camuflagem e repressão? A vigilância cibernética dos cidadãos galgou novo patamar permanente, junto com o avanço do vírus. Festejaremos o Grande Irmão como aliado e exemplo, em nome da saúde pública?

Ouve-se, dos esclarecidos, um clamor crescente por medidas extremas. A Itália paga o preço da displicência com a moeda do “lockdown” compulsório. Macron pescou no lago do senso comum a palavra “guerra” para descrever uma emergência sanitária.

Guerra tem implicações: leis de exceção, justiça sumária, censura. Quem pede quarentenas coletivas forçadas está disposto a justificar suas ramificações lógicas? Sacrificaremos as liberdades civis no altar de uma guerra fabricada por artifício retórico? Concederemos, os esclarecidos, um AI-5 sanitário a Bolsonaro?

Marcus Pestana - O vírus nosso de cada dia

A população assiste apreensiva, angustiada e perplexa, os desdobramentos da pandemia do novo Coronavírus. E nessa hora, todos têm que se somar a um enorme mutirão social para assegurar as medidas preventivas e a assistência a quem contrair a doença. Na atual epidemia, chama atenção a velocidade de propagação do vírus, expondo contingentes populacionais enormes à doença e sobrecarregando o sistema de atenção à saúde. Não é hora de dividir o país em torno de polarizações inúteis.

A saúde pública avançou muito no Brasil nas últimas três décadas. O SUS, com todas as suas mazelas e dificuldades, é um exemplo de política pública que avançou e produziu resultados. Mas, o SUS tem capacidade limitada de encarar esta sobrecarga. Como imaginar, com a dificuldade de acesso que já temos, a necessidade potencial de criarmos mais 10, 20, 30 mil leitos de UTI, para garantir a assistência aos que poderão contrair a COVID-19? Apenas 47 milhões de brasileiros têm cobertura de planos de saúde.

Silenciosamente, fechamos os olhos para a perda de milhares de vidas brasileiras a cada ano, o que poderia ser evitado com uma priorização efetiva do SUS nos orçamentos públicos, com reformas na saúde suplementar e com a qualificação do sistema, principalmente na atenção primária. Dados preliminares do IBGE para 2018 demonstram que foram 1.315.527 mortes. Quais são as causas? As principais são as doenças crônicas como as do aparelho circulatório (356.178), as neoplasias (227.150), as respiratórias (155.921). Logo a seguir vêm as causas externas, vidas perdidas em função da violência criminal ou no trânsito (150.165) e as doenças derivadas da diabete (80.292). As doenças infecciosas e parasitárias, como as ocasionadas pela atual pandemia, aparecem em sexto lugar (54.814). Não estamos falando de números, mas de vidas.

Adriano Pires* - Tempos bicudos e tristes

- O Estado de S.Paulo

Custo global da crise pode chegar a mais de US$ 3 trilhões. Ou seja, estamos perdendo o ano de 2020

No Brasil e no mundo parece estarmos vivendo o cenário do apocalipse de um filme de ficção de Hollywood ou, então, uma terceira guerra mundial. Países fechando as fronteiras, as Bolsas quebrando, o barril do petróleo abaixo dos US$ 30, falta de mercadoria nas prateleiras dos supermercados, a saúde colapsando e policiais nas ruas impedindo aglomerações. As projeções de crescimento econômico mundial são da ordem de 1,5% e o preço do barril em torno de US$ 35, na média, para 2020 e 2021. É bom lembrar que no início de 2020 o Brent no mercado futuro era precificado a US$ 66. O custo global da crise pode chegar a mais de US$ 3 trilhões. Ou seja, estamos perdendo o ano de 2020. No caso da América Latina, a combinação de queda dos preços do petróleo, colapso da moeda e coronavírus vai manter o crescimento abaixo dos 2% em 2020.

O fato é que as consequências ainda são muito incertas. Até o momento, o que se pode ver é uma total desorganização dos mercados financeiros e produtivos, alcançando custos tão gigantes e sem precedentes que é impossível prever qualquer resultado. O problema não é mais preço nem o valor das empresas. É falta total de liquidez. Ninguém compra – ao contrário, vende. Todos passaram a querer estocar desde alimentos até dinheiro.

Adriana Fernandes - Oportunistas da crise

- O Estado de S. Paulo

Respostas têm sido lentas por causa das picuinhas tão ao gosto dos nossos governantes

Primeiro, a negação dos riscos da epidemia e briga com o Congresso. Agora, o embate político entre o presidente Jair Bolsonaro e governadores – muitos deles seus adversários políticos declarados nas próximas eleições – retardam uma ação coordenada de Brasília com os Estados para garantir a produção de alimentos, medicamentos e, acima de tudo, logística para que itens básicos cheguem aos brasileiros em isolamento domiciliar devido ao alastramento da covid-19.

A logística para garantir o transporte dos produtos depende do bom diálogo entre todos. Basta de palavras de efeito como as de que não faltará “arroz, feijão e carnes”.

As pessoas querem se sentir seguras e ver as medidas efetivas. O pico da epidemia ainda não chegou e os próximos meses serão muitos duros, como relatou o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.
As respostas têm sido lentas também por causa das picuinhas políticas tão ao gosto dos nossos governantes atuais. O que se vê é uma corrida insana para quem fica melhor na foto.

Monica de Bolle - Como evitar a depressão econômica?

- O Estado de S. Paulo (18/3/2020)

Embora o governo brasileiro esteja muito longe de reconhecer a gravidade do momento, há os que começam a pensar no que fazer

Acompanho as análises nos jornais brasileiros sobre a ruptura inédita causada pela pandemia e me causa angústia a falta de urgência. Não me refiro apenas à irresponsabilidade atroz do presidente da República, que põe em risco a vida das pessoas, mas também ao fato de que poucos no Brasil se deram conta do que é essa crise. 

