Camila Zarur / Valor Econômico
Cientista político vê Legislativo como
‘amorfo’ e excessivamente independente dos outros Poderes e do eleitor
O Brasil vive uma crise no sistema político e
a rejeição de Jorge Messias pelo Senado a uma cadeira no Supremo Tribunal
Federal (STF) é resultado de um Executivo minoritário num Congresso “amorfo”,
fisiológico e com independência turbinada pelo alto volume de recursos. É o que
avalia o cientista político Sérgio Abranches, criador do conceito de
presidencialismo de coalizão.
Na última semana, em apenas 24 horas, o governo Lula (PT) enfrentou duas grandes derrotas no Parlamento. Primeiro, na quarta-feira (29), o ministro-chefe da Advocacia-Geral da União teve a indicação ao Supremo rejeitada pelo Senado; algo que não ocorria desde 1894. Depois, na quinta (30), o Congresso derrubou o veto presidencial ao projeto de lei da dosimetria, que deve beneficiar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Os dois reveses de Lula tiveram como algoz o
presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), político que se
equilibra no meio da polarização nacional entre petistas e bolsonaristas, e que
ora se alia a um lado, ora a outro, de acordo com a conveniência de seus
interesses. Nesses dois episódios mais recentes, o senador uniu os aliados de
Bolsonaro às demais vertentes do Centrão, impondo um isolamento ao governo
federal.
Segundo Abranches, o próprio presidencialismo
de coalizão está em declínio, e entre os fatores que levaram a isso estão as
emendas parlamentares e os fundos eleitoral e partidário - os três cada vez
mais robustos, dando não só autonomia ao Congresso, mas também lhe entregando
uma parte relevante do orçamento público. As mudanças no sistema eleitoral, que
reduziu o número de partidos mas não gerou uma unidade programática dentro das
siglas, também pesaram para a crise no modelo político atual.
“Mudamos as regras para tentar ver se
diminuía a fragmentação do Congresso. Diminuiu a fragmentação eleitoral, mas
não conseguiu diminuir dentro do Legislativo, nas bancadas. Quer dizer, esse é
um Congresso que não dá maioria para ninguém. Essas maiorias agora se formam de
acordo com os interesses pessoais e políticos dos parlamentares, completamente
descoladas da sociedade e dos outros poderes”, afirma Abranches.
O cientista político continua: “Se fosse
outro governo, também seria a mesma coisa, porque o Congresso é que se tornou
disfuncional. É um Congresso amorfo, gelatinoso, líquido. Nada sólido se
sustenta nesse Congresso.”
Abranches compara o momento atual com uma era
não tão distante em que a polarização se dava entre o PT e o PSDB, que já ocupou
o Planalto com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2003). “Houve um
desalinhamento partidário. Antes, PT e PSDB disputavam a Presidência e os
outros partidos disputavam as coalizões no Congresso. Mas eram partidos fortes
que serviam de auxiliar, tanto do PT no governo quanto do PSDB”, explica.
“Esses partidos faziam a ponte com o plenário
mais amorfo, mais clientelista, mais fisiológico, para trazer votos para a
coalizão do governo. E o partido do presidente dava um pouco mais de
consistência político-programática para o governo. Isso acabou”, completa.
É um Congresso amorfo, gelatinoso, líquido.
Nada sólido se sustenta”
— Sérgio Abranches
Abranches, contudo, pondera que a autonomia
do Parlamento não está levando o Brasil para o parlamentarismo. Pelo contrário.
Para que isso ocorresse, a responsabilidade da gestão pública deveria ser
divida com o Executivo, o que não acontece hoje.
“Não é que estamos virando parlamentaristas.
Estamos virando um sistema de autogoverno do Legislativo, altamente disfuncional
para a governança, para a governabilidade e para a democracia. Ficou um sistema
de absoluta irresponsabilidade. Irresponsabilidade institucional, democrática,
política e com o eleitor”, afirma.
Para Abranches, um caminho para mudar esse
cenário seria pela eleição, numa renovação dos congressistas. Isso, porém, tem
como obstáculos as próprias emendas e os fundos, que facilitam uma taxa de
reeleição maior. “Os parlamentares não ficaram independentes só do Executivo,
ficaram também do eleitor. Porque agora eles compram o voto de quem eles
quiserem e irrigam os seus redutos”, diz.
“Vai ter que ter uma mudança radical na
composição do Congresso para que haja uma maioria disposta a abrir mão do que
já conquistou. Não é fácil isso. A gente tá num beco sem saída, porque depende
do Congresso tirar poderes dele mesmo”, afirma.
Abranches, no entanto, não isenta Lula nem a
articulação deficitária dos governistas no Legislativo. No caso de Messias, o
especialista vê a indicação do AGU como um erro desde o princípio: “Lula não
considerou o fato de que Messias estava envolvido na crise do governo Dilma,
que foi o início da polarização. Esse retrato não pode ser levado pelo governo
para qualquer deliberação, porque ele perde”, diz.
“Foi um erro político e de escolha. Foi
teimosia do Lula e pirraça do Alcolumbre. A gente não pode fazer política com
teimosia e pirraça, a gente tem que fazer política com a cabeça”, afirma.

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