Congressistas devem explicações sobre carona em jatinho
Por O Globo
Presidente da Câmara, senador e deputados
viajaram para o Caribe em aeronave de empresário
No dia 13 de abril de 2025, o jato com o prefixo PP-OIG, pertencente ao empresário Fernando Oliveira Lima, dono de empresas de apostas on-line conhecido como Fernandin OIG, decolou do São Paulo Catarina, aeroporto exclusivo de aviação executiva em São Roque (SP), a 68 quilômetros da capital paulista. O destino era a ilha caribenha de São Martinho. Fernandin postou imagens da viagem numa rede social, com passeios a bordo de embarcações de luxo pelas águas azuis do Caribe, piscina privativa, serviço de concierge e menu de frios, ostras e lagosta. Uma semana depois, no dia 20, por volta das 21 horas, o mesmo jatinho pousou de volta em São Roque.
Entre os passageiros estavam o proprietário
da aeronave, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB),
o senador Ciro Nogueira (PP-PI),
os deputados Dr. Luizinho (PP-RJ) e Isnaldo Bulhões (MDB-AL), ambos líderes de
seus partidos. Imagens da câmera de segurança do terminal mostram o piloto
passando ao lado do detector de metais com um carrinho carregando cinco
volumes, sem colocá-los na máquina de raios-X. Em relatório, a Polícia
Federal (PF) confirmou que o auditor fiscal presente no local
autorizou a liberação sem inspeção, como revelou o jornal Folha de S.Paulo. A
pedido do Ministério Público, o inquérito foi enviado ao Supremo Tribunal
Federal (STF), onde aguarda manifestação da Procuradoria-Geral da República
(PGR).
Como sabe todo cidadão brasileiro que viaja
para o exterior, a cota de isenção para produtos comprados lá fora é de US$ 1
mil. Cada viajante pode ingressar no Brasil com o equivalente a US$ 10 mil em
espécie, e todos estão sujeitos a inspeção de malas e pertences no aparelho de
raios-X. A liberação em aeroporto de pouca circulação de passageiros, sem fila
e com fiscal presente levanta suspeitas. Não existe lei que dê passe livre a
congressistas nas alfândegas. O que entrou no país sem passar pela devida
inspeção? Será que algumas das maiores autoridades do Congresso tiveram direito
a tratamento especial?
Procurado, Motta afirmou ter cumprido “todos
os protocolos e determinações estabelecidas na legislação aduaneira”. Em nota,
disse que aguardará a manifestação da PGR. Nogueira, que também já viajou para
a Europa para assistir a corrida de Fórmula 1 em avião de Fernandin, não se
manifestou.
Como também sabe todo cidadão brasileiro,
empresários não têm o costume de oferecer carona a qualquer um em seus jatos
executivos. Também não consta nenhum grau de parentesco entre os congressistas
transportados ao Caribe e Fernandin, cuja empresa está associada à exploração
de jogos não autorizados pela regulamentação das bets, como o popular “jogo do
tigrinho”. Seu indiciamento foi pedido no relatório final da CPI das Bets em
2024 por exploração ilegal de jogos de azar. O relatório final, porém, foi
rejeitado.
A repercussão do caso fez renascer no
Congresso o debate a respeito da imposição de regras sobre caronas em jatinhos.
Tal iniciativa é salutar e urgente. Os códigos de ética e conduta em vigor são
vergonhosamente vagos sobre o tema. O mínimo a exigir é transparência em
relação a caronas em voos. O ideal é seguir o exemplo dos Estados Unidos e
proibir o transporte das autoridades em aeronaves particulares de lobistas. Ou
alguém acredita que caronas em jatinhos saem de graça?
Alívio a multas de pedágio é mais uma medida
populista e eleitoreira
Por O Globo
Governo anunciou suspensão de 3,4 milhões de
autuações aplicadas em rodovias com sistema free flow
A menos de seis meses das eleições, o
presidente Luiz Inácio Lula da
Silva decidiu conceder mais uma benesse na tentativa de alavancar sua
popularidade. O governo anunciou a suspensão de 3,4 milhões de multas aplicadas
a motoristas que deixaram de pagar pedágio pelo sistema free flow (sem cabines
ou cancelas). A motivação eleitoral fica evidente no prazo da trégua: até 16 de
novembro, pouco depois do segundo turno. A medida se soma a outras iniciativas
populistas, como desoneração de combustíveis, ampliação do Minha Casa, Minha
Vida para a classe média e um novo programa para reduzir o endividamento das
famílias.