Trata-se de uma parada súbita da economia mundial como jamais vimos. E, ao que tudo indica, não será uma parada súbita de curta duração, como a observada após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, ou como aquela proveniente da crise financeira de 2008. Não se trata apenas da incerteza atrelada à epidemia, mas das medidas de saúde pública que estão sendo tomadas mundo afora. Para desacelerar a propagação do vírus, fronteiras, escolas, universidades, bares, restaurantes, escritórios estão sendo fechados. Alguns países impuseram toques de recolher. As companhias aéreas já sofrem o baque do isolamento e do distanciamento social. A economia mundial sente os primeiros efeitos da parada súbita.

A crise será de longa duração. Para desacelerar a progressão da epidemia e “achatar a curva”, como o esforço pela desaceleração ficou conhecido, as medidas inéditas estarão conosco por vários meses. Uma vez alcançado o pico da epidemia, serão mais vários meses de semiparalisia até que seja seguro começar a abandonar as medidas excepcionais de saúde pública. Será um recomeço gradual. A não ser que tenhamos rapidamente uma vacina – o que hoje não parece provável – estamos falando, possivelmente, de mais de um ano de parada quase total do mundo. Para 2020, o quadro de retração global é certo. 

Mandetta prevê colapso na Saúde em abril e Bolsonaro fala em ‘gripezinha’

O ministro Luiz Henrique Mandetta (Saúde) disse que até o fim de abril haverá um “colapso” no sistema de saúde do Brasil por causa da velocidade de propagação do novo coronavírus. O colapso, segundo o ministro, é a falta de capacidade para atendimento de todos os doentes. Ele citou a Itália como um sistema de primeiro mundo que suportou pouco. Ontem foi confirmada a 11.ª morte pela covid-19 e o governo declarou que o País vive estado de transmissão comunitária, quando não é mais possível rastrear a origem da infecção. Na mesma entrevista coletiva da qual participava o ministro, o presidente Jair Bolsonaro voltou a minimizar a pandemia. Questionado pelo Estado se divulgaria o resultado dos exames realizados para saber se havia contraído o novo coronavírus, voltou a se referir à doença como algo menor. “Depois da facada, não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar”, disse. Bolsonaro criticou medidas adotadas por governadores, em especial João Doria (PSDBSP) e Wilson Witzel (PSC-RJ). Em resposta, Doria afirmou que os chefes do Executivo estão tomando atitudes porque o presidente se omite. Na Itália – que ultrapassou a China como o país a registrar mais mortos pela doença –, 627 pessoas morreram em 24 horas. O total de óbitos era de 4.032.

● Governo admite que, no pico da doença, faltará capacidade de tratamento para todos os doentes ● Brasil registra 11 mortes e vive estado de transmissão comunitária do novo coronavírus ● Atrito entre presidente e governadores de SP e RJ se amplia

Bolsonaro confronta ação de Estados, que reagem

Caio Sartori, Emilly Behnke, Gregory Prudenciano, Julia Lindner, Marlla Sabino e Pedro Caramuru | O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA RIO SÃO PAULO - O presidente Jair Bolsonaro criticou ontem medidas adotadas por governadores para evitar a disseminação do coronavírus. Na visão dele, ações como o fechamento do comércio, adotado nas maiores cidades do País e defendido por especialistas, podem prejudicar a economia e serem usadas para enfraquecêlo politicamente. O paulista João Doria (SP) afirmou que os chefes do Executivo estão tomando atitudes porque o presidente se omite. Wilson Witzel (PSC), do Rio, classificou como “passo de tartaruga” a velocidade do Planalto em dar respostas à crise.

As críticas aos governadores foram feitas nas duas vezes em que Bolsonaro apareceu publicamente ontem. “Tem certos governadores que estão tomando medidas extremas, que não competem a eles, como fechar aeroportos, rodovias, shoppings e feiras”, disse o presidente, pela manhã, ao deixar o Palácio da Alvorada. Mais tarde, numa entrevista coletiva, ele voltou ao assunto. “Tem um governo de Estado que só faltou declarar independência do mesmo”, afirmou, sem detalhar sobre a que se referia.

“Tem uns falando em liberar pedágio, energia. Aí cria expectativa. O governo federal e estadual não têm condições de bancar isso. Essas falsas expectativas não podem vir no bojo de uma campanha política”, declarou o presidente. Dois dos chefes de Executivo estadual que reagiram às falas de Bolsonaro já demonstraram pretensão de concorrer às eleições em 2022.

“Estamos fazendo o que deveria ser feito pelo líder do País, o que o presidente Jair Bolsonaro, lamentavelmente, não faz. E, quando faz, faz errado”, criticou Doria, que virou adversário do presidente ainda no ano passado, embora tenha vencido a eleição de 2018 amparado no “BolsoDoria”.

Bolsonaro disse ter ficado “preocupado” ao saber que Witzel decidira fechar as divisas do Estado e suspender o transporte de passageiros por terra e ar. A medida afeta voos nacionais e internacionais. A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) chegou a divulgar nota dizendo que caberia à União determinar o fechamento. Também adversário político do presidente, Witzel criticou o uso político da crise. “O governo federal precisa entender que não é hora de fazer política”, escreveu o governador fluminense no Twitter. “É hora de trabalhar e ajudar os empresários que vão quebrar, as pessoas que vão perder o emprego e os que vão morrer de fome”.

Apesar dos ataques feitos ontem, o presidente afirmou que está a disposição dos Estados. “Nossos ministros estão todos solícitos, ninguém está orientado a fugir de ninguém. Não terá qualquer discriminação para qualquer governador.”

A crítica aos governadores é só mais um episódio da relação conflituosa entre o presidente da República e a Federação. Bolsonaro entrou em conflito com governadores ao culpá-los por não baixar o preço da gasolina e ao comparar a morte do miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega, baleado pela polícia da Bahia, à “queima de arquivo do caso Celso Daniel”.

“É a visão dele (Bolsonaro). Ele, como nós, tem o direito de pensar diferente. Eu pessoalmente estou tratando do assunto (coronavírus) sem politizar, até porque política não deve se misturar com problemas de saúde graves como esse”, disse o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB). Assim como aconteceu em São Paulo e no Rio, o governo do Distrito Federal determinou o fechamento do comércio por causa do novo coronavírus.

