segunda-feira, 4 de maio de 2026

O golpe do Senado, por Miguel de Almeida

O Globo

Os militares de 1964 tiveram ajuda dos americanos para dar um golpe de Estado, mas eram nacionalistas

Parece ser mais uma operação do Banco Master. O PL deverá lançar em São Paulo a candidatura do deputado André do Prado ao Senado. E, como suplente, se a lei permitir, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro. Eleito, Prado poderia ocupar uma secretaria de Estado ou um ministério, caso Flávio Bolsonaro vença as eleições. Com isso, Eduardo assumiria o mandato de senador.

Assim como as debêntures de Vorcaro até meses atrás tinham valor no mercado, a artimanha do PL e de Eduardo é permitida pela legislação eleitoral. Tem sido praticada para dar cobertura a personagens sem voto, muitos deles milionários ou aqueles com dívidas ainda não julgadas pela Justiça. O filho de Jair está nesse último bloco, atingido por inquéritos diversos. Depois de desejar chantagear o país pela absolvição de seu pai, vive nos Estados Unidos. Não volta ao Brasil por recear ser preso ao colocar o pé no aeroporto. É um bom candidato para representar São Paulo no Senado?

À beira das eleições, os bolsonaristas se mobilizam para o desembarque no Senado. No discurso, pretendem conseguir votos para retirar ministros do STF. É da política. Poderiam até querer mudar a camisa do Vasco. Na prática, no entanto, vendem o país. E, nessa ação, os filhos de Jair fazem a feira. Eduardo lutou para que o governo americano impusesse tarifas pesadas aos produtos brasileiros. Era chantagem. Queria em troca libertar o pai condenado por golpismo. Flávio, aquele que não fala nada no Brasil, foi aos Estados Unidos oferecer o subsolo do país — as terras-raras – e, com a outra mão, pedir interferência nas eleições de outubro.

Nunca, neste país, surgiu uma direita tão entreguista. Os militares de 1964 tiveram ajuda dos americanos para dar um golpe de Estado. Mas eram nacionalistas, e não estava na mesa a entrega do país. Os bolsonaristas nem sequer se envergonham e perpetram o escambo à luz do dia. Não houve arrependimento pela perda de empregos causada pelo tarifaço trumpista ou mudança de planos na entrega das terras-raras.

Mesmo não declarados, esses são os propósitos reais da direita radical. Espécie de subserviência consentida — ou o Brasil como mais um estado norte-americano. De novo, a História escapa de nossas mãos. Foi assim com a Revolução Industrial e a miopia das classes dirigentes do Império — aquelas que defendiam a manutenção da mão de obra escrava na economia. Não à toa, ainda somos um país quase extrativista, exportador de commodities. Dependemos das boas chuvas.

Com o mundo próximo de uma mudança radical nos meios de produção — a tal IA —, com consequências para toda a sociedade, os políticos não conseguem mirar um metro à frente. Vazado à direita por um golpismo renitente e, à esquerda, por um estatismo anacrônico (viva a Terrabras!), o país se vê enredado no feitiço do tempo que o leva a repetir padrões. De um lado ou de outro, um crescimento medíocre apoiado por políticas ultrapassadas.

Pergunta: não é de estranhar que os sucessos econômicos, nas últimas décadas, sejam o PCC de Marcola e o Master de Vorcaro? Poderiam ser lembrados ainda os rendimentos do Judiciário e a carga tributária.

Para só ficar em alguns nomes de São Paulo, o Senado já contou com Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso e Eduardo Suplicy. Covas foi quem, em 1988, na tribuna do Senado, defendeu um choque de capitalismo na economia brasileira. No país recém-democratizado, ainda sob a hiperinflação herdada dos militares, ele defendia o fim dos subsídios e privilégios; privatizações e abertura da economia; disciplina fiscal rigorosa; e reforma institucional. Presidente da República, Fernando Henrique conseguiu seguir algumas das propostas de Covas, como extirpar a inflação. Mas nem todas avançaram — a reforma da Previdência encontrou no PT de Lula forte oposição. Idem o conceito de privatização. Minuto de silêncio: devemos lembrar o rombo dos Correios e da anunciada Terrabras; integram nosso museu de grandes novidades.

A polarização cegou o país para o futuro. Estamos presos na mediocridade dos extremos. O país envelhece rapidamente e não se discute a capacitação dos jovens. Mas se fala de golden shower. Fala-se de todos os tipos de cotas, e não se briga por uma educação fundamental que ensine o básico da matemática. É evocado o nome de Deus, e não se vê como pecado a letalidade sobre jovens pobres e negros.

Os próximos senadores terão a missão de decidir o que o Brasil deseja ser. Porque, ao final de seus mandatos, o mundo será irremediavelmente outro.

 

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