Não pagar pedágio é infração grave. Gera
multa de R$ 195,23 e 5 pontos na Carteira Nacional de Habilitação. De acordo
com as regras anunciadas pelo Ministério dos Transportes, se o débito for
regularizado dentro do prazo, a multa será cancelada. Caso contrário, voltará a
valer. Quem decidir saldar a dívida e já tiver pagado terá de pedir
ressarcimento. Dentro desse período, não haverá novas autuações.
O governo defende a medida alegando que quem
foi autuado não tinha informação do que era necessário fazer para pagar o
pedágio. Ora, qualquer motorista que trafega por uma estrada com pedágio
automático sabe que terá de pagar a tarifa. A grande maioria entende isso, uma
vez que a inadimplência está em torno de 10%, segundo a Associação Brasileira
de Concessionárias de Rodovias. Além disso, é comum que o sistema passe por um
período de testes antes de funcionar com rigor, justamente para que os
motoristas possam se adaptar.
É verdade que o free flow precisa ser
aperfeiçoado. Motoristas que trafegam por diferentes rodovias reclamam da
obrigação de acessar múltiplos sites ou aplicativos. Queixam-se também de que a
prometida cobrança por distância percorrida não está em vigor. Mas problemas
pontuais não tiram o mérito da cobrança automática. Além de ser mais prática
para o motorista, melhora o fluxo e a segurança. Mesmo rodovias com cabines
dispõem de boxes para a passagem automática, registrada por etiquetas
eletrônicas.
Pode-se discutir se a tarifa é justa ou se o
número de praças ou pórticos é adequado. Mas é inegável que as rodovias
administradas pela iniciativa privada por meio de pedágio são melhores que as
mantidas pelo poder público, como atestam pesquisas. Manter uma estrada bem
pavimentada, com boa sinalização e serviços como ambulância e socorro mecânico,
custa dinheiro. O cidadão paga pela sua segurança.
Suspender ou anular essas multas é um erro. Além de prejudicar os serviços prestados pela concessionária, o recado dado pela autoridade é que em algum momento uma caneta amiga abrirá uma exceção para prorrogar o vencimento ou extinguir a punição pela evasão de pedágio. Trata-se de péssima política num país onde normas costumam ser atropeladas. Não pagar o pedágio é uma prática que precisa ser combatida. A suspensão funciona como prêmio aos infratores e punição a quem respeita as regras.
Projeto da Dosimetria expõe hipocrisia
bolsonarista
Por Folha de S. Paulo
Derrubada do veto de Lula ao texto que
beneficia Bolsonaro anularia punições mais rigorosas a facções
Parlamentares linha-dura já buscam alguma
gambiarra jurídica para tentar derrubar o veto e manter os dispositivos da Lei
Antifacção
No Ocidente pós-iluminista, forjou-se um
consenso em torno da ideia de que as leis valem para todos.
Mesmo projetos concebidos para favorecer
escancaradamente um indivíduo, grupo ou setor costumam vir escritos com
fórmulas impessoais e universalistas, de modo que a norma em questão beneficie
não apenas aqueles que inspiraram sua aprovação mas todos os que se encontrem
na mesma situação. Não é uma prática sem consequências.
Às vezes, por caprichos da história e do
processo legislativo, esse hábito da universalização da lei expõe a hipocrisia
de certas tribos políticas. É o que poderá acontecer agora com a possível
derrubada, pelo Congresso
Nacional, do veto presidencial ao chamado Projeto de Lei da
Dosimetria.
Esse texto, como se sabe, foi desenhado para
aliviar as penas a que Jair
Bolsonaro (PL) e a cúpula golpista
foram condenados. Houve de fato sanções exageradas, a começar pelas aplicadas a
integrantes da massa de manobra que invadiu as sedes dos Poderes em 8 de
janeiro de 2023.
Luiz Inácio Lula da
Silva (PT),
fazendo uso de suas prerrogativas, decidiu
vetar integralmente o projeto, mesmo sabendo que era alta a
probabilidade de o Congresso derrubar o veto —calculou que deveria ao menos
simbolicamente afastar-se da medida e empurrá-la aos legisladores.
Ao que parece, há elevada probabilidade de o
roteiro ser levado a cabo na sessão do Congresso marcada para esta quinta-feira
(30). Tudo estaria correndo de acordo com os planos da oposição, se o
Parlamento não tivesse aprovado também, com vasto apoio da direita linha-dura,
leis como a Antifacção, que ampliam penas para outros crimes e o rigor de seu
cumprimento.
Caso os parlamentares derrubem mesmo o veto
integral ao texto da Dosimetria, voltam a vigorar dispositivos de cálculo de
penas e exigências para a progressão de regime mais leves do que os
preconizados na Lei Antifacção e em outros diplomas.