Montadoras param e põem mais de 100 mil em férias coletivas ou banco de horas

Para evitar o coronavírus, 14 marcas que administram 35 unidades produtivas de veículos e motores informaram suspensão total da produção por períodos que chegam até um mês

Cleide Silva | O Estado de S. Paulo

A indústria automobilística saiu à frente no setor industrial e quase todas as montadoras já anunciaram fechamento temporário de fábricas a partir de segunda-feira para tentar evitar a disseminação do novo coronavírus. O número de funcionários que ficarão em casa já passa de 100 mil.

Até ontem, 14 marcas que administram 35 unidades produtivas de veículos e motores em vários Estados informaram a suspensão total da produção por períodos que variam de três semanas a um mês, mas com possibilidade de prorrogação, se necessário.

As negociações das paradas foram feitas com os respectivos sindicatos de trabalhadores e envolvem, até agora, cerca de 104 mil funcionários, sendo uma parte pequena de filiais da Argentina. A maioria do pessoal do chão de fábrica entrará em férias coletivas ou terá banco de horas para futura compensação, enquanto o pessoal administrativo fará home office.

Só ontem confirmaram dispensa dos funcionários da área de produção de todas as fábricas locais as empresas Toyota, Scania, Honda, BMW, FCA Fiat Chrysler, Renault, PSA Peugeot Citroën e MAN/Volkswagen Caminhões e Ônibus.

Ford, General Motors, Mercedes-Benz, Volkswagen e Volvo já tinham anunciado a parada total da produção. Entre as maiores montadoras, apenas a Nissan ainda não decidiu pela parada total da fábrica no Rio de Janeiro, mas afirma que reduziu os riscos com menos trabalhadores na fábrica (os administrativos estão trabalhando em casa). “Mas estamos fazendo monitoramento constante para assegurar a saúde dos funcionários”, assinala a empresa.

O que a mídia pensa – Editorial

Falando sozinho – Editorial | Folha de S. Paulo

Discurso ambíguo e inépcia para lidar com pandemia levam Bolsonaro a isolamento

A rápida disseminação do novo coronavírus empurrou Jair Bolsonaro para o isolamento político ao expor seu despreparo para lidar com a emergência e sua falta de sintonia com as aflições da população.

Poucos dias após classificar a pandemia como uma fantasia, o presidente finalmente reconheceu a gravidade da situação ao reunir seu ministério para uma entrevista coletiva na quarta-feira (18). À mudança tardia, no entanto, somou-se a inépcia.

A exposição das medidas adotadas para combater a calamidade foi confusa, além de prejudicada pelo uso inadequado de máscaras de proteção pelo presidente e por seus auxiliares, que revestiu o evento de tom farsesco.

A impressão não melhorou substancialmente com a entrevista coletiva desta sexta (20), quando a moléstia foi chamada de “gripezinha”.

O próprio Bolsonaro optou pela ambiguidade em vários momentos, voltando a falar em histeria em vez de se concentrar sobre o que é preciso fazer para atenuar o impacto do inevitável aumento do número de pessoas infectadas nas próximas semanas.

Música | Péricles - Vai Vadiar

Poesia | Carlos Drummond de Andrade – O amor antigo

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o amor antigo, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Fernando Gabeira - Um vírus mudando o mundo

- O Estado de S.Paulo

A covid-19 precipitou um movimento que já era irreversível: a passagem para o virtual

Não é fácil escrever artigos em tempos de pandemia. Os fatos são dinâmicos e nos ultrapassam. Eles são graves e tornam irrelevantes os nossos critérios de importância.

Romances como A Peste, de Camus, apesar de escrito em 1947, conseguem tratar de temas universais como solidariedade e sentimentos mesquinhos envoltos na condição humana. Era interessante e até risível a velha tese da teoria do caos: tudo no universo está interligado e o bater de asas de uma borboleta altera o mundo. Se se substituir a borboleta por um morcego que acabou comido por um pingolim, por sua vez comido por um homem, foi um bater de asas que não só alterou o mundo, mas o fez de forma profunda e definitiva.

Quem diria que somos tão frágeis e toda a arrogância da civilização humana não é mais que ilusão passageira. Não há tanto espaço para lamentações. É preciso definir o que importa. Claro que o fato de o presidente da República ser um ignorante tem um peso. Isso será resolvido a seu tempo. No momento é preciso esquecê-lo em nome do essencial: que fazer?

As fronteiras estão se fechando na Europa e na América Latina. Vamos fechar as nossas? Todos os casos vieram da Europa e dos EUA. Algumas fronteiras que conheço são bastante porosas. Mesmo fechando-as, vai passar muita gente.

A primeira é a fronteira com a Venezuela, em Pacaraima. O sistema de saúde bolivariano entrou em colapso há muito tempo. Com isso tensiona a Colômbia e o Brasil. Roraima está no limite. Quando vejo centenas de pessoas atravessando a fronteira colombiana usando máscaras, imagino que muitos virão também para o Brasil.

Eliane Cantanhêde - Coisa de doido

- O Estado de S.Paulo

País parado e o vírus matando pessoas e empresas. É hora de o ‘03’ chutar a China?

Enquanto o ministro Luiz Henrique Mandetta contrariava a percepção geral e chamava o presidente de “grande timoneiro” da reação ao coronavírus, indiretamente comparando Jair Bolsonaro a Mao Tsé-Tung na revolução cultural chinesa, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) dava mais uma canelada infantil, mas doída, na China, principal parceiro comercial do Brasil. Ao falar da pandemia, o “03” acusou que “a culpa é da China”.

Assim, o deputado piorou ainda mais as coisas não só para o papai, que não anda nos seus melhores dias, mas principalmente para o Brasil, que está parado, com Bolsas derretendo, dólar disparando, as pessoas trancadas em casa, os shoppings, academias, bares e restaurantes fechados e as empresas em sistema de “home office”, num ambiente internacional de tragédia. O pai Jair demorou a compreender e se interessar por essa chatice chamada realidade. E o filhote Eduardo ainda está no mundo da lua.

