domingo, 3 de maio de 2026

Glória me levou até Ana, por Ignácio de Loyola Brandão*

O Estado de S. Paulo.

Ana Castro: esta autora é para valer. Vai fundo, sabe o que é a vida, ironiza, arrasa

Fui à Flipoços na semana passada. Ela está hoje entre as feiras de livros que deram certo. Consolidou-se. Fiz uma mesa das mais descontraídas sobre crônica, ao lado de um expert no assunto, Humberto Werneck. O bom humor dominou, foi um divertido duelo de boutades (epa!), todo mundo descontraído. Histórias e mais histórias sobre como escrevemos uma crônica. Tive saudades do artista vidreiro Mario Seguso, vindo de Murano, sempre na primeira fila. Morreu aos 92 anos. A surpresa aconteceu quando percorri as barracas com vendas de livros. Na que tem autores locais disseram: “Leve a Ana Castro”. Apanhei o livro Contos de uma Mulher Qualquer. Curto, 38 páginas, fino, sóbrio. A mulher pode ser “qualquer”, as histórias não. Senti que estava diante de algo que chegou diferente. Forte. Daqueles primeiros livros que dizem: esta autora é para valer, vai fundo, sabe o que é a vida, ironiza, arrasa. Então, na primeira orelha do livro, dei com Glória Kalil me dizendo: “Não conheço nenhuma mulher, de nenhuma classe social, de nenhuma idade que não se reconheça em Ana Castro”. Estava dado o aval. Há anos, na verdade décadas, acompanho Glória. Trabalhamos juntos na Claudia, no esplendor da revista. Ali aprendemos a ser sintéticos. Fechávamos uma seção de páginas com notícias curtas, curtíssimas. O designer nos dizia, para cada assunto – Título: 9 letras (ou seja caracteres). Texto: 3 linhas com 23 letras cada uma. Ou Título: 21 letras. Texto: 9 linhas com 17 caracteres. Sofríamos, mas aprendemos a regra fundamental de Graciliano Ramos: sintetizar ao máximo. Dizer sem enfeitar. Normas que ambos aproveitamos em nossos livros. Glória foi uma influencer de nomeada em seu assunto, a moda.

O que o Desenrola 1 fez por Lula 3 e o que o Desenrola 2 pode fazer por Lula 4, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Primeiro plano de redução de dívida ajudou 15 milhões, mas não mudou situação geral

Avaliação do presidente não melhorou com as renegociações e baixa de inadimplência

O governo anuncia na segunda-feira (4) o Desenrola 2 ("Novo Desenrola Brasil"), programa de incentivo à renegociação e à redução de dívidas com apoio do Tesouro.

Seja lá o que se pense desse tipo de providência, a curto prazo o aperto financeiro de alguns vai diminuir, claro. Assim Lula 3 pretende ganhar décimos de porcentagem de aprovação e votos, de modo a evitar a derrota de Lula 4.

Essa introdução óbvia serve para relembrar que efeito teve o Desenrola 1 em medidas de inadimplência e percepção de dificuldades com dívidas: pouco. Além do mais, não tem dado muito resultado a solução do governo Lula para quase tudo, que é tentar afogar problemas com dinheiro na veia.

Xandão e Bolsonaro derrotaram Messias, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

No conflito entre bolsonaristas e o STF, o Banco Master é a terceira via que superou a polarização

Lula, que não tem a perder com as investigações, indicou ministro antipizza e foi derrotado

O veto a Jorge Messias foi resultado de uma articulação política entre Alexandre de MoraesFlávio Bolsonaro e Davi Alcolumbre. Os três e suas turmas temiam que Messias apoiasse André Mendonça nas investigações do Banco Master. Mendonça apoiava Messias.

Só parece confuso se você ainda não entendeu o PowerPoint das conexões políticas do Banco Master. O resumo está na coluna de 28 de março. É um monte de gente de direita, o pessoal do STF e do TCU enrolado com Vorcaro, e um grupo bem menor de esquerda.

Governo agoniza, mas não morre, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Lula dança na corda bamba, mas ainda tem tempo para despertar da ilusão de que seja o fortão de outrora

O problema do presidente talvez não seja perder a eleição, mas ganhar sem força para governar mais quatro anos

A derrubada de uma indicação do presidente da República ao Supremo Tribunal Federal é ato que reforça e anima a oposição. Mas daí a dizer que isso sela destino de infortúnio para Luiz Inácio da Silva (PT) na eleição, há uma distância de efeitos a serem medidos pelas circunstâncias.

A batida metáfora das nuvens na política poucas vezes foi tão verdadeira como na quadra atual. Lula tem histórico de subidas e descidas, numa oscilação da qual tem mostrado capacidade de se safar com êxito.

Um lapso canhestro de linguagem, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Na imagem de mundo, síntese mais ampla do que o juízo verbal, incorporam-se representações e experiências, sujeitas a juízos de valor

A forma escravista é estruturante de modelagens conscientes ou subconscientes, visíveis ou invisíveis

Embora com alguma lógica, foram açodados os ataques dirigidos à apresentadora televisiva que descreveu a diversidade da tripulação da missão Artemis 2 como "um homem, uma mulher e um negro". A frase é racista, claro, mas não aval automático desse mesmo julgamento a quem a enunciou. A ressalva pode soar como eufemismo acadêmico, mas o esclarecimento é oportuno quando se aborda o racismo no país sem a comodidade da pedra na mão. Açodamento é atitude apressada, irrefletida, que polariza sem dialogar.

Pi, uma autobiografia infinita, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro conta a fascinante história da constante ligada a círculos

Autores elucidam alguns dos mistérios associados a esse número

Confesso que comecei "Pi: uma autobiografia infinita", de Mahsa Allahbakhshi, Andrés Navas e Verena Rodríguez, com um pé atrás. É que a premissa do livro, Pi narrando em primeira pessoa a sua história, me pareceu um pouco pueril. Mas o leitor logo se habitua a essa estrutura e passa a deliciar-se com a torrente de informações matemáticas e históricas que se segue. Pi fascina humanos desde que eles juntaram seu gosto por formas circulares com a capacidade de contar.

Gigante come gigante, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

A Warner lançou Humphrey Bogart, Doris Daym, James Dean. Agora eles pertencem à Paramount

A um custo de US$ 111 bilhões, a Paramount ditará o que bilhões terão de pagar para assistir

Depois de meses de negociações, uma das marcas gigantes do show business aceitou ser engolida por outra —de histórico nem de longe comparável, mas mais hábil em controlar receitas e despesas. Ao se fundir com a Paramount, a Warner entregou sua dívida de US$ 30 bilhões, suas propriedades (CNN, TNT, HBO Max, Discovery Chanel) e tudo que a Warner Bros., fundada em 1920, representou para o cinema. A Paramount, um estúdio médio no apogeu de Hollywood se comparado à MGM e à própria Warner, já detinha forças consideráveis: a CBS, a MTV, a editora Simon & Schuster. Agora, a um custo total de US$ 111 bilhões, ditará o que bilhões de telespectadores terão de pagar para assistir.

Poesia | Soneto do amor total - Vinicius de Moraes

 

Música | Chico Buarque e João Bosco - Sinhá