Nesse caso, por determinação constitucional,
valerá sempre a regra mais benéfica para o réu, mesmo retroativamente. Um
exemplo concreto é o tempo mínimo de cumprimento de pena para condenados por
liderar organização criminosa antes de progredir para um regime menos
restritivo: pela Lei Antifacção, são 75%; com a derrubada do veto, o prazo iria
a 50%.
Na prática, beneficiar Bolsonaro e seus
seguidores esvaziaria parte dos esforços de parlamentares da direita
bolsonarista para endurecer as leis penais —velha e ineficaz prática populista.
Não é por outra razão que muitos deles já buscam
alguma gambiarra jurídica para tentar derrubar o veto e manter
os dispositivos mais rigorosos aprovados nos últimos meses. É possível que a
discussão termine judicializada.
A hipocrisia grassa. A direita radical não
perde chance de defender mais rigor com bandidos, mas o discurso muda quando os
condenados são seus aliados.
Perdas nas florestas tropicais ainda são
elevadas
Por Folha de S. Paulo
Relatório mostra queda global da devastação
nos biomas em 2025, mas ano anterior foi de recorde no século
Brasil, que contribuiu para a melhora com
redução de 42%, precisa promover agronegócio sustentável e conter a degradação
florestal
Relatório da Global Forest Watch mostra que a
perda de cobertura arbórea —por corte, fogo, doenças, tempestades ou outros
distúrbios— das florestas tropicais caiu 36% entre 2024 e 2025, de 6,7
milhões de hectares (Mha) para 4,3 Mha.
A perda total global, que inclui florestas
temperadas, boreais, naturais e plantadas, no período foi de 29,7 milhões de
Mha para 25,5 Mha, uma queda de 14%.
Por óbvio, é bem-vinda toda redução de
destruição de biomas essenciais a biodiversidade, manutenção dos ciclos
hidrológicos e captura de carbono.
Deve-se notar, contudo, que o nível de
devastação das florestas tropicais ainda é alto, sobretudo quando se considera
que, em 2024, verificaram-se ondas de incêndios florestais em diversos países,
inclusive no Brasil, favorecidas por secas extremas, calor recorde, ação humana
e El Niño. Não à toa, foi o ano com maior perda de cobertura arbórea da série
histórica, iniciada em 2001.
O Brasil, com a maior área de floresta
tropical do mundo, seguido por República Democrática do Congo e Indonésia,
contribuiu para a queda, diz o relatório.
Em 2025, foi destruído 1,6 Mha, ante 2,8 Mha
no ano anterior, o que representa redução de 42%. Ademais, a perda de floresta
primária não relacionada a incêndios atingiu o menor nível da série histórica,
ficando 41% abaixo de 2024, com 570 mil hectares. A área devastada por fogo
caiu 43% no período, de 1,8 Mha para 1 Mha, entretanto ainda é a terceira maior
da série.
O relatório aponta que o fortalecimento de
políticas ambientais e da fiscalização pelo Ibama foram
fatores que contribuíram para a melhoria —notificações de infrações ambientais
teriam crescido 81%, e multas, 63%, em 2023-25 ante 2020-22.
São necessárias ações voltadas para o
desenvolvimento sustentável da agricultura e
da pecuária, setores responsáveis por 73% da perda de floresta primária no
Brasil entre 2002 e 2025, ainda segundo o Global Forest Watch.
As perdas por fogo também podem ser causadas
pelo agronegócio.
Mas a degradação
florestal, impulsionada por abertura de estradas, garimpo e
extração ilegal de madeira, aliada a estiagens cada vez mais comuns com a mudança
climática, deixa as florestas mais inflamáveis. É preciso integrar
esforços em várias frentes para conter o problema.
Globalmente, países devem perseverar para cumprir o acordo de 2023, assinado na COP28, cuja meta é interromper e reverter a perda florestal até 2030. Para isso, seria necessária redução de 20% ao ano a partir de 2025.
Lula sofre derrota histórica
Por O Estado de S. Paulo
Senado rejeita indicado do presidente ao STF,
o que não acontecia desde o século 19, mas não o fez porque se tratava de um
despreparado, e sim porque decidiu escancarar a crise com Lula
Fez muito bem o Senado ao recusar a indicação
de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF). Como já dissemos neste
espaço, o advogado-geral da União não possuía notável saber jurídico, um dos
mais importantes pré-requisitos constitucionais para vestir a toga no STF, e só
foi indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva porque devota lealdade
canina ao demiurgo petista. Mas é preocupante que o Senado tenha tomado tão
grave decisão não em razão do óbvio despreparo do postulante, e sim porque algo
não funcionou nas negociações entre Lula e os parlamentares, sobretudo o
presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
Messias pagou a conta de um governo com
imensas dificuldades na articulação política e cada vez mais acuado diante da
perspectiva de derrota de Lula na eleição. É preciso ter a real dimensão do
fato histórico ocorrido na noite de ontem: Lula é o primeiro presidente a ter
uma indicação ao STF rejeitada desde Floriano Peixoto, no final do século 19.