“Quem assistiu Chernobyl vai entender o que ocorreu. Substitua a usina nuclear pelo coronavírus e a ditadura soviética pela chinesa”, sugeriu o ex-quase embaixador do Brasil em Washington e atual presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, papagaiando o que o ídolo Donald Trump diz nos Estados Unidos. E não é que bolsonaristas e terraplanistas compram fácil, fácil, essa versão do complô chinês para devastar o mundo? Coisa de doido.

Pouco diplomático, vá lá, mas com boa dose de razão, o embaixador chinês em Brasília reagiu e não dourou a pílula. Classificou as palavras do deputado de “extremamente irresponsáveis” e matou dois coelhos com uma cajadada só, ao dizer que o filho do presidente, “ao voltar de Miami, contraiu um vírus mental que está infectando a amizade entre nossos povos”.

Bernardo Mello Franco - Reinações de Bananinha

- O Globo

Mourão andava calado, mas voltou à cena para ironizar o filho do presidente. O vice ressurge no momento em que Bolsonaro enfrenta panelaços e pedidos de impeachment

No momento em que o Brasil começa a contar mortos pelo coronavírus, o deputado Eduardo Bolsonaro resolveu fabricar uma crise diplomática. Na noite de quarta, o Zero Três culpou a China pela pandemia. No mesmo tuíte, sugeriu a derrubada do regime comunista, que governa o país há 70 anos.

A provocação enfureceu a embaixada chinesa em Brasília. Não era para menos. A China é o maior parceiro comercial do Brasil. No ano passado, foi responsável por 65% do superavit na nossa balança comercial. Em resposta ao ataque, o embaixador Yang Wanming acusou Eduardo de imitar seus “queridos amigos”. Referia-se ao presidente americano Donald Trump, que politiza a doença e espalha preconceito contra os asiáticos.

Além de ofender os chineses, a molecagem do Zero Três irritou o empresariado e a cúpula do Congresso. Em vez de esfriar a crise, o ministro Ernesto Araújo reforçou a grosseria. Numa nota desastrada, ele cobrou retratação do agredido e passou a mão na cabeça do agressor. A atitude reforçou seu status de chanceler decorativo, que desonra o Itamaraty para adular o filho do chefe.

Merval Pereira - A gripe espanhola

- O Globo

‘Tornou-se calamidade de proporções desconhecidas nos nossos anais epidemiológicos’, conta Pedro Nava em ‘Chão de ferro’

Pedro Nava, médico e escritor morto em 1984, foi o maior memorialista brasileiro, autor de sete livros: Baú de Ossos, Balão Cativo, Chão de Ferro, Beira-Mar, Galo das Trevas, O Círio Perfeito, Cera das almas, póstumo. Em Chão de Ferro, no Capítulo II denominado “Rua Major Ávila 105”, ele relata a experiência com a pandemia da gripe espanhola no Rio de Janeiro de 1918. Seguem alguns trechos:

“Synochus catarrhalis era o nome de uma doença epidêmica, clinicamente individualizada desde tempos remotos e que periodicamente, cada vez com maior extensão, assola a humanidade. Essa extensão está relacionada à velocidade sempre crescente das comunicações. Seu contágio já andou a pé, a passo de cavalo, à velocidade de trem de ferro, de navio e usa, nos dias de hoje, aviões supersônicos – espalhando-se pelo mundo em dois, três, quatro dias.

Quando passou pela Itália (na epidemia de 1802 que tão duramente castigou Veneza e Milão), recebeu nome que fez fortuna: influenza. O termo pegou, passou para linguagem corriqueira e lembro de tê- lo ouvido empregado por minha avó materna, em Juiz de Fora, na minha infância – a Dedeta não pode ir às Raithe porque está de cama com uma influenza; ou – a Berta está calafetada dentro do quarto, de medo da influenza.

Maria Cristina Fernandes – O vírus e o desemprego contam seus mortos

- Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Se faltar verba no SUS, não será possível conter pandemia. Sem proteção aos desempregados se reproduzirá a equação que leva ao aumento da mortalidade. Assim como o contágio, a crise é exponencial

De todos os alarmes desde o início da crise do coronavírus, nenhum se propagou mais rapidamente do que o áudio de uma reunião no Instituto do Coração, em São Paulo, com especialistas do comitê de contingenciamento da doença no Estado que lidera os casos nacionais da covid-19, nome da doença provocada pelo vírus. Havia 200 pessoas no auditório e foi pelo relato a colegas, gravado em áudio por um dos médicos que convocou a reunião, que seu conteúdo se espalhou pelo país: a pandemia demandaria um número de leitos em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) que São Paulo não dispõe e nem tem como dispor.

A informação de que o Estado mais rico da federação está desaparelhado para enfrentar a mais agressiva pandemia mundial em um século ligou o modo pânico nas redes sociais. O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, cuja serenidade tinha sido, até então, a principal vacina contra a doença, achou por bem avisar que o gato subiu no telhado do SUS: “Se a pandemia não tem uma letalidade individual elevada, o sistema de saúde tem”.

Entre os muitos fantasmas espraiados pelas narrativas virtuais, o pior deles tem sido o da gripe espanhola, pandemia que matou uma multidão estimada entre 17 milhões e 50 milhões de pessoas em todo o mundo há um século. A população era equivalente a um quarto da atual. A evolução da medicina e da saúde pública desautoriza projeções como aquelas que alimentam o pânico das redes sociais, mas não impede que séries como “Pandemia”, da Netflix, cujo lançamento coincidiu com a emergência do coronavírus na China, abra pelo anunciado: “Ninguém duvida que uma pandemia semelhante vai voltar a ocorrer, a questão é saber quando”.

O avanço da ciência não deixou as trevas para trás, da comunidade de pais de classe média no Estado do Oregon (EUA), que lidera protestos contra campanhas de vacinação, a um acampamento de uma equipe de médicos no Congo, atacado por pessoas que acreditam ser a vacina a portadora da doença. Fosse produzida hoje, a série teria a oportunidade de incluir um chefe de Estado nos despautérios: o presidente Jair Bolsonaro, que saiu do Palácio do Alvorada no dia 15 de março, com resultados pendentes de novo teste do coronavírus, para apertar as mãos de apoiadores e se congraçar com manifestações Brasil afora.

José de Souza Martins* - O drama dos guarani mbya

- Valor Econômico | Eu & Fim de Semana

Embora suspensa até que Justiça e instituições se manifestem, a ação de reintegração de posse das terras ocupadas pelos indígenas, no bairro do Jaraguá, é ato socialmente injusto

Um capítulo da relação historicamente violenta dos brancos com as populações indígenas está ocorrendo na cidade de São Paulo contra os índios do Jaraguá. Não é, propriamente, uma questão racial.

No Brasil, as relações raciais têm uma característica curiosa. Aqui, raça é a raça da vítima. Nunca a raça de quem a vitima. Nesse sentido, os que os privam do que carecem não agem como raça nem em nome de uma raça. Caso em que o branco seria de uma raça sem objetivos nem motivações raciais, ainda que possa ser racista. Não há brancos no Brasil na medida em que não há no país uma causa branca, uma causa racial.

O opressor das raças subalternas não tem cor porque a opressão não tem cor. O opressor tem interesses e ambições. Sua cor é a cor da riqueza e do poder. É inútil questioná-lo em nome do preconceito racial. Ele sempre poderá dizer que gosta de índio, que gosta de preto. Mas nunca dirá que gosta mais de si mesmo, isto é, da causa que personifica em nome da coisa que o domina e em nome da qual vive e age, a riqueza.

A cor branca se tornou a cor da dominação e da exploração e das iniquidades que delas resultam. Muitos opressores de índios e de pretos são pardos e são pretos. Oprimem em nome da brancura a que servem. Nem todo os brancos são opressores de índios, brancos e pretos. A invocação de categorias raciais para interpretar tensões antigas que se atualizam todos os dias é expressão da falta de familiaridade com as ciências sociais. E do decorrente desconhecimento do que é o Brasil e do que é a sociedade brasileira.

Luiz Carlos Azedo - O país está parando

- Nas entrelinhas – Correio Braziliense

“O coronavírus provoca a reorganização do trabalho, em razão das medidas de distanciamento social; governadores e prefeitos se antecipam ao governo federal”

Quem observa o cotidiano da população já constata a redução do movimento de pessoas e de carros nas ruas; filas nas farmácias e supermercados. Não se trata de pânico, mas de prudência, as pessoas estão se dando conta de que o distanciamento social é realmente necessário e começam a se preparar para o confinamento doméstico. O medo do coronavírus é justificado, basta olhar o que está acontecendo no mundo e prestar atenção nas entrevistas e decisões dos governadores e prefeitos.

Ontem, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, voltou a falar como um sanitarista experiente, em entrevista na qual dispensou a máscara cirúrgica. Não escondia a tensão em que se encontra, diante do avanço da epidemia. No começo da noite, já havia 635 casos confirmados no país, em 21 estados e no Distrito Federal, com transmissão comunitária em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Sergipe. Sete mortes foram contabilizadas até ontem, cinco em São Paulo e duas no Rio, ou seja, 1,1% dos casos confirmados.

As notícias que chegam do mundo justificam a apreensão da população. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), eram 207.855 casos confirmados e mais de nove mil mortes por Covid-19 em 166 países e territórios. Em Hubei, província chinesa onde se originou o surto, ocorreram 34% das mortes, com 3.130 óbitos, antes de a epidemia ser controlada. Entretanto, a Itália ultrapassou a China, com 3.405 mortes pelo novo coronavírus, apesar da população algumas vezes menor. Tecnicamente, o Brasil se encontra numa situação em que a curva da doença ainda não se definiu, ou seja, um momento no qual há três cenários, o pior deles é o italiano. O melhor é o cenário da Coreia do Sul, que conseguiu controlar a letalidade da doença.

O ministro Mandetta trabalha com o modelo inglês. Como não somos uma ilha, talvez por isso, a principal medida efetiva de distanciamento social adotada pelo governo federal tenha sido o fechamento das fronteiras, anunciado ontem, no caso dos países vizinhos, alguns dos quais já tinham tomado essa decisão. Outra preocupação foi orientar os planos de saúde privados a não descarregar nos hospitais públicos os seus segurados. Um novo protocolo de atendimento foi anunciado: pessoas com febre, tosse ou dor de garganta e/ou dificuldade respiratória receberão máscaras e serão encaminhadas para isolamento respiratório.

Ricardo Noblat - Eduardo Bananinha, o idiota!

- Blog do Noblat | Veja

Uma vez que atraia os holofotes, com ele está tudo bem

A intenção não foi essa, mas ao sair em socorro do deputado Eduardo Bolsonaro que atacou o governo da China e chamou o coronavírus de “vírus chinês”, o general Hamilton Mourão, vice-presidente da República, tatuou na testa do Zero Três um apelido do qual ele jamais se livrará – Eduardo Bananinha.

Se o deputado, segundo Mourão, não se chamasse Eduardo Bolsonaro, mas sim Eduardo Bananinha, as relações do Brasil com a China estariam cem por cento. Mas por carregar o sobrenome do pai, ele desatou uma crise diplomática entre os dois países que está longe de terminar. Mourão pediu desculpas ao governo chinês.

Pequim ainda não respondeu se as desculpas de Mourão serão aceitas. A mais recente nota da embaixada da China no Brasil, distribuída ontem à noite, foi mais dura do que a anterior e renovou a cobrança para que Eduardo peça desculpas e apague os desaforos que escreveu na sua conta no Twitter.

O povo chinês é o único que tem sua história de milênios escrita à medida que era construída. Hoje, se diria: em tempo real. Seus governantes não só a conhecem bem como podem consultá-la a qualquer momento. Como reagiu a dinastia A ou B em tal situação? Quais foram mesmo os efeitos do “milênio perdido”?