De lá para cá, todos haviam sido aprovados pelo Senado, inclusive os mais
escandalosamente despreparados, como Dias Toffoli, cujo “saber jurídico” era
seu notório trabalho como advogado do PT e que levou bomba nos dois concursos
que prestou para a magistratura. Perto dele, Messias é um Moreira Alves.
Por ora, a sociedade pode respirar aliviada
por não ter sido vítima de um erro cujas consequências nefastas para o País
seriam muitíssimo duradouras, considerando que o jovem Messias, se aprovado,
ficaria no Supremo até meados deste século. Mas o alívio há de ser, a um só
tempo, cauteloso e vigilante. O acerto do Senado não decorreu de um juízo
rigoroso sobre a capacidade técnica de Messias, mas sim de um cálculo político
rasteiro, que provavelmente ficará mais claro nos próximos dias.
A sabatina na Comissão de Constituição e
Justiça, como se viu, mais uma vez esteve longe de cumprir sua finalidade. Não
se discutiram com a seriedade devida as credenciais jurídicas de Messias,
tampouco se exigiu dele a demonstração inequívoca dos atributos requeridos pela
Lei Maior para ingresso na mais alta corte do País. O que se viu, ao contrário,
foi a repetição de um teatro medíocre, esvaziado de espírito público, cujo
desfecho acabou sendo definido, a bem da verdade, não no plenário, mas nos
conchavos de gabinete.
A rejeição de Messias, ao que tudo indica,
resultou da incapacidade do governo Lula de satisfazer as demandas do grupo
político que ora comanda o Senado. No nível em que foram oferecidos pelo
Palácio do Planalto, cargos em órgãos estratégicos da alta administração
pública, emendas bilionárias e espaços de influência política parecem não ter
bastado, o que prenuncia uma crise muito maior.
O episódio expõe a profunda deterioração das
relações entre o Executivo e o Legislativo. A recusa inédita de um indicado ao
STF não importa por si só, mas sobretudo como sintoma de uma turbulência
institucional muito mais ampla, cujas consequências tendem a se estender para
muito além das eleições de 2026. Ao impor uma derrota dessa magnitude ao
presidente da República, o Senado sinaliza uma disposição de confronto que pode
comprometer a governabilidade e tensionar ainda mais o já cambaleante
equilíbrio entre os Poderes – incluindo, claro, o Judiciário.
Não assistimos, portanto, a um surto de zelo
republicano por parte dos senhores senadores. Fosse o Senado mais cioso de seu
papel constitucional e menos covarde, o Supremo certamente não estaria coalhado
de ministros despreparados para o cargo e, consequentemente, não estaria imerso
na pior crise de credibilidade de sua história. O que mudou desta vez foi
apenas o desfecho da barganha que ainda rege as relações entre os Poderes, com
o evidente enfraquecimento de Lula – e, por tabela, do próprio Supremo, cujos
principais integrantes fizeram campanha por Messias. E tudo isso se dá debaixo
de pesadas nuvens que anunciam tempestade.
A desigualdade que começa antes do salário
Por O Estado de S. Paulo
Relatório do Ministério do Trabalho expõe a
diferença persistente de renda entre homens e mulheres e revela estrutura que
penaliza as brasileiras ao longo da carreira
A divulgação do 5.º Relatório de Transparência Salarial do
Ministério do Trabalho reafirma um diagnóstico conhecido, mas ainda mal
compreendido em sua profundidade: mulheres seguem recebendo menos que homens no
mercado de trabalho brasileiro e essa diferença resiste ao tempo. Hoje, elas
ganham, em média, 21,3% a menos nas empresas com mais de cem empregados,
proporção que não apenas se manteve desde 2023, como apresentou leve piora ao
longo da série histórica.
O dado ganha relevo adicional quando
confrontado com outro movimento simultâneo. No mesmo período, a presença
feminina no mercado formal cresceu 11%, passando de 7,2 milhões para 8 milhões
de trabalhadoras. Entre mulheres negras, o avanço foi ainda mais expressivo, de
29%. Ou seja: o acesso melhora, mas a desigualdade persiste.