Sem que tivesse ainda a bomba atômica, a China de Mao Tse-Tung foi capaz de encarar ao mesmo tempo a União Soviética e os Estados Unidos, as potenciais nucleares à época. É o país mais populoso e antigo do mundo. No final do século XIX, seu PIB era superior à soma do PIB da Europa com o PIB dos Estados Unidos.

Pois foi com essa gente que Bananinha resolveu brigar. Se ele tivesse lido o livro “Sobre a China”, escrito por Henry Kissinger, ex-secretário de Estado americano e o principal responsável pela aproximação entre os Estados Unidos e a China, é possível que não fizesse o que fez. Mas Bananinha nunca ouviu falar de Kissinger.

Dora Kramer - Café com leite

- Revista Veja

A definição mais simples talvez seja a mais correta: trata-se de um homem reacionário, desprovido do mínimo preparo para qualquer ofício público de destaque

O Brasil é cheio de situações inusitadas quando se trata de Presidência da República: são presidentes (dois) que morrem antes de tomar posse, é presidente que renuncia com plano frustrado de voltar nos braços do povo, são outros dois que sofrem impedimento em menos de 25 anos, é presidente que se suicida, é presidente derrubado por golpe militar, enfim, já tivemos de quase tudo, mas nunca tivemos o que temos agora: um presidente no cargo, mas fora do exercício precípuo da Presidência.

Tantas Jair Bolsonaro fez no primeiro ano de mandato que os Poderes da República cansaram e, na hora da crise dramática de saúde pública com repercussões seriíssimas na economia e na política, o deixam de lado e vão ao trabalho. Ainda bem.

Enquanto no mundo os chefes de Estado são os porta-vozes da dimensão da gravidade, aqui o mandatário minimiza, mantém o travo de desafio político e faz cenas canhestras. As movimentações, tomadas de providências e reuniões de autoridades federais para tratar do andamento da pandemia da Covid-19, ocorrem sem a presença do presidente, que em palco paralelo contraria a realidade (planetária, diga-se) numa demonstração de completo descaso em relação ao conjunto dos governados.

Em contrapartida, Bolsonaro contribui para a deterioração de sua imagem/credibilidade/popularidade até junto aos simpatizantes e por isso tem recolhido malefícios. No seu afã diuturno de testar limites, desta vez ultrapassou uma fronteira perigosa, transitando do terreno das relevâncias fáticas para o ambiente das irrelevâncias práticas do qual se tornou cidadão honorário nesta crise. A figura dele remete à qualificação de “café com leite”, para alguém que não entende as regras do jogo e passa a ser visto pelos demais como a pessoa que joga sem valer.

Bruno Boghossian – Além do Golden shower

- Folha de S. Paulo

Empresários que apoiavam protestos pró-governo agora dão sinais de mau humor

Pouco depois do primeiro panelaço contra Dilma Rousseff, em março de 2015, o Datafolha perguntou a opinião da população sobre a presidente. A petista sofreu um tombo considerável. De cada três brasileiros que, no mês anterior, consideravam o governo ótimo, bom ou regular, um mudou de ideia.

Dilma já havia perdido apoio na classe média e entre os mais ricos na virada para o segundo mandato. A pesquisa mostrou que esse derretimento chegou aos mais pobres depois do tarifaço que elevou as contas de luz e o preço dos combustíveis.

Com o fracasso gerencial da crise do coronavírus, Jair Bolsonaro também começou a ouvir panelas, mas o grande risco para sua popularidade está incubado. Os efeitos mais graves da paralisação da economia serão sentidos ao longo nas próximas semanas. Por enquanto, é possível enxergar sinais do mau humor.

Hélio Schwartsman - Epidemia ou fiasco do século?

- Folha de S. Paulo

Em guerras, quase sempre vence quem tem as melhores informações.

John Ioannidis é um epidemiologista de primeira, acostumado a nadar contra a corrente. O “paper” em que mostrou que a maioria das conclusões de artigos científicos está errada se tornou um clássico instantâneo.

Ioannidis acaba de publicar outro texto polêmico, agora sobre a Covid-19. Ele diz que podemos tanto estar diante da maior pandemia como do maior fiasco científico do século. Não temos informação suficiente para julgar.

Sabemos que o número de pessoas que foram infectadas está subestimado, mas não temos ideia da escala. Pode ser por um fator 3 ou 300 —e isso faz toda a diferença, não apenas para o cálculo de taxas realistas de letalidade e de complicações.

Ruy Castro* - Dilema na grande gripe

- Folha de S. Paulo

Afinal, Rodrigues Alves morreu da espanhola ou na espanhola?

O acaso gerou um dilema na Folha de quarta última (18). Neste espaço, escrevi sobre a gripe espanhola, que, entre setembro e novembro de 1918, matou cerca de 50 milhões de pessoas no mundo. E aproveitei para esclarecer que o presidente Rodrigues Alves (1848-1919) não foi uma de suas vítimas. No mesmo caderno, o leitor se deliciou com a coluna de Elio Gaspari, em que ele simula uma carta de Rodrigues Alves a Jair Bolsonaro e, em certo momento, faz Alves dizer: "Eu deveria ter voltado à Presidência em 1918, mas peguei a gripe espanhola e morri". E agora?

Leitores escreveram perguntando quem tinha razão. Alguns tomaram partido por um ou outro colunista e uma ou outra versão. Afinal, segundo as enciclopédias e wikipédias, Rodrigues Alves morreu da gripe. Mas ouso discrepar.

Reinaldo Azevedo – Dois vírus contamina as Forças Armadas

- Folha de S. Paulo

Voltem aos quartéis, soldados, e deixem o governo para os civis

Coitadas das Forças Armadas do Brasil! Tornaram-se barrigas —ou fardas!— de aluguel de formulações ideológicas alucinadas que não se ensinam nas escolas militares e de uma tal "guerra cultural" cuja matriz é a extrema direita americana, com a qual se alinha o ideólogo da zorra toda: Olavo de Carvalho.

O ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, garantiu que as Forças Armadas não faltarão ao Brasil. Que bom! Convém que se certifique de que não servirão ao Bolsolavistão, o país mental que hoje tenta colonizar o Estado brasileiro. Está dando errado. Já deu errado. Mas não será sem custo.

Enganam-se os que acham que a entrevista coletiva da Igreja dos Santos Mascarados dos Últimos Dias marcou a conversão de Jair Bolsonaro à democracia. Na quarta (18) mesmo, enquanto o pai fazia a coreografia do estadista, o deputado Eduardo Bolsonaro, um dos filhos, desferia um ataque estúpido à China, maior parceira comercial do Brasil.

Na raiz do negacionismo do presidente e da burrice saliente de Eduardo está uma visão de mundo. Bolsonaro não caiu nos braços da galera por mero acidente ou rompante. O ato foi precedido de cálculo político, de reflexão, de aconselhamento.

Um general da reserva e um almirante ainda da ativa, ambos ministros, estão contaminados. Augusto Heleno (chefe do GSI) e Bento Albuquerque (Minas e Energia) são boas metonímias e boas metáforas do que está em curso.

Monica de Bolle* - Imagine

- Revista Época

Assim como a imaginação nos serve para construir cenários e pensar sobre a crise, ela também pode nos orientar para o que virá depois. E haverá um depois

Imagine there's no heaven/It's easy if you try/
No hell below us/Above us only sky/
Imagine all the people living for today
JOHN LENNON

Serão meses muito difíceis. Poderemos perder pessoas queridas — próximas ou não. Ficaremos em isolamento, nossas vidas de pernas para o ar. Talvez tenhamos a doença, talvez não. Como muitos, sou de uma geração para a qual as grandes guerras são de interesse histórico, mas não estão no plano da vivência, da travessia. Sou de uma geração para a qual a gripe espanhola, que matou dezenas de milhões de pessoas, pertence aos livros e aos artigos científicos. Não pretendo minimizar a gripe espanhola e o sofrimento que ela causou. Mas ela foi uma gripe. O Covid-19, como tenho dito, não é.

Será duro, insisto. E todo mundo precisa de um alívio, de uma exalada forte, de um pouco de alento nesses tempos de incerteza brutal e de muita dor.

“É nosso dever darmo-nos algum alívio, construído pelo exercício da imaginação”

Assim como a imaginação nos serve para construir cenários e pensar sobre a crise, como ela haverá de se manifestar e que medidas o governo deve tomar — escrevi sobre o assunto recentemente neste espaço — a imaginação também pode nos orientar para o que virá depois. E haverá um depois, isso é certo. Países não vão desaparecer, o mundo não vai desaparecer. A China não desapareceu. A Itália — quanta dor pela Itália — tampouco desaparecerá. Então, o que pode vir depois? Pode ser que o mundo se desarranje por completo, pode ser que tudo permaneça desarticulado por muito tempo. Mas prefiro imaginar saídas pela capacidade de superação das pessoas. E prefiro imaginá-las a partir de alguns sinais dados pelas respostas de política econômica mundo afora.

Vinicius Torres Freire - Economia de guerra contra o corona

- Folha de S. Paulo

É hora de pensar em produção extra e preços de recursos para os hospitais da epidemia

Há notícias de que o preço de máscaras hospitalares disparou. É muito provável que seja necessário inventar UTIs ou equivalentes, com ventiladores pulmonares, ao menos, e outros equipamentos auxiliares.

Em momentos de calamidade oficial e similares, a lei prevê intervenções estatais na atividade econômica, as quais podem incluir tabelamentos ou requisições. Tabelamentos tendem a não funcionar, exceto em situações de guerra de fato. De resto, não adianta fazer requisições se não há produtos, assim como não adianta tabelar o preço do que não existe.

É bem provável que esse seja um dos muitíssimos problemas da administração da economia e da epidemia. Trata-se de administrar uma economia como a de guerra, de mobilização de recursos e no gasto público (assunto que fica para logo mais).

Não, não se trata de “militarizar” o assunto. Trata-se de tomar medidas excepcionais quando a paralisação de fábricas, serviços e comércios e o número de baixas se assemelha aos efeitos da destruição causada por guerras.

São necessários o controle e o estímulo da produção de bens essenciais, a começar por aqueles de uso médico-hospitalar, caso não exista material suficiente para o serviço de cuidar dos feridos, doentes, e dar instrumentos aos profissionais da saúde. Esperar que a escassez também se espalhe de modo epidêmico é jogar com a morte.

Adair Turner* - Dinheiro para quem precisa

- Valor Econômico

A melhora nas contas de algumas famílias não impedirá quebras em grande escala e demissões nos setores mais afetados. Restrições físicas ao consumo são a nova, e crucial, característica desta crise. Há necessidade de ações direcionadas, além de estímulos à economia

Nossa prioridade absoluta durante a pandemia do coronavírus precisa ser salvar vidas. Também precisamos, contudo, reduzir o impacto econômico e preservar o emprego e a renda da melhor forma possível. É inevitável que tenhamos um grande impacto na economia, mas podemos limitar os danos com políticas econômicas sólidas e bem direcionadas.

Da mesma forma que na crise financeira mundial de 2008, precisamos compreender o equilíbrio entre as três categorias de problemas enfrentados: liquidez, solvência e demanda deficiente.

Os problemas de liquidez tanto no sistema financeiro quanto na economia real podem ser compensados por ações firmes dos bancos centrais, sendo que vários pacotes de medidas econômicas apropriadas que já foram anunciados. Entre elas estão a redução das taxas de juros a zero; emprestar dinheiro do banco central aos bancos comerciais para que possam emprestá-lo às empresas; e liberar os colchões de capital anticíclico dos bancos para que possam conceder mais empréstimos. Combinadas, essas ações podem garantir que empresas com fundamentos saudáveis não quebrem por falta de crédito.

Mas elas serão insuficientes para evitar importantes problemas de insolvência em setores específicos. Se bares, restaurantes, hotéis e empresas aéreas ficarem sem clientes por dois meses, não haverá volume de crédito barato na Terra capaz de evitar eventuais quebras.

Claudia Safatle* - A recessão é inevitável

- Valor Econômico

Preocupação é salvar vidas e preservar o maior número possível de empresas

A grande preocupação do governo, nesse momento em que a disseminação da covid-19 assume proporções dramáticas, é preservar vidas e salvar o maior número de empresas possível para que haja uma estrutura na economia capaz de reagir quando o coronavírus for se enfraquecendo. Recessão se mostra inevitável, sobretudo a partir do segundo trimestre, mas também ainda neste primeiro trimestre o Produto Interno Bruto já poderá vir negativo.

O tamanho do tombo na economia vai depender da duração, do tempo em que o coronavírus estiver se multiplicando. Segundo os gráficos abaixo, na China a situação se estabilizou em um tempo relativamente rápido. A curva da pandemia é côncava.

Para a atividade econômica, a situação é terrível. “É um fosso sem piso”, diz Silvia Matos, economista coordenadora do Boletim Macro do Ibre/FGV, cuja missão, agora, é recalcular todos os indicadores macroeconômicos para este ano. Ela está trabalhando em casa, assim como toda a sua equipe. “É uma situação de guerra mesmo! Não tem como pensar em economia funcionando. A economia real não é no home office!”

Nesse ambiente, o que vai acontecer com a política fiscal, com a inflação ou com o endividamento do setor público, parece questões fúteis. Ao Estado cabe cuidar das pessoas, dar-lhes alimentação e acesso à saúde.

Humberto Saccomandi* - E se a coronacrise durar mais do que pensamos?

- Valor Econômico

Nenhuma evidência aponta para um fim rápido da pandemia

O Brasil está há uma semana em modo de crise por causa da epidemia de coronavírus. A Europa, há um mês. A China, há dois meses. A dimensão dessa crise dependerá diretamente da duração da epidemia, o que é impossível de prever neste momento. Empresas, escolas e governos estão anunciando medidas válidas por algumas semanas ou meses. Isso parece excessivamente otimista. Nenhuma evidência aponta para um final tão rápido. O problema, porém, é que é difícil fazer previsões (e definir ações) para uma crise mais longa, devido ao ineditismo de tudo o que está acontecendo.

Uma epidemia viral muito contagiosa, como a atual, costuma terminar de duas maneiras: ou boa parte da população é infectada e ganha imunidade, o que reduz a circulação do vírus; ou uma vacina propicia essa imunização.

Há muita especulação a respeito, mas nenhuma indicação concreta de que uma vacina estará disponível no curto prazo. O desenvolvimento da vacina é complexo. Até hoje não há uma vacina para a aids nem para a sars (causada por outro coronavírus). Os processos de verificação de segurança e de eficácia de uma nova vacina são demorados. A Organização Mundial da Saúde (OMS) não prevê uma vacina neste ano. Pode haver surpresas, mas é melhor não contar com isso.

Quanto à imunização pelo contágio, ainda estamos longe disso. Dados oficiais apontam que mais de 240 mil pessoas já foram infectadas pelo mundo. O número real é certamente muito maior. Vários países, como o Brasil e os EUA, não estão testando todos os possíveis casos suspeitos, devido ao custo e à falta de kits de teste.

Naercio Menezes Filho* - Como evitar uma tragédia social?

- Valor Econômico

Teremos que usar a capilaridade do sistema de proteção social construído nos últimos 30 anos para atenuar os efeitos da crise

Em breve o país entrará num período recessivo intenso que poderá durar muitos meses. Esse processo irá afetar a vida de milhões de pessoas, provocando desemprego em massa, aumentando a pobreza e prejudicando o desenvolvimento infantil. Os impactos da recessão poderão ser maiores ou menores, dependendo da duração da crise e das medidas que serão adotadas nos próximas dias. Quem serão os mais afetados pela crise? O que poderia ser feito para amenizar os efeitos da recessão?

Vários choques estão atingindo a economia ao mesmo tempo. A paralisação temporária da economia chinesa e de vários outros países já está atingindo em cheio a economia brasileira. Hoje em dia, 10% das nossas importações vem da China e grande parte dessas importações são insumos que são usados pelas empresas brasileiras. A paralisação da importação de insumos fará com que muitas empresas tenham que parar a sua produção por um tempo e afetará a produtividade daquelas que continuarem a produzir.

O segundo choque vem da redução dos nossos termos de troca. A queda no preço do petróleo, aliada à redução da demanda chinesa por matérias primas, está provocando um choque negativo nos termos de troca que aprofundará a recessão, pois há uma relação bastante forte entre termos de troca e o PIB no Brasil.

O terceiro choque (o mais importante) vem da paralisação da própria economia brasileira. As pessoas estão (acertadamente) ficando em casa para fugir do risco de contrair o vírus, deixando de ir ao cinema, teatro, shows, restaurantes, academias e de viajar. Isso terá um efeito brutal sobre as receitas das pequenas empresas e dos trabalhadores informais, que não recebem salários se não trabalharem ou venderem seus produtos. Qual será o tamanho do estrago?

Se a greve dos caminhoneiros durou 10 dias, paralisou apenas uma parte da economia e já ceifou uma parcela significativa do PIB, o que acontecerá com uma paralisação generalizada na economia que poderá durar mais de 3 meses, aliada a uma redução dos termos de troca e paralisação das importações da China? Estamos falando de uma redução de vários pontos percentuais no PIB, com elevação da taxa de desemprego, que poderá chegar a um quarto da PEA, e redução dos salários, que terão efeitos dramáticos sobre a pobreza e nutrição das famílias, especialmente dos que trabalham no setor informal.

O que fazer para atenuar esse cenário dramático? As medidas tomadas essa semana pelo governo, que visam a oxigenar financeiramente a economia, dirigir recursos adicionais para a saúde e para os trabalhadores informais vão na direção correta, mas são insuficientes. Para atenuar os efeitos da crise que se aproxima, teremos que usar a estrutura de proteção social desenvolvida nos últimos 30 anos para atender os mais pobres de forma emergencial.