Essa aparente contradição indica que o
problema não está apenas na porta de entrada, mas na trajetória. A literatura
econômica já consolidou esse diagnóstico. Os estudos da economista Claudia
Goldin, laureada com o Prêmio Nobel, mostram que a diferença salarial entre
homens e mulheres não é uniforme ao longo da carreira: ela se amplia de forma
significativa após a maternidade, quando as mulheres passam a assumir maior
carga de responsabilidades domésticas e tendem a migrar para empregos com menor
remuneração ou menor perspectiva de progressão.
A desigualdade, portanto, não decorre apenas
de discriminação direta, embora ela exista, mas de um conjunto de incentivos e
estruturas que penalizam trajetórias femininas em momentos específicos da vida.
É um fenômeno dinâmico, que se aprofunda com o tempo.
Esse padrão se repete inclusive em
instituições públicas que, em tese, deveriam liderar o enfrentamento do
problema. Levantamento da Plataforma Justa mostra que, nos Ministérios Públicos
(MPs) estaduais, mais da metade das promotoras de Justiça recebe, em média,
menos do que homens no mesmo cargo em 15 dos 21 MPs analisados pela pesquisa.
Em alguns casos, a diferença anual ultrapassa R$ 30 mil. No Ministério Público
Federal, uma em cada três mulheres também recebe menos do que colegas homens na
mesma função.
A distorção convive com outro dado igualmente
revelador: a sub-representação feminina nos espaços de poder. As mulheres são
menos de 20% no Congresso Nacional e estão ausentes de centenas de Câmaras
Municipais. Nos próprios Ministérios Públicos, embora representem parcela
relevante da base, são minoria nos postos de comando. Em mais de um século de
existência do MPF, apenas uma mulher ocupou o cargo de procuradora-geral.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva perdeu
três oportunidades históricas de reduzir essa falha e atender a parte do seu
eleitorado ao indicar três homens, durante seu terceiro mandato, para ocupar
cadeiras no Supremo Tribunal Federal, com Cristiano Zanin, Flávio Dino e, mais
recentemente, Jorge Messias.
Forma-se, assim, um círculo vicioso. As
mulheres são mais afetadas por estruturas que limitam sua progressão
profissional e, ao mesmo tempo, têm menor capacidade de influenciar as decisões
que poderiam alterá-las. A desigualdade salarial, nesse sentido, não é apenas
um problema de mercado, mas de poder.
O debate público frequentemente se concentra
em soluções pontuais, muitas vezes reduzidas à dicotomia entre intervenção
estatal e liberdade de mercado. Mas os dados sugerem que o desafio é mais
complexo. Trata-se de corrigir distorções que se formam ao longo do tempo, em
ambientes institucionais diversos, e que não desaparecem com o simples aumento
da participação feminina no mercado de trabalho.
A persistência da desigualdade, mesmo diante
de maior inclusão, indica que o País avançou no acesso, mas ainda não enfrentou
os mecanismos que produzem a diferença. Ignorá-los é perpetuar um sistema em
que o ponto de partida pode até se aproximar, mas a linha de chegada continua
desigual.
Escárnio com o eleitor
Por O Estado de S. Paulo
Possível candidatura de Eduardo Bolsonaro,
cassado por faltas, despreza deveres do mandato
A articulação do PL para lançar Eduardo
Bolsonaro ao Senado por São Paulo, ainda que como suplente, cristaliza uma
distorção crescente na política brasileira: a perda de relevância do desempenho
no exercício do mandato como critério para a vida pública. Se antes o cargo
exigia presença, hoje parece bastar o sobrenome.
Deputado federal mais votado do País em 2018,
com 1,84 milhão de votos, Eduardo perdeu seu mandato ao deixar de comparecer às
sessões e não cumprir as exigências regimentais do mandato, após se mudar para
o exterior.
Os dados mais recentes ajudam a dimensionar o
problema. Em 2025, Eduardo não apresentou nenhum projeto de lei de autoria
individual, participou de apenas 11 votações e fez um único discurso em
plenário. Ainda assim, utilizou R$ 67.995 em cota parlamentar e R$ 1,5 milhão
em verba de gabinete, segundo a Câmara dos Deputados.
Apesar disso, seu nome segue no centro das
negociações políticas. O PL discute indicá-lo como suplente na chapa ao Senado
encabeçada pelo presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, André do
Prado (PL), em composição vinculada ao projeto político do governador Tarcísio
de Freitas (Republicanos). A própria viabilidade jurídica da candidatura ainda
é analisada, diante do fato de Eduardo estar fora do País.
Não se trata apenas de um episódio
individual. O que está em jogo é mais amplo: a progressiva dissociação entre
mandato e responsabilidade. Durante muito tempo, ausência e baixo desempenho
inviabilizavam candidaturas. Essa lógica, ao que tudo indica, deixou de operar.
O próprio campo político que sustenta a
candidatura reconhece a contradição. Em fevereiro, ao comentar a hipótese de
lançar o irmão, o senador Flávio Bolsonaro (PL) fez uma pergunta singela: “Como
é que a gente vai explicar para o eleitor que ele quer ser candidato se foi
cassado por falta?”. A dúvida permanece válida. O que mudou foi a disposição de
ignorá-la.
A condição de suplente, nesse contexto, pode
funcionar como um atalho conveniente para contornar o constrangimento. Ao não
encabeçar a chapa, dilui-se o custo político imediato da candidatura. Mas o
expediente não altera a substância do problema e tampouco elimina seus efeitos.
No Senado, suplentes assumem com frequência, sobretudo quando os titulares são
chamados a ocupar cargos no Executivo. Em um eventual novo mandato de Tarcísio
de Freitas, não seria improvável que o titular da chapa fosse deslocado para
funções no governo, abrindo espaço justamente para quem hoje busca se acomodar
na suplência.
Mesmo antes disso, porém, a presença de
Eduardo na chapa já cumpre um papel eleitoral evidente. Seu nome, associado a
um eleitorado altamente mobilizado, tende a funcionar como fator de atração de
votos, independentemente de seu histórico recente no exercício do mandato.
Ao admitir como viável o retorno, ainda que indireto, de um político que não exerceu plenamente o mandato para o qual foi eleito, partidos contribuem para rebaixar os padrões mínimos de exigência. O problema, portanto, não se esgota na figura de Eduardo. Ele apenas explicita uma distorção mais ampla.
BC reduz juros e não dá pistas sobre o futuro
Por Valor Econômico
O Fed, por sua vez, manteve sua taxa de juro
básica estável em uma decisão que teve a dissidência de quatro membros
O Federal Reserve (o banco central americano)
manteve as taxas de juros entre 3,5% e 3,75%, ganhando tempo para decidir qual
de seus dois mandatos, inflação e mercado de trabalho, corre o maior risco com
o choque do petróleo. Em dissidência inédita, três membros do comitê que define
as taxas se manifestaram por retirar expressão que indicasse tendência a novas
reduções. Um outro votou pelo corte de 0,25 ponto, formando um grupo dissidente
como não se via desde 1992. Já o Banco Central do Brasil (BC) manteve ritmo
comedido de redução, de 0,25 ponto percentual, levando a Selic a 14,5% e
deixando em aberto seus próximos passos, diante das enormes incertezas do
cenário externo.
Na última reunião presidida por Jerome
Powell, que em maio encerra oito anos no comando do Fed, o cenário de inflação
se mostrou mais adverso. Já o mercado de trabalho, que levou Powell a iniciar
os cortes de juros antevendo aumento do desemprego e enfraquecimento da
economia, surpreendeu em março. Foram criados 178 mil postos de trabalho no mês
passado, o maior número desde janeiro de 2025. O resultado deixou claro que o
emprego ainda não é o flanco mais vulnerável da economia, mas a inflação. O
diagnóstico do Fed continua válido: a situação do mercado de trabalho é
equilibrada, com a baixa taxa de criação de vagas evoluindo em linha com a
redução da expansão da força de trabalho.
O balanço de riscos ainda não se moveu em
direção definitiva: o Fed vê ameaças baixistas para o emprego e crescimento da
economia e altistas para a inflação. Mas, além de Stephen Miran, um indicado
por Trump para o Fed, ter votado por uma redução de 0,25 ponto, três
presidentes regionais do banco se opuseram a uma frase do comunicado que dá
ideia de um novo afrouxamento da política monetária, apesar de concordarem pela
manutenção da taxa de juros. A frase lista as condições para que o banco
considere a “extensão e o timing de ajustes adicionais” da taxa, mas os dissidentes
objetaram que ajustes adicionais sugerem novos cortes, pois vêm após sequência
de reduções.
Powell, com a maioria dos 11 votantes do
comitê, considerou precipitada a mudança, que corresponderia a uma alteração na
orientação futura do Fed. A adoção de uma linguagem neutra pode indicar um
passo em direção a outra mudança, indicando alta de juros, o que foi
considerado impróprio pela maioria nesse exato momento. Diante das incertezas,
venceu a posição de esperar mais e ver como o choque de petróleo se reflete nos
indicadores. “Nos próximos 30 ou 50 dias, ou até na próxima reunião, podem
acontecer coisas que mudem a linguagem”, disse o presidente do Fed, indicando
que a troca de orientação futura não deve ser fruto de decisões apressadas,
ainda mais em ambiente tão turbulento.
O nível de preços nos EUA está sendo
pressionado por forte altas dos combustíveis, que tendem a se disseminar por
muitos setores. O impulso inflacionário, no entanto, já vinha sendo alimentado
por fatores que só agora começarão a sair de cena, como os efeitos do choque
tarifário de Trump em abril de 2025.
A alta das tarifas perdeu fôlego depois que a
Justiça americana considerou que os aumentos não poderiam ter sido feitos pela
legislação emergencial, e o presidente dos EUA determinou então tarifas
provisórias gerais de 15% em fevereiro, baseado em uma lei de comércio de 1974,
com validade por 150 dias. O revés legal e os acordos feitos ao longo do tempo
por Trump diminuíram a carga tarifária de 18% para perto de 8% hoje, ainda assim
a maior do país desde os anos 1960.
Além disso, os elevados investimentos
relacionados à Inteligência Artificial trouxeram aumento de preços que
apareceram nos índices gerais. A escassez de chips de memória empurrou os
custos para cima em um setor que foi responsável por 40% do aumento do comércio
global em 2025 e por investimentos que sustentam, com poucos outros, o
crescimento, estimado em 2,3% no ano corrente.
Aumento da inflação e choque do petróleo
amortecerão o consumo, que segue em boa forma, compensados em parte pelo corte
de impostos decretado por Trump desde o início do ano. Powell disse que a
economia “é bastante resistente” e que por serem grandes exportadores líquidos
de petróleo os efeitos do choque não seriam tão fortes quanto na Ásia ou na Europa.
O resultado final é muito difícil de prever, afirmou, até porque os eventos que
levaram ao choque ainda estão se desenrolando e os preços da energia ainda não
chegaram ao pico.
O BC do Brasil reduziu em mais 0,25 ponto percentual a taxa Selic, dando continuidade à sua política de “calibração” com “caráter restritivo”. As previsões pioraram, mesmo no longo prazo. A inflação no cenário de referência variou de 3,3% no terceiro trimestre de 2027, que era a baliza anterior, para 3,5%, no último trimestre daquele ano. No curto prazo, em decorrência do choque do petróleo, “a inflação cheia e as medidas subjacentes aceleraram, distanciando-se adicionalmente da meta”. Mas as previsões se tornaram bastante inconfiáveis diante da enorme incerteza geopolítica. Ao reduzir os juros nesse cenário, o BC reconhece que a Selic ainda é restritiva o suficiente para enfrentar os efeitos do choque externo, caso ele se revele temporário.
A guerra bate à nossa porta
Por Correio Braziliense
A morte de uma cidadã brasileira e do filho
no sul do Líbano, sob ataque de Israel, veio lembrar que a guerra no Oriente
Médio pode parecer remota e de interesse limitado para o Brasil — mas não é
O incidente que resultou na morte de uma
cidadã brasileira e do filho no sul do Líbano, sob ataque de Israel, veio
lembrar que a guerra no Oriente Médio pode parecer remota e de interesse
limitado para o Brasil — mas não é. Não apenas pela significativa população de
origem libanesa e palestina que abrigamos e pela presença de cidadãos com dupla
cidadania, mas também pelas conexões incontornáveis no mercado do petróleo e
derivados, o Brasil tem muito a ganhar com uma pronta solução. E outro tanto a
perder com o prolongamento do conflito iniciado pelo ataque dos Estados Unidos
e de Israel contra o Irã.
Antes de tudo, a morte da família
brasileira-libanesa faz parte da tragédia vivida desde o reinício das hostilidades
entre o Estado judeu e a milícia muçulmana xiita Hezbollah, aliada íntima do
Irã. Nosso luto nacional retrata um aspecto que não deve ser esquecido ou
menosprezado quando se olha para o conflito: como tem sido recorrente, desde a
Segunda Guerra Mundial, é a população civil quem mais sofre com as guerras. E,
não menos importante, mulheres e crianças compõem a maioria das vítimas.
No caso em questão, no Líbano, as
circunstâncias do episódio desafiam a diplomacia brasileira a encontrar o tom
exato de reação. A nota publicada sobre o episódio ilustra o dilema: condena os
ataques indiscriminados de Israel, a pretexto do combate ao Hezbollah, mas
coloca em plano semelhante as reações do movimento xiita libanês. No pano de
fundo, consuma-se a ocupação israelense de uma faixa de território além da
fronteira com o país vizinho, além da fronteira reconhecida internacionalmente.
De certo, o peso que a política externa vem
assumindo — inclusive no debate eleitoral, de onde esteve ausente por mais de
um século de vida republicana — atesta que o Brasil ocupa hoje um lugar
inescapável no cenário global. É e tem sido solicitado, com frequência
crescente, a mostrar a cara e a assumir responsabilidades, como potência
emergente e um dos líderes do bloco geopolítico agrupado sob o guarda-chuva de
Sul Global.
Com a eleição presidencial no horizonte
próximo, e a campanha contida apenas pela aproximação da Copa do Mundo — como é
da cultura do Brasil, a cada quatro anos —, a perspectiva de um conflito
prolongado no Oriente Médio multiplica as incógnitas para o Planalto e o
Itamaraty. De um lado, talvez o menos tensionado, a pressão crescente para
tomar posição em uma crise que projeta impactos pelo mundo afora, a começar
pelos custos da energia. De outro, as implicações políticas internas, já que o
posicionamento do governo incide de maneira incontornável em setores do
eleitorado.
Seja esta ou aquela a motivação central, o certo é que a inserção do país no jogo mundial impõe que o governo de turno faça escolhas — independentemente das conveniências da agenda doméstica. Seria mais cômodo, talvez, postergar decisões que trazem em si mesmas oportunidades de ganhos e riscos de perdas. Mas o tempo não para, e a realidade não oferece pausas: de quem ocupa as posições de mando, a vida exige que as exerça.
Um comitê para combater o racismo e o
preconceito
Por O Povo (CE)
Os dados nacionais comprovam a necessidade de
medidas destinadas a proteger as minorias e os praticantes das religiões
afro-brasileiras
O Ceará fez bem em criar um Comitê
Interinstitucional de Proteção e Segurança dos Povos e Comunidades Tradicionais
de Terreiro e de Matriz Africana, Quilombolas e Ciganas. A abrangência do
comitê se faz necessária, pois combater o preconceito em todas suas formas e em
qualquer ambiente deve ser uma obrigação em qualquer democracia digna desse
nome.
Em janeiro, o governo do Estado, por meio da
Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social, em conjunto com a Secretaria
da Igualdade Racial, já havia lançado a plataforma Encruzilhadas em Rede, para
reunir informações sobre os terreiros no Ceará.
Essas duas iniciativas, se funcionarem a
contento e conjuntamente, darão uma grande contribuição, tanto para a segurança
dessas comunidades, quanto para a redução do preconceito. A educação e o
conhecimento são armas poderosas contra a intolerância e o racismo.
A reportagem publicada na edição desta
quarta-feira lembra que, em 2025, centros umbandistas na Grande Fortaleza
encerraram suas atividades devido a ameaças sofridas. Como registrou à época
este jornal, o "TCP faz ameaças e quatro terreiros de umbanda fecham em
Maracanaú". TCP, no caso, é o Terceiro Comando da Capital, uma facção
criminosa, mostrando a que ponto de tensão e a gravidade dos problemas, que
atingem as religiões de matriz africana.
Em declaração ao O POVO, Luiz Carlos Soares,
coordenador do Instituto Mãe Balbina, disse que a iniciativa do Estado responde
a uma "demanda antiga por políticas públicas específicas". Soares
disse que o terreiro já sofreu vários atentados, uma vez atearam fogo no local,
com invasões de pessoas que quebraram imagens e até tentativas de agredir
integrantes da casa religiosa.
Os dados nacionais comprovam a necessidade de
medidas destinadas a proteger as minorias e os praticantes das religiões
afro-brasileiras, em todo o País.
Levantamento da Rede Nacional de Religiões
Afro-brasileiras e Saúde, em parceria com o terreiro Ilê Omolu Oxum e o
Ministério de Direitos Humanos e Cidadania (2025), mostra que 76% dos terreiros
no Brasil já sofreram ataques. Ainda segundo o estudo, 80% das pessoas ouvidas
relataram que integrantes de suas comunidades foram vítimas diretas dessas
violências.
Para o Ministérios dos Direitos humanos, o
racismo religioso aparece como "elemento estruturante dessas
ocorrências", com agressões verbais, ameaças, depredações, interrupções
forçadas de rituais e discriminação institucional. O estudo ainda revela que
93% dos terreiros com mais de 100 frequentadores já vivenciaram situações de
racismo religioso.
Como se pode observar, o comitê criado no Ceará para combater o racismo e o preconceito tem um duro e importante trabalho pela frente